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Oscar 2016: primeiras apostas e especulações

Oscar 2016

Enquanto você está aí, em frente ao computador, Hollywood ferve. A batalha pelo Oscar 2016 começou no dia seguinte à vitória de Birdman no Fuji Theatre. De um lado, os estúdios começam a eleger seus favoritos, empurrando suas estreias para o fim do ano, para que os filmes sejam mais facilmente lembrados por críticos e pela Academia. Do outro, blogues, sites e jornalistas especializados dão seus tiros no escuro, usando perfis, assinaturas e star powers para determinar quem tem chances na disputa do ano que vem mesmo sem ter visto os filmes. Muitos ainda nem ficaram prontos. A movimentação, ao longo dos próximos meses, termina provocando um buzz que, em maior ou menor grau, influencia a corrida.

Neste ano, grandes jogadores voltam ao embate. Steven Spielberg se reúne com Tom Hanks no drama de guerra Bridge of Spies, enquanto David O. Russell reprisa a parceria com Jennifer Lawrence e Bradley Cooper em Joy. Todd Haynes dirige Cate Blanchett em Carol e Leonardo DiCaprio estreia sob a batuta de Alejandro Gonzalez Iñarritu em The Revenant. O indie do ano promete ser Brooklyn, com Saoirse Ronan, mas Quentin Tarantino entrega seu novo filme, The Hateful Eight. Gus Van Sant visita a floresta dos suicidas com Matthew McConaughey em The Sea of Trees e Michael Fassbender vive Steve Jobs no filme de mesmo título, assinado por Danny Boyle. Só pra começar.

Com tanta gente de peso envolvida, vale a pena lançar as primeiras apostas sobre o Oscar do ano que vem. Tudo no escuro. Mais uma divertida tentativa de antecipar os passos da Academia. No decorrer do ano, uns vão subir, outros sumir, novos jogadores aparecerão e alguns filmes serão adiados pro ano que vem. Minhas primeiras apostas são estas aqui.

filme

minhas apostas

Bridge of Spies, Steven Spielberg
Brooklyn, John Crowley
Carol, Todd Haynes
The Hateful Eight, Quentin Tarantino
Joy, David O. Russell
Our Brand is Crisis, David Gordon Green
The Revenant, Alejandro Gonzalez Iñarritu
The Sea of Trees, Gus Van Sant
A Travessia, Robert Zemeckis

no páreo: Beasts of No Nation, Cary Fukunaga; The Danish Girl, Tom Hooper; Demolition, Jean-Marc Vallee; O Coração do Mar, Ron Howard; Suffragette, Sarah Gavron.

direção

minhas apostas

Alejandro González Iñárritu, The Revenant
Gus Van Sant, The Sea of Trees
John Crowley, Brooklyn
Steven Spielberg, Bridge of Spies
Todd Haynes, Carol

no páreo: Cary Fukunaga, Beasts of No Nation; David Gordon Green, Our Brand is Crisis; David O. Russell, Joy; Quentin Tarantino, The Hateful Eight; Tom Hooper, The Danish Girl.

ator

minhas apostas

Bryan Cranston, Trumbo
Eddie Redmayne, The Danish Girl
Jake Gyllenhaal, Demolition
Leonardo DiCaprio, The Revenant
Michael Fassbender, Steve Jobs

no páreo: Ian McKellen, Mr. Holmes; Joaquin Phoenix, Irrational Man; Matthew McConaughey, The Sea of Trees; Tom Courtenay, 45 Years; Tom Hanks, Bridge of Spies.

atriz

minhas apostas

Cate Blanchett, Carol
Charlotte Rampling, 45 Years
Jennifer Lawrence, Joy
Lily Tomlin, Grandma
Saoirse Ronan, Brooklyn

no páreo: Carey Mulligan, Suffragette; Marion Cotillard, Macbeth; Meryl Streep, Ricky and the Flash; Naomi Watts, Demolition; Sandra Bullock, Our Brand Is In Crisis.

ator coadjuvante

minhas apostas

Cillian Murphy, O Coração do Mar
Idris Elba, Beasts Of No Nation
Ken Watanabe, The Sea of Trees
Mark Rylance, Bridge of Spies
Tom Hardy, The Revenant

no páreo: Chris Cooper, Demolition; Emory Cohen, Brooklyn; Forest Whitaker, Southpaw; Jesse Eisenberg, The End of the Tour; Samuel L. Jackson, The Hateful Eight.

atriz coadjuvante

minhas apostas

Amy Ryan, Bridge of Spies
Diane Ladd, Joy
Helena Bonham Carter, Suffragette
Julie Walters, Brooklyn
Rooney Mara, Carol

no páreo: Helen Mirren, Trumbo; Jennifer Jason Leigh, The Hateful Eight; Melissa Leo, Snowden; Meryl Streep, Sufragette; Naomi Watts, The Sea of Trees.

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Trailer: Machete Mata

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Oscar 2013: a Academia dá a cara a tapa

Oscar 2013

A vitória de Argo encerrou um ano nunca visto na história daquela Academia. Foi a primeira vez que um filme chegou à reta final da temporada de prêmios de cinema na condição de favorito absoluto sem ter o diretor indicado. Muito se fala em Conduzindo Miss Daisy, mas aquela foi uma vitória surpresa. Essa foi bem fácil de prever. O filme de Ben Affleck ganhou todos os prêmios que poderia na estrada de tijolos amarelos que leva ao palco do – agora – Dolby Theater. Venceu o Globo de Ouro, o Critics Choice, os prêmios dos sindicatos de Atores, Diretores, Roteiristas, Produtores e Montadores e o BAFTA. Foi difícil para a Academia ignorar tanta unanimidade. A escolha de Argo foi uma rendição ao filme que a temporada elegeu como o melhor, o que mostra que a Academia está mais generosa – ou menos arrogante – em relação ao mercado de cinema. Por mercado, entenda-se indústria mais mídia.

Não entro no mérito de merecimento. Argo é um bom filme, muito bom talvez, mas talvez não fosse o melhor do ano. Por sinal, embora na disputa houvesse bons filmes, muito bons talvez, alguns dos melhores do ano ficaram de fora da lista de indicados, como o ótimo O Mestre, de Paul Thomas Anderson. O que estava em questão era coerência. O Oscar é um prêmio da indústria de cinema. Caso premiasse outro filme, a Academia assinaria um atestado de desconexão com o mundo que ela representa. Se o Oscar tivesse uma história de independência em relação aos eleitos dos sindicatos e aos prêmios do críticos, escolher Lincoln, As Aventuras de Pi ou O Lado Bom da Vida seria uma decisão mais simples, mas a trajetória da Academia, sobretudo nos últimos 50 anos, é de de, em grande parte das vezes, reprodução dos resultados divulgados antes do Oscar e que, curiosamente, surgiram por causa do Oscar. O Oscar inspirou a criação de prêmios para copiá-los.

Natural. Enquanto os críticos ganham para ver filmes, apontar tendências, reconhecer talentos, quem vota na Academia é pago para fazer filmes. Não precisa ir ao cinema, nem ser cinéfilo, e talvez só assista um filme quando for levar os filhos para ver a última animação da Pixar – o que explica a vitória de Valente? – ou o blockbuster da vez. Quem vota no Oscar prefere atores mais famosos porque tem preguiça de descobrir outros talentos. Quem vota no Oscar precisa de ajuda para fechar uma cédula e apontar cinco grandes atores coadjuvantes ou cinco grandes edições de som. Essa ajuda vem dos prêmios dos críticos, que por sua vez influenciam os prêmios dos sindicatos, e dessa simbiose nascem os favoritos. Se essa relação é tão íntima, por que a Academia deveria ignorar seus “fornecedores”? A antecipação da votação e do anúncio dos indicados, de certa forma, deu uma independência inédita ao Oscar, mas os membros da academia provaram que não se viram muito bem sozinhos.

E assim a Academia escolheu Argo, um filme com tema relevante, baseado numa história real extremamente hollywoodiana, bem dirigido, escrito, interpretado, competente em todos os aspectos técnicos. Um filme que a Academia supostamente já premiaria mesmo que fosse apenas julgar seus méritos. Então, por que diabos não indicaram Ben Affleck? Não existe explicação. Há quem acredite que muita gente achou que o cineasta já seria indicado e resolveu escolher outros nomes, mas talvez seja mais justo apostar que eles se atrapalharam mesmo. Argo foi o primeiro favorito. Ignorá-lo numa categoria tão importante foi muito estranho. O transtorno causado pela esnobada ao diretor foi desnecessário porque seu perfil já tornava o filme extremamente premiável, mas, sem Affleck na disputa, a Academia teve que dar um volta para explicar que o escolheria de qualquer maneira. E chegamos à situação incômoda de que o melhor filme do ano não tem seu principal responsável ao menos indicado.

Os membros da Academia ficaram numa sinuca: ou assumiam que “erraram” e votavam em Argo para melhor filme do mesmo jeito ou criavam num novo favorito, o que era complicado porque Lincoln, a aposta mais imediata não tinha ganho um só grande prêmio neste ano. E, como sabemos, a Academia sempre teve uma certa resistência a Steven Spielberg, somente cedendo a seus encantos quando não teve jeito (A Lista de Schindler) e evitando uma segunda vitória de um filme seu. O filme de Affleck ganhou e, talvez para dar estofo a sua escolha, também foi eleito como melhor roteiro adaptado e melhor montagem, este bastante merecido. Por conta desta necessidade de consolidar Argo, Lincoln talvez tenha perdido a força e, desta forma, o Oscar de roteiro, em que dividia o favoritismo. Mas o mais impressionante – e a maior surpresa desta edição do Oscar – foi a Academia sacrificar Steven Spielberg na direção, uma escolha quase certa, em prol de Ang Lee e seus As Aventuras de Pi.

Embora Lee tenha sido o único diretor a ser indicado ao Globo de Ouro, Critics Choice, DGA e Oscar, não tinha prêmios que embasavam sua candidatura. Sua vitória parece uma combinação de três coisas: é um filme consolidado, indicado em 11 categorias; é um filme popular, fácil de ser gostado, e cheio de méritos técnicos; e não deixaria Lincoln crescer ao ponto de ameaçar tirar o Oscar de Argo. Parece maluco, mas eu acho que Ang Lee só ganhou seu segundo Oscar por causa do filme de Ben Affleck. Pela lógica da Academia, Ben deveria ser o melhor diretor, mas como ele não concorria, a Academia rejeitou a ideia de laurear seu principal adversário na categoria de direção e a vitória em melhor filme se tornou mais confortável. O filme de Lee ganhou nos quesitos em que era favorito (trilha, fotografia e efeitos visuais), o que também ajuda a justificar sua vitória como diretor. O filme de Spielberg, que era meu preferido, ficou com surpreendente prêmio pelo desenho de produção e com a óbvia – e merecida – estatueta de melhor ator para Daniel Day-Lewis.

A vitória de Jennifer Lawrence por O Lado Bom da Vida me lembrou muito da de Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado. Não porque ela tirou o Oscar de Emmanuelle Riva por Amor, melhor filme estrangeiro, como Gwyneth tinha tirado o de Fernanda Montenegro por Central do Brasil, até porque eu acho que Jennifer era a melhor atriz do ano mesmo, enquanto Gwyneth, que é uma boa atriz, se beneficiou unicamente da campanha dos Weinstein. Mas mais por causa das indignações que esse prêmio causou. Anne Hathaway, cumprindo os prognósticos, ganhou como atriz coadjuvante por Os Miseráveis (também escolhido em mixagem de som e maquiagem), um Oscar que celebra uma estrela em ascensão, mas que encontraria uma vencedora mais merecedora em pelos menos três candidatas, sobretudo Helen Hunt em As Sessões. Embora tivesse ganho o Globo de Ouro e o BAFTA, a vitória de um emocionado Christoph Waltz por Django Livre foi surpreendente para mim. Ganhou dois Oscars fazendo um alemão um filme do mesmo diretor, com apenas 4 anos de diferença. Ajudou a celebrar o filme de Quentin Tarantino, que ainda ganhou como roteiro original (discurso melhor do que o roteiro, por sinal), e reconheceu uma ótima interpretação, apesar de eu preferir Tommy Lee Jones e Philip Seymour Hoffman.

Searching for Sugar Man foi o melhor documentário numa das melhores notícias da noite. Os figurinos de Anna Karenina ganharam um merecido reconhecimento, mas o belo filme de Joe Wright merecia muito mais. A Hora Mais Escura, que ganhou prêmios importantes no começo da corrida ao Oscar, se viu eclipsado pela polêmica da tortura e da conivência de Barack Obama num possível vazamento de informações, e ficou apenas com o prêmio de edição de som, além de protagonizar um dos episódios mais surpreendentes desta edição: um empate com 007 – Operação Skyfall. Se eu não estou enganado, um empate não acontecia desde 1969, quando Barbra Streisand, que cantou no In Memoriam, e Katharine Hepburn dividiram o Oscar de melhor atriz. O filme ganhou ainda pela belíssima “Skyfall”, escrita e interpretada por Adele, e os 50 anos de James Bond receberam uma homenagem especial, com Shirley Bassey cantando “Goldfinger”. Foi um dos poucos bons momentos musicais da noite. E eles foram tantos… Num ano em que o Oscar resolveu celebrar a música no cinema, duas das candidatas a melhor canção ganharam clipes em vez de performances ao vivo. E uma delas é cantada por Scarlett Johansson!

Os produtores da festa, produtores também de Chicago, acharam adequado homenagear os dez anos da vitória de seu filme no Oscar. Ou seja, se auto-homenagearam. Precisava desta masturbação? Que filme foi lembrado no Oscar dez anos depois? Junto com um número inteiro retirado do filme, vieram outras homenagens, ao fraquíssimo Dreamgirls e, numa das escolhas mais esdrúxulas da noite, a Os Miseráveis, um dos candidatos desta edição. O filme de Tom Hooper ganhou um pout-pourri com vários de seus momentos musicais cantados por todo o elenco – Helena Bonham-Carter em especial bem pouco à vontade -, ajudando a deixar a festa com o espírito do filme: longa, chata e burocrática. Seth Macfarlane, embora tivesse seus momentos (como a introdução de Meryl Streep, a brincadeira com Sally Field ou a aparição do ursinho Ted), foi um apresentador bem sem graça. Fez uma piada a la Rafinha Bastos sobre Abraham Lincoln e deve ter fechado algumas portas em Hollywood. Duvido que volte ao Oscar. A festa cansativa – alguém me explica Michelle Obama? – só não foi pior porque o pedido de desculpas a Ben Affleck ajudou a deixar a espera mais interessante e a mostrar que a Academia não quer confusão com ninguém – a não ser que seu nome seja Steven Spielberg.

Os vencedores

Filme – Argo, Ben Affleck
Direção – Ang Lee, As Aventuras de Pi
Ator – Daniel Day-Lewis, Lincoln
Atriz – Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Ator coadjuvante – Christoph Waltz, Django Livre
Atriz coadjuvante – Anne Hathaway, Os Miseráveis
Roteiro original – Django Livre, Quentin Tarantino
Roteiro adaptado – Argo, Chris Terrio
Filme estrangeiro – Amor (Áustria), Michael Haneke
Filme de animação – Valente, Mark Andrews & Brenda Chapman
Fotografia – As Aventuras de Pi, Claudio Miranda
Montagem – Argo, William Goldenberg
Direção de arte – Lincoln, Rick Carter; Jim Erickson, Peter T. Frank
Figurinos – Anna Karenina, Jacqueline Durran
Maquiagem – Os Miseráveis
Trilha sonora – As Aventuras de Pi, Mychael Danna
Canção – “Skyfall” (Adele & Paul Epworth), 007 – Operação Skyfall
Mixagem de som – Os Miseráveis, Andy Nelson, Mark Paterson & Simon Hayes
Edição de som – 007 – Operação Skyfall, Per Hallberg & Karen Baker Landers, e A Hora Mais Escura, Paul N.J. Ottosson
Efeitos visuais – As Aventuras de Pi, Bill Westenhofer, Guillaume Rocheron, Erik-Jan De Boer & Donald R. Elliott
Documentário – Searching for Sugar Man, Malik Bendjelloul
Curta Documentário – Inocente, Sean Fine & Andrea Nix Fine
Curta de Ação – Curfew, Shawn Christensen
Curta de Animação – Paperman, John Kahrs

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Lady Snowblood

Lady Snowblood

Lady Snowblood foi uma das maiores influências para que Quentin Tarantino construísse não apenas a trama, mas imaginasse algumas das cenas mais famosas do épico em duas partes Kill Bill. Exemplar máximo da pink violence, gênero de ação estrelado por mulheres, o filme dirigido por Toshiya Fujita em 1973 acompanha Yuki, uma mulher em busca de vingança. Ela é treinada por um mestre de artes marciais para caçar os assassinos de sua família. Elementos da personagem inspiraram tanto A Noiva de Uma Thurman quanto O-Ren Ishii, vivida por Lucy Liu. Observar as semelhanças – neste filme sem a menor vergonha de explodir em cores – é um atrativo à parte para o espectador.

Além dos jorros de sangue, da divisão da história em capítulos e das lutas com espada, há momentos em que Tarantino parece ter simplesmente refilmado o longa de Fujita. Parte da história de Yuki é mostrada em mangá, de onde o filme é derivado, da mesma maneira que o trauma da personagem de Liu é apresentado como um anime. Na revisão, o impacto de Lady Snowblood se perde um pouco, mas o filme tem uma série de achados visuais e de linguagem que ainda impressionam. A montagem não-linear ajuda a transformar a manter o supense do longa, mas parece não dar o ritmo que o filme exige. Letreiros invadem a tela, abrindo mão da última gota de formalidade na narrativa. A famosa cena da luta na neve de Kill Bill tem numa sequência desse filme sua maior inspiração.

Fujita flerta o tempo todo com a literatura barata, desde as interpretações dos atores, passando pelos exageros visuais, até personagens que se escondem atrás de máscaras e reviravoltas de roteiro que mais parecem saídos de novelas mexicanas. Esse conjunto transforma Lady Snowblood num programa delicioso, cujo maior talento é levar a sério sua brincadeira. O diretor conseguiu convencer o ator de Hiroshima, Meu Amor, Eiji Okada, a ser o principal vilão de seu conto amoral. Amoral porque Fujita se abstém de julgamentos e juízos de valores sobre os atos da personagem. Ele se limita a registrar de modo mais hiperbólico possível essa história de vingança. A atriz Meiko Kaji também canta o tema principal do filme, mais um elemento “importado” por Tarantino para seus filmes duplos. Curiosamente, assim como Kill Bill, embora por razões diferentes, Lady Snowblood também teve um segundo capítulo.

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[Shurayukihime, Toshiya Fujita, 1973]

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Django Livre

Django Livre

Não existe uma grande cena em Django Livre. Uma daquelas sequências arrebatadoras de verdade que nos acostumamos a ver nos filmes de Quentin Tarantino. Se, ao longo de 20 anos, o cineasta mais influente de sua geração pariu pelo menos uma dezena de momentos de puro êxtase cinéfilo, seu novo trabalho traz, no máximo, cenas inspiradas, como a saída dos protagonistas do saloon ou o ataque da Ku Klux Klan. Talvez as regras do western tenham cerceado a liberdade do homem, talvez tratar de um tema como a escravidão tenha lhe dado inéditos pudores. O fato é falta uma coisa que sempre sobrou nos filmes dele: “mojo”.

A palavra, pra quem não viu os filmes do Austin Powers, indica aquela energia invisível que deixa alguma coisa muito legal. Django Livre tem um pouco disso, mas quase nunca flui plenamente. O timing – ou a falta dele – é um problema real. A troca de montadores prejudicou bastante o ritmo do filme. Sally Menke, que editou todos os longas do diretor, morreu em 2010. Fred Raskin, auxiliar de montagem nos dois Kill Bill, assumiu a função, mas, pela primeira vez, um filme de Tarantino demora a passar, demora a acontecer, demora duas horas e 45 minutos.

A fórmula deste novo longa é a mesma que segue imutável há 20 anos: longos diálogos, geralmente espertíssimos; um projeto estético que recicla filmes B dos anos 60 e 70; quilos de música antiga; e um roteiro cheio de situações esdrúxulas que, no universo do diretor, ganham pertinência. Talvez o que não existe no western de Tarantino seja aquela vontade quase juvenil de se arriscar. Talvez façam falta também as referências à cultura pop, limitadas a pouco mais que a ponta de Franco Nero, o Django original, e à trilha emprestada de Ennio Morricone (mais um vez, um trabalho brilhante de reciclagem de temas musicais).

Se o texto não traz o deleite que se espera de um filme do diretor, o elenco é, mais uma vez, afinado. Jamie Foxx está bem, mas cresce muito na interação com Christoph Waltz, que merece todos os elogios. Ele constrói um personagem dono de uma ironia refinada, uma afetação moderada, tão encantador quanto o de Bastardos Inglórios. Leonardo Di Caprio e Samuel L. Jackson também estão bastante à vontade em seus papeis, mas como têm menos tempo em cena não conseguem se desprender do texto como faz Waltz. A ponta de Tarantino é que não acrescenta muito. Esta sequência que leva ao último ato do filme, parece não cumprir muito bem sua função.

A polêmica causada pelo filme, a quantidade de vezes que os personagens usam a palavra “nigger”, é uma bobagem. O que foi visto como um acinte para com a comunidade afro-descendente na terra de Lincoln parece mais uma característica do cinema do diretor. Além do mais, os “niggers” que saem dos bocas dos personagens brancos ajudam a contextualizar uma época e uma situação. O que, de certa forma, decepciona em Django Livre é que os espectadores dos filmes de Tarantino foram treinados para esperar que o diretor sempre se supere em sua obsessão por referências, mas desta vez a reciclagem não foi tão legal assim.

Django Livre EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Django Unchained, Quentin Tarantino, 2012]

P.S.: Django Livre concorre a 5 Oscars, inclusive o de melhor filme. Outros indicados deste ano: Argo, de Ben Affleck; e Indomável Sonhadora, de Benh Zeitlin.

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Oscar 2013: trailers de 12 filmes cotados

A bolsa de apostas para o Oscar 2013 segue apontando os filmes que têm mais chances de disputar o prêmio. Os títulos a seguir, em maior ou menor escala, são citados por sites e blogues especializados em analisar a temporada de prêmios de cinema como frontrunners na corrida. Abaixo os trailers (alguns sem legenda) dos filmes que parecem ter mais chance de aparecer na festa de fevereiro de 2013.

Amour, Michael Haneke

Anna Karenina, Joe Wright

Argo, Ben Affleck

Django Unchained, Quentin Tarantino

O Hobbit: Uma Viagem Inesperada, Peter Jackson

O Impossível, Juan Antonio Bayona

Indomável Senhora, de Benh Zeitlin

Life of Pi, Ang Lee

Lincoln, Steven Spielberg

The Master, Paul Thomas Anderson

http://www.youtube.com/watch?v=eQrSX8dhWw0

Les Misérables, Tom Hooper

Promised Land, Gus Van Sant

The Silver Lining Playbook, David O. Russell

http://www.youtube.com/watch?v=ibUk5BdZ-XM

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Top 10 Sight & Sound: votos dos diretores

Aqui seguem algumas das listas individuais dos cineastas para a enquete dos melhores filmes de todos os tempos, organizada pela revista inglesa Sight & Sound. Os títulos dos filmes estão em inglês.

Woody Allen

“Bicycle Thieves” (1948, dir. Vittorio De Sica)
“The Seventh Seal” (1957, dir. Ingmar Bergman)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles
“Amarcord” (1973, dir. Federico Fellini
“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)
“The 400 Blows” (1959, dir. Francois Truffaut)
“Rashomon” (1950, dir. Akira Kurosawa)
“La Grande Illusion” (1937, dir. Jean Renoir)
“The Discreet Charm Of The Bourgeoisie” (1972, dir. Luis Bunuel)
“Paths Of Glory” (1957, dir. Stanley Kubrick)

Richard Ayoade

“Persona” (1966, dir. Ingmar Bergman)
“Le Mépris” (1963, dir. Jean-Luc Godard)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Ordet” (1955, dir. Carl Theodor Dreyer)
“Barry Lyndon” (1975, dir. Stanley Kubrick)
“Crimes And Misdemeanors” (1989, dir. Woody Allen)
“The Apartment” (1960, dir. Billy Wilder)
“Tokyo Story” (1953, dir. Yasujiro Ozu)
“Make Way For Tomorrow” (1937, dir. Leo McCarey)
“Badlands” (1973, dir. Terrence Malick)

Bong Joon-Ho

“A City Of Sadness” (1989, dir. Hou Hsiao-hsien)
“Cure” (1997, dir. Kiyoshi Kurosawa)
“The Housemaid” (1960, dir. Kim Ki-young)
“Fargo” (1996, dir. The Coen Brothers)
“Psycho” (1960, dir. Alfred Hitchcock)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Touch Of Evil” (1958, dir. Orson Welles)
“Vengeance Is Mine” (1973, dir. Shohei Imamura)
“The Wages Of Fear” (1953, dir. Henri-Georges Clouzot)
“Zodiac” (2007, dir. David Fincher)

Francis Ford Coppola

“Ashes And Diamonds” (1958, dir. Andrzej Wajda)
“The Best Years Of Our Lives” (1946, dir William Wyler)
“I Vitteloni” (1953, dir. Federico Fellini)
“The Bad Sleep Well (1960, dir. Akira Kurosawa)
“Yojimbo” (1961, dir. Akira Kurosawa)
“Singin’ In The Rain (1952, dir. Stanley Donen & Gene Kelly)
“The King Of Comedy” (1983, dir Martin Scorsese)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“The Apartment” (1960s, dir. Billy Wilder)
“Sunrise” (1927, dir. F.W. Murnau)

Jean-Pierre & Luc Dardenne

“Accatone” (1961, dir. Pier Paolo Pasolini)
“The Big Heat” (1953, dir. Fritz Lang)
“Dodes’ka-den” (1970, dir. Akira Kurosawa)
“Germany Year Zero” (1948, dir. Roberto Rossellini)
“Loulou” (1980, dir. Maurice Pialat)
“Modern Times” (1936, dir. Charlie Chaplin)
“The Searchers” (1956, dir. John Ford)
“Shoah” (1985, dir. Claude Lanzmann)
“Street Of Shame” (1956, dir. Kenji Mizoguchi)
“Sunrise” (1927, dir. F.W. Murnau)

Guillermo Del Toro

“Frankenstein” (1931, dir. James Whale)
“Freaks” (1932, dir. Todd Browning)
“Shadow Of A Doubt” (1943, dir. Alfred Hitchcock)
“Greed” (1925, dir. Erich Von Stroheim)
“Modern Times” (1936, dir. Charlie Chaplin)
“La Belle Et La Bete” (1946, dir. Jean Cocteau)
“Goodfellas” (1990, dir. Martin Scorsese)
“Los Olvidados” (1950, dir. Luis Bunuel)
“Nosferatu” (1922, dir. F.W. Murnau)
“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)

Sean Durkin

“The Shining” (1980, dir. Stanley Kubrick)
“Rosemary’s Baby” (1968, dir. Roman Polanski)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“3 Women” (1977, dir. Robert Altman)
“The Birds” (1963, dir. Alfred Hitchcock)
“The Goonies” (1985, dir. Richard Donner)
“The Piano Teacher” (2001, dir. Michael Haneke)
“Persona” (1966, dir. Ingmar Bergman)
“The Panic In Needle Park” (1971, dir. Jerry Schatzberg)
“The Conformist” (1970, dir. Bernardo Bertolucci)

Michel Hazavanicius

“City Girl” (1930, dir. F.W. Murnau)
“City Lights” (1931, dir. Charlie Chaplin)
“To Be Or Not To Be” (1942, dir. Ernst Lubitsch)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“The Apartment” (1960, dir. Billy Wilder)
“The Shining” (1980, dir. Stanley Kubrick)
“North By Northwest” (1959, dir. Alfred Hitchcock)
“The Third Man” (1949, dir. Carol Reed)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Snow White And The Seven Dwarfs” (1937, dir. Walt Disney)

Miranda July

“Blind” (1987, dir. Frederick Wiseman)
“Smooth Talk” (1985, dir. Joyce Chopra)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)
“After Life” (1998, dir. Hirokazu Koreeda)
“Somewhere In Time” (1980, dir. Jeannot Szwarc)
“Cheese” (2007, dir. Mika Rottenberg)
“Punch Drunk Love” (2002, dir. Paul Thomas Anderson)
“The Red Balloon” (1956, dir. Albert Lamorisse)
“A Room With A View” (1985, dir. James Ivory)
“Fish Tank” (2009, dir. Andrea Arnold)

Michael Mann

“Apocalypse Now” (1979, dir. Francis Ford Coppola)
“Battleship Potemkin” (1925, dir. Sergei Eisenstein)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“Avatar” (2009, dir. James Cameron)
“Dr. Strangelove” (1964, dir. Stanley Kubrick)
“Biutiful” (2010, dir. Alejandro Gonzalez Inarritu)
“My Darling Clementine” (1946, dir. John Ford)
“The Passion Of Joan Of Arc” (1928, dir. Carl Theodor Dreyer)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“The Wild Bunch” (1969, dir. Sam Peckinpah)

Steve McQueen

“The Battle Of Algiers” (1966, dir. Gillo Pontecorvo)
“Zero de Conduite” (1933, dir. Jean Vigo)
“La Regle du Jeu” (1939, dir. Jean Renoir)
“Tokyo Story” (1953, dir. Yasujiro Ozu)
“Couch” (1964, dir. Andy Warhol)
“Le Mépris” (1963, dir. Jean-Luc Godard)
“Beau Travail” (1998, dir. Claire Denis)
“Once Upon A Time In America” (1984, dir. Sergio Leone)
“The Wages Of Fear” (1953, dir. Henri-Georges Clouzot)
“Do The Right Thing” (1989, dir. Spike Lee)

Jeff Nichols

“Cool Hand Luke” (1967, dir. Stuart Rosenberg)
“Badlands” (1973, dir. Terrence Malick)
“Hud” (1963, dir. Martin Ritt)
“The Hustler” (1961, dir. Robert Rossen)
“Lawrence Of Arabia” (1962, dir. David Lean)
“Butch Cassidy And The Sundance Kid” (1969, dir. George Roy Hill)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“North By Northwest” (1959, dir. Alfred Hitchcock)
“Stagecoach” (1939, dir. John Ford)
“Fletch” (1985, dir. Michael Ritchie)

David O. Russell

“It’s A Wonderful Life” (1946, dir. Frank Capra)
“Chinatown” (1974, dir. Roman Polanski)
“Goodfellas” (1990, dir. Martin Scorsese)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)
“Pulp Fiction” (1994, dir. Quentin Tarantino)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Young Frankenstein” (1974, dir. Mel Brooks)
“The Discreet Charm Of The Bourgeoisie” (1972, dir. Luis Bunuel)
“The Godfather” (1972, dir. Francis Ford Coppola)
“Blue Velvet” (1986, dir. David Lynch)
“Groundhog Day” (1993, dir. Harold Ramis)

Martin Scorsese

“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)
“2001: A Space Odyssey” (1968, dir. Stanley Kubrick)
“Ashes And Diamonds” (1958, dir. Andrzej Wajda)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“The Leopard” (1963, dir. Luchino Visconti)
“Palsa” (1946, dir. Roberto Rossellini)
“The Red Shoes” (1948, dir. Michael Powell & Emeric Pressburger)
“The River” (1951, dir. Jean Renoir)
“Salvatore Giuliano” (1962, dir. Francesco Rosi)
“The Searchers” (1956, dir. John Ford)
“Ugetsu Monogatari” (1953, dir. Kenji Mizoguchi)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)

Quentin Tarantino

“The Good, The Bad & The Ugly” (1966, dir. Sergio Leone)
“Apocalypse Now” (1979, dir. Francis Ford Coppola)
“The Bad News Bears” (1976, dir. Michael Ritchie)
“Carrie” (1976, dir. Brian DePalma)
“Dazed And Confused” (1993, dir. Richard Linklater)
“The Great Escape” (1963, dir. John Sturges)
“His Girl Friday” (1940, dir. Howard Hawks)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“Pretty Maids All In A Row (1971, dir. Roger Vadim)
“Rolling Thunder” (1977, dir. John Flynn)
“Sorcerer” (1977, dir. William Friedkin)
“Taxi Driver” (1976, dir. Martin Scorsese)

Edgar Wright

“2001: A Space Odyssey” (1968, dir. Stanley Kubrick)
“An American Werewolf In London” (1981, dir. John Landis)
“Carrie” (1976, dir. Brian DePalma)
“Dames” (1934, dir. Ray Enright & Busby Berkeley)
“Don’t Look Now” (1973, dir. Nicolas Roeg)
“Duck Soup” (1933, dir. Leo McCarey)
“Psycho” (1960, dir. Alfred Hitchcock)
“Raising Arizona” (1987, dir. The Coen Brothers)
“Taxi Driver” (1976, dir. Martin Scorsese)
“The Wild Bunch” (1969, dir. Sam Peckinpah)

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À Prova de Morte

À Prova de Morte

Não existe uma razão minimamente aceitável para que um filme de um diretor como Quentin Tarantino tenha permanecido inédito no circuito comercial brasileiro por quase três anos. À Prova de Morte foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2007 e, desde então, viu sua data de estreia ser adiada várias vezes até que, finalmente, teve que trocar de distribuidora para chegar aos cinemas. Uma estupiez que privou o público brasileiro de um filmaço.

O longa faz parte de um projeto em conjunto com o parceiro de velha data do cineasta, Robert Rodriguez, o filme duplo Grindhouse (a metade de Rodriguez, Planeta Terror, já foi até lançada em DVD). E, a princípio, este é o filme menos pretensioso de Tarantino, uma homenagem aos filmes de velocidade dos anos 70 que se ocupa muito pouco – ou quase nada – com aquele desfile de referências à cultura pop típico da filmografia do diretor. A verborragia continua, mas, nos primeiros 40 minutos de filme, assume a forma de um imenso girl talk.

Sexo, claro, é o assunto principal. E os diálogos, baratos, são deliciosos, inspirados explicitamente nos filmes descrebrados que Tarantino homenageia aqui. Mas essa homenagem não está apenas no texto ou na trilha sonora, mas em todo o resto. A fotografia da primeira metade do filme, assinada pelo próprio cineasta, abusa de ranhuras e borrões para envelhecer o longa. E a montagem de Sally Menke, companheira fiel do diretor, sem brincadeiras com a estrutura, marca tradicional do cinema de Tarantino, usa uma série de truques para reforçar essa proposta, como cortes bruscos e repetições. Às vezes é quase um trabalho de DJ.

 

O filme é claramente dividido em dois. Algum desavisado pode ignorar o guilty pleasure concebido por Tarantino e chamar a primeira metade do longa de misógino, mas isso se anula totalmente na segunda parte, especialmente no final. O único elo entre a primeira e a segunda metades é o personagem de Kurt Russell, o Dublê Mike, de longe a melhor interpretação que o ator já entregou ao público, tradição de Tarantino, que já havia feito o mesmo com Pam Grier, Darryl Hannah e John Travolta.

Em sua segunda metade, o filme muda bastante. O papo feminino, versão do diretor, permanece, mas as interferências visuais praticamente desaparecem, dando espaço para um trabalho de câmera é mais elaborado, embora as imagens continuem à moda antiga. Toda essa concepção retrô vem acompanhada por cenas de ação espetaculares, como a do choque entre os carros, que ganha vários pontos de vista. Todos com detalhes diferentes e imagens igualmente impressionantes.

Talvez a aparência descompromissada esconda o filme mais puro de Tarantino. À Prova de Morte, em sua amoralidade e seu imediatismo, parece ser feito apenas para se divetir. E, na boa, tem coisa melhor?

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[Death Proof, Quentin Tarantino, 2007]

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Bastardos Inglórios

Brad Pitt, Melanie Laurent, Michael Fassbender, Christoph Waltz

Quentin Tarantino parece estar preso para sempre a um tipo de cinema que se baseia em violência, humor e citações, mas esse diretor ao mesmo que é tão fiel ao estilo que ajudou a desenhar é completamente hábil em fazer sua engrenagem funcionar que não há um só de seus filmes que não seja muito bom. Bastardos Inglórios é um Tarantino clássico, mas apurado. O diretor já tem 18 anos de carreira e filma melhor a cada novo trabalho que apresenta. A cena inicial deste filme é uma citação explícita à cena que abre Os Imperdoáveis.

Esta imagem inicial conduz o filme, em pouco mais de cinco minutos a uma daquela clássicas sequências de diálogos dos filmes de Tarantino, a conversa entre o fazendeiro e o coronel interpretado por um majestoso e impecável Christoph Waltz. O texto, ultra-preconceituoso, é tão articulado (e bem interpretado pelos dois atores) que a teoria do nazista desce fácil. A seqüência se encerra com mais um dos espetáculos tarantinescos de violência e uma fuga perfeita.

O filme não havia chegado nem ao primeiro quarto e já havia muito para guardar na memória, mas Tarantino não para por ali e nos apresenta a seu esquadrão classe A, a concessão humorística a sua história “séria”. Surgem Brad Pitt, Eli Roth, Til Schweiger e trupe, cada um com sacadas geniais na caracterização de seus personagens. Curiosamente, este filme é o que guarda a montagem mais comportada da editora Sally Menke, que cortou todos os longas do diretor. As peripécias estruturais se resumem a flashbacks que apresentam os personagens.

No mundo de Tarantino, a história de vingança encontra a História e não há qualquer preocupação de se a segunda poderia confinar a primeira a qualquer aprisionamento. A História está a serviço do cinema do diretor. Ele faz uso dela da maneira com quer, sempre com inteligência que garante substância ao filme. A afirmação final do personagem de Brad Pitt pode não ser a verdade. Mas isso pouco importa. Bastardos Inglórios não foi feito para ser um marco no cinema de Tarantino. Mas não deixa de ser curioso que seu filme mais formal seja, por razões outras, seu filme mais ousado.

Bastardos Inglórios EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Inglorious Basterds, Quentin Tarantino, 2009]

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Kill Bill: Vol. 2

Kill Bill: Vol. 2

O questionamento mais imediato que pode ser feito sobre os dois volumes de Kill Bill é como eles podem ser tão díspares entre si. A saga de vingança de Uma Thurman segue um caminho no primeiro dos filmes gêmeos e se transforma radicalmente no longa que está em cartaz. E isso não é necessariamente bom. Kill Bill: Vol. 1 era um filme à parte dentro da obra de Quentin Tarantino. O diretor verborrágico havia, finalmente, conseguido transferir suas incontáveis referências do texto para o material filmado. A construção de seu filme priorizava a imagem ao diálogo – a fotografia nunca havia sido tão bela no cinematografia de Tarantino.

A história proposta pelo cineasta, um típico produto de sua mente fértil, foi contada com um inédito domínio técnico e artístico. Não que seus filmes anteriores seguissem fórmulas padronizadas. Pelo contrário, Tarantino é o maior responsável pela linguagem que redefiniu o cinema pop dos anos 90 para cá. Mas a fratura das linha espaço-temporal nunca o transformou num cineasta de excelência. O volume 1 de sua saga parecia ser o ponto mais alto do diretor nesse sentido. Tarantino estava muito mais à vontade com o suporte que escolheu para trabalhar. Parecia mais maduro no tratamento de imagem, na cristalização das referências, numa tranqüilidade maior ao se expressar. O texto, que continuava afiado, era apenas a base para a criação. E o filme é coeso, bem estruturado, belissimamente fotografado. Seria a vitória da estrutura no cinema de Tarantino, que finalmente (e corajosamente) abdicava do que o consagrou.

Esse volume 2, então, decepciona porque volta no tempo e ignora os avanços na mão do diretor. A questão não é que Kill Bill: Vol. 2 seja um filme ruim. Ele definitivamente não o é, mas é muito inferior à primeira parte. O cuidado com a imagem ainda existe, mas o filme volta a se apoiar em contar uma historinha, como se Tarantino tivesse reservado para a segunda fase de sua saga uma dezenas de explicações que gostaria de ter dado antes. Com seus flashbacks didáticos e seu texto mais interessado em fazer gracinhas, o filme prejudica bastante a interpretação de Uma Thurman (ótima, no volume 1), resumida a uma personagem atrapalhada e cheia de caras e bocas.

Se o filme anterior conseguia se manter no exato limite entre o pop inteligente e o exagero ridículo, sem nunca invadir o espaço aéreo do segundo, o novo longa parece querer mergulhar com prazer e sem medo no patético, sem muita chance de emergir. Isso é flagrante desde o começo nas tramas e textos dos personagens de Michael Madsen e Daryl Hannah, francamente desperdiçada depois da minúscula e deliciosa participação no volume 1. O duelo entre Uma e Daryl não chega aos pés das seqüências de lutas entre a protagonista e as personagens de Vivica A. Fox e Chiaki Kuriyama, que permanece como a melhor coadjuvante dos dois episódios.

A influência dos western-spaghetti fica mais evidente, mas nem essa suposta homenagem aos planos de maravilhoso Sergio Leone conseguem livrar este segundo volume do triste destino da comparação. As diferenças entre os tons dos dois filmes fazem questionar se Tarantino realmente tinha a intenção de lança-los como um só longa-metragem. Se a idéia era essa, dividir a história parece ter sido uma solução inteligente ou pelo menos eficaz. Caso Kill Bill fosse um só filme, talvez tivesse tido o impacto bem menor sobre a platéia. Porque este episódio complementar não chega aos pés do primeiro.

Kill Bill: Vol. 2 EstrelinhaEstrelinha½
[Kill Bill: Vol. 2, Quentin Tarantino, 2004]

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