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Enquanto Somos Jovens

Enquanto Somos Jovens

Noah Baumbach, que sempre foi um hipster genuíno, como mostram os filmes que dirigiu e escreveu, usou a caricatura de uma geração para denunciar a caricatura de uma geração. Se Enquanto Somos Jovens é uma tentativa de teorizar sobre o conflito, justamente delas, das gerações, o filme parece simplificar todas as questões a que se propõe a discutir. O encantamento do casal mais velho pelo casal mais novo é extremamente plausível. A sedução pela energia, pela vitalidade, pelo novo. O problema é que para dar peso a esse encanto, Baumbach parte para uma visão preconceituosa tanto do “mundo jovem”, que segundo o diretor vive dos extremos (“campeonato de quem levanta mais o pé”), quanto do “mundo adulto”, com a ridicularização de tudo o que se refere à rotina do terceiro casal do filme, que acabou de ter um filho. Isso sem falar na sessão de ayahuasca, que parece uma esquete de um programa de humor da TV. Daqueles “antigos”.

E haja chapéu e haja patins. E haja Naomi Watts dançando hip hop de maneira ridícula. Pior que essa era a ideia, mas não deu certo.

A maneira como o diretor impõe sua mensagem chega a ser agressiva de tão didática: enquanto o casal mais velho usa ipods e smart phones, tentando – infantilmente, em sua visão -, se conectar com o presente, o casal hipster tem uma coleção gigantesca de discos de vinil e cria uma galinha dentro de casa, tentando – novamente infantilmente – recuperar uma essência perdida. A galinha se chama Nico pra que as coisas fiquem bem claras. O didatismo é reforçado na relação que a personagem de Ben Stiller tem com o sogro, com quem divide a mesma profissão, documentarista, negando toda e qualquer possibilidade de diálogo, colocando-se na posição de vítima sem que um ataque seja deflagrado.

Baumbach queria mesmo falar do choque de gerações. Mas se perde desde o começo. A melancolia da maioria de seus filmes é deixada de lado, como se o diretor não tivesse chegado à conclusão sobre que tom deveria dar ao filme: não é Tenenbaums, nem Woody Allen, nem aquele Baumbach de sempre, ame-o ou odeie-o. Adam Driver, o hipster alfa do momento, assume o papel do hipster do filme. Baumbach não se decide se quer denunciá-lo por não ser verdadeiro ou se quer denunciar a personagem de Ben Stiller por não entendê-lo. O maior problema do filme nem é lançar estereótipos por todos os lados. É não dizer porque existe. Se, como diz a cena final, era tudo uma questão de gerações, Baumbach não parece ter nem a maturidade para travar essa discussão nem o frescor para entender o novo. “Eu lembro de quando essa música era considerada ruim” talvez seja a única boa piada do filme. E Amanda Seyfried, olha só, é a melhor atriz em cena.

Enquanto Somos Jovens EstrelinhaEstrelinha
[When We're Young, Noah Baumbach, 2014]

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Birdman

Birdman

Riggan Thompson não sabe bem para onde ir. Depois de ganhar muito dinheiro e ficar famoso interpretando Birdman numa série de filmes de super-heróis, ele resolve buscar algo além do imediatismo, o aplauso. Em sua tentativa de dirigir e estrelar uma peça de teatro na Broadway e se transformar num ator sério, Thompson quer garantir não apenas sua sobrevida na profissão, mas encontrar um mínimo de sentido em continuar. Seja no trabalho, no mercado ou na vida. Thompson vive seu drama com tanta intensidade, sempre tão preso a seus problemas banais, que aqui e ali precisa escapar para outros mundos para se ver livre.

Michael Keaton está especialmente bem em Birdman. Provavelmente sua personagem não teria a força que tem se não fosse ele, com todo seu histórico de Batmans e Beetlejuices, o intérprete. A crise de Riggan Thompson – um pacote que envolve o peso da idade, a busca por reconhecimento, o medo da decadência – ganha outros contornos na performance ansiosa do ator, promove algumas sinapses e parece quase metalinguística quando investigamos o passado de pária do próprio Keaton. Mas como manda o manual dos “filmes de elenco”, ele não está só nos merecimentos: todos os outros em cena chamam a atenção. Edward Norton tem sua melhor interpretação em anos; Emma Stone revela sua maturidade como atriz; Naomi Watts parece ter voltado à boa forma.

Zack Galifianakis, Andrea Risenborough e Amy Ryan também têm, cada um, seus momentos sob os holofotes. Todos estão a serviço da intensidade que Iñarritu tenta impor ao filme, nervoso, orgânico, quase incontrolável na maior parte do tempo. E não apenas por causa de sua câmera “viva” e de seus planos-sequência em sequência, que tentam dar a impressão de non-stop, como no mítico Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, mas pela verborragia de todos os diálogos de todas as personagens, em todos os momentos, ao longo do filme inteiro. O diretor realmente quis cercar o espectador pela esquizofrenia dos bastidores da Broadway e pelos dilemas existenciais de Thompson, que não oferecem segurança nem a ele nem a ninguém.

Tanta eletricidade flerta com a afetação. Curiosamente são as cenas de Birdman, o herói fictício, as mais sóbrias do filme, o que cria uma certa contradição com algumas das propostas do filme. Com seu homem pássaro, Iñarritu levanta a voz contra a indústria do cinema e seus blockbusters com gente superpoderosa, contra a empostação do ator de teatro e da Broadway, contra a crítica e a imprensa que cobre cultura. Seu protagonista em crise reflete não apenas os dilemas do artista, mas as insatisfações do cineasta com o meio sob diversos prismas. Birdman vive dessa ironia. Iñarritu, em seu melhor filme, trocou suas histórias cruzadas e seus fatalismo por uma discussão um tanto antiga sobre a indústria da arte, mas encontrou no formato, no humor negro e nas interpretações uma maneira de tornar seu filme uma obra urgente (ou pelo menos de fazer parecer isso).

Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Birdman (or The Unexpected Vortue of Ignorance), Alejandro Gonzalez Iñarritu, 2014]

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Oscar 2013: atriz

Atrizes

Emmanuelle Riva, Amor
Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Jessica Chastain, A Hora Mais Escura
Naomi Watts, O Impossível
Quvenzhané Wallis, Indomável Sonhadora

Emmanuelle Riva completa 86 anos no dia da entrega do Oscar. É a mais velha candidata a melhor atriz na história do prêmio. Sua personagem em Amor, de Michael Haneke, comove com apenas um olhar. A atriz foi a protagonista de Hiroshima, Meu Amor, clássico de Alain Resnais, o que garante a sua candidatura um peso extra nessa disputa. A Academia pode ver numa premiação a Emmanuelle, além do mérito por sua interpretação, um prêmio também pelo conjunto da obra, o que aconteceu muitas vezes na história do Oscar. Contra a atriz, o fato de estrelar um filme em francês. Ela seria apenas a terceira na categoria a ganhar o Oscar sem falar inglês. Emmanuelle ganhou o BAFTA, mas não foi indicada nem para o Globo de Ouro, nem pro SAG. Mas será que isso é páreo para uma velhinha tão encantadora?

Se a Academia achar que a homenagem a Emmanuelle Riva fica na indicação, é bem provável que Jennifer Lawrence ganhe o Oscar por O Lado Bom da Vida. Ela já tem um Globo de Ouro de melhor atriz em comédia e o SAG, além de ser uma atriz em ascenção, um dos talentos mais sob os holofotes em Hollywood. Seria, além de um reconhecimento por um belo trabalho, um prêmio para a indústria de hoje (combinaria bem com uma vitória de Argo em melhor filme, por exemplo). Jennifer já teve uma indicação ao Oscar, o que garante uma “trajetória” e pode deixar os votantes que a consideram jovem demais numa posição mais confortável para premiá-la. Além de tudo, seu filme recebeu muitos elogios, deverá ser um dos lembrados na noite de domingo.

Jessica Chastain, embora tenha ganho o Globo de Ouro de atriz dramática, mais “nobre” na corrida pelo Oscar, deve se prejudicar com a polêmica em relação a A Hora Mais Escura, que provavelmente foi a responsável pela não-indicação da diretora Kathryn Bigelow e limitou as chances do filme em outras categorias. Caso contrário, Jessica, uma atriz jovem com cara de madura, candidata à nova Meryl Streep, já indicada ao Oscar e presente em um punhado de filmes marcantes, seria a favorita. Mas o resultado do SAG também já indica que os atores não acham que sua performance têm vida própria além-filme nesta temporada de prêmios. Ela ainda vai ganhar um Oscar, mas não deverá ser desta vez.

Quvenzhané Wallis é mais um capítulo na tradição da Academia de celebrar pequenos prodígios (Justin Henry, Keisha Castle-Hughes, Mary Badham), mas a história já provou que eles quase nunca passam da indicação (Anna Paquin, Tatum O’Neal). Ainda mais na categoria de protagonista. O belo trabalho da menina em Indomável Sonhadora deve pavimentar uma futura carreira para ela, mas teria que haver um cataclisma para ela ganhar o Oscar. Já Naomi Watts, atriz madura, respeitada e já indicada, embora assuma um papel bem nos padrões oscarizáveis tem tão poucas chances quanto Quvenzhané. Além de O Impossível ser um filme de produção espanhola, ele não emplacou nas bilheterias americanas – injustamente – e sua performance não tem grande apoio de prêmios anteriores.

Parece que neste ano, a disputa mesmo será entre a veterana estrangeira e a nova queridinha de Hollywood.

Quem ganha: Emmanuelle Riva, Amor
Quem ameaça: Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Quem merece: Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Quem faltou na lista: Michelle Williams, Entre o Amor e a Paixão

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J. Edgar

Leonardo Di Caprio, Armie Hammer, Judi Dench

Clint Eastwood tem produzido tanto nos últimos anos que seus filmes às vezes parecem feitos às pressas. Deve soar muito gay reclamar da maquiagem de um filme, mas em J. Edgar ela é fundamental para a história que o cineasta quer contar. Fundamental e de uma incompetência inadmissível. É impossível olhar para Leonardo Di Caprio sob as toneladas de maquiagem e acreditar que ali existe um homem nos últimos anos de sua vida. A caracterização pesada reflete, em certo sentido, a mão de Clint no material.

O diretor parece tentar oferecer todas as faces do ‘dono’ do FBI, J. Edgar Hoover, mas o filme é, em sua essência, um relato de um admirador. Porém, ao contrário do que fez com Nelson Mandela em Invictus, em que não se poupa dos excessos para desfilar sua admiração por Nelson Mandela, aqui Clint tenta não exagerar – e geralmente consegue – no retrato do personagem. Afinal, ser fã de Hoover não deve ser lá muito nobre. No entanto, o resultado dessa tentativa de equilibrar o discurso tem um efeito reverso.

O resultado é um filme morno, mas muito competente tecnicamente. A fotografia, quase sem cor, tenta acompanhar a discrição que Clint impõe, sobretudo no retrato da homossexualidade de Hoover. Ela nunca é ignorada, mas em poucos momentos é protagonista. Há uma cena em que o assunto explode que poderia ser mais forte do que é, mas fica claro que o roteiro de Dustin Lance Black, de Milk, não quis que o filme fosse sobre um Hoover gay.

Leonardo Di Caprio, que é um bom ator e que merecia mais respeito, está bastante correto, esforçado. Há momentos de grande interpretação, mas em algumas cenas ele parece claramente intimidado pelo papel. A maquiagem, muito menos. Os coadjuvantes não tem muito destaque: a mãe forte de Judi Dench beira a caricatura, o amante apaixonado de Armie Hammer é apenas ok (a indicação ao prêmio do Screen Actors Guild é descabida) e Naomi Watts é eclipsada pelo pouco tempo na tela.

Todos, no entanto, parecem traduzir a maneira preocupada com que Clint Eastwood dirige o filme. O relato sombrio de Hoover esbarra nessa timidez em encarar o objeto. Nem a revelação da maneira como o protagonista construía seu personagem, ficcionando suas participações nas capturas de grandes fora-da-lei, ganha a força que merecia. O maior pecado do filme de Eastwood não é ser reverente, mas revelar um diretor com receio de tomar partido.

J. Edgar EstrelinhaEstrelinha
[J. Edgar, 2011, Clint Eastwood]

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O Despertar de uma Paixão

É muito fácil ‘ler’ este filme como um draminha simplório, antigo, quadradão. É muito burro também. O Despertar de uma Paixão nunca é simplório. É um filme simples, mas cheio de pequenas complexidades no estabelecimento da reconstrução de uma amor. A credibilidade surge do frescor, da vitalidade do texto, mesmo num filme feito à moda antiga, que poderia não saber se livrar dos clichês, que poderia ser apenas a bela fotografia e a excelente música de Alexandre Desplat. Mas é mais. Ser formal, clássico, não é pecado nem demérito. Ainda mais quando se tem Naomi Watts e Edward Norton para dar paixão a seus personagens.

O Despertar de uma Paixão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Painted Veil, John Curran, 2006]

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King Kong

King Kong

O tamanho de um filme muitas vezes é motivo suficiente para que a produção seja suspeita, julgada, condenada e executada. A ânsia em defender o pequeno contra o gigante existe desde que o mundo é mundo e ganhou força no cinema desde que Tubarão, de Steven Spielberg, inventou a temporada do filme-evento bem no meio da década de 70 e deu um novo sentido à palavra superprodução. Os milhões de dólares (geralmente são dólares) investidos em filmes assim são normalmente associados às concessões que o diretor tem que fazer aos estúdios, interessados no retorno financeiro. Filme grande demais, então, é filme sem autor, filme com operador.

Esse certamente não é o caso de Spielberg que, no longa seguinte, faria um de seus mais belos trabalhos: Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Mesmo assim, o cineasta passou os últimos vinte anos tentando se livrar do carma de diretor de filmes de bilheteria gorda e tentando dar credibilidade artística ao seu trabalho. E esse certamente também não é o caso de Peter Jackson, o australiano que saiu do cinema de terror trash, dirigiu um indie respeitadíssimo (Almas Gêmeas) e depois entrou, ao que parece para sempre, no panteão dos cineastas de filmes gigantes.

Depois de comandar O Senhor dos Anéis, três filmes imensos, grandiosos, tanto nas durações fartas quanto nas proporções de produção, Jackson, ao contrário de Spielberg que se alterna entre blockbusters e filmes menores, anunciou outro projeto-monstro, uma releitura do primeiro King Kong, filme de 1933, comandado por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack. Projeto ao mesmo tempo bastante ambicioso e perigoso: o filme precisaria preencher os requisitos de um longa de ação, com criaturas gigantescas (além do gorila bem alimentado temos uma porção de dinossauros) e ser uma história de amor, crível, entre um bicho gigante e uma mulher. Um trabalho monstruoso.

Peter Jackson achou que o trabalho era pouco e, como a proposta era reimaginar o primeiro longa, situa seu filme na Nova York pós-Queda da Bolsa, falida, pobre, com pessoas perdendo os empregos. Com três filmes de três horas e meia no currículo, Jackson se sentiu à vontade para gastar muito, muito tempo na apresentação de seu cenário, de suas personagens, de sua história. A maior cidade do mundo de 70 anos atrás aparece majestosa, imensa, numa reconstituição de babar. É ali que elege sua musa (e a musa do Kong): Ann Darrow é uma comediante de vaudeville que vê o teatro onde trabalha fechar as portas por falta de dinheiro e cruza com um diretor de cinema em busca frenética por uma nova protagonista (isso depois de ser rejeitado pelo estúdio e resolver fugir para terminar seu novo projeto).

Este primeiro ato já revela ao espectador o que Jackson pretende de seu filme: ele pretende tudo. Diferentemente das duas versões anteriores da história – restritas a filme de aventura com um esboço inacabado das motivações de suas personagens, o novo King Kong é desavergonhadamente um filme clássico, grandioso: heróico, político, romântico, impetuoso, emotivo. Neste ato inicial também vemos que o sarcasmo de Jack Black empresta ao cineasta dentro do filme rascunha um vilão simpático, sem maneirismos além daquele olhar alucinado de sempre, e que Naomi Watts é mesmo encantadora.

Depois que o tema musical de James Newton Howard já colou na sua cabeça, o galã improvável Adrien Brody mostra que a estranheza funciona para o papel e o ex-Billy Elliott Jamie Bell traz o coadjuvante mais legal do filme. A chegada à ilha resulta numa cena fantástica do encontro entre a tripulação do navio e os nativos, com uma maquiagem assustadora. O domínio de Jackson sobre imagem e som nesta cena é impressionante. Ele é daqueles cineastas que fazem sumir os limites entre a tela e a platéia. Não vou me alongar no quesito técnico porque provavelmente todo mundo já falou ou vai falar sobre como os efeitos visuais são perfeitos, mas o que mais me impressionou não foi a absoluta competência em desenvoler o Kong, que tem cicatrizes e tudo, mas foi, acreditem, na sua composição como personagem e na sua performance.

O Kong de Jackson rouba sua loira sacrificada para depois se apaixonar. Tá todos os outros eram assim, mas nunca com a delicadeza como este filme mostra. Muito mais impactantes para mim do que as – inúmeras – cenas de ação com o gorila quebrando o pau com os dinossauros ou com os atores enfrentando todo o tipo de monstros pré-históricos (se você tem problemas com isso e gosta de filmes realistas, este filme não é para você), são as cenas de romance entre Ann e Kong, sedutoras, deliciosas, lindas mesmo. É nelas que o trabalho de capturar as expressões de Any Serkis, que também está no elenco em carne-e-osso, se revela preciso e, mais que isso, é nelas que Naomi Watts mostra que é uma das melhores atrizes do ano.

O tamanho no filme de Peter Jackson não é apenas documento, é em função dele que o diretor constrói seu filme. E é sendo do tamanho que é que King Kong permite suas alternâncias de ritmo, que revelam suas nuances múltiplas. De crônica social a filme de aventura, de superprodução a épico rômantico sobre um amor (im)possível, Peter Jackson faz um filme quase perfeito. Quem diria que o casal mais arrebatador de 2005 seria tão lindo?

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[King Kong, Peter Jackson, 2005]

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Tentação

Ainda não sei o que pensar desse Tentação. Fica na corda bamba entre o mais-do-mesmo dos filmes sobre relacionamentos e um obra com algo a dizer a partir de uma pequena história sobre adultério e troca de casais. Há aquele clima interiorano, cenário perfeito para que os dramas particulares de um casamento ganhem imensas proporções nas vidas simples de seus protagonistas. Há um certo cuidado em evitar frases feitas e situações clichê, mas não consegue uma conclusão eficiente. Não uma conclusão de história, mas de idéia.

Mark Ruffalo é o melhor em cena. Cada vez melhor ator, ele tem o papel mais tridimensional, mais redondo. Naomi Watts está ok e Laura Dern às vezes não consegue assumir direito a quase-neurose de sua personagem. Peter Krause só não está melhor porque o roteiro trata seu papel com descaso e sob uma visão condenatória. O melhor é quando as personagens se mostram perdidas. Aí o filme assume um tom bucólico que traz alguma discussão sobre comportamento e procura por satisfação.

Tentação EstrelinhaEstrelinha½
[We Don´t Live Here Anymore, John Curran, 2004]

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21 Gramas

21 Gramas

Narrativas esfaceladas podem provocar estranheza em muitas platéias, mas, desde que Pulp Fiction ganhou um Oscar de roteiro original, elas deixaram de ser novidade. O maior atrativo de 21 Gramas é como o roteiro de Guillermo Arriaga apresenta a história que une três personagens cujas vidas se cruzam em um determinado momento. Fosse esse apenas seu único mérito, o segundo longa-metragem de Alejandro González Iñarritú não chegaria muito longe, mas o mexicano revela aqui um grande desenvoltura como diretor de atores. Sean Penn, Naomi Watts e Benicio Del Toro são nomes que fortalecem qualquer elenco, que garantem créditos para qualquer filme, mas suas interpretações aqui vão além do talento pessoal, apontam para um vigoroso trabalho na condução dos desempenhos. E na unificação do discurso também. Iñarritú compõe um cotidiano contemporâneo, que não é estruturado em padrões estereotipados de personagem suburbanos. Pelo contrário, ações e reações, pessoas e lugares soam não apenas reais, mas próximos. A edição, a coisa mais visível no filme, vira coadjuvante. Apesar de uma certa repercussão contraditória, ela é boa. Mas não é o melhor. O roteiro pode partir de uma idéia semelhante a Amores Brutos, estréia do diretor, mas as relações estabelecidas entre os personagens transformam o filme num trabalho honesto e bem realizado. Sean Penn, num desempenho muito melhor do que o indicou para o Oscar (Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood), comanda um elenco afinado e sem afetações.

21 Gramas
[21 Grams, Alejandro González Iñárritu, 2003]

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Cidade dos Sonhos

David Lynch gosta de fazer ele mesmo muitos dos móveis que vemos em seus filmes. É um construtor por natureza. Seus trabalhos se apóiam em estruturas complexas que muitas vezes não são compreendidas e, às vezes, nem devem ser. A magia da obra de Lynch é justamente o mistério que envolve seus filmes e o elaborado caminho que o cineasta percorre para nos oferecer seu mistério. Lynch deve ser fruído e não necessariamente entendido. Cidade dos Sonhos é um filme clássico de David Lynch. Sua construção já é digna de aplauso e, mesmo que o espectador não compreenda todos os detalhes do filme, é possível perceber os toques geniais de seu diretor em cada pequena cena.

O filme tem a estrutura de um sonho. As cenas, objetos e personagens se rearranjam de acordo com os motivos de quem sonha. Nada é muito lógico. Nada é muito certo. Difícil até falar da história do filme, a princípio sobre a chegada de uma jovem pretendente a atriz em Hollywood e seu encontro com uma mulher que perdeu a memória depois de um acidente de carro. Mas nada é o que parece na filmografia de Lynch. Veludo Azul, A Estrada Perdida ou a antológica série Twin Peaks são obras extremamente cultuadas, mas que dificilmente serão entendidas por completo, em seus mínimos detalhes e intenções, e que ainda assim são deliciosas e instigantes.

Na melhor cena de Cidade dos Sonhos, a personagem de Naomi Watts participa de uma audição. Precisa passar pelo teste duas vezes para mostrar seu talento e brinda o espectador com uma transformação tão complexa quanto discreta, que revela não apenas uma poderosa atriz como define a questão de identidade que está no cerne do filme.

A estrada que Lynch percorre neste filme é uma estrada guiada pela frustração de alguém que não consegue ser outro, ser seu ideal. E pelos efeitos que isso pode ter na mente desse alguém. Para falar sobre os caminhos tortuosos da mente humana, sua especialidade, Lynch ergue um castelo de cartas que podem cair a qualquer momento. Um castelo erguido sob a égide do desejo, sob a conformidade do sonho. Genial e perigoso. Cai o rei de espadas… cai o rei de ouros… cai o rei de paus, cai… não fica nada. E então você acorda.

Cidade dos Sonhos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mulholland Dr., David Lynch, 2001]

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O Chamado

O que diferencia o filme de Gore Verbinski de seus pares é que aqui tempos uma obra inteligente. Com um roteiro, adaptado de uma produção cult japonesa, O Chamado faz o que muito filme de terror não faz: assusta. A idéia de revelar o mínimo possível de uma trama difícil, mas deliciosamente pronta para ser descoberta, prende a atenção do amedrontado espectador, que se projeta na jornalista protagonista, vivida Naomi Watts. Como em Sexto Sentido (99), este filme tem numa criança (o ótimo David Dorfman), a porta para seus mistérios. O Chamado é mais um filme de sensações que de revelações. Um filme onde o importante é ter medo. E o medo vem do sobrenatural. Um pesadelo sem fim que atrai e destrói.

O Chamado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Ring, Gore Verbinski, 2002]

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