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Jackie

Jackie

A música de Mica Levi, indicada ao Oscar neste ano, funciona perfeitamente para estabelecer a atmosfera de filmes estranhos como Sob a Pele. Se, isoladamente, o trabalho da compositora oferece um conjunto de experiências sensoriais para quem ouve, se transformando numa obra particular e cheia de complexidades estruturais e tonais, quando serve como trilha sonora para um filme a música da londrina esbarra nas intenções do projeto.

Em Jackie, Pablo Larraín acerta no recorte, mas, como de praxe, erra no tom. Ao mirar num curto e importante período da história da primeira-dama, evitando o problema da maioria das biografias no cinema: querer dar conta de toda uma história de vida. Assumir um certo retrato controverso da personagem também é um ponto a favor, já que até pelo status de ícone feminino, de moda, de comportamento, Jacqueline Kennedy sempre é vista através de um excesso de filtros positivos e quase nunca é devidamente problematizada.

O grande senão é meio comum a todos os filmes de Larraín, o tom, excessivamente solene, não necessariamente em relação a Jackie, mas à importância do filme, tom construído justamente em cima na trilha tensa de Mica Levi. Nesse momento, de autora original, indeoendente, ousada, Levi assume a condição de subordinada do diretor, ou ainda, de cúmplice num crime hediondo cada vez mais comum no cinema: querer que o filme seja maior do que realmente é. O trabalho continua muito bom, mas é usado de forma equivocada.

No entanto, a maneira como o diretor constrói a história e a maneira como o roteiro aposta num foco específico até justificariam o clima tenso que o chileno, estreando em Hollywood, costura. Ao lado de No, talvez seja um dos trabalhos mais diretos, pontuais e objetivos de Larraín. Mas a economia dramática e a obsessão documental não impediram Natalie Portman de recorrer a uma interpretação reverente, imitando sotaque, pontuações e pronúncias, de forma até irritante em alguns momentos, mas, mesmo assim, a atriz encontra o espaço para criar uma personagem um pouco mais complexa do que a história registrou.

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[Jackie, Pablo Larraín, 2016]

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Oscar 2013: filme estrangeiro

Filmes estrangeiros

O Amante da Rainha (Dinamarca), Nikolaj Arcel
Amor (Áustria), Michael Haneke
Expedição Kon-Tiki (Noruega), Joachim Rønning & Espen Sandberg
A Feiticeira da Guerra (Canadá), Kim Nguyen
No (Chile), Pablo Larraín

Amor, de Michael Haneke, o duro retrato do ocaso de um casal, é uma das maiores unanimidades do ano. Pelo menos no mundo dos prêmios de cinema. Dificilmente o longa vai perder na categoria em que é favorito. Em outros anos, o dinamarquês O Amante da Rainha, melodrama bem dirigido, de nobreza iluminista, que segue algumas fórmulas que a Academia adora, poderia representar uma ameaça, mas o filme de Haneke não perdeu nenhum grande prêmio nesta temporada. E, além de filme estrangeiro, está indicado nos quesitos de filme, direção, atriz e roteiro original, o que o deixa praticamente imbatível. No, ótimo relato documental de Pablo Larraín sobre o plebiscito que destronou os militares no Chile, também tem algum respeito e um porta-voz importante na pele de Gael García Bernal, mas não teve o alcance necessário. O norueguês Kon-Tiki, guarda a curiosidade de ser a dramatização da história real que virou um documentário vencedor do Oscar (em 1950), mas a realização convencional não empolgou e chega sem fôlego à reta final. A Feiticeira da Guerra materializa os fantasmas dos conflitos africanos com certa dose de maniqueísmo e não deve assustar ninguém.

Quem ganha: Amor (Áustria), Michael Haneke
Quem ameaça: nenhum candidato
Quem merece: No (Chile), Pablo Larraín
Quem faltou na lista: O Palhaço (Brasil), Selton Mello

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No

No

O chileno Pablo Larraín resolveu correr riscos com No, terceiro longa da trilogia composta também por Post Mortem e Tony Manero. O filme, que retrata os bastidores do plebiscito em que o povo do Chile teve o direito de legitimar ou não o governo do ditador Augusto Pinochet, assumiu uma linguagem visual ousada para uma época em que as imagens em alta definição, mais do que objetivo, são regra na produção audiovisual.

A história do longa, estrelado por Gael García Bernal, se passa em 1988, quando por causa de uma pressão internacional o governo militar chileno se viu obrigado a ter o reconhecimento da população do país. Para tanto, determinou a realização do referendo e dividiu espaço na TV com os partidos de oposição. Mas se a situação política é o cenário para o filme, o foco está nos bastidores da criação das campanhas televisivas em que cada lado tenta ganhar o voto dos eleitores.

Com um farto arquivo em peças publicitárias da época, Larraín resolveu emprestar ao filme o mesmo acabamento visual do material histórico, filmando com câmeras de TV como as que eram utilizadas no fim dos anos 80. O resultado pode parecer incômodo para o espectador, que não dificilmente poderá confundir a falta de qualidade das imagens com uma possível falta de qualidade da própria cópia do filme que assiste.

Mas o preço pago pela falta foco e definição e pelo excesso de granulação em muitas cenas, se mostra pequeno perto da absoluta simbiose entre a dramatização dos eventos e as imagens de arquivo. Esse equilíbrio se reflete no filme como um todo, já que Larraín evita o ranço comum a filmes políticos-históricos, centrando fogo na construção das campanhas publicitárias, que se revelam tão sangrentas quanto os conflitos armados.

É uma das interpretações mais inspiradas de Gael García, que faz o papel de um dos chefes da campanha pelo “não” e evita tanto o clichê de compor um personagem idealista como os maneirismos comuns aos retratos que o cinema costuma fazer dos publicitários. O contraponto entre seu personagem e Alfredo Castro, seu chefe numa agência de propaganda e seu rival na campanha política, é uma das idiossincrasias mais interessantes do filme.

Castro já tinha trabalhado com Larraín nos dois filmes anteriores da trilogia dedicada à ditadura de Pinochet. Neste capítulo final, aplaudido em Cannes e candidato oficial do Chile ao Oscar de filme estrangeiro, o cineasta realiza seu trabalho mais apurado e ambicioso, de uma fluidez impressionante para um filme do gênero, do qual nem a imperfeição plástica intencional pode tirar a beleza.

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[No, Pablo Larraín, 2012]

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