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Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo

Quando a maior qualidade de um filme é “não ofender ninguém”, as chances de uma obra como esta ser um produto descartável são grandes. Mas, por alguma curiosa razão, Estrelas Além do Tempo guarda méritos em sua história cheia de shiny ‘brave’ people. No meio de uma produção massiva de filmes de temática negra sérios que saíram em busca de um público mais abrangente, como Moonlight, O Nascimento de uma Nação, Loving e Um Limite Entre Nós, o filme de Theodore Melfi parece o mais raso, mas é um dos, senão “o” mais eficiente.

O maior trunfo do roteiro de Estrelas Além do Tempo é justamente mirar numa plateia mais ampla. Não é à tôa que o filme é o mais bem sucedido nas bilheterias entre os indicados ao Oscar. Melfi fez um longa disposto a conversar com qualquer tipo de público. Pode até ser arrumadinho demais, coordenando talvez excessivamente as conquistas de suas protagonistas, mas tem dois grandes feitos, além, claro de celebrar estas personagens.

O primeiro é adotar um tom solar, sem trocadilhos com a Nasa ou a conquista do espaço, coisa difícil em se tratando de um filme onde a questão “cor de pele x preconceito” está no centro das discussões. Segundo, quase nunca construir suas narrativas no modelo maniqueísta de vitimizar suas protagonistas, armadilha em que geralmente muitos filmes de temática semelhante caem. As personagens não reagem. Elas agem. Pode parecer pouco, mas num padrão de filme como este, é uma baita conquista.

Adotando estas táticas, o filme talvez perca um pouco de sua profundidade, mas ganha em seu alcance. Estrelas Além do Tempo convida o espectador a torcer Katharine, Mary e Dorothy sem manipulá-lo emocionalmente. Ficar do lado das personagens se torna algo natural para quem assiste ao filme, cujo roteiro é construído em cima de suas conquistas e não de seus percalços. A identificação é imediata e o tom leve, às vezes engraçadinho, atrai um público para o qual uma história de superação narrada com simpatia conta muito.

E com Janelle Monaë, Octavia Spencer e Taraji P. Henson à frente do trio, o bloco destas estrelas passa fácil por qualquer lugar.

Estrelas Além do Tempo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hidden Figures, Theodore Melfi, 2016]

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Expresso do Amanhã

O Expresso do Amanhã

Um trem autossustentável percorre todos os continentes, transportando passageiros divididos em castas sociais rigorosamente definidas. Há dezessete anos, o expresso não pode mais parar porque o mundo está vivendo uma nova era glacial, depois que o próprio homem lançou uma substância na atmosfera para frear o aquecimento do planeta. A humanidade morreu. E o que restou dela mora naquele conjunto de vagões. Expresso do Amanhã é cheio de simbolismos e repleto de filosofias. Afinal, o que acontece depois do fim? Onde é que nós acabamos? O recomeço é necessariamente uma volta à barbárie?

A mistura de existencialismo com ficção-científica apareceu primeiro nos quadrinhos. Mais especificamente na graphic novel francesa Le Transperceneige, agora transportada para o cinema pelas mãos do coreano Bong Joon-ho, que comanda uma superprodução com elenco e equipe internacionais. Um dos cineastas mais bem sucedidos de seu país, ele parecia ser o nome certo para equilibrar as questões profundas que o texto levanta com a fluidez e as doses de humor necessárias para traduzir uma narrativa surgida nas HQs. Embora haja momentos em que essa combinação funcione, em boa parte da viagem, o filme sai dos trilhos.

A culpa não parece ser inteiramente de Joon-ho, mas da própria natureza do material. As páginas de uma revista em quadrinhos talvez sejam mais apropriadas para receber a ideia de vagões ultracoloridos em que as personagens parecem saídos de cenas dirigidas por Jean-Pierre Jeunet. O cinema talvez explicite demais a diferença entre o tom sério da revolta da população da terceira classe e a comédia quase involuntária que surge nos espaços dominados pelos passageiros mais ricos e ainda talvez reforce a caricatura de algumas personagens, em especial a defendida por Tilda Swinton, que parece não dialogar com o resto do filme.

Isso é bem curioso porque Bong Joon-ho soube trafegar com excelência dos excessos dramáticos para os momentos de humor no neoclássico O Hospedeiro, uma de suas obras mais consagradas. Mas talvez essa maleabilidade seja mais fácil quando o diretor e roteirista conta uma história somente sua e possivelmente esse trânsito por gêneros seja uma característica do cinema oriental e não de uma produção com diversos sotaques. A decisão por fazer um filme sem pátria e com pretensões de conversar com todo mundo parece não deixar o maquinista deste trem tão à vontade quanto em seus trabalhos anteriores.

O fato é que as fragilidades e inconsistências da história ficam muito mais evidentes – quando não chegam a incomodar. A concepção tanto visual quanto conceitual de boa parte dos vagões, que operam como pequenos microcosmos independentes, mas parecem não formar um conjunto, pode ter funcionado plenamente nos quadrinhos, mas parece ingênua e infantilizada em Expresso do Amanhã, com imenso destaque para as cenas da escola e da festa. De um lado, temos o curso de uma revolução popular. Do outro, uma casa de bonecas. No meio, uma batalha sangrenta que poderia resultar numa cena poderosa, mas cujas decisões impedem seu fluxo como um todo.

No elenco estelar, o Capitão América Chris Evans até tenta emprestar alguma substância ao herói do filme – e funciona bem melhor do que as caricaturas que ganharam as vozes de Ed Harris e Allison Pill, sem falar em Tilda Swinton -, mas perde feio para Kang-ho Song e Ah-sung Ko. Os coreanos, que já haviam interpretado pai e filha em O Hospedeiro, têm muita química - ela em especial está excelente - e entregam as performances mais sóbrias e complexas do filme, apesar de suas personagens viverem sob o efeito de uma droga, o que poderia gerar mais lugar comum. Encontrar o tom neste projeto é uma arte que poucos conseguiram.

O maior problema desta história é que, no cinema, os caminhos que ela toma, a reflexão que ela faz e as conclusões a que ela chega parecem óbvios – ou usados demais. Nesse contexto, quem se sai melhor é a trilha sonora de Marco Beltrami que consegue traduzir a ideia de futuro distópico que Bong Joon-ho quer construir. Isso fica bem evidente na cena final, em que a música serve como narrativa: é o momento em que o filme filosofa sobre o futuro e o devolve para as mãos em que ele sempre esteve.

Expresso do Amanhã EstrelinhaEstrelinha½
[Snowpiercer, Bong Joon-ho, 2013]

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Histórias Cruzadas

Viola Davis, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Emma Stone

Do que se faz um bom filme? Se a resposta passar por tocar num tema importante, como os conflitos raciais nos anos 50 nos Estados Unidos, Histórias Cruzadas está qualificado. Se, além disso, o critério for mostrar um posicionamento sobre a questão e fazer chorar, a qualificação é dupla. Se ainda contar um elenco grande em número e em estrelas, não há como deixar este filme de fora de tal classificação. Mas, embora se utilize de todos estes elementos que conversam diretamente com o público, que naturalmente quer justiça quando vê situações de humilhação, o longa assinado pelo desconhecido Tate Taylor não sai do superficial.

O diretor, que está em seu segundo trabalho, não acrescenta nada à discussão. Pelo contrário, reduz seus personagens a estereótipos lineares. Uma simplificação que não explora o bom elenco. Viola Davis, celebradíssima embora não seu personagem nunca aconteça, é a “guerreira silenciosa”. Octavia Spencer reprisa Oprah Winfrey em A Cor Púrpura, tanto no quê cômico quanto na “rebeldia indomável”. A vilã Bryce Dallas Howard parece saída de um cartoon, enquanto a mocinha Emma Stone parece não funcionar fora de uma comédia.

A estratégia do roteiro é provocar a identificação pela emoção imediata, sem se preocupar em dar camadas à trama. Faltam nuances. Falta cor num filme tão colorido. A sensação é de um cinema pasteurizado, que escrito e dirigido com burocracia. Mesmo com todos os lugares comuns, o personagem mais complexo ainda é o da excelente Jessica Chastain, a única das atrizes que oferece algum contraste num filme cujo maior pecado é ser tão ou mais velho quanto o preconceito que tenta denunciar.

Histórias Cruzadas Estrelinha
[The Help, Tate Taylor, 2011]

 

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