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Armadilha

Brian Geraghty, Alice Eve, Josh Peck

Uma grande ideia nem sempre resulta num grande filme. Chris Sparling teve uma das boas há dois anos, quando imaginou um longa totalmente passado dentro de um caixão. Enterrado Vivo, dirigido por Rodrigo Cortés, é um belo exemplo de como um ponto de partida forte pode ter fôlego para se estender por 95 minutos de filme, sem recorrer a elementos externos e, ainda assim, manter a forma ágil e inteligente. O roteiro recebeu elogios e os elogios se converteram em indicações e prêmios. Sparling, em estado de graça, elegeu esse modelo de filme como seu.

Dois anos depois, o roteirista assina Armadilha, longa dirigido pelo estreante David Brooks. A fórmula é a mesma de seu texto mais conhecido, com algumas pequenas modificações que fazem uma monstruosa diferença. O caixão foi substituído por um caixa eletrônico, mas ao contrário do filme anterior, mais conceitual, a ação aqui não se limita a uma só locação. Existe uma grande seqüência de abertura que leva os personagens até seu destino. Por sinal, é a parte mais bem resolvida do filme, já que permite que explorar perfis e iniciar conflitos.

O efeito do surgimento do vilão, que desta vez aparece em carne e osso, não dura muito. Se Enterrado Vivo explorava ao máximo o cenário, criando nuances diferentes para cada mudança de iluminação, fazendo da montagem, linguagem, o novo filme abre o foco para dar conta de todos os personagens e enfraquece a proposta. Com a obrigação de seguir tanta gente, o caixa eletrônico, que deveria ser começo, meio e fim da história, fica invisível na trama. O excesso de pontas minimiza a claustrofobia do cenário “único” e o roteiro passa a recorrer a soluções manjadas demais – ou ruins mesmo – para os destinos dos personagens. Uma ideia reprisada nem sempre reprisa um bom filme.

Armadilha Estrelinha½
[ATM, David Brooks, 2012]

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127 Horas

127 Horas

Passei a maior parte da sessão de 127 Horas pensando em outro filme, Enterrado Vivo. Os dois partem de premissas parecidas: de uma hora para outra, seus protagonistas se vêem presos, isolados, reféns de situações de angústia física e mental. As semelhanças param por aqui. Enquanto o filme de Rodrigo Cortés tem um roteiro completamente ficcional, a trama do último longa de Danny Boyle é baseada numa história real. E as diferenças não estão apenas na sinopse, mas nas opções, ou mesmo no estilo de cinema que seus diretores escolheram.

Enterrado Vivo, diante de sua invenção, poderia facilmente recorrer a elementos extra-cenário para dar mobilidade a sua trama complicada de se filmar: um homem acorda dentro de um caixão. Mas o roteiro é radical: nunca, em hipótese alguma, abandona sua espremida locação, e, dessa forma, convence na composição da claustrofobia imposta ao protagonista que nunca existiu. 127 Horas, por sua vez, parece nunca acreditar suficientemente na força de sua história verdadeira e usa todos os subterfúgios possíveis para ilustrar a situação extrema pela qual passa seu personagem real.

Dicotomia pura.

A lógica da montagem é a da TV aberta: ilustrar ao máximo cada situação. E Danny Boyle, vocês sabem, ilustra que é uma beleza. Um exemplo simples: se James Franco está com sede aparece um clipe com velocidade acelerada e overdose de filtros com imagens de água, refrigerantes, cervejas e banhos em geral. Resultado: o filme ganha agilidade e não reforça o drama do personagem. Faltam momentos de vazio, largando o som ambiente e o ator à própria sorte. Faltou alimentar essa angústia.

As alucinações materializadas e os flashbacks familiares, aos quilos, parecem alienações que só fazem o foco sair do que realmente interessa. E, convenhamos, a história já é forte o bastante para atrair o espectador. Pior ainda é quando os escapismos são gratuitos, como a câmera subjetiva até o carro (em fast, claro) ou primeira saída da fenda. Essa última é um golpe dos mais baixos, revoltante, uma sequência completamente desnecessária que, inclusive, deixa dúvidas sobre a cena anterior.

Eu deveria dizer que a culpa de 127 Horas não ser uma catástrofe completa é de James Franco, que, nos intervalos comerciais, consegue dar corpo ao desespero de seu personagem numa interpretação cheia de belos momentos, como na cena do talk show (a única em que as artimanhas do diretor realmente funcionam). Mas Boyle resolve bem algumas cenas angustiantes, como a sequência em que Aaron põe fim a seu drama. São cenas que fazem o filme valer. Mesmo assim, Enterrado Vivo ainda é bem melhor. Ficção supera realidade? Nesse caso, sim.

127 Horas EstrelinhaEstrelinha
[127 Hours, Danny Boyle, 2010]

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Enterrado Vivo

Enterrado Vivo

A primeira associação de críticos a anunciar seus prêmios em 2010 foi o National Board of Review e, no quesito roteiro original, o grupo elegeu um filme que não aparecia em nenhuma das listas de apostas que circulavam pela internet. O longa era Enterrado Vivo e o prêmio para seu roteiro foi justíssimo. O filme dirigido pelo espanhol Rodrigo Cortés partia de uma ideia que nós já vimos muito por aí, inclusive na obra de Quentin Tarantino: uma pessoa acorda dentro de um caixão. Mas o que era uma cena ou uma sequência de cenas nos outros longas é o filme em si neste caso. Enterrado Vivo se passa inteiramente dentro de um caixão.

Não existem cenas externas nem flashbacks, escolhas que seriam óbvias para dinamizar um filme com este tema. O roteiro de Chris Spalding é radical: qualquer interação entre o protagonista com o mundo exterior é feita exclusivamente por telefone. O texto cria uma extensa variedade de situações que emprestam uma agilidade à trama que falta em muito filme de velocidade e passa pelos mais diversos tópicos e formatos. Há desde uma declaração apaixonada entre marido e esposa até as críticas à burocracia e à política das grandes corporações, sem esquecer de alfinetar a postura dos Estados Unidos nos países ocupados e os militares.

Um leque de possibilidades que exige do personagem principal e único ator que aparece em cena, Ryan Reynolds. Todos os outros intérpretes do filme têm performances vocais, o que deixa Reynolds com uma responsabilidade gigantesca. O ator, sempre escorado em papeis em comédias, romances ou filmes de ação, nunca teve a chance de mostrar do que – ou se – era capaz. Aqui o ex-marido de Scarlett Johansson surpreende com uma interpretação segura, oscilando com fluidez entre o emocionado, o nervoso e o descontrolado. Um papel complexo que ele defende com destreza.

Mas além de um roteiro cheio de desdobramentos e de um ator mais do que eficiente, Rodrigo Cortés se preocupou em deixar o filme, um convite à claustrofobia, menos difícil de se assistir. Para isso apostou numa montagem ágil, mas sem se render a excessos de maneirismos e criou vários elementos que garantem variedade à fotografia, explorando uma micro-paleta de cores que dão ainda mais movimento ao filme. O único senão de Enterrado Vivo é quando surge um segundo elemento no caixão, numa cena que parece um tom acima da tensão palpável e crível que impregna o filme inteiro. Não fosse por isso, o filme de Cortés seria perfeito.

Enterrado Vivo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Buried, Rodrigo Cortés, 2010]

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