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Pelo Malo

Pelo Malo

O cinema de Mariana Rondón não é um cinema político, embora o país da diretora seja a República Bolivariana da Venezuela, um lugar onde as expressões artísticas, assim como todas manifestações em si, estão diretamente relacionadas ao manifesto político. Mas a cineasta não lava as mãos em relação a fazer observações sobre o lugar onde nasceu. Em Pelo Malo, enquanto parece se concentrar numa trama simples, a de um garoto que não gosta de ter o cabelo “ruim” do título original, a diretora abre pequenos espaços, escondidos no meio da narrativa, para se pronunciar sobre a falta de liberdade, o fanatismo e até as formas de marketing utilizadas pelo governo para se afirmar junto à população.

O posicionamento de Mariana Rondón aparece na maneira com a cineasta apresenta as imagens da cidade e em como mescla a história com pronunciamentos exibidos no rádio e notícias veiculadas da TV. Tudo cuidadosamente escolhido e discretamente costurado à narrativa. Essa postura, que pode passar despercebida, transforma a trama do filme em muito mais do que uma história bonita, pescada do cotidiano de uma grande cidade. A vida daquela família pobre vira um reflexo da rotina de um país. A luta pela sobrevivência – seja ela a sobrevivência física ou espiritual – está diretamente ligada a um contexto sócio-econômico sobre o qual Mariana não se debruça, mas não deixa passar em branco.

Esse contexto oprime os personagens e desenha uma relação de não aceitação para mãe e filho. Junior não aceita o fato de que não tem cabelos lisos para tirar a foto da escola, que ele quer que seja vestido como cantor. Já Marta não aceita perceber, a cada pequeno detalhe do dia-a-dia, as inclinações de sexualidade que o filho mais velho aparenta ter. Ela, que precisa alimentar duas crianças sozinha e que perdeu o emprego recentemente, enxerga na possível homossexualidade do filho um amálgama de todos os males de sua vida. Marta carrega em si a dureza e a rispidez que a vida nesta Venezuela sem grandes perspectivas lhe proporcionam. Nomear um único inimigo talvez seja sua única forma de se manter viva.

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[Pelo Malo, Mariana Rondón, 2013]

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