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Paraíso

Paraíso

A carreira de Andrei Konchalovskiy é bem curiosa. O diretor trafega com naturalidade entre o cinema de autor e o cinema comercial, com passagens por um cinema algo autoral, algo comercial, que mira em prêmios internacionais, caso deste Paraíso, que ganhou o Leão de Prata de melhor diretor no Festival de Veneza. Dois anos depois do interessantíssimo As Noites Brancas do Carteiro, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, mas infelizmente inédito em circuito, Konchalovsky entra num terreno seguro para atrair comoção internacional, o das histórias da Segunda Guerra Mundial. O roteiro original, escrito pelo próprio cineasta com Elena Kiseleva (com quem também fez dupla no filme anterior), mistura uma certa ousadia questionável com muita burocracia e didatismo. O filme acompanha três histórias que se cruzam durante a guerra e coloca os personagens lembrando de suas vidas numa espécie de mesa de interrogatório que chama a atenção depois que entendemos em que contexto aquilo acontece. A fórmula tenta quebrar a burocracia da narrativa principal, que replica dezenas de filmes feitos sobre o tema, mas parece uma alternativa didática para reforçar tudo o que está acontecendo, pra não deixar dúvidas da “mensagem” que se quer passar.

Paraíso ★½
[Ray, Andrei Konchalovsky, 2016]

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Ray

Se existe um mérito na biografia cinematográfica de Ray Charles é justamente mostrar sem muitos pudores o músico como junkie e com certas doses de mau caratismo. Ray, de Taylor Hackford, supreende porque foi concebido e desenvolvido enquanto seu retratado ainda estava vivo – o próprio Ray Charles participa do filme com novas gravações. Assim, de certa forma, o filme ganha ares de ousado e corajoso. E Ray Charles, que acompanhou aquilo tudo, muito mais por permitir aparecer para o mundo em situações tão constrangedoras.

Não que o que está na tela fosse segredo. Os escândalos de um dos maiores músicos do rhythm’n’blues (e talvez do século 20) ganharam jornais e revistas pelo mundo afora ao longo de décadas, mas pelo tom que o filme ganha. O vício surge como personagem importante, e a trajetória de Ray Charles se vê pontuada por momentos onde o músico teve postura moral discutível, como na troca de gravadora, no conformismo com o aparte racial (depois exorcizado) ou na maneira como sugere um aborto para a amante.

Ray perde pontos quando essa visão particular é colocada de lado e surgem as características de uma tradicional biografia musical. O filme é formal, correto e bem cuidado: direção de arte e figurinos impecáveis, montagem bem feitinha, fotografia que tenta muita beleza. Jamie Foxx realmente está muito bem no papel, apesar de se apoiar demais na caricatura e na imitação. Sharon Warren, que faz sua mãe, merece crédito pela bela perfomance. Mas um grande problema é transformar o vício de Charles na base de sua história. E pecado mais grave ainda é buscar redenção para os males que asssolam seu protagonista. Taylor Hackford parece acreditar que finais têm que parecer finais. Ray quer terminar de bem com todos, fechar questões, aparar arestas. A cena onde Ray Charles faz as pazes com os fantasmas de sua família é particulatmente constrangedora.

Ray EstrelinhaEstrelinha
[Ray, Taylor Hackford, 2004]

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