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Top 20: os melhores filmes de 2013

De um cabaré gay no Recife dos anos 70 até uma estação espacial na órbita da Terra. Da boleia de um caminhão argentino ao sempre bizarro interior dos Estados Unidos. Os cenários foram os mais diversos para o cinema em 2013. Neste ano que se encerra, tivemos uma quantidade impressionante de filmes brasileiros que entraram em circuito, entre eles o maior fenômeno cultural que nosso país produziu em muito tempo. Vimos estrear queridinhos dos festivais do ano passado e descobrimos surpresas vindas das mãos de diretores estreantes dos quatro cantos do mundo. No meio de mais de 350 longas que chegaram aos cinemas do país, muitas pérolas. Aqui fiz uma listinha com meus 20 filmes favoritos que estrearam no Brasil em 2013. Em ordem alfabética. Tem links para os textos que escrevi sobre 18 deles (os outros dois, fico devendo por enquanto). Cinco desses filmes serão os finalistas ao Frankie, meu prêmio pessoal de cinema, cujos indicados vão ser divulgados amanhã. Um abraço e até 2014!

As menções honrosas: Anna Karenina, de Joe Wright; Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão; Camille Claudel, 1915, de Bruno Dumont; Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan; O Exercício do Caos, de Frederico Machado; Juan dos Mortos, de Alejandro Brugués; Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-eda; A Parte dos Anjos, de Ken Loach; Questão de Tempo, de Richard Curtis; A Visitante Francesa, de Hong Sang-soo.

E os meus 20 favoritos:

Las Acacias

Las Acacias, Pablo Giorgelli

Amor Bandido

Amor Bandido, Jeff Nichols

Antes da Meia-Noite

Antes da Meia-Noite, Richard Linklater

A Bela que Dorme

A Bela que Dorme, Marco Bellocchio

Detona Raplh

Detona Ralph, Rich Moore

Doce Amianto

Doce Amianto, Guto Parente & Uirá dos Reis

Elena

Elena, Petra Costa

Um Estranho no Lago

Um Estranho no Lago, Alain Guiraudie

Frances Ha

Frances Ha, Noah Baumbach

Gravidade

Gravidade, Alfonso Cuarón

Invocação do Mal

Invocação do Mal, James Wan

La Jaula de Oro

La Jaula de Oro, Diego Quemada-Díez

Jogos Vorazes - Em Chamas

Jogos Vorazes – Em Chamas, Francis Lawrence

Killer Joe

Killer Joe, William Friedkin

Lincoln

Lincoln, Steven Spielberg

O Mestre

O Mestre, Paul Thomas Anderson

Na Neblina

Na Neblina, Sergei Loznitsa

O Som ao Redor

O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho

Tabu

Tabu, Miguel Gomes

Tatuagem

Tatuagem, Hilton Lacerda

Veja também minhas outras listas do ano:

- os melhores filmes fora de circuito de 2013
- Os piores filmes de 2013
- Os filmes mais superestimados de 2013

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Palma de Ouro e filme de artes marciais de Keanu Reeves podem concorrer ao Globo de Ouro

O site The Wrap divulgou hoje uma lista com 58 títulos, que seria dos filmes pré-selecionados para o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Destes, 32 longas também são elegíveis para o Oscar. O prêmio da Academia e o Globo de Ouro usam padrões diferentes para selecionar os filmes que podem disputar vagas entre os estrangeiros. Para o Oscar, cada país precisa indicar oficialmente um candidato. Para o Globo de Ouro, os diretores ou produtores podem inscrever diretamente os filmes e exibi-los de alguma forma para os integrantes da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood. O candidato brasileiro ao Oscar, O Som ao Redor, [ao contrário do que eu havia afirmado anteriormente aqui], não pode concorrer neste ano porque já havia sido elegível no ano passado. O elogiado A Imagem que Falta, indicado da Camboja ao Oscar, e o mexicano Heli, representante do México,  também não aparecem na lista.

Por outro lado, alguns filmes que foram esnobados pela Academia são, segundo a relação do The Wrap, elegíveis para o Globo de Ouro de filme estrangeiro. O caso mais notável é o de Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche, Palma de Ouro em Cannes, que perdeu a vaga da França no Oscar para o genérico Renoir. Os japoneses The Wind Rises, filme de despedida de Hayao Miyazaki, e Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-eda, ambos filmes elogiados, também concorreriam ao Globo de Ouro. The Lunchbox, da Índia, também ausente do Oscar, estaria elegível, assim como Os Amantes Passageiros, de Pedro Almodóvar. Um caso estranho é o de Alabama Monroe, que na lista dos Globos aparece como um filme holandês, mas que concorre ao Oscar pela Bélgica. Mas a inclusão mais notável é a Man of Tai Chi, filme americano falado em chinês – e dirigido pelo ator Keanu Reeves – que disputaria o prêmio, provando que os integrantes do Globo de Ouro não resistem a uma estrela. Resta saber se a lista é verdadeira.

Pais e Filhos

Veja a lista de filmes que podem disputar o Globo de Ouro de filme estrangeiro:

Alemanha: Duas Vidas[Zwei Leben, Georg Maas]
Arábia Saudita: O Sonho de Wajda [وجدة, Haifaa al-Mansour]
Argentina: Wakolda EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Wakolda, Lucía Puenzo]
Austrália: O Foguete EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [The Rocket, Kim Mordaunt]
Canada: Another House [L'Autre Maison, Mathieu Roy]
Canadá: Gabrielle [Gabrielle, Louise Archambault]
Chile: Gloria [Gloria, Sebastián Lelio]
Chile: The Vineyard [Tierra De Sangre, James Katz]
China: Back to 1942 [Yi Jiu Si Er, Feng Xiaogang]
China/EUA: Man of Tai Chi [Man of Tai Chi, Keanu Reeves]
China: Fall of Ming [Da Ming Jie, Wang Jing]
China: Um Toque de Pecado EstrelinhaEstrelinha½ [Tian Zhu Ding, Jia Zhang-ke]
Cingapura: Ilo Ilo EstrelinhaEstrelinha½ [爸妈不在家, Anthony Chen]
Coreia do Sul: Jovem Infrator [범죄소년, Kang Yi-kwan]
Dinamarca: A Caça EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [Jagten, Thomas Vintenberg]
Espanha: 15 Years and One Day [15 años y un día, Gracia Querejeta]
Espanha: Os Amantes Passageiros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Los Amantes Pasajeros, Pedro Almodóvar]
Filipinas: Vosso Ventre [Thy Womb, Brillante Mendoza]
Filipinas: Transit [Transit, Hannah Espia]
Finlândia: Above Dark Waters [Tumman Veden Päällä, Peter Franzén]
Finlândia: Disciple [Lärjungen, Ulrika Bengts]
Finlândia: 8-Ball [8-Pallo, Aku Louhimies]
França: Augustine [Augustine, Alice Winocour]
França: Azul é a Cor Mais Quente [La Vie d'Adéle, Abdellatif Kechiche]
França: Ernest and Celestine [Ernest et Célestine, Stéphane Aubier, Vincent Patar & Benjamin Renner]
França: A Datilógrafa [Populaire, Régis Roinsard]
França: Renoir [Renoir, Gilles Bourdos]
Grécia: O Garoto que Come Alpiste EstrelinhaEstrelinha½ [Το Αγόρι Τρώει το Φαγητό του Πουλιού, Ektoras Lygizos]
Grécia: What If… [An..., Christoforos Papakaliatis]
Holanda: Alabama Monroe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [The Broken Circle Breakdown, Felix van Groeningen]
Hong Kong: O Grande Mestre EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [一代宗師, Wong Kar-Wai]
Hungria: Aglaya [Aglaya, Krisztina Deák]
Índia: The Lunchbox [The Lunchbox, Ritesh Batra]
Irã: O Passado [گذشته, Ashghar Farhadi]
Israel: Bethlehem [בית לחם,Yuval Adler]
Itália: A Grande Beleza [La Grande Bellezza, Paolo Sorrentino]
Itália: The Mother
Japão: Pais e Filhos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½  [Soshite Chichi ni Naru, Hirokazu Kore-eda]
Japão: The Wind Rises EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Kaze Tachinu, Hayao Miyazaki]
Letônia: Mother I Love You [Mammu, es Tevi Mīlu, Jānis Nords]
Líbano: The Attack [The Attack, Ziad Doueiri]
Marrocos: God’s Horses [يا خيل الله, Nabil Ayouch]
México: The Last Call [?]
México: Instructions Are Not Included [No se Aceptan Devoluciones, Eugenio Derbez]
México: We Are Nobles [Nosotros los Nobles, Gary Alazraki]
Moldávia: All God’s Children [All God’s Children, Adrian Popovici]
Noruega: I Am Yours [Jeg er din, Iram Haq]
Palestina: Omar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [عمر, Hany Abu-Assad]
Peru: The Cleaner [El Limpador, Adrián Saba]
Polônia: Walesa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Wałęsa. Człowiek z nadziei, Andrzej Wajda]
República Tcheca: Burning Bush [Horící ker, Agnieszka Holland]
Romênia: Instinto Materno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [Poziţia Copilului, Călin Peter Netzer]
Rússia: Stalingrad [Сталинград, Fedor Bondarchuk]
Senegal/França: Hoje EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Tey, Alain Gomis]
Sérvia: Círculos EstrelinhaEstrelinha½ [Кругови, Srdan Golubovic]
Suíça: More than Honey [More than Honey, Markus Imhoof]
Turquia: The Butterfly’s Dream [Kelebeğin Rüyası, Yılmaz Erdoğan]

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Pré-candidatura ao Oscar premia ato político de O Som ao Redor

O Som ao Redor

Desde que teve sua primeira exibição, em fevereiro de 2012, no Festival de Roterdã, na Holanda, de onde saiu vencedor do prêmio da crítica internacional, O Som ao Redor tem escrito uma história inédita no recente cinema brasileiro. História que ganha mais um importante capítulo hoje, um ano e sete meses depois, com uma merecida – aliás, merecidíssima – indicação para ser o representante oficial do Brasil na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira. Não que o Oscar seja grande coisa, mas todo o universo que ele envolve joga o filme de Kleber Mendonça Filho num outro patamar.

Leia entrevista com a atriz Maeve Jinkings, de O Som ao Redor

Um feito e tanto para um filme pernambucano, produzido de forma independente, com atores em sua maioria desconhecidos do grande público, e que rejeita tanto modelos narrativos convencionais como soluções fáceis de roteiro. Em sua investigação da vida pequena numa cidade grande, herança de um sistema colonialista que está encrustrado na essência da maioria das capitais nordestinas, O Som ao Redor abre nossos ouvidos para o que está em volta e no meio de tudo. Conseguir traduzir essa voz (ou essas vozes) para o Brasil e para o mundo, sem fazer concessões, é um feito ainda maior.

O longa de Kleber Mendonça Filho apareceu na lista de dez melhores filmes do ano passado de diversas publicações estrangeiras, participou de festivais da Argentina até a Austrália, fez uma bilheteria notável para um filme sem grandes apoios, mexeu com os brios de grandes corporações, mas seu maior feito foi o boca a boca. Na época em que foi lançado nos cinemas brasileiros, não se falava em outro filme. Foi um verdadeiro fenômeno cultural. Seu maior mérito foi surgir do baú das produções independentes para a estratosfera dos filmes que rendem mesas redondas, estudos sociológicos, análises detalhistas.

Coroá-lo com uma pré-indicação ao Oscar foi arrojado. O filme talvez não tenha o perfil do que se espera dos longas geralmente selecionados para a disputa, mas o que importa não é isso. Acredito mesmo que, diante de sua aprovação internacional, o longa tenha boas chances de terminar como finalista, mas esta decisão de transformá-lo no candidato oficial do Brasil é mais do que tudo um posicionamento político que parece já premiar um filme cuja história foi construída – em sua concepção, trajetória, repercussão -, justamente por uma sucessão de atos políticos. O Brasil acerta quando quer.

Veja que outros países já selecionaram seus candidatos ao Oscar de filme estrangeiro.

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Entrevista: Maeve Jinkings

Maeve Jinkings

Maeve Jinkings nasceu em Brasília, foi criada em Belém do Pará, vive em São Paulo, mas foi durante um tempo morando no Recife que conquistou o Brasil. Em terras pernambucanas, atuou, entre outros trabalhos, num filme que se tornou o maior fenômeno cultural dos últimos tempos em nossa cinematografia, O Som ao Redor. Entregou uma interpretação cheia de detalhes, fugiu dos maneirismos, conheceu melhor uma máquina de lavar – numa cena que Kleber Mendonça Filho tampou os olhos para pedir que ela fizesse, conta a atriz – e ajudou a traduzir a classe média das grandes cidades brasileiras. Simpaticíssima e super articulada, a moça, que já tem um nome sendo escrito no novo cinema brasileiro, aceitou responder algumas perguntas do Filmes do Chico, se mostrou uma entusiasta do cinema e uma cinéfila. Vida longa e próspera para Maeve Jinkings!

O que voce faria se sua VEJA viesse fora do plástico?

Em primeiro lugar, ficaria preocupada com os hábitos de leitura do porteiro do meu prédio. Depois disso, diria ao marketing da Abril para corrigir o endereço e nome do assinante. Eu mesma, jamais gastaria qualquer centavo para ter essa revista na reciclagem de casa.

O Som ao Redor mudou sua vida?

Em alguma medida, mudou sim. Meu trabalho teve uma exposição como jamais tive, o filme foi até muito longe, me apresentou lugares e pessoas até então muito distantes de mim, me proporcionou experiências muito fortes. E teve uma mudança interna também. Todo trabalho (personagem, roteiro, equipe) em alguma medida me transforma muito. Sempre. Bons trabalhos são também resultado de processos ricos de construção coletiva, e esses processos me transformam muito. O Som ao Redor me colocou em contato com pessoas que até hoje me inspiram, que falam de coisas que sempre me provocam, que me fazem pensar mais e melhor. Estou falando de Kleber, mas também de várias pessoas que fizeram parte da equipe e que sigo querendo ter por perto. E também estou falando do filme em si que, posso afirmar, transformou minha forma de pensar a cidade e seus processos históricos, e de como isso tudo nos afeta em cada pequeno frame de vida.

Você imaginava que o filme alcançasse o status de fenômeno cultural, como aconteceu?

Achava que seria um filme muito bom, porque vi essa potência no roteiro, na direção precisa e na trajetória de Kleber. Mas definitivamente não podia imaginar a carreira fantástica que o filme teve. Seis meses em cartaz no Brasil?? Isso é fantástico! Fui me surpreendendo a cada novo passo do filme. E ainda me surpreendo quando alguém desconhecido chega e fala do filme ou da Bia, de uma forma afetiva. O Som ao Redor teve pitadas de sorte em sua carreira, mas minha opinião é que, de forma geral, essa recepção é mérito de um filme que conseguiu captar ressonâncias profundas da sociedade hoje.

Uma das cenas mais marcantes de sua personagem em O Som ao Redor é uma releitura de uma cena de Eletrodoméstica, curta do Kleber Mendonça Filho. Como foi recriar esta cena?

Conversei muito com Kleber sobre essa cena, e por mais que seja uma cena clássica do Eletrodoméstica, não pretendíamos copiá-la na forma como foi filmada na primeira vez. Assisti esse curta antes de filmar, como assisti todos os outros curtas e Crítico (longa documental de Kleber) para compreender o universo dele. Mas fiz isso por iniciativa própria. Por incrível que pareça, em nenhum momento Kleber fez referencia à cena do curta, nem me pediu pra assisti-lo. Interessava a Kleber descobrir outra Bia, inclusive porque ele expandiu o universo da personagem em outras cenas, dialogando com uma trama que está além do apartamento dela e permeado de outros acontecimentos e personagens. Isso tudo já coloca a cena naturalmente em outro lugar. O que há de convergência e que me alimentou sempre, a cada cena, foi esse lugar claustrofóbico, a arquitetura do entorno, grades, portões, chaves, os sons da vizinhança, a solidão, a presença forte da família… a mãe feliz e amorosa, mas também uma mulher confusa explodindo por dentro. Durante as filmagens, foi engraçado como Kleber ficou tímido ao me pedir pra colocar a mão dentro da calcinha durante um super close. Ele cobriu o rosto com as mãos, e perguntou se era possível. Ele é um lorde!

O Som ao Redor traduz muito do cotidiano e dos movimentos de uma grande cidade que ainda guarda muito de uma cidade pequena. Como você enxerga o filme?

Desde a primeira leitura do roteiro, sempre tive a sensação de estar diante de uma coletânea de crônicas hiperrealistas que, numa espécie de mosaico e na relação entre si, falam de mim, do meu vizinho que nunca vejo, do meu entorno. Uma forma de voyerismo urbano. Foi minha primeira impressão, me senti representada. Me impressiona como o filme consegue ser representativo de vários pontos de tensão e ternura na relação com a cidade e as pessoas que a habitam. Mas o que mais me toca no filme, é com certeza a ponte que ele faz entre nosso presente e o passado escravocrata do nosso país, e de que forma isso se reflete em nosso cotidiano, em vários aspectos. De que forma ele nos implica (a todos) na reprodução de uma dinâmica muito perversa. Eu me enxerguei ali em vários momentos, e nem sempre foi confortável… Um amigo me disse depois de assistir ao filme: “É muito espelho demais pra narciso ridículo dar conta em pouco tempo”. Ele se referia aos conflitos silenciosos, coisas não ditas, relações Casa Grande-Senzala que reproduzimos sem consciência, quase sempre fingindo não ter nada a ver com isso.

O Som ao Redor fez grande sucesso no circuito internacional de festivais. Você chegou a fazer contato com cineastas de fora do país?

Sim, conheci alguns que admiro muito, mas tive contatos mais próximos com diretores da América Latina, o que acho fantástico. Talvez isso tenha acontecido porque alguns festivais promovem encontros e debates de artistas por região de origem. Há vários diretores latinos com quem gostaria de trabalhar.

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Top 10: os melhores filmes brasileiros

Dez de dez. A ideia é publicar uma série de tops com os dez melhores dos dez anos de Filmes do Chico. Para começar, a prata da casa. Quais foram os melhores filmes brasileiros da última década? A década que viu surgir um novo tipo de documentário. A década em que os cineastas brasileiros se voltaram para o interior com um olhar totalmente novo. A década em que o cinema feito no Nordeste cresceu, apareceu, e se tornou o melhor do Brasil. Meus favoritos são estes aqui:

O Prisioneiro da Grade de Ferro

10 O Prisioneiro da Grade de Ferro
[O Prisioneiro da Grade de Ferro, Paulo Sacramento, 2004]

Se Nada Mais Der Certo

9 Se Nada Mais Der Certo
[Se Nada Mais Der Certo, José Eduardo Belmonte, 2008]

Girimunho

8 Girimunho
[Girimunho, Helvécio Marins Jr. & Clarissa Campolina, 2011]

O Palhaço

7 O Palhaço
[O Palhaço, Selton Mello, 2011]

Cinema, Aspirina & Urubus

6 Cinema, Aspirina & Urubus
[Cinema, Aspirina & Urubus, Marcelo Gomes, 2005]

Santiago

5 Santiago
[Santiago, João Moreira Salles, 2007]

Cão Sem Dono

4 Cão Sem Dono
[Cão Sem Dono, Beto Brant & Renato Ciasca, 2007]

Jogo de Cena

3 Jogo de Cena
[Jogo de Cena, Eduardo Coutinho, 2007]

O Céu de Suely

2 O Céu de Suely
[O Céu de Suely, Karim Aïnouz, 2006]

O Som ao Redor

1 O Som ao Redor
[O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, 2012]

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O Som ao Redor

O Som ao Redor

Há filmes que são sobre as coisas. Há outros filmes que são sobre as pessoas. E existem ainda aqueles filmes, mais raros, que se dedicam ao intervalo entre as duas. Este é o caso de O Som ao Redor, primeiro longa-metragem de ficção do pernambucano Kleber Mendonça Filho, um trabalho interessado no ruído nosso de cada dia, nas sobras e nas arestas, nos silêncios e nos detalhes que geralmente desaparecem nas ilhas de edição em favor de um cinema mais “limpo”.

A produção se passa no Recife, cidade natal do diretor, numa rua dominada por uma família, numa espécie de alegoria do coronelismo histórico nordestino, com direito a senhores de terras e capatazes. Neste cenário, o diretor instala sua câmera, disposto a registrar não exatamente as vidas de quem mora ali, mas as minúcias e pormenores que compõem seu dia a dia.

O cineasta sugere que sigamos um personagem, depois outro, depois outro, para que, em determinado momento, percebamos que, como na vida, cada protagonista é coadjuvante na vida alheia.

Em sua investigação do cotidiano, Kleber dedica tempo a diálogos de “bom dia, o que você tem feito?” e cenas corriqueiras como a brincadeira de duas meninas à beira da piscina. Detalhes que parecem insignificantes para a trama do filme –se é que “O Som ao Redor” tem propriamente uma trama–, mas que ajudam a ilustrar o registro das interferências externas a que estamos sujeitos a qualquer momento. Mais do que isso, interferências que constroem nossa rotina.

Com um elenco formado por atores locais, alguns sem experiência prévia, o cineasta potencializa a identificação do espectador com o que se passa na tela. As performances naturalistas, o jeito de falar e as entonações pernambucanas fazem do que seria um filme “com sotaque”, um filme universal, já que, no meio de gírias e acentos, a complexidade do longa traça uma conversa com a simplicidade da vida real.

Não é raro imaginar que algumas das histórias contadas pelos personagens poderiam ser histórias de vida dos próprios atores. Da mesma maneira que não seria demérito descobrir que essa sugestão de ficcionalização da realidade talvez nem exista, já que um filme como este permite múltiplas interpretações. E que esses ruídos, de certa forma, também fazem parte do projeto de O Som ao Redor.

É nesse contexto, com a mesma naturalidade impressa aos momentos mais documentais do filme, que uma espécie de saci urbano pula sobre os prédios quase invisível. É nesse mesmo registro que Kleber invade a seara dos filmes de terror, criando, com base num trabalho sonoro apurado e numa montagem marcada, cenas apavorantes, com contornos de pesadelo. Pesadelos que estão sempre presentes, sejam como mais um capítulo da rotina dos personagens, sejam na possibilidade de uma vingança adormecida.

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[O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, 2012

Texto publicado originalmente no Uol.

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Era uma Vez Eu, Verônica

Provavelmente não existe um cinema brasileiro mais interessante do que o produzido atualmente em Pernambuco. Subvertendo a tradição de encarar o Nordeste como a zona rural do país, os diretores contam histórias urbanas de pessoas que povoam a metrópole e vivem os dramas da cidade grande. Os personagens dos filmes pernambucanos cada vez mais fogem do estereótipo de “gente simples”, imposto para aqueles que vivem acima do Espírito Santo. Eles refletem a complexidade da quinta maior região metropolitana do Brasil e conversam com questões que aparecem no cinema feito mundo afora.

Três grandes filmes vindos de Pernambuco passaram pelos festivais de cinema brasileiros neste ano: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, e Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes. Todos, em maior ou menor grau, são exemplo de um cinema autoral interessado em registrar o incômodo do personagem urbano, que ao mesmo tempo que lida com questões universais, mantém uma ligação forte com sua ancestralidade e se vê como parte integrante de uma massa com cultura bem definida.

Nesse contexto, o filme de Marcelo Gomes é o mais simples dos três, sem recorrer à estrutura ousada do longa de Aragão ou sem o formato de mosaico do belo trabalho de Mendonça Filho. “Era Uma Vez Eu, Verônica” apresenta a vida da médica que batiza o filme, papel da ótima Hermila Guedes, uma jovem que começa a vida profissional, uma mulher com dificuldade de manter um relacionamento sério, uma filha que precisa cuidar do pai doente. O incômodo que Veronica sente, um estranhamento com algo invisível, uma angústia sem uma razão específica, cria uma identificação entre ela e seus pacientes.

O cineasta filma sem pressa, num movimento crescente que acompanha passo a passo da vida da personagem-título, emprestando aos poucos complexidade a seus dramas, envolvendo o espectador com a melancolia de suas dúvidas. Esse crescendo se reflete inclusive na própria interpretação de Hermila Guedes, econômica de início e dona de cenas poderosas na segunda metade do filme. A inquietude de Verônica remete ao mais célebre papel da atriz, em O Céu de Suely, sobre a frustração de uma mulher que voltou a sua pequena cidade depois de viver na metrópole. Não por acaso, Suely foi coescrito por Marcelo Gomes.

Embora Verônica não seja necessariamente um filme à procura de imagens bonitas, a fotografia de Mauro Pinheiro Jr encontra poesia onde menos se espera. As cenas de sexo e a sequência do Carnaval, com suas câmeras delicadas, mas inquietas ajudam a registrar o estado da personagem. Num dos mais belos planos, a protagonista flutua no mar em círculos, revelando a cidade grande no fundo da tela. O Recife emoldura Veronica, como se o cineasta fizesse questão de mostrá-la como fruto daquele lugar, um lugar que, como todas as metrópoles, proporciona ao mesmo tempo que encarcera seus habitantes.

Era uma Vez Eu, Verônica EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Era uma Vez Eu, Verônica, Marcelo Gomes, 2012]

Texto publicado originalmente no Uol.

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Febre do Rato

Febre do Rato diz muito sobre Cláudio Assis. É o melhor longa do cineasta e seu trabalho mais maduro. Um filme que completa a belíssima leva de obras que diretores pernambucanos apresentaram neste ano, fazendo uma parceria com Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, e o melhor de todos eles, O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Todos estes filmes, de uma forma ou de outra, em graus e sob prismas diferentes, tentam encaixar seus protagonistas no mundo contemporâneo.

Esse “tema” é o que coloca Febre do Rato num patamar e numa perspectiva que divergem dos longas anteriores de Assis. A essência do homem está toda lá, mas a predisposição para incomodar, que o diretor costuma exalar dentro e fora de seus filmes, ganhou, talvez pela primeira vez, um discurso. Um discurso romântico, mas que explica como o cineasta enxerga seu papel no mundo. Uma visão quase melancólica e desesperançada de sua tentativa de ser ouvido. O protagonista é, como Assis vê a si mesmo, o último combatente numa batalha sem chances de vitória.

O filme volta ao Recife urbano e aos personagens que vivem às margens dos grandes prédios, como em Amarelo Manga, mas sem a fome de denúncia que infesta o longa de estreia do diretor. Sua resistência está no cotidiano. A fotografia de Walter Carvalho é, mais uma vez, um escândalo. O personagem principal é um poeta esquerdista que, entre panfletos revolucionários e discursos rebuscados que quase ninguém ao seu redor entende muito bem (mas todo mundo aplaude), tenta transformar (a ideia d)a sociedade. O eco de sua postura não provoca fatos em si, mas dá a ele a condição de xamã da comunidade em que vive.

Assis cria quase que uma dimensão paralela para seus personagens, um estado (de espírito, talvez) que o cineasta parece almejar. Eles vivem num ambiente de completa liberdade comportamental e sexual, conduzidos por uma mistura de cachaça, maconha e uma postura, digamos, artística em relação à vida. Nesse contexto, o protagonista, vivido por Irandhir Santos, que empresta uma dignidade impressionante ao papel, numa espécie de alter ego do diretor, entra como líder espiritual e motor do grupo. A provocação está por toda parte: o casal perfeito é um homem e um travesti; a relação ideal tem uma mulher e três rapazes; o desejo não tem limite, nem para senhoras idosas.

Embora masturbe seus personagens com seus ideais libertários, Assis reserva para seu personagem principal, aquele em que o diretor enxerga a si mesmo, um papel de sonhador, de alguém que flutua sobre a realidade. Sua luta parece inócua: no discurso final, ele defende o utópico e não a prática de suas desejadas transformações, como se sua função fosse apenas incomodar, provocar, coisa que Assis sempre fez, mas adotando uma postura agressiva e muitas vezes gratuita. Sua poesia, ruim, parece perdida no tempo, e sua obsessão pela adolescente (Nanda Costa, que virou protagonista da novela das nove), parece resumir sua causa perdida. Mas para Cláudio Assis, nem toda causa perdida é uma causa desistida.

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[Febre do Rato, Cláudio Assis, 2012]

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