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Snowden: Herói ou Traidor

Snowden

Snowden perde um pouco de seu poder aterrorizante se você assistiu, alguns dias antes, o documentário Zero Days, sobre como os EUA invadiram e desestabilizaram vários sistemas operacionais no Irã e podem e fazem o mesmo com você. Mas a história do homem que revelou o Big Brother da vida real patrocinado pela “América” ainda tem seu lado fascinante. A grande questão é que, na intenção de colocar Edward Snowden como herói solitário, posto com o qual certamente deve se identificar, Oliver Stone realiza uma biografia burocrática do “inimigo íntimo” número um da terra que elegeu Donald Trump.

Ainda que use uma montagem não-linear para dar mais dinâmica ao filme, Stone sempre esbarra em tentativas didáticas de mostrar os embates éticos do personagem. Joseph Gordon Levitt está correto como protagonista, a não ser pela incômoda ideia de emular o sotaque de Snowden, o que deixa cenas dramáticas quase engraçadas. Na ânsia de fazer um retrato fiel, Stone parece não estar muito disposto a experiências visuais, o que faz bastante diferença diante da história de um mestre dos computadores. A fotografia, geralmente acomodada, ajuda a passar esta impressão de frieza ao filme.

Há poucos momentos inspirados. O melhor deles é quando Snowden é confrontado por seu chefe numa sala de reuniões. Os dois falam por um telão, mas Stone gigantifica o personagem de Rhys Ifans, como se o embate homem contra sistema acontecesse diante de nossos olhos. A meia hora final funciona porque a tensão finalmente é adicionada ao filme e a reprodução das cenas do documentário Citizenfour ganham agilidade. O resto é clichê de um Oliver Stone sempre fadado a se repetir.

Snowden: Herói ou Traidor EstrelinhaEstrelinha½
[Snowden, Oliver Stone, 2016]

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Marcas da Violência

Marcas da Violência

Há um limite quase invisível entre o sério e o bufo no novo filme de David Cronenberg. Um limite que pode ser enxergado com uma analogia de como a violência está perto do espetáculo no mundo atual, sobretudo nos Estados Unidos. Talvez seja esse o ponto central do filme, que o transporta da condição de cinemão para cinema grande. Compará-lo às tentativas mais escandalosas de lembrar da paixão norte-americana pelo que se convencionou chamar de cultura da violência (Assassinos por Natureza, de Oliver Stone, ou Tiros em Columbine, de Michael Moore) chega a ser covardia tamanha a sutileza de Cronenberg diante da questão.

O que chega a ser genial em Marcas da Violência - mais um exemplo de como um título bonito consegue ser deformado no Brasil – é justamente como Cronenberg coordena duas coisas: primeiro, a passagem do pequeno (a história da família) para o gigante (como ela reflete o país). Isso acontece com absoluta elegância, muito distante de qualquer caráter panfletário ou de denúncia, num crescendo de roteiro e direção, que, guardando todas as diferenças, me pareceu muito próximo do que Rithy Pahn conseguiu no maravilhoso Os Atores do Teatro Queimado. O segundo ponto é como todos esses signos estão mascarados sob a égide do filme de porrada, com cenas quase cômicas, cuja reação da platéia, inclusive, me incomodou muito, a princípio. Nada como o tempo para me mostrar que esse talvez seja o grande golpe do filme.

Mas Cronenberg vai além. Utilizando uma lógica muito cara aos quadrinhos, de onde a história foi emprestada, ele, além de tudo, consegue fazer um filme sobre a família. Aquela família que é você quem escolhe e sobre o futuro, aquele futuro que é você quem desenha. No filme do canadense, Tom Stall (Viggo Mortensen, à vontade) escolheu sua parceira (Maria Bello, brilhante) e com ela teve seus dois filhos. E nada vai fazer com que ele desista da família dele ou do futuro que ele desenhou pra ela. Nada que venha de fora, nada que venha de dentro. A silenciosa última cena, que, acreditem, eu ouvi um comentário numa fila da Mostra de que parece um final de produtor, é o laço mais perfeito – e mais coerente com tudo o que se viu na tela – no presente que Cronenberg escolheu para seu espectador.

Marcas da Violência EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[A History of Violence, David Cronenberg, 2005]

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Domingo Sangrento

O cinema bebe da fonte da história desde seus primeiros dias, mas como é uma expressão artística se permite interpretações próprias sobre fatos que saíram dos livros ou dos jornais. Certas vezes, isso dá certo. Mas não são raras as polêmicas em torno de possíveis distorções históricas. Oliver Stone, por exemplo, adora uma tese. Adora dizer “foi assim” e acabou. Pode perguntar o que quiser sobre qualquer assunto para o senhor Stone que ele já terá pronta sua própria teoria, cheia de conspirações, sobre o tema. É por isso que nem sempre se pode confiar no que se vê na tela.

Domingo Sangrento, o filme, é baseado num fato real: o famoso domingo na década de 70 quando os militares ingleses mataram 13 pessoas e deixaram outros 14 feridos numa manifestação pela independência da Irlanda do Norte. Mas o filme de Paul Greengrass não usa os mesmos artifícios conspiratórios de Oliver Stone. O cineasta e roteirista resolve seu roteiro escrevendo uma reportagem sobre o episódio. A questão aqui não é imparcialidade ou não – até porque Greengrass é claramente favorável à versão dos irlandeses, que realmente parece ser a certa. O que está em jogo é como contar uma história real e não soar banal e panfletário.

O filme adota um tom descritivo, quase documental, desde o início, mostrando como o parlamentar Ivan Cooper, vivido por um competentíssimo James Nesbitt, mobilizou uma cidade para uma marcha que deveria ser pacífica. Paralelo a isso, o filme mostra a articulação dos militares ingleses e o que aconteceu na casa de um dos militantes. A montagem, assim como a fotografia realista (câmera no ombro o tempo inteiro), não são novidades. Todo mundo já fez isso. Mas poucos com esse intento. O de voltar no tempo e mostrar o que aconteceu. Nisso, o filme de Greengrass é perfeito, como poucas reportagens de TV em tempos de guerra conseguem ser.

A interpretação de James Nesbitt merece atenção. A indignação no rosto do ator faz pensar em como o ódio é tão presente na nossa cultura. Em como a mínima provocação vira motivo para matar. Vira justificativa. Tudo está mais fácil hoje em dia. Inclusive perder o controle. A cólera surge do nada e se apossa das pessoas que descarregam o que quer que seja em forma de balas de metralhadora no peito de alguém. O filme de Paul Greengrass mostra muito bem que os motivos do homem podem ser de uma banalidade assustadora.

Domingo Sangrento EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Bloody Sunday, Paul Greengrass, 2002]

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