Tag Archives: Zumbis

Trailer: Maggie

Maggie
[Maggie, Henry Hobson, 2015]

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10 curtas de zumbis para assistir online

Morto-vivo que é morto-vivo sempre dá um jeito de aparecer (ou reaparecer). Seja em filmes pro cinema, em séries de TV, seja nos quadrinhos, seja na internet. Há uma infinidade de curta-metragens realizados no universo dos zumbis – universo imortalizado, literalmente, pelo mestre George A. Romero. Alguns são trabalhos interessantíssimos, mas que pouca gente viu simplesmente porque não sabe que eles estão tão perto. Muitas produtoras independentes e diretores aproveitam a internet para divulgar seus trabalhos. Alguns de qualidade excepcional. Selecionei alguns deles aqui. Todos tem um diferencial ou uma bela sacada.

Destaque para o belíssimo australiano Cargo, para o hilário espanhol Fist of Jesus, que eu já tinha postado aqui, e para o brasileiro Morte e Morte de Johnny Zombie, do crítico de cinema Gabriel Carneiro. O recado é que a maioria está em inglês e achar legendas é meio difícil para curtas, mas os diálogos, na maioria do casos, não são tão longos assim. Vale a pena conferir essa pequena invasão.

2 Hours EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Michael Ballif, 2013]

Uma bela história de amor, transformação e rendição lindamente fotografada.

Bane of Brothers EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Evan Harter, 2013]

A história de dois irmãos no apocalipse zumbi. Intimista e original.

Cargo  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ben Howling, Yolanda Ramke, 2013]

Uma ideia original, executada com simplicidade e com um belíssimo desfecho.

Dead Rain! EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tom Pykett, 2010]

A trama não tem novidades, mas a boa montagem impõe um ritmo ágil ao filme.

Fist of Jesus EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[David Muñoz & Adrían Cardona, 2012]

Algumas passagens da Bíblia recicladas pro mundo zumbi neste delicioso curta.

Infected EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Taylre Jones, 2013]

Se leva a sério demais, mas tem uma boa direção e um final forte e seco.

Morte e Morte de Johnny Zombie EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Gabriel Carneiro, 2011]

Uma câmera impecável e uma bela sacada final que metaboliza a questão.

A New Infection EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Wes Palmer, 2013]

Rapidinho, clima caseiro, mas bem feito e com um final bem humorado.

Saving the Human Race EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[For Menneskeheten, Stian Hafstad, 2012]

Comédia e aventura contracenam neste filme norueguês bem-feito e curioso.

Zombie in a Penguin Suit EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Chris Russell, 2011]

O protagonista insólito valoriza a delicada realização com um final correto.

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Curta: Fist of Jesus

Algumas passagens da Bíblia, como a ressurreição de Lázaro, a multiplicação dos peixes e a morte de Judas são recicladas neste delicioso curta dirigido pelos espanhóis David Muñoz e Adrían Cardona. A dupla realinha os textos bíblicos numa corajosa e despudorada brincadeira em que Jesus e Judas se vêem às voltas com uma epidemia de zumbis. Fist of Jesus é um exemplo clássico de cinema gore, com sangue fake voando pra todos os lados, mas impressiona pela competência técnica (fotografia, montagem, música), pelas referências cinematográficas (de western spaghettis aos filmes de George Romero) e, principalmente, pelo texto irônico e inteligente, que se apropria dos símbolos e personagens religiosos para fazer uma obra pop, tão agnóstica quanto hilariante que não se intimida em pecar para lançar novas ideias sobre o surgimento da praga zumbi. O filme está disponível no YouTube desde 11 de fevereiro deste ano e faz parte de uma campanha para arrecadar fundos para um longa que se chamará Era Uma Vez em Jerusalém. Para ajudar com doações, vá ao site do curta ou acesse a página do filme no Facebook.

Fist of Jesus EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Fist of Jesus, David Muñoz & Adrían Cardona, 2012]

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Juan dos Mortos

Juan de los Muertos

Um país em ruínas. Um regime falido. Uma população refém de um sistema que só funcionou no plano das ideias. Essa é mais ou menos a visão que o argentino Alejandro Brugués tem de Cuba, país em que estudou, escolheu para morar e onde faz cinema. Em seu segundo filme como diretor, ele resolveu dar corpo a essa visão, mas escolheu a forma mais insólita para isso. A Havana do cineasta está no meio de uma epidemia de zumbis.

O tom é o da comédia, mas o diretor evita cair no trash. Juan dos Mortos é um filmes mais suculentos dos últimos tempos: sarcástico e, como manda o gênero, repleto de crítica política, com referências explícitas à história e à situação atual do país. No filme, a mídia chama os zumbis de “dissidentes” e atribui sua chegada aos americanos, em mais uma tentativa de atingir o regime.

Todas as escolhas do diretor têm um subtexto. Brugués elege como seus heróis um grupo de zé manés que ganha a vida aplicando pequenos golpes: Juan, um vagabundo convicto, seu amigo punheteiro, o filho maconheiro deste, um travesti e um brutamontes que tem medo de sangue formam o time. O diretor parece os apontar como os verdadeiros revolucionários cubanos. Eles, como o país, estão à margem de tudo, vivem de sobras e à sombra.

Mas não é só a inteligência que impressiona no filme, uma superprodução em que os cubanos tiram sarro deles mesmos – e também dos americanos, dos espanhóis e até dos russos. A qualidade visual do filme merece elogios. A fotografia sempre procura os ângulos mais espertos, há uma quantidade enorme de extras e de bons efeitos visuais, que funcionam sempre como suporte para a história. Entre as muitas boas cenas do filme, a melhor é a luta em forma em que Juan tenta se livrar de um zumbi ao qual está algemado, filmada em forma de dança.

Juan dos Mortos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Juan de los Muertos, Alejandro Brugués, 2011]

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Um Pouco Zombie

Um Pouco Zombie

Os zumbis existem no cinema desde anos de 1930, mas somente quando George A. Romero deu aos mortos-vivos um lugar além da vida, no fim da década de 60, é que a epidemia se espalhou pelo planeta e invadiu os gêneros tradicionais. Hoje, mais de 40 anos depois, a cultura zumbi segue firme e forte em sua missão de dominar o mundo, com representantes da Alemanha até o Japão, do Brasil até o Haiti, onde, teoricamente, tudo começou nos rituais de vodu.

Das terras geladas do Canadá veio Um Pouco Zombie exemplo de que o filme de zumbi sofreu mutações secundárias. Utilizando as regras da comédia popular, o filme investe num humor simples, quase ingênuo, que celebra os longas estrelados pelos mortos-vivos nos anos 80, que passavam ao largo da crítica sócio-política que Romero faz em sua hexalogia e, de quebra, criaram um mito, o do zumbi que sai por aí gritando “miolos”!

Mas se há 25 anos, tudo não passava de uma grande piada, nos dias de hoje costurar um filme refereciando aquele subestilo é uma brincadeira deliciosa, sobretudo para o espectador iniciado. O diretor Casey Walker desconstrói o gênero com a história do homem que é picado por uma mosca zumbi, mas só desenvolve parte das características de sua agressora e luta contra sua sina de eterno assassino.

A ironia é regra e Shawn Roberts, que interpreta o personagem principal, entendeu a proposta direitinho. Sua performance caricata – ele é quase um Zacarias dos mortos-vivos – é um dos grandes trunfos do filme. Em menos de 90 minutos, Roberts protagoniza cenas que vão entrar pra antologia lado B dos filmes de zumbi. A melhor delas talvez seja a sequência em que ele vai ao mercadinho em busca de cérebros de animais. Ou – quem sabe? – a cena em que declara amor ao coelho da namorada. Num mundo em que zumbis sérios cada vez mais estão à espreita, Um Pouco Zombie joga uma luz de sarcasmo no fim de um túnel cheio de mortos esfomeados.

Um Pouco Zombie EstrelinhaEstrelinha½
[A Little Bit Zombie, Casey Walker, 2012]

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Meu Namorado é um Zumbi

Meu Namorado é um Zumbi

Depois de estrear com um filme de doença cujo diferencial era ser bem-humorado – 50%, com Joseph Gordon-Levitt -, o diretor Jonathan Levine se volta para outro gênero, a comédia romântica, também tentando trazer alguns elementos novos. E como de histórias de amor impossível o cinema está cheio, ele aposta num tipo de relacionamento ainda pouco explorado: o romance entre uma humana e um morto-vivo. Meu Namorado é um Zumbi é a adaptação do romance Sangue Quente, de Isaac Marion, que transporta uma história de amor no melhor estilo Romeu & Julieta para os tempos de apocalipse dos devoradores de cérebros.

A proposta já garante a simpatia, mas o fato é que o filme peca pelo excesso de ingenuidade, sobretudo para um genêro que pariu recentemente longas cheios de sarcasmo e inteligência como Todo Mundo Quase Morto e Zumbilândia. Levine reproduz os lugares comuns das comédias românticas, sem saber contextualizá-los num filme de zumbi. Os dois gêneros parecem nunca se casar satisfatoriamente. O protagonista Nicholas Hoult, o Fera de X-Men: Primeira Classe, não ajuda com sua falta de expressão. O personagem pedia um Michael Cera ou um Jesse Eisenberg, atores mais maliciosos, para funcionar plenamente.

O filme começa a virar quando acrescenta um novo elemento à mitologia zumbi, na cena em que o morto-vivo vivido pelo ótimo Rob Corddry apresenta uma espécie de “mutação emocional”. Depois de dois terços de piadas recicladas, Meu Namorado é um Zumbi empolga de verdade, colocando os humanos como espectadores de uma guerra protagonizada por mortos-vivos, o que, de certa forma, reproduz numa versão água-com-açúcar, sem um pingo de profundidade, mas bem sincera, um dos temas centrais dos filmes de George A. Romero, a luta pela sobrevivência.

Meu Namorado é um Zumbi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Warm Bodies, Jonathan Levine, 2013]

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SP Terror: Mangue Negro e Eden Log

Mangue Negro

Mangue Negro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mangue Negro, Rodrigo Aragão, 2008]

Mangue Negro é um achado. O primeiro longa do capixaba Rodrigo Aragão é, basicamente, um filme de zumbis levado a sério, mas ecoa influências variadas, desde o Sam Raimi de A Morte do Demônio até os primeiros anos de David Cronenberg. Isso sem perder a cota de humor. Aragão busca mostrar que o projeto é sério desde a cena de abertura, com um texto diferenciado, quase um monólogo teatral. Esse texto nos introduz a um tom em que, sem fazer panfleto ou discurso – e sem ser chato, sócio-ambiental. Aragão utiliza o apodrecimento o mangue como metáfora para falar sobre a degradação da sociedade (parte séria) e para o surgimento dos zumbis (parte divertida). Mesmo pesando a mão no trash a partir de sua segunda metade, Mangue Negro é um filme muito bem feito. A fotografia, mais do que bem cuidada, é esforçada e nos presenteia com efeitos e truncagens simples e impressionantes. A edição é ágil, sem recorrer aos maneirismos de praxe. Há inclusive uma cena em stop-motion. Na esfera sonora, a música, competente, foi cortesia de uma orquestra e a edição de som também surpreende. A maquiagem funciona muito em alguns momentos e deixa a desejar em outros, mas isso nunca é problema. A sequência da Preta Velha, que começa desmerecendo o filme rapidamente se torna um respiro delicioso no roteiro e revelando um personagem que, de tão mal interpretado, é apaixonante.

Franck Vestiel

Eden Log EstrelinhaEstrelinha
[Eden Log, Franck Vestiel, 2007]

O filme de Franck Vestiel tem uma proposta interessante: um homem acorda numa caverna e tenta descobrir quem é e o que está fazendo lá, mas para isso precisa enfrentar ameaças desconhecidas que vivem no escuro. O diretor tem cuidado em ambientar a história. A direção de arte e o desenho das criaturas são bem feitinhos, reproduzindo uma série de referências de filmes de ficção-científica. O desenrolar da história, talvez pelo tom excessivamente sério, não flui tanto assim, mas nunca deixa de manter o interesse. O grande senão é a fotografia. Vestiel joga todas as fichas na possibilidade de terror criada pelo claro-escuro, mas a iluminação não funciona nada na projeção em DVD, que desaparece com as nuances, desbota as cores e, muita vezes, deixa a tela num black total.

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Otto; or Up with Dead People

Bruce LaBruce

Raramente eu assisto a filmes durante o Mix Brasil. A seleção, infelizmente, é cheia de filme ruim, mal escrito, mal dirigido, mal interpretado (alguns com cara de filmes pornôs) e isso me desanimou ao longo dos anos. No festival de 2008, assisti a apenas duas sessões: Derek, documentário sobre o cineasta Derek Jarman, e este Otto; or Up with Dead People, do veterano diretor militante Bruce LaBruce que tinha um diferencial: é um filme gay de zumbis.

Mesmo que fosse apenas tosco e não oferecesse nada além disso, o filme já seria um programa bastante original. Mas o longa vai além: Bruce LaBruce e seu “futuro muito próximo” onde as pessoas morrem e retornam como zumbis gays é uma coleção de reflexões sobre preconceito, perseguição e sobre ainda ser um pária diante da sociedade. As idéias são melhores do que realização, muitas vezes simplista como as interpretações fraquinhas de todo o elenco, mas a intenção é o que conta.

O próprio LaBruce afirmou antes da sessão que seu cinema radical foi fazendo concessões para aumentar sua aceitação. Mas isso não diminui o impacto do filme. Ele evoca Romero e suas idéias sobre o comportamento da sociedade, mas seu alvo é muito mais específico. LaBruce não deixa de colocar cenas de sexo explícito em seu filme, cenas que não tem função além de demarcar o território de seu cinema. A marginalidade de zumbis e gays também ganha o apoio da metalinguagem ao retratar um cinema marginal.

Bobo e raso. Engajado e inteligente. Cheio de referências e gratuito. Otto cabe em diversas classificações. É um filme de altos e baixos, visivelmente irregular, mas uma obra com um conceito fechado e extremamente rígido, capaz de criar cenas belíssimas e de muitas vezes se aproximar de uma obra-prima maldita, nada morta, muito viva.

Otto; or Up with Dead People EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Otto; or Up with Dead People, Bruce LaBruce, 2008]

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A volta dos mortos-vivos

O cinema vive de ciclos. A cada temporada, gêneros, estilos, temáticas e formatos são revisitados e, se os precursores dão certo, os revivals se reproduzem mais rápido do que um Gremlin. Em 2003, Danny Boyle ressucitou sua carreira – e de quebra um gênero – com Extermínio, onde um vírus se espalha transformando a maior parte da população da Inglaterra em seres mortos-vivos que se alimentam de gente para continuar mortos-vivos. O filme tinha um punhado de razões para dar certo: um roteiro bem escrito, com especial talento para o suspense, um cenário desolado como nos clássicos B sobre holocaustos futuros, um diretor com habilidade para comandar câmera e montagem, e um jovem protagonista talentoso, que se especializou em personagens perturbados. Foi o renascimento do filme de zumbis.

O gênero surgiu no fim dos anos 60 pelas mãos de George A. Romero, que até o lançamento de Extermínio, ao longo de três décadas, havia dirigido três filmes que mostram, um a um, a ascenção dos mortos-vivos sobre o planeta. A cada filme, Romero elaborava seu exército de zumbis, moldando-os numa poderosa crítica política à sociedade do século vinte, à mesma medida em que instituía toda uma mitologia do horror. A revitalização do gênero gerou dezenas de filhotes nos anos seguintes, sendo o melhor justamente um remake de um dos clássicos de Romero: Madrugada dos Mortos, dirigido pelo então estreante Zack Snyder em 2004. Bastante fiel ao material original, que já estava pronto, Snyder pôde se dedicar ao acabamento, criando um filme de zumbi de primeira, forte, delicioso e bem feito.

Com pelo menos dois novos clássicos bem recebidos no mercado, foi a vez do próprio Romero voltar a seu habitat, abandonado havia vinte anos. Terra dos Mortos não apenas cumpre um papel nostálgico de resgate histórico como se transforma no maior filme político de 2005, um libelo contra o totalitarismo, o imperalismo e a sociedade de consumo, visto como um ataque frontal ao governo Bush. Mas, mais do que um exercício de política, o filme levanta questões ainda maiores, ao reinventar a mitologia dos zumbis, cuja barbárie ecoa os princípios da formação das sociedades, com os mortos-vivos começando a demonstrar consciência e, pela primeira vez, se organizando num grupo. A força metafórica do filme é devastadora. Romero fez com que suas crias ganhassem um motivo e buscassem um improvável futuro.

Depois de Terra dos Mortos, difícil fazer algo à altura explorando esse terreno, mas dois espanhóis, donos da terra que faz o melhor cinema de horror da atualidade há cerca de uma década, resolveram beber da mesma fonte. Jaume Balagueró, diretor do bom A Sétima Vítima, e seu colega Paco Plaza, colaram dezenas de citações e entregaram [REC]. A dupla imaginou um filme que unisse: a) a paixão de nossa sociedade atual pelo registro; b) a paranóia química; c) os filmes de zumbis. Muita coisa para ser amarrada, mas o resultado é impressionantemente feliz. Uma equipe de TV – repórter e cinegrafista, retratados com bastante fidelidade, coisa rara – acompanham bombeiros numa chamada até um prédio onde uma mulher parece ter sido atacada, que em seguida é isolado pelas autoridades com todos dentro. A partir daí, a colcha de referências vai se avolumando.

Com várias seqüências assustadoras, tanto pelo domínio da imagem quanto do suspense, o filme cumpre sua função, mas padece por parecer muito com muita coisa feita nos últimos tempos. Ou seja, parece um plágio múltiplo. O formato é da câmera na mão, o que ecoa A Bruxa de Blair, inspiração que fica mais explícita na seqüência final, quase uma citação do filme mais revolucionário dos anos 90. A paranóia militarista tem muito de Extermínio e a lógica dos zumbis remete diretamente aos filmes de Romero mais antigos, sem preocupação com ecos políticos. Ainda que não comprometa o resultado, essas comparações reduzem bastante o impacto e o filme sofre por isso.

Mas a frustação que [REC] pode despertar não é maior do que a decepção causada pelo novo filme de Romero, sua quinta incursão pelo universo dos zumbis. Diário dos Mortos é um retrocesso inexplicável tanto na mitologia quanto no quosciente político do gênero. Não há mais os zumbis conscientes ou a sociedade barbarizada. Estamos de volta a um status anterior, onde a única atualização é na insipiente reflexão que o diretor tenta fazer sobre nosso caso de amor com o registro e a informação. Um punhado de estudantes de cinema gravam um filme de múmia enquanto a mídia começa a divulgar casos de mortos que ressucitam e atacam os vivos.

O grupo começa a encontrar o exército de zumbis à medida em que um deles resolve tomar para si o papel de registrar tudo o que acontece com sua câmera. Os mortos-vivos são redimensionados a papéis de figurantes. O que incomoda não é ignorar a cronologia porque isso não era necessário, mas voltar a um status primário com discussões muito mais rasas. Desta vez, só interessa a Romero essa obsessão pela informação, ou, mais do que ela, pela divulgação. Seria um viés interessante a explorar caso o texto convencesse, mas as frases feitas, o engavetamento de clichês, as atuações medíocres e quase nenhuma verossimilhança no comportamento dos personagens limitam esse a um filme de terrorzinho adolescente. Cloverfield, com muito menos, fez uma reflexão bem mais eficaz sobre o poder da imagem. Talvez não haja mais muito a acrescentar ao universo dos mortos-vivos. Talvez o poderio crítico que dessa subespécie de cinema já tenha atingido seu ápice. Talvez, e eu lamento muito em dizer isto, Romero já tenha dado toda a contribuição que poderia ao gênero.

Diário dos Mortos Uma estrela
[Diary of the Dead, George A. Romero, 2008]
[REC] Uma estrelaUma estrela
[[REC], Jaume Balangueró & Paco Plaza, 2007]

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Terra dos Mortos

George A. Romero

Um bando de excluídos. Um grupo de marginais que vive na periferia de um mundo em que as verdades mudaram, em que as certezas se foram. Um conjunto de seres que carregam as as doloridas conseqüências de uma sina que não escolheram. Replicantes em busca do que lhes resta de humanidade, em busca de uma sobrevida. Não, eles não são os mais de 800 mil filiados ao Partido dos Trabalhadores, em meio ao inexplicável destino que esmagou toda aquela reserva de esperança, de pureza ideológica que o brasileiro guardava dentro de si, que fazia os jovens de 16 anos irem às urnas mesmo sem ter obrigação porque havia algo em que acreditar. E acreditar costumar ter sua importância.

Os excluídos, os marginais são zumbis. Homens, mulheres, crianças, executivos, papais noéis, palhaços que perderam a vida, mas não morreram. O motivo não existe ou não precisa existir. Eles querem apenas continuar. Os zumbis de George A. Romero ganham do pai algo bem próximo de uma consciência, com direito a memória e uma espécie de tentativa de organização social.  As tribos evoluem justamente pelo instinto de sobrevivência, pela busca por comida, seja ela carne humana, raízes ou feijão com arroz. É uma evolução, uma mutação secundária ou terciária em relação aos primeiros três filmes do gênero assinados pelo criador do gênero. E entre as muitas imagens marcantes de Terra dos Mortos, uma especial, tocante, em que o líder zumbi experimenta a memória.

Romero, que retorna ao universo dos zumbis quase duas décadas depois,  retira a carga da vilania de suas crias. Este posto é entregue a outros e, mesmo assim, nunca fica tão fácil assim caracterizá-los apenas como vilões. O diretor humaniza como pode as personagens, coloca-os sob uma inédita perspectiva, questiona com que lado está a verdade. Como um papai dedicado, ele dá aos filhos um fim, uma direção, ainda que nebulosos e tortuosos. Dá a chance da escolha. Desta vez, os zumbis são apenas mais uma parte do contexto, contexto que pode ter dezenas de leituras políticas, como todo mundo tem apontado, mas que tem nas entrelinhas um sentimento muito mais primário, o de querer mais, o de significar. Porque em determinado momento, a vida (ou a morte) não é mais feita de fogos de artifício.

Quem acha que este filme é apenas um filme de zumbis merece ser devorado por um deles.

Terra dos Mortos  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Land of the Dead, George A. Romero, 2005]

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