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Jurassic World

Jurassic World

O cinema pode ser bem mais simples do que a gente imagina e, muitas vezes, cobrar de um filme intenções que ele nunca teve revela muito mais quem não entrou na brincadeira do que problemas concretos na obra. Numa época em que o número de reboots, continuações e spin offs é maior do que nunca, nosso olhar parece condicionado a esperar o pior desses roteiros poucos originais. Mas isso nem sempre é verdade. Jurassic World não passa de um remake não assumido – e em escala maior – do neoclássico Jurassic Park. E é exatamente essa suposta falta de imaginação que deixa o filme tão atraente.

Colin Trevorrow, que assina a direção e a coautoria do roteiro, parece mais do que tudo um devotado fã do longa de Steven Spielberg. Tanto que praticamente clona, em maior ou menor grau, cada aspecto da história do filme original, reimaginando todas as principais cenas, do bote do T-Rex em cima das crianças até a sequência final, na parte construída do parque. O conjunto de referências, incluindo o reaproveitamento de uma personagem secundária e a intenção de trazer os principais protagonistas animais do primeiro longa para o centro desse novo filme, fazem de Jurassic World uma obra de reverência explícita.

Assumir-se como filme homenagem é o grande trunfo do longa de Trevorrow, que recicla inclusive a premissa mais básica proposta por Spielberg, que há 22 anos já questionava os limites éticos do uso da tecnologia e reavivava o velho dilema do homem que tenta ser Deus. Essa honestidade do novo longa, que renova os votos a essa ingenuidade tão essencialmente spielberguiana, e que ainda tem como protagonistas uma dupla de irmãos que parece saída diretamente de um filme dos anos 80 (Ty Simpkins está particularmente adorável) e um casal de namoradinhos que vive brigando (Chris Pratt e Bryce Dallas Howard em ótima forma), no melhor estilo dos filmes de aventura de “antigamente”, deixa muito claro que nostalgia é a matéria-prima aqui.

E olha que há algumas boas ideias novas, como o ataque dos “pássaros” no melhor estilo hitchcockiano, com direito a mortes que talvez não estivessem num filme de Spielberg. Mas o que conta mais é ouvir o tema do John Williams pra voltar duas décadas atrás e se divertir pra caramba com T-Rexes e velociraptors voltando à ativa com força total. E qual é o problema em querer lembrar dos velhos tempos, não é? Os U$ 500 milhões de dólares que o filme fez no seu fim de semana de abertura provam que muita gente está disposta a abraçar a memória. Então, vamos relaxar. Saudosismo e culpa não precisam andar de mãos dadas.

Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Jurassic World, Colin Trevorrow, 2015]

P.S.: meu sobrinho de seis anos adorou o filme. Eu acho que ele conversa muito bem com as novas gerações.

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Poltergeist, o Fenômeno

Poltergeist, o Fenômeno 2015

A intenção deste texto nunca foi alimentar o ranço saudosista com que geralmente se julga como pior o que é produzido nos dias de hoje em comparação com o que se fez décadas atrás, sobretudo em se tratando de remakes. Mas é bem difícil não sentir uma imensa nostalgia de tudo o que o primeiro Poltergeist, o Fenômeno conseguia ser depois de sair de uma sessão desta refilmagem/reboot comandada por Gil Kenan. E o maior pecado do novo filme é justamente passar irresponsavelmente apressado por tudo o que o longa original conquistou para chegar na sequência final “nova”, que deveria ser seu trunfo e seu diferencial, mas é sua vergonha.

Para começar, no filme de 1982, Steven Spielberg gastou muito tempo com a ambientação. A cena inicial daquele Poltergeist, o Fenômeno é fundamental para introduzir o espectador na maldição da família Freeling. Descobrimos junto com os pais e os irmãos que existe algo de errado com Carol Anne. Alguma coisa que só vai ser explicada ao longo do filme, que antes se dedica a apresentar aqueles americanos de classe média. E como nos melhores trabalhos de Spielberg, todas as personagens são introduzidas com bastante carinho à medida que a história vai se desenhando.

O novo filme abre mão de todo esse encanto. O casal vivido por Sam Rockwell e Rosemarie DeWitt, ambos bons atores, desaparece na comparação com as personagens criados por Craig T. Nelson e JoBeth Williams, estupidamente simples e felizes e levemente libertários, ainda sob o efeito dos resquícios da década de 70. As interpretações da dupla original namoram com o patético e o exagero, o que reforça sua humanidade, enquanto Rockwell e DeWitt apelam para um realismo que achata qualquer tentativa de deixar suas personagens mais complexas.

Poltergeist, o Fenômeno 1982

Existe ainda um descaso com Madison, a Carol Anne desta segunda versão. Ao contrário da protagonista encantadora/assustadora criada por Heather O’Rourke, que tem sua relação com os poltergeists delineada em algumas cenas fundamentais, como a das cadeiras da cozinha ou todos os momentos em que está em frente à TV, Maddie mal aparece na tela. Difícil lembrar inclusive do rosto dela, quanto mais se identificar com a menina. A pressa em levá-la para o outro lado e chegar num material realmente inédito neste filme novo é tanta que até a antológica sequência com a árvore ganha uma versão diminuta.

Kenan simplesmente dá tempo para o espectador se instalar, o que é uma preocupação principal para Spielberg. Apesar de ter assinado o longa original como roteirista e produtor, deixando o crédito de direção para Tobe Hooper, Steven Spielberg foi quem efetivamente comandou as filmagens, presente no set todos os dias e dirigindo os atores. Sua mão é que dá um corpo diferente ao Poltergeist de 1982, que ultrapassa as barreiras do filme de terror. Kenan, que já mostrou talento no ótimo A Casa Monstro, parecia ansioso para dar sua assinatura ao novo filme, mas abandonou o, com o perdão do trocadilho, espírito do primeiro filme.

A chegada da parapsicóloga vivida por Jane Adams, uma atriz que sempre parece estar pronta para desmoronar, dá alguma vida ao remake, mas, mais uma vez, Kenan não consegue criar a intimidade entre a personagem e a família, ao contrário do que Spielberg fez com Beatrice Straight há 30 anos. A “reencarnação” de Tangina, agora na pele de Jarred Harris, tenta reeditar aquele algo ridículo que a personagem carregava, mas o diretor parece que não entendeu que ela ria de si mesma e cria uma mutação deformada, arrogante e sem qualquer simpatia que deixa saudade de Zelda Rubinstein.

Quando o filme chega, finalmente, ao ponto que Kenan, e talvez o produtor executivo Sam Raimi, pretendem, pouco se salva além de algumas soluções visuais. Mas aí surge aquela dúvida: o melhor é mostrar ou insinuar, como Hooper e Spielberg fizeram no original? Aquele Poltergeist, o Fenômeno que assustava ao mesmo tempo em que era charmosamente desajeitado, namorando com o humor sem deixar de tratar o tema com respeito, fez um herdeiro que elimina esse respiro, entrega as coisas no piloto automático e pesa a mão na história para, no final, jogar tudo pro alto e tentar fazer graça, sem graça. E nem tem trilha do Jerry Goldsmith. A cena que encerra o filme, depois dos primeiros créditos, dá vergonha.

Poltergeist – o Fenômeno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Poltergeist, Tobe Hooper, 1982]

Poltergeist – o Fenômeno Estrelinha½
[Poltergeist, Gil Kenan, 2015]

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Oscar 2016: primeiras apostas e especulações

Oscar 2016

Enquanto você está aí, em frente ao computador, Hollywood ferve. A batalha pelo Oscar 2016 começou no dia seguinte à vitória de Birdman no Fuji Theatre. De um lado, os estúdios começam a eleger seus favoritos, empurrando suas estreias para o fim do ano, para que os filmes sejam mais facilmente lembrados por críticos e pela Academia. Do outro, blogues, sites e jornalistas especializados dão seus tiros no escuro, usando perfis, assinaturas e star powers para determinar quem tem chances na disputa do ano que vem mesmo sem ter visto os filmes. Muitos ainda nem ficaram prontos. A movimentação, ao longo dos próximos meses, termina provocando um buzz que, em maior ou menor grau, influencia a corrida.

Neste ano, grandes jogadores voltam ao embate. Steven Spielberg se reúne com Tom Hanks no drama de guerra Bridge of Spies, enquanto David O. Russell reprisa a parceria com Jennifer Lawrence e Bradley Cooper em Joy. Todd Haynes dirige Cate Blanchett em Carol e Leonardo DiCaprio estreia sob a batuta de Alejandro Gonzalez Iñarritu em The Revenant. O indie do ano promete ser Brooklyn, com Saoirse Ronan, mas Quentin Tarantino entrega seu novo filme, The Hateful Eight. Gus Van Sant visita a floresta dos suicidas com Matthew McConaughey em The Sea of Trees e Michael Fassbender vive Steve Jobs no filme de mesmo título, assinado por Danny Boyle. Só pra começar.

Com tanta gente de peso envolvida, vale a pena lançar as primeiras apostas sobre o Oscar do ano que vem. Tudo no escuro. Mais uma divertida tentativa de antecipar os passos da Academia. No decorrer do ano, uns vão subir, outros sumir, novos jogadores aparecerão e alguns filmes serão adiados pro ano que vem. Minhas primeiras apostas são estas aqui.

filme

minhas apostas

Bridge of Spies, Steven Spielberg
Brooklyn, John Crowley
Carol, Todd Haynes
The Hateful Eight, Quentin Tarantino
Joy, David O. Russell
Our Brand is Crisis, David Gordon Green
The Revenant, Alejandro Gonzalez Iñarritu
The Sea of Trees, Gus Van Sant
A Travessia, Robert Zemeckis

no páreo: Beasts of No Nation, Cary Fukunaga; The Danish Girl, Tom Hooper; Demolition, Jean-Marc Vallee; O Coração do Mar, Ron Howard; Suffragette, Sarah Gavron.

direção

minhas apostas

Alejandro González Iñárritu, The Revenant
Gus Van Sant, The Sea of Trees
John Crowley, Brooklyn
Steven Spielberg, Bridge of Spies
Todd Haynes, Carol

no páreo: Cary Fukunaga, Beasts of No Nation; David Gordon Green, Our Brand is Crisis; David O. Russell, Joy; Quentin Tarantino, The Hateful Eight; Tom Hooper, The Danish Girl.

ator

minhas apostas

Bryan Cranston, Trumbo
Eddie Redmayne, The Danish Girl
Jake Gyllenhaal, Demolition
Leonardo DiCaprio, The Revenant
Michael Fassbender, Steve Jobs

no páreo: Ian McKellen, Mr. Holmes; Joaquin Phoenix, Irrational Man; Matthew McConaughey, The Sea of Trees; Tom Courtenay, 45 Years; Tom Hanks, Bridge of Spies.

atriz

minhas apostas

Cate Blanchett, Carol
Charlotte Rampling, 45 Years
Jennifer Lawrence, Joy
Lily Tomlin, Grandma
Saoirse Ronan, Brooklyn

no páreo: Carey Mulligan, Suffragette; Marion Cotillard, Macbeth; Meryl Streep, Ricky and the Flash; Naomi Watts, Demolition; Sandra Bullock, Our Brand Is In Crisis.

ator coadjuvante

minhas apostas

Cillian Murphy, O Coração do Mar
Idris Elba, Beasts Of No Nation
Ken Watanabe, The Sea of Trees
Mark Rylance, Bridge of Spies
Tom Hardy, The Revenant

no páreo: Chris Cooper, Demolition; Emory Cohen, Brooklyn; Forest Whitaker, Southpaw; Jesse Eisenberg, The End of the Tour; Samuel L. Jackson, The Hateful Eight.

atriz coadjuvante

minhas apostas

Amy Ryan, Bridge of Spies
Diane Ladd, Joy
Helena Bonham Carter, Suffragette
Julie Walters, Brooklyn
Rooney Mara, Carol

no páreo: Helen Mirren, Trumbo; Jennifer Jason Leigh, The Hateful Eight; Melissa Leo, Snowden; Meryl Streep, Sufragette; Naomi Watts, The Sea of Trees.

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Oscar 2013: a Academia dá a cara a tapa

Oscar 2013

A vitória de Argo encerrou um ano nunca visto na história daquela Academia. Foi a primeira vez que um filme chegou à reta final da temporada de prêmios de cinema na condição de favorito absoluto sem ter o diretor indicado. Muito se fala em Conduzindo Miss Daisy, mas aquela foi uma vitória surpresa. Essa foi bem fácil de prever. O filme de Ben Affleck ganhou todos os prêmios que poderia na estrada de tijolos amarelos que leva ao palco do – agora – Dolby Theater. Venceu o Globo de Ouro, o Critics Choice, os prêmios dos sindicatos de Atores, Diretores, Roteiristas, Produtores e Montadores e o BAFTA. Foi difícil para a Academia ignorar tanta unanimidade. A escolha de Argo foi uma rendição ao filme que a temporada elegeu como o melhor, o que mostra que a Academia está mais generosa – ou menos arrogante – em relação ao mercado de cinema. Por mercado, entenda-se indústria mais mídia.

Não entro no mérito de merecimento. Argo é um bom filme, muito bom talvez, mas talvez não fosse o melhor do ano. Por sinal, embora na disputa houvesse bons filmes, muito bons talvez, alguns dos melhores do ano ficaram de fora da lista de indicados, como o ótimo O Mestre, de Paul Thomas Anderson. O que estava em questão era coerência. O Oscar é um prêmio da indústria de cinema. Caso premiasse outro filme, a Academia assinaria um atestado de desconexão com o mundo que ela representa. Se o Oscar tivesse uma história de independência em relação aos eleitos dos sindicatos e aos prêmios do críticos, escolher Lincoln, As Aventuras de Pi ou O Lado Bom da Vida seria uma decisão mais simples, mas a trajetória da Academia, sobretudo nos últimos 50 anos, é de de, em grande parte das vezes, reprodução dos resultados divulgados antes do Oscar e que, curiosamente, surgiram por causa do Oscar. O Oscar inspirou a criação de prêmios para copiá-los.

Natural. Enquanto os críticos ganham para ver filmes, apontar tendências, reconhecer talentos, quem vota na Academia é pago para fazer filmes. Não precisa ir ao cinema, nem ser cinéfilo, e talvez só assista um filme quando for levar os filhos para ver a última animação da Pixar – o que explica a vitória de Valente? – ou o blockbuster da vez. Quem vota no Oscar prefere atores mais famosos porque tem preguiça de descobrir outros talentos. Quem vota no Oscar precisa de ajuda para fechar uma cédula e apontar cinco grandes atores coadjuvantes ou cinco grandes edições de som. Essa ajuda vem dos prêmios dos críticos, que por sua vez influenciam os prêmios dos sindicatos, e dessa simbiose nascem os favoritos. Se essa relação é tão íntima, por que a Academia deveria ignorar seus “fornecedores”? A antecipação da votação e do anúncio dos indicados, de certa forma, deu uma independência inédita ao Oscar, mas os membros da academia provaram que não se viram muito bem sozinhos.

E assim a Academia escolheu Argo, um filme com tema relevante, baseado numa história real extremamente hollywoodiana, bem dirigido, escrito, interpretado, competente em todos os aspectos técnicos. Um filme que a Academia supostamente já premiaria mesmo que fosse apenas julgar seus méritos. Então, por que diabos não indicaram Ben Affleck? Não existe explicação. Há quem acredite que muita gente achou que o cineasta já seria indicado e resolveu escolher outros nomes, mas talvez seja mais justo apostar que eles se atrapalharam mesmo. Argo foi o primeiro favorito. Ignorá-lo numa categoria tão importante foi muito estranho. O transtorno causado pela esnobada ao diretor foi desnecessário porque seu perfil já tornava o filme extremamente premiável, mas, sem Affleck na disputa, a Academia teve que dar um volta para explicar que o escolheria de qualquer maneira. E chegamos à situação incômoda de que o melhor filme do ano não tem seu principal responsável ao menos indicado.

Os membros da Academia ficaram numa sinuca: ou assumiam que “erraram” e votavam em Argo para melhor filme do mesmo jeito ou criavam num novo favorito, o que era complicado porque Lincoln, a aposta mais imediata não tinha ganho um só grande prêmio neste ano. E, como sabemos, a Academia sempre teve uma certa resistência a Steven Spielberg, somente cedendo a seus encantos quando não teve jeito (A Lista de Schindler) e evitando uma segunda vitória de um filme seu. O filme de Affleck ganhou e, talvez para dar estofo a sua escolha, também foi eleito como melhor roteiro adaptado e melhor montagem, este bastante merecido. Por conta desta necessidade de consolidar Argo, Lincoln talvez tenha perdido a força e, desta forma, o Oscar de roteiro, em que dividia o favoritismo. Mas o mais impressionante – e a maior surpresa desta edição do Oscar – foi a Academia sacrificar Steven Spielberg na direção, uma escolha quase certa, em prol de Ang Lee e seus As Aventuras de Pi.

Embora Lee tenha sido o único diretor a ser indicado ao Globo de Ouro, Critics Choice, DGA e Oscar, não tinha prêmios que embasavam sua candidatura. Sua vitória parece uma combinação de três coisas: é um filme consolidado, indicado em 11 categorias; é um filme popular, fácil de ser gostado, e cheio de méritos técnicos; e não deixaria Lincoln crescer ao ponto de ameaçar tirar o Oscar de Argo. Parece maluco, mas eu acho que Ang Lee só ganhou seu segundo Oscar por causa do filme de Ben Affleck. Pela lógica da Academia, Ben deveria ser o melhor diretor, mas como ele não concorria, a Academia rejeitou a ideia de laurear seu principal adversário na categoria de direção e a vitória em melhor filme se tornou mais confortável. O filme de Lee ganhou nos quesitos em que era favorito (trilha, fotografia e efeitos visuais), o que também ajuda a justificar sua vitória como diretor. O filme de Spielberg, que era meu preferido, ficou com surpreendente prêmio pelo desenho de produção e com a óbvia – e merecida – estatueta de melhor ator para Daniel Day-Lewis.

A vitória de Jennifer Lawrence por O Lado Bom da Vida me lembrou muito da de Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado. Não porque ela tirou o Oscar de Emmanuelle Riva por Amor, melhor filme estrangeiro, como Gwyneth tinha tirado o de Fernanda Montenegro por Central do Brasil, até porque eu acho que Jennifer era a melhor atriz do ano mesmo, enquanto Gwyneth, que é uma boa atriz, se beneficiou unicamente da campanha dos Weinstein. Mas mais por causa das indignações que esse prêmio causou. Anne Hathaway, cumprindo os prognósticos, ganhou como atriz coadjuvante por Os Miseráveis (também escolhido em mixagem de som e maquiagem), um Oscar que celebra uma estrela em ascensão, mas que encontraria uma vencedora mais merecedora em pelos menos três candidatas, sobretudo Helen Hunt em As Sessões. Embora tivesse ganho o Globo de Ouro e o BAFTA, a vitória de um emocionado Christoph Waltz por Django Livre foi surpreendente para mim. Ganhou dois Oscars fazendo um alemão um filme do mesmo diretor, com apenas 4 anos de diferença. Ajudou a celebrar o filme de Quentin Tarantino, que ainda ganhou como roteiro original (discurso melhor do que o roteiro, por sinal), e reconheceu uma ótima interpretação, apesar de eu preferir Tommy Lee Jones e Philip Seymour Hoffman.

Searching for Sugar Man foi o melhor documentário numa das melhores notícias da noite. Os figurinos de Anna Karenina ganharam um merecido reconhecimento, mas o belo filme de Joe Wright merecia muito mais. A Hora Mais Escura, que ganhou prêmios importantes no começo da corrida ao Oscar, se viu eclipsado pela polêmica da tortura e da conivência de Barack Obama num possível vazamento de informações, e ficou apenas com o prêmio de edição de som, além de protagonizar um dos episódios mais surpreendentes desta edição: um empate com 007 – Operação Skyfall. Se eu não estou enganado, um empate não acontecia desde 1969, quando Barbra Streisand, que cantou no In Memoriam, e Katharine Hepburn dividiram o Oscar de melhor atriz. O filme ganhou ainda pela belíssima “Skyfall”, escrita e interpretada por Adele, e os 50 anos de James Bond receberam uma homenagem especial, com Shirley Bassey cantando “Goldfinger”. Foi um dos poucos bons momentos musicais da noite. E eles foram tantos… Num ano em que o Oscar resolveu celebrar a música no cinema, duas das candidatas a melhor canção ganharam clipes em vez de performances ao vivo. E uma delas é cantada por Scarlett Johansson!

Os produtores da festa, produtores também de Chicago, acharam adequado homenagear os dez anos da vitória de seu filme no Oscar. Ou seja, se auto-homenagearam. Precisava desta masturbação? Que filme foi lembrado no Oscar dez anos depois? Junto com um número inteiro retirado do filme, vieram outras homenagens, ao fraquíssimo Dreamgirls e, numa das escolhas mais esdrúxulas da noite, a Os Miseráveis, um dos candidatos desta edição. O filme de Tom Hooper ganhou um pout-pourri com vários de seus momentos musicais cantados por todo o elenco – Helena Bonham-Carter em especial bem pouco à vontade -, ajudando a deixar a festa com o espírito do filme: longa, chata e burocrática. Seth Macfarlane, embora tivesse seus momentos (como a introdução de Meryl Streep, a brincadeira com Sally Field ou a aparição do ursinho Ted), foi um apresentador bem sem graça. Fez uma piada a la Rafinha Bastos sobre Abraham Lincoln e deve ter fechado algumas portas em Hollywood. Duvido que volte ao Oscar. A festa cansativa – alguém me explica Michelle Obama? – só não foi pior porque o pedido de desculpas a Ben Affleck ajudou a deixar a espera mais interessante e a mostrar que a Academia não quer confusão com ninguém – a não ser que seu nome seja Steven Spielberg.

Os vencedores

Filme – Argo, Ben Affleck
Direção – Ang Lee, As Aventuras de Pi
Ator – Daniel Day-Lewis, Lincoln
Atriz – Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Ator coadjuvante – Christoph Waltz, Django Livre
Atriz coadjuvante – Anne Hathaway, Os Miseráveis
Roteiro original – Django Livre, Quentin Tarantino
Roteiro adaptado – Argo, Chris Terrio
Filme estrangeiro – Amor (Áustria), Michael Haneke
Filme de animação – Valente, Mark Andrews & Brenda Chapman
Fotografia – As Aventuras de Pi, Claudio Miranda
Montagem – Argo, William Goldenberg
Direção de arte – Lincoln, Rick Carter; Jim Erickson, Peter T. Frank
Figurinos – Anna Karenina, Jacqueline Durran
Maquiagem – Os Miseráveis
Trilha sonora – As Aventuras de Pi, Mychael Danna
Canção – “Skyfall” (Adele & Paul Epworth), 007 – Operação Skyfall
Mixagem de som – Os Miseráveis, Andy Nelson, Mark Paterson & Simon Hayes
Edição de som – 007 – Operação Skyfall, Per Hallberg & Karen Baker Landers, e A Hora Mais Escura, Paul N.J. Ottosson
Efeitos visuais – As Aventuras de Pi, Bill Westenhofer, Guillaume Rocheron, Erik-Jan De Boer & Donald R. Elliott
Documentário – Searching for Sugar Man, Malik Bendjelloul
Curta Documentário – Inocente, Sean Fine & Andrea Nix Fine
Curta de Ação – Curfew, Shawn Christensen
Curta de Animação – Paperman, John Kahrs

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Oscar 2013: direção

Diretor

Ang Lee, As Aventuras de Pi
Benh Zeitlin, Indomável Sonhadora
David O. Russell, O Lado Bom da Vida
Michael Haneke, Amor
Steven Spielberg, Lincoln

Existe uma ala anti-Spielberg que parece numerosa na Academia. Foi ela que não o indicou por Tubarão e A Cor Púrpura, ambos finalistas a melhor filme. Foi ela que rapidamente desistiu de O Resgate do Soldado Ryan, que era favorito, quando o marketing apresentou outro candidato. Eu não tenho muitas dúvidas de que se Ben Affleck tivesse sido indicado ao Oscar de de direção, Spielberg não teria muitas chances de vitória. Mas nem ele, nem Kathryn Bigelow, numa situação esquisita para a Academia, aparecem entre os finalistas deste ano, provavelmente fruto da antecipação do anúncio dos indicados. Resultado: Spielberg ficou sem adversários. Virou franco-favorito. Mas ele não deve ganhar só por isso. Seu filme já rendeu quase US$ 180 milhões e é um belíssimo trabalho. Spielberg se arriscou, saindo de sua zona de conforto, assumindo a teatralidade do roteiro de Tony Kushner, dando espaço para interpretações incríveis.

As chances de um resultado diferente são pequenas, mas moram principalmente nas mãos de Ang Lee. Ele foi o único diretor indicado ao Globo de Ouro, ao DGA, ao Critics Choice e ao Oscar e As Aventuras de Pi é o segundo com o maior número de indicações no ano. Caso a Academia resolva se revoltar contra Spielberg, o que parece bem improvável, eleger Lee parece ser o mais possível. David O. Russell tem chances mínimas. O Lado Bom da Vida foi bastante elogiado, concorre em oito categorias, inclusive nas quatro de elenco, o que lhe dá um respaldo bem razoável, mas provavelmente insuficiente para incomodar o favorito. A indicação de Benh Zeitlin por Indomável Sonhadora foi a surpresa do ano. Não deve passar muito disso. Michael Haneke é um azarão. Amor teve cinco indicações, algo raríssimo para um filme falado em língua estrangeira, mas isto ainda deve ser um grande empecilho para sua candidatura. Pode acontecer se Spielberg tiver poucos votos, mas é bem improvável.

Quem ganha: Steven Spielberg, Lincoln
Quem ameaça: Ang Lee, As Aventuras de Pi
Quem merece: Steven Spielberg, Lincoln
Quem faltou na lista: Paul Thomas Anderson, O Mestre

Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

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Lincoln

Lincoln

Lincoln, de Steven Spielberg, é um filme que quebra expectativas. Havia uma espécie de desconfiança generalizada em relação ao que o diretor mais bom moço dos últimos 50 anos faria num filme sobre o presidente mais bom moço da história americana. As escolhas de Spielberg foram menos óbvias do que se imaginava. O cineasta abriu mão de uma biografia tradicional que cobrisse a trajetória de Abraham Lincoln para fazer um recorte, elegendo os quatro últimos meses da vida do presidente como universo para o filme. Em época de Guerra Civil, o foco é numa batalha menos física, mas não menos sangrenta, a batalha pela aprovação da emenda que aboliu a escravatura nos Estados Unidos. O tom épico intimista, presente em alguns de seus filmes “sérios”, foi substituído pelo de bastidores de disputa política. E sem concessões.

Spielberg carrega os personagens com uma verborragia que exige atenção irrestrita do espectador e uma postura muitas vezes teatral do elenco – como na cena em que Lincoln e Mary Todd discutem e a esposa vai ao chão. Os atores parecem ter sido dirigidos como se estivessem em cima de um palco, com uma marcação rigorosa, opção que joga o filme num plano diferente, com se a história se desenvolvesse fora do alcance do homem comum. Ao mesmo tempo em que abraça esta imponência, o diretor enche as cenas de movimento – algumas parecem ter sido planejadas por dia - seja com os movimentos de câmera ou com a própria montagem. Janusz Kaminski recorre ao mesmo jogo de luz e sombras do equivocado Amistad. As semelhanças entre os filmes param por aí. Desta vez a fotografia não tem funções meramente plásticas, mas ajuda a reproduzir o clima de clausura e a época como um todo.

O tom sóbrio de Lincoln revela um Spielberg menos ingênuo em relação a sua visão de mundo. Em vez de alguns de seus maneirismos tradicionais, ele faz quase o impossível para alguém com Oskar Schindler e Miss Celie no currículo: não reverencia Abraham Lincoln, nem o assume como herói. Isso acontece desde o roteiro, que mostra como o presidente comandou uma espécie de mensalão para que a emenda fosse aprovada, até o retrato do homem. Lincoln fala manso, seu poder de oratória aparece em poucas cenas, mas a interpretação fantasmagórica de Daniel Day-Lewis consegue dar a dimensão de sua presença. Ninguém parece poder alcancá-lo. Nem Tommy Lee Jones, nem Sally Field, ambos em seus melhores papéis no cinema.

O apêndice do filme parece desnecessário, mas ajuda a completar a proposta de Spielberg de trabalhar no anti-clímax. Se o roteiro é prolongado até chegar ao momento da morte de Lincoln, o diretor se recusa a apresentá-la da maneira mais tradicional, frustrando a expectativa do espectador e oferecendo uma notícia velha sob novas perspectivas. As cenas finais são de rendição, mas até lá, Spielberg já havia homenageado o ícone da maneira mais honesta possível, relativizando o mito, ressaltando o homem.

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[Lincoln, Steven Spielberg, 2012]

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Oscar 2013: trailers de 12 filmes cotados

A bolsa de apostas para o Oscar 2013 segue apontando os filmes que têm mais chances de disputar o prêmio. Os títulos a seguir, em maior ou menor escala, são citados por sites e blogues especializados em analisar a temporada de prêmios de cinema como frontrunners na corrida. Abaixo os trailers (alguns sem legenda) dos filmes que parecem ter mais chance de aparecer na festa de fevereiro de 2013.

Amour, Michael Haneke

Anna Karenina, Joe Wright

Argo, Ben Affleck

Django Unchained, Quentin Tarantino

O Hobbit: Uma Viagem Inesperada, Peter Jackson

O Impossível, Juan Antonio Bayona

Indomável Senhora, de Benh Zeitlin

Life of Pi, Ang Lee

Lincoln, Steven Spielberg

The Master, Paul Thomas Anderson

http://www.youtube.com/watch?v=eQrSX8dhWw0

Les Misérables, Tom Hooper

Promised Land, Gus Van Sant

The Silver Lining Playbook, David O. Russell

http://www.youtube.com/watch?v=ibUk5BdZ-XM

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Cavalo de Guerra

Steven Spielberg

Steven Spielberg sempre foi um cineasta que soube trafegar com equilíbrio pelo terreno do emocional, mas em Cavalo de Guerra ele errou feio. É, disparadamente, o filme mais maniqueísta do diretor, que parece fazer um esforço hercúleo – e deliberado – para conquistar o espectador. A sequência na fazenda procura caracterizar os personagens como pobres coitados de bom coração e dignos de misericórdia. A cada dez minutos, Spielberg parece levantar uma placa dizendo “aqui você deve chorar”.

Existe a intenção de se criar um épico emocional. Todo sofrimento é catapultado a níveis de dor absoluta. A fotografia exagerada celebra o artificial, o que funciona – e de certa forma metaforiza – perfeitamente o final, sentimentalóide, cujos tons de vermelho evocam …E o Vento Levou. Verdade que boa parte dessa manipulação vem do material original, cujo tom esquemático é inerente, mas o diretor, que sempre soube trabalhar excessos, não nos poupa.

A sequência de desventuras acontece em cascata. A parte “guerra” é mais interessante, explora melhor os cenários, mas continua com suas cenas exageradas e sem ritmo. A única que se salva é aquela em que o cavalo fica preso no arame farpado. Aí Spielberg sai do esconderijo e faz o que sabe melhor: ser um bom garoto.

Cavalo de Guerra EstrelinhaEstrelinha
[War Horse, Steven Spielberg, 2011]

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Poltergeist – O Fenômeno

Poltergeist

Não lembro o ano exato em que vi este filme pela primeira vez, mas as imagens de Carol Anne conversando com a televisão nunca me saíram da cabeça. Acho que o fato de estarmos diante de um filme de família, de um desafio familiar (e um filme exemplar na ambientação desse cenário), cria uma aproximação natural com o drama dos protagonistas. A “maldição” dos bastidores, inclusive a morte precoce de Hearther O’Rourke, ajuda a alimentar o mito em torno do longa, o que é comum no gênero. É, muito provavelmente, um dos dez melhores filmes de terror que o cinema já pariu. Assustador do começo ao fim, sua maior qualidade é a elegância da direção, que dá credibilidade à história sobrenatural. Sem querer desmercer o trabalho de Tobe Hooper, praticamente tudo no filme nos leva a crer que o verdadeiro criador ali foi Steven Spielberg, roteirista e produtor. Sua mão está lá, desde o tratamento familiar à ambientação, à escalação de um elenco perfeito, ao apuro técnico, à câmera e a cor do filme, parentes próximos das de Tubarão. A fotografia é excelente, com uma atenção especial para os enquadramentos dentro dos planos. A montagem é essencial para espalhar o horror pelo filme. O único desserviço que a revisão de Poltergeist promove é lembrar de que há um gênero de filmes que já morreu… mas que esqueceram de enterrar.

Poltergeist – O Fenômeno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Poltergeist, Tobe Hooper, 1982]

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Munique

Munique

Quando dirigiu Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, Steven Spielberg definiu para o espectador o que esperar exatamente de um filme seu. São raros os cineastas que têm o dom da manipulação consentida, que conseguem atingir limites dramáticos tão perigosos quanto ele, que usualmente passa de raspão do sentimentalismo por causa da forma direta de se comunicar. Pelo menos, é isso o que eu acho de Spielberg. E eu acho também que ele errou algumas vezes. Mas, de uma maneira geral, Spielberg é um grande diretor.

As críticas a seu trabalho geralmente resvalam no quanto ele abusa dessa capacidade de manipulação em seus filmes. De certa maneira, quem se dispõe a assistir a um trabalho de Spielberg está preparado ou para ser abduzido pelos encantos de suas histórias, ou para refutar a maneira como ele as conta. Sim, porque na mesma medida em que o diretor é grande, o diretor é previsível.

Então, de tão previsível na construção de seus filmes (entendam: eu não acho isso necessariamente ruim), é bem entendível o porquê da recepção fria a Munique, novo filme sério do diretor, que vai de encontro a quase tudo o que Spielberg costuma fazer: o longa é de uma economia dramática impressionante. Razões existem. Acompanhar um grupo de homens cuja missão é assassinar pessoas – por mais que elas sejam terroristas – e fazer com que o espectador se apaixone por eles, tática comum na hora de cativar o público, soaria esquizofrênico num filme clássico de Spielberg. Por isso, a solução foi o distanciamento. Um tom quase documental.

A própria natureza da história a ser contada mendigava este formato, então há uma excelente composição das cenas, que funcionam tanto enquanto tradução dos fatos (não vou entrar no mérito de como os eventos se desenrolaram realmente) quanto na forma de narrativa dramática. Munique lembra muito os filmes sobre espionagem e terrorismo feitos nos anos 70. O tom nostálgico surge na fotografia de Janusz Kaminski, que faz mais um trabalho exemplar nos enquadramentos, movimentos de câmera e na iluminação propositadamente escassa. A sepialização tão excessiva no cinema feito hoje em dia é usada com parcimônia.

Mesmo abraçando o documental, o diretor não se esquiva de uma das coisas que melhor sabe fazer: humanizar suas personagens. Todos os integrantes do grupo ganham atenção em maior ou menor grau. O Avner de Eric Bana, na condição de protagonista, é quem recebe um desenho mais amplo, um homem de família, cuja integridade não é abalada por aceitar a missão em nome de sua pátria. Bana, tão econômico quanto a encomenda, está particularmente bem em cena. Sua performance profissional – e seus questionamentos sobre o ofício – contrastam com os pequenos momentos de explosão pessoal. O bálsamo de ouvir a sonoplastia da filha pelo telefone.

Há um aproveitamenro discreto, mas eficiente de personagens periféricos, como a família mafiosa francesa, a mãe e a esposa de Avner e a primeira-ministra Golda Meir, que mesmo sem um texto particularmente notável, ganha uma performance notável de Lynn Cohen. Acho injustas e mal colocadas as acusações de “defesa” da causa judaica porque a análise sobre os eventos não me parece assumir partidos. Não se trata de imparcialidade, mas de foco. Há, inclusive, uma bela cena entre um judeu e um árabe numa discussão sobre terra, lar, casa. Para Spielberg, o que importa não é a política. Nem exatamante a ética. O que conta é a porrada nos ouvidos de quem aperta o botão.

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[Munich, Steven Spielberg, 2005]

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