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Mostra SP 2011: post 6

Eric Khoo

Tatsumi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tatsumi, Eric Khoo, 2011]

O singapuriano Eric Khoo, do chatinho e saudado Fica Comigo, arriscou uma mudança de estilo. Em Tatsumi, ele faz um biografia em forma de animação, homenageando um desenhista que inventou um novo gênero de mangás, mais realista e explícito na sexualidade. O resultado é acima da média porque Khoo mistura a história de seu personagem com as histórias que ele escreveu, dinamizando a trama. A ousadia da animação, que respeita o material original e se afasta dos padrões que costumamos ver, serve como tradução para a vida do autor. O filme vai acertando até o final, em que o peso de se fazer uma biografia surge e encerra esquematicamente a homenagem.

Miranda July

O Futuro EstrelinhaEstrelinha
[The Future, Miranda July, 2011]

A afetação nerdie de Miranda July incomoda muito. A diretora não tem a mão para saber quando deve parar de encher seus filmes com esquisitices fofas. O Futuro é bem melhor do que a estreia nefasta de July, Eu, Você e Todos Nós, onde parece decretar que todo mundo é imbecil. Aqui, ela não está interessada em “revelar” os pequenos segredos de cada um, mas procura deixar claro sua delicadeza débil, inserindo devaneios em todas as cenas. Na melhor delas, quando os namorados começam a imaginar a vida separados, o filme parece começar a apresentar um olhar interessante sobre solidão, mas July mais uma vez recorre a maneirismo indies e complica o resultado. Pode torcer pro animal-narrador com voz de bebê se dar mal, eu deixo.

Pierre Duculot

A Milhas de Distância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Au Cul du Loup, Pierre Duculot, 2011]

O material é clássico: mulher ganha uma casa no interior de herança e se apaixona por uma nova possibilidade de vida. O diretor Pierre Duculot até que trata o material de maneira menos óbvia, mesmo não foge dos elementos comuns: novo interesse amoroso, descoberta de segredos do passado, conciliação com a família. O pacote só não fica insatisfatório porque o diretor fotografa muito bem sua locação e ela ajuda a produzir o clima pretendido.

Geraldine Doignon

Vida que Segue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[De Le Vivant, Geraldine Doignon, 2011]

A estreante Geraldine Doignon entra aqui num terreno pantanoso, o dos filmes sobre reuniões de família em que os parentes lavam roupa suja. Em Vida que Segue, a morte da matriarca libera os ânimos dos personagens, que explodem em frustrações, ressentimentos e carências. Doignon conduz a trama com certa dignidade e faz questão de estabelecer um clima tenso, sem concessões. O desenho dos personagens às vezes parece excessivo. Todos são absolutamente tristes. Mas a diretora trata de dar substância a essa infelicidade e resolve o filme sem trair sua proposta. As galinhas são fundamentais para a catarse.

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Leon Cakoff

A cinefilia do Brasil perdeu hoje um de seus maiores incentivadores. Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, morreu no começo da tarde, vítima de um câncer que o atormentava havia alguns meses. A notícia triste chega exatamente uma semana antes do início da trigésima edição do evento, de cuja preparação Cakoff se manteve distante.

A persona controversa de Cakoff não diminui sua importância. A Mostra foi o primeiro evento do gênero no país e abriu espaço para que filmes de etnias e formatos diferentes pudessem ser vistos pelo público paulista e brasileiro. E digo mais: a Mostra ajudou a formar público. Se hoje São Paulo – e o Brasil – tem um circuito para a exibição de um cinema mais alternativo, a Mostra tem uma bela parcela de culpa nisso.

Cakoff foi um herói, um pioneiro. Batalhou até o fim para manter o festival.

Foi a Mostra exibiu pela primeira vez no Brasil filmes icônicos como Asas do Desejo, de Wim Wenders. Foi a Mostra que revelou para o espectador brasileiro os cinemas de Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami, Aleksandr Sokurov e Amos Gitaï. Entre muitos outros. Foi a Mostra que inspirou a criação do imenso circuito de festivais de cinema que existe hoje no Brasil.

E Cakoff, como seu mentor, foi o responsável-mor por este movimento nos últimos 35 anos. Até porque seu caráter centralizador praticamente inviabilizou a divisão dos trabalhos no festival, o que gerou uma série de dificuldades e atrasos na evolução da Mostra enquanto evento. Até alguns anos atrás, não se aceitava qualquer cartão na compra dos passaportes. As filas eram gigantescas. A programação até hoje só é liberada às vésperas do festival.

A notícia da doença, descoberta em dezembro do ano passado, abalou o processo de realização da Mostra deste ano. Os represtantes do festival não circularam pelos festivais internacionais garimpando títulos e, por decisão do próprio Cakoff, segundo sua esposa e maior parceira no comando da Mostra, o festival deste ano só exibirá filmes estrangeiros inéditos no país. Uma decisão cruel para os cinéfilos de São Paulo e de fora do estado que dedicam as duas últimas semanas de outubro para um mergulho no cinema mundial.

Com essa decisão, pela primeira vez em muito tempo um filme de Pedro Almodóvar, para se manter em um exemplo apenas, não será exibido na Mostra.

Com a morte de Cakoff, fica uma pergunta: qual o futuro da Mostra de Cinema de São Paulo? Sua mulher tomará para si o posto de herdeira do criador do festival? Haverá energia, disposição e jogo de cintura suficientes para que transformar um festival que sempre esteve centrado na figura de um homem só se torne uma criação de muitos? A despedida de Cakoff, além da tristeza pelo fato em si, pode ter implicações ainda maiores. Os cinéfilos brasileiros certamente esperam que a maior herança de Leon Cakoff permaneça em cartaz por muito tempo, honrando a memória de seu idealizador.

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Mostra SP 2010: Top 20 do Chico

Apichatpong Weerasethakul
 

Xavier Beauvois
 

Raoul Ruiz

1 Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, Apichatpong Weerasethakul
2 Homens e Deuses, Xavier Beauvois
3 Mistérios de Lisboa, Raúl Ruiz
4 Um Lugar Qualquer, Sofia Coppola
5 Politécnica, Dennis Villeneuve
6 Minha Felicidade, Sergei Loznitsa
7 Beyond, Pernilla August
8 A Rede Social, David Fincher
9 Símbolo, Hitoshi Matsumoto
10 A Primeira Coisa Linda, Paolo Virzi

11 Cópia Fiel, Abbas Kiarostami
12 Machete, Robert Rodriguez
13 Memórias de Xangai, Jia Zhang-Ke
14 Turnê, Mathieu Amalric
15 Caterpillar, Koji Wakamatsu
16 O Estranho Caso de Angélica, Manoel de Oliveira
17 Como Eu Terminei Este Verão, Alexei Popogrebsky
18 Luz nas Trevas, Helena Ignez e Ícaro Martins
19 Poesia, Chang-dong Lee
20 As Quatro Voltas, Michelangelo Frammartino

menção especial:
Os Amores de um Zumbi, Arnold Antonin

diretores

1 Apichatpong Weerasethakul, Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
2 Raúl Ruiz, Mistérios de Lisboa
3 Xavier Beauvois, Homens e Deuses
4 Dennis Villeneuve, Politécnica
5 Sofia Coppola, Um Lugar Qualquer

roteiros

1 Mistérios de Lisboa
2 Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
3 A Rede Social
4 Politécnica
5 Um Lugar Qualquer

atores

1 Jesse Eisenberg, A Rede Social
2 André Guerreiro Lopes, Luz nas Trevas
3 Grigori Dogrygin, Como Eu Terminei Esse Verão
4 Danny Trejo, Machete
5 Hitoshi Matsumoto, Símbolo

atrizes

1 Juliette Binoche, Cópia Fiel
2 Jeong-hee Yoon, Poesia
3 Helen Mirren, A Última Estação
4 Annette Bening, Minhas Mães e Meu Pai
5 Julianne Moore, Minhas Mães e Meu Pai

atores coadjuvantes

1 Michael Lonsdale, Homens e Deuses
2 Adriano Luz, Mistérios de Lisboa
3 Jeff Fahey, Machete
4 Mark Ruffalo, Minhas Mães e Meu Pai
5 Andrew Garfield, A Rede Social

atrizes coadjuvantes

1 Stefania Sandrelli, A Primeira Coisa Linda
2 Cássia Kiss, Bróder
3 Kristin Scott-Thomas, O Garoto de Liverpool
4 Clotilde Hesme, Mistérios de Lisboa
5 Anne-Marie Duff, O Garoto de Liverpool

fotografias

1 Turnê
2 Na Floresta
3 Politécnica
4 Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
5 Do Amor e de Outros Demônios

montagens

1 Politécnica
2 Dias Violentos
3 Luz nas Trevas
4 Machete
5 A Rede Social

trilhas

1 A Rede Social
2 A Última Estação
3 O Mágico
4 Machete
5 Símbolo

cenas

1 A mesa de jantar, Homens e Deuses
2 A mesa de jantar, Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
3 A piscina, Um Lugar Qualquer
4 Machete não manda mensagens, Machete
5 O posto policial, segunda vez, Minha Felicidade

Todos os filmes vistos na Mostra SP 2010

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Mostra SP 2010: Top 10 cinéfilos

Convoquei 17 amigos para escolherem comigo os melhores filmes da Mostra de Cinema de São Paulo, edição 2010. Pedi uma lista com dez filmes, em ordem, para cada votante. Foram atribuídos 10 pontos para o primeiro de cada relação, 9 para o segundo e assim por diante. O número de pontos foi o primeiro critério, seguido no número de votos e dos primeiros lugares. No final, o resultado foi decidido por um só pontinho.

10 Turnê
Mathieu Amaric
30 pontos, 4 votos, 1 pole

9 Abel
Diego Luna
34 pontos, 6 votos, sem poles

8 Machete
Robert Rodriguez
37 pontos, 5 votos, sem poles

7 As Quatro Voltas
Michelangelo Frammartino
37 pontos, 5 votos, duas poles

6 Homens e Deuses
Xavier Beauvois
37 pontos, 6 votos, sem poles

5 O Estranho Caso de Angélica
Manoel de Oliveira
38 pontos, 5 votos, 1 pole

4 Mistérios de Lisboa
Raúl Ruiz
50 pontos, 7 votos, 1 pole

3 Um Lugar Qualquer
Sofia Coppola
64 pontos, 7 votos, sem poles

2 Cópia Fiel
Abbas Kiarostami
91 pontos, 12 votos, 3 poles

1 Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
Apichatpong Weerasethakul
92 pontos, 11 votos, 3 poles

Votaram >> Alê Marucci, Camila Vieira, Carlos Massari, Celso Lazarin, Diego Maia, Dolores Orosco, Filipe Furtado, Guga Valente, Helio Flores, Marcia Schmidt, Michel Simões, Mitchel Diniz, Paula Ferraz, Sonia Barros, Stela Pagan, Tatiana Vasconcellos e Tiago Superoito, além de mim.

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Mostra SP 2010: post 11

Dennis Villeneuve

Politécnica EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Polytecnique, Dennis Villeneuve, 2009

Apesar da semelhança temática, este filme não tem nada a ver com Elefante, de Gus Van Sant. Mesmo assim é uma porrada, filmada com uma delicadeza absurda. Dennis Villeneuve aposta num tom que fica entre o diário e o documental para recriar o massacre de estudantes do sexo femininino na Escola Politécnica de Montreal. E mesmo tendo um filme sob as bençãos das famílias das vítimas, o que parece bastante perigoso, acerta em praticamente tudo: no preto-e-branco, na narração que dá vez e voz ao assassino ao invés de simplesmente condená-lo, na estrutura que acompanha os personagens pós-evento antes de que o evento em si seja mostrado por completo e, sobretudo na melancolia sem excessos que parece o olhar perplexo do diretor para um mundo que ainda o decepciona.

Martin Scorsese, Kent Jones, Elia Kazan, Marlon Brando

Uma Carta para Elia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
A Letter to Elia, Martin Scoresese e Kent Jones, 2010

O maior trunfo e a maior fragilidade de Uma Carta para Elia vêm do fato do filme ser tão reverente a seu homenageado. Martin Scorsese, mesmo com a coassinatura de Kent Jones, faz cinema em primeira pessoa: este documentário é nada mais do que declaração de amor, uma ode ao cineasta Elia Kazan, um diretor gigante e uma personalidade polêmica. Scorsese parece querer corrigir o fato de que Kazan seja tão lembrado por suas delações ao macarthismo quanto por seus filmes. Para isso, aproxima seu texto do peito e convida o espectador a enxergar os filmes de Kazan pelos olhos de um jovem apaixonado que reconhece na tela o mundo a sua volta. Scorsese não esconde sua devoção ao passear pela vida e pela obra de seu retratado. Estudioso do cinema, enche o doc com informações e análises sobre cada um dos filmes do diretor. O resultado é um filme do coração, com todos os prós e contras que isso possa gerar.

Sam Taylor-Wood

O Garoto de Liverpool EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Nowhere Boy, Sam Taylor-Wood, 2009

Os Beatles provocam tanta devoção que um filme sobre a adolescência de John Lennon só poderia assumir o formato absolutamente convencional que a diretora Sam Taylor-Wood atribuiu a O Garoto de Liverpool. Mas, se não ousa sob nenhum aspecto, a cineasta acerta – e bastante – na execução da novelinha que resolveu contar. O filme trabalha os clichês da história com muita habilidade e conseguiu uma delicadeza comovente ao apresentar a relação conflituosa entre Lennon e sua mãe Julia. Anne-Marie Duff e Kristin Scott-Thomas entregam interpretações belíssimas.

Thomas Vintenberg

Submarino EstrelinhaEstrelinha
Submarino, Thomas Vintenberg, 2010

A verdade é que, desde Festa de Família, seu primeiro, mais impetuoso e mais completo filme, Thomas Vintenberg nunca mais apresentou um trabalho com um conjunto tão forte. Submarino é uma experiência dramática bem mais refinada do que seus últimos filmes, mas o diretor ainda se perde em excessos estilísticos, como no flashback de abertura, e desvios que enfraquecem a trama principal, como a história do coadjuvante psicótico, ruim, clichê. Quando elege o que é importante, geralmente se dá melhor.

James Franco

Howl EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Howl, Rob Epstein e Jeffrey Friedman, 2010

Eu duvidei de Howl nos primeiros vinte minutos de projeção. A primeira impressão é de um filme afetado, que experimenta formatos sem qualquer preocupação com a unidade ou o conteúdo. Mas, aos poucos, a experiência de Rob Epstein e Jeffrey Friedman como documentaristas parece encontrar uma linha narrativa múltipla que, se não é brilhante, funciona com uma graça estranha, uma reverência ao segundo plano, uma melodia tímida que captura o espírito mind free, confuso e adolescente de Allen Ginsberg, de seu poema Uivo e da época em que ele viveu numa mistura ora anárquica, ora banal de documentário, ficção e animação.

Michael Hoffman, Helen Mirren

A Última Estação EstrelinhaEstrelinha
The Last Station, Michael Hoffman, 2009

Helen Mirren está na minha lista de maiores atrizes da atualidade e aqui ela dá vários motivos para eu não mudar de ideia, embora o crescendo de A Última Estação, que começa com frescor, achate sua interpretação. O filme, aos poucos, passa de um registro curioso sobre os últimos meses de vida de Lev Tolstoy para um novelão que não faz jus ao autor. Christopher Plummer, que sempre foi um ator limitado, aqui tem um dos highlights de sua carreira. Mas James McAvoy é quem mais impressiona com seu sensível anti-protagonista que tem pelo menos duas cenas lindas: o encontro emocionado com o escritor e a primeira vez com uma mulher. Embora termine banalizado, o filme de Michael Hoffmann tem seus momentos. Ah, a trilha é linda, linda, mas é usada em excesso.

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Mostra SP 2010: post 10

David Fincher

A Rede Social EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
The Social Network, David Fincher, 2010

Se existe ousadia em A Rede Social, ela mora no fato de que seu diretor amadureceu. David Fincher não usa nenhum dos artifícios narrativos que fizeram sua fama nos anos 90. Justamente onde eles mais cabiam, num filme sobre internet. Esse novo trabalho é incrivelmente sóbrio para sua temática. Fotografia funcional, montagem comportada; apenas a trilha sonora, assinada por Trent Reznor do Nine Inch Nails, que inclui elementos metálicos, soa diferente. E muito boa, por sinal. O que realmente chama a atenção no longa sobre a história do Facebook é como Fincher fez um filme simples, com a fluidez pop de sempre, mas sem recalques formais. O cineasta parece estar a serviço do roteiro, que executa com graça, equilibrando humor e melancolia como nunca fez. Jesse Eisenberg ofereceu ao projeto sua performance mais furiosa, compondo um personagem nerd vibrante ao mesmo tempo em que abre espaço para um pós-adolescente influenciável e inseguro. Andrew Garfield está tão bom quanto, mas seu personagem perde quando ele some da história. Os dois parecem estar se divertindo muito sob o comando de Fincher, que fez aqui seu melhor filme desde Zodíaco.

Feo Adalag

Quando Partimos EstrelinhaEstrelinha
Die Fremde, Feo Aladag, 2010

Filmes étnicos podem ser extremamente maçantes. Por isso, a única característica que realmente diferencia Quando Partimos de muitos de seus pares é que o filme tem uma encenação esforçada com bons atores dando mais substância a personagens caricatos. Mas isto realmente não faz do longa de Feo Aladag um grande filme. Nem um bom filme. A trama é idêntica a muitas. Neste ano mesmo, o Festival do Rio apresentou Ayla, que conta a história de uma mulher turca que resolve abandonar o marido, fugindo com o filho e tendo que enfrentar as tradições que colocam a própria família contra ela. A mesma trama antiga deste filme. Mas se o longa de Feo Aladag acerta na encenação, peca na tentativa de dar ainda mais peso e significância à história, criando cenas que parecem ter sido feitas para vender o filme como “porrada real”. O problema é que todo mundo já cansou de ver filme assim. E, cá entre nós, aquele final fatalista a la Crash, é de partir o coração com um exemplo de mau gosto.

Jia Zhang-Ke

Memórias de Xangai EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Hai shang chuan qi, Jia Zhang-Ke, 2010

O melhor documentário de Jia Zhang-Ke é encantador. O diretor se propôs a contar a história de Xangai através de depoimentos de pessoas que nasceram e moraram na cidade. Mas Jia evita o didatismo e faz um filme anacrônico, que viaja em ziguezague pelo tempo, com se lançasse uma pincelada em um lugar branco da tela a cada entrevista. Evitando criar o histórico oficial, o cineasta compõe um mosaico diferenciado, pontuado apenas pelo cinema, com clássicos chineses ajudando a ilustrar esse painel.

Sylvain Chomet

O Mágico EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
L’Illusioniste, Sylvain Chomet, 2010

O maior defeito de Sylvain Chomet para mim talvez seja sua maior qualidade para a maior parte das pessoas: o diretor dedica muito de seu trabalho a criar obras nostálgicas que parecem excessivamente calculadas. O Mágico, assim como As Bicicletas de Belleville, parece convocar o espectador a apreciar sua tristeza nobre e esquisita como forma de expressão genuína. É como se o filme gritasse: “olha como eu sou lindo”. Tá, é bonito mesmo, tanto no traço quanto em sua melancolia. Mas provavelmente Jacques Tati, que escreveu o roteiro anos atrás e não conseguiu realizá-lo, teria feito melhor. Tati sempre foi triste, melancólico, nostálgico, mas seus filmes sempre foram espontaneamente graciosos.

Louis Garrel

Aprendiz de Alfaiate EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Petit Tailleur, Louis Garrel, 2010

Nesse média-metragem, o ator Louis Garrel mistura todas suas referências de cinema francês, incluindo Truffaut, Honoré e até seu pai, para criar uma historinha pequena que ele conta com fluidez, mas sem muito brilho e de forma simpática e econômica.

Mahamat-Saleh Haroun

Um Homem que Grita EstrelinhaEstrelinha
Un Homme qui Crie, Mahamat-Saleh Haroun, 2010

OK. A grande revelação de Um Homem que Grita é que ele só foi premiado em Cannes porque é do Chade, não é isso? A história ex-atleta que toma conta da piscina de uma embaixada, é substituído e perde o sentido da vida é um conto moral com subtexto humanista, mas literalmente mergulhado em lugares comuns, resoluções óbvias e uma realização convencional. É simpático, é bem verdade, mas poderia tratar os personagens com mais complexidade.

Kyu-Hwan Jeon

Animal Town EstrelinhaEstrelinha
Animal Town, Kyu-hwan Jeon, 2009

Animal Town funciona muito mais enquanto seus protagonistas não se encontram, que é justamente a grande razão para o filme ter sido feito. Mas essa amarração final das duas histórias, apesar de parecer uma boa ideia, também tem ares de golpe de roteirista. Até a sequência final, Kyu-hwan Jeon filma dois homens solitários, que não conseguem mais se encaixar em suas vidas. E faz isso com destreza.

Ivan Engler, Ralph Etter

Cargo EstrelinhaEstrelinha
Cargo, Ivan Engler e Ralph Etter, 2009

Uma ficção-científica suíça. Curiosidade imediatada. Mas Cargo é um tanto decepcionante, embora haja competência na concepção visual. O filme recicla um monte de lugares comuns sobre “tem alguém escondido na nave”, misturando as grandes scifis pop, como Alien e Matrix, com uma trama convencional de suspense. Pelo menos quase diverte até o final estragar as coisas.

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Mostra SP 2010: post 7

Raoul Ruiz

Mistérios de Lisboa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Mistérios de Lisboa, Raoul Ruiz, 2010

Eu saí tão leve das quatro horas e meia de Mistérios de Lisboa que só posso concluir que Raoul Ruiz é o melhor diretor do mundo para adaptar livros clássicos, como foi com Proust em O Tempo Redescoberto. O que Ruiz faz com a obra de Camilo Castelo Branco – uma novela simples no texto e complexa na forma (já que é fartíssima de personagens e tem uma narrativa que se parte a cada vez que se quer apresentar um deles) – é sublime. O chileno radicado na Europa tem um domínio de cena assustador. Comanda o filme como um maestro, dando um movimento trágico-musical a todas as cenas, que ganham frescor e agilidade raríssimas em adaptações literárias de época. Ruiz administra a profusão de personagens a seu favor, dando espaço privilegiado a todos, mas seu maior acerto é na composição da narrativa, que transita por épocas diferentes em flashbacks introduzidos com tanta suavidade que mal se percebe a transição de tempo. A energia do filme, que reinventa o clássico, só poderia vir de um diretor que, aos 69 anos, é dono de uma jovialidade que poucos cineastas parecem ter.

My Joy

Minha Felicidade EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Schastye Moe, Sergei Loznitsa, 2010

Quando Minha Felicidade completou seus primeiros trinta minutos eu imaginei que estava vendo o melhor filme da Mostra, comparável talvez apenas a Tio Boonmee e Homens e Deuses, mas confesso que as reviravoltas que o diretor Sergei Loznitsa promove me confundiram tanto que o filme ficou um pouco menor para mim. Mas foi muito pouco. O cineasta de primeira viagem nasceu na Bielo-Rússia, mas filma como os romenos. A descida aos infernos do caminhoneiro Georgy é acompanhada pela mesma câmera naturalista dos colegas do Leste Europeu. Câmera que investiga os detalhes do cotidiano, que aqui são os encontros do protagonista com uma variada fauna de habitantes de uma região rural russa. Embora transforme seu filme num enigma a certa altura e torne o conjunto misterioso, o diretor usa seu filme para investigar pequenas crueldades humanas e compõe alguns momentos brilhantes. A sequência final, desde já, é uma das porradas do ano.

Helena Ignez, Djin Sganzerla

Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, Helena Ignez e Ícaro Martins, 2010

Eu provavelmente nem devo ter muitos motivos para isso, mas a verdade é que eu gostei demais de Luz das Trevas. A simples ideia de uma continuação de O Bandido da Luz Vermelha parece picareta e oportunista – e talvez até seja mesmo – mas o filme que Helena Ignez apresenta é tão carinhoso com seus discurso, formato e personagens que parece um genuíno exemplar desse gênero de cinema. O roteiro atribuído a Rogério Sganzerla, marido de Helena e diretor do filme original, é ingênuo e debochado na mesma medida, dono de um frescor de outrora, se é que isso existe, e uma vitalidade que faz falta no cinema brasileiro. As dezenas de participações afetivas incomodam um pouco e a interpretação e o personagem de Ney Matogrosso não fazem falta, mas a anarquia sacana de André Guerreiro Lopes já vale o ingresso.

Takeshi Kitano

O Ultraje EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Autoreiji, Takeshi Kitano, 2010

Mais uma vítima da projeções digitais da Mostra. O filme de Takeshi Kitano ganhou uma cópia escura, sem contraste ou definição. Apesar da qualidade do material que foi oferecido ao público, O Ultraje é um retorno irônico do cineasta aos bastidores da Yakuza, de que seu cinema estava afastado havia dez anos. O humor do diretor, que estava eclipsado pelos frágeis exemplares de sua trilogia sobre profissões, ressucita em grande forma, num deboche da máfia encharcado de sangue. Kitano já anunciou uma continuação para o ano que vem.

Yoji Yamada

História de Kyoto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Kyoto Uzumasa Monogatari, Yoji Yamada e Tsutomu Abe, 2010

História de Kyoto parte de uma proposta interessante: visitar a antiga capital do cinema japonês e lá contar uma história de amor. Os diretores Yoji Yamada e Tsutomu Abe intercalam sua ficção com referências a estúdios e filmes e depoimentos reais de moradores da cidade. Embora esse projeto mesclado de dramaturgia com documentário tenha ficado pelo meio do caminho – já que o romance cresce e toma conta lá pelo meio do filme -, os cineastas costuram a trama com tanta delicadeza que a brincadeira inicial nem faz falta. Este filme-homenagem é pequeno e gracioso.

Kawasaki's Rose

A Rosa de Kawasaki Estrelinha
Kawasakiho Ruze, Jan Hrebejk, 2010

O diretor Jan Hrebejk assumiu um dos papéis principais do filme que a República Tcheca escolheu para disputar uma vaga no Oscar. Um filme que nasceu com vontade de ser importante. A Rosa de Kawasaki é, num primeiro plano, um melodrama familiar sobre crises matrimoniais. Tem até uma cena boa, quando amante, marido e esposa resolvem conversar. Depois vira um filme sobre o segredo de um homem e aí toca em assuntos que o diretor acha realmente significativos como ditadura, delação e direitos humanos. É aí que a história começa a ser tratada como espetáculo de denúncia, que nem é tão giga assim, e que tudo vai por água abaixo. E a rosa e o Kawasaki do título são os figurante dos figurantes.

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Mostra SP 2008: balanço final

Eu faço parte daquela legião de obcecados pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Aquele banco de malucos que tiram folga, férias, fazem fila, gastam os tubos e adoram ver quatro, cinco, seis filmes por dia durante o festival. Mas eu acho difícil dimensionar o que a Mostra significa pra mim. Foi ela quem me fez decidir morar em São Paulo, a mudança mais radical da minha vida. Não pelo deslocamento em si (muita gente foi muito mais longe), mas pela minha natural queda pelo comodismo. A Mostra me fez mudar. E não foi uma mudança apenas para ver filmes, o que na minha lógica própria já seria motivo suficiente. A Mostra, e suas dimensões gigantes, e sua pluralidade, que fizeram decidir que São Paulo seria uma casa melhor para mim. Um lugar onde eu estaria mais perto do que me interessa, o cinema, a produção de cultura, a vida inteligente. Esta foi minha nona Mostra (deveria ter sido a décima, mas nem sempre você pode largar tudo para trás). E eu já começo a imaginar o que me reserva o ano que vem.

Bom, falando de balanço, minha idéia geral sobre o festival deste ano é que faltaram bons filmes. Além dos novos longas de Hayao Miyazaki, Laurent Cantet e Lucrecia Martel, entre outros, não estarem na seleção de 2008, os filmes que vieram não formaram um conjunto tão forte quanto o de outros anos. Geralmente eu termino a Mostra com quatro ou cinco filmes que eu considero obras-primas. Neste ano, só um mereceu cinco estrelas na minha visão. Dois outros chegaram bem perto disso, mas só chegaram. No entanto, para um festival em que eu não estava de férias e trabalhava durante o horário de boa parte das sessões, ter visto 51 filmes foi um feito.

Vamos então aos meus eleitos.

Top Ten Mostra SP 2008

Arnaud Desplechin

1 Um Conto de Natal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Arnaud Desplechin

Kyoshi Kurosawa

2 Sonata de Tóquio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kiyoshi Kurosawa

Miguel Gomes

3 Aquele Querido Mês de Agosto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Miguel Gomes

Jonathan Demme

4 O Casamento de Rachel EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jonathan Demme

Tomas Alfredson

5 Deixa Ela Entrar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Tomas Alfredson

Domingos Oliveira

6 Juventude EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos de Oliveira

Antonio Campos

7 Depois da Escola EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Antonio Campos

Sergey Dvortsevoy

8 Tulpan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sergey Dvortsevoy

Dardenne

9 O Silêncio de Lorna EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Emily Atef

10 Um Estranho em Mim EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Emily Atef

outros dez que merecem consideração

11 Queime Depois de Ler EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Joel e Ethan Coen
12 Horas de Verão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Olivier Assayas
13 Jodhaa Akbar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ashutosh Gowariker
14 A Fronteira da Alvorada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Philippe Garrel
15 Meu Winnipeg EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Guy Maddin
16 24 City EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jia Zhang-ke
17 Todo Mundo Tem Problemas Sexuais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos de Oliveira
18 Che: O Argentino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
19 Os Primeiros Anos de Wim Wenders EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Marcel Wehn
20 Liverpool EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Lisandro Alonso

melhores diretores
1 Kiysohi Kurosawa, por Sonata de Tóquio
2 Arnaud Desplechin, por Um Conto de Natal
3 Miguel Gomes, por Aquele Querido Mês de Agosto

melhores atores
1 Mathieu Amalric, por Um Conto de Natal
2 Toni Servillo, por Il Divo
3 Benicio Del Toro, por Che: O Argentino

melhores atrizes
1 Kyôko Koizumi, por Sonata de Tóquio
2 Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel
3 Susanne Wolff, por O Estranho em Mim

melhores atores coadjuvantes
1 Brad Pitt, por Queime Depois de Ler
2 Jérémie Renier, por O Silêncio de Lorna
3 Bill Irwin, por O Casamento de Rachel

melhores atrizes coadjuvantes
1 Emmanuelle Devos, por Um Conto de Natal
2 Catherine Deneuve, por Um Conto de Natal
3 Joan Chen, por 24 City

melhores roteiros
1 Aquele Querido Mês de Agosto
2 Um Conto de Natal
3 Deixa Ela Entrar

melhores fotografias
1 A Festa da Menina Morta
2 O Céu, a Terra e a Chuva
3 A Fronteira da Alvorada

melhores montagens
1 Aquele Querido Mês de Agosto
2 Sonata de Tóquio
3 Os Primeiros Anos de Wim Wenders

melhores direções de arte
1 Jodhaa Akbar
2 A Festa da Menina Morta
3 Meu Winnipeg

melhores trilhas
1 Jodhaa Akbar
2 Deixa Ela Entrar
3 Juventude

Os outros filmes:

Acácio EstrelinhaEstrelinha, de Marília Rocha
Adoração Estrelinha, de Atom Egoyan
Alvorada em Sunset, de Jeff McGary
O Amigo EstrelinhaEstrelinha, de Micha Lewinsky
O Canto dos Pássaros EstrelinhaEstrelinha, de Albert Serra
Cavalo de Duas Patas, de Samira Makhmalbaf
O Céu, a Terra e Chuva EstrelinhaEstrelinha, de José Luis Torres Leiva
Che: A Guerrilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
Cinzas do Passado Redux EstrelinhaEstrelinha, de Wong Kar-Wai
O Clone Volta para Casa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kanji Nakajima
Confissões de Super-Heróis EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Matt Ogens
Conhecendo Andrei Tarkovsky EstrelinhaEstrelinha, de Dmitry Trakovsky
Il Divo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paolo Sorrentino
A Festa da Menina Morta EstrelinhaEstrelinha, de Matheus Nacthergaele
Gomorra EstrelinhaEstrelinha, de Matteo Garrone
Hanami – Cerejeiras em Flor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Doris Dörrie
Ice EstrelinhaEstrelinha, de Makoto Kobayashi
Julgamento EstrelinhaEstrelinha, de Leonel Vieira
Lições Particulares Estrelinha, de Joachim Lafosse
Maldeamores Estrelinha, de Carlos Ruíz Ruíz e Mariem Pérez Riera
O Menino do Pijama Listrado, de Mark Herman
Palermo Shooting EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Wim Wenders
La Rabia EstrelinhaEstrelinha, de Albertina Carri
Rebobine, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Michel Gondry
El Regalo de Pachamama EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Toshifumi Matsushita
Rufião do Inferno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kihachi Okamoto
Sob Controle EstrelinhaEstrelinha, de Jennifer Lynch
Terra Vermelha EstrelinhaEstrelinha, de Marco Becchis
Three Monkeys EstrelinhaEstrelinha, de Nulri Bilge Ceylan
Vicky Cristina Barcelona EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Woody Allen
Waltz with Bashir EstrelinhaEstrelinha, de Ari Folman

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Mostra SP 2008: boletim 11

Carlos Ruíz Ruíz

Maldeamores Estrelinha, de Carlos Ruíz Ruíz e Mariem Pérez Riera

O público gostou bastante, mas essa coleção de histórias de amor, ou quase isso, é pobrezinha demais. O roteiro preguiçoso recicla clichês de comédias românticas e melodramas familiares. O texto é raso, o humor fácil e os personagens, mal construídos, estereotipam o latino ao máximo grau. Os diretores investem na fórmula do menos que é mais e fazem um filme para o povão pouco exigente. Porto Rico fica devendo.

Paolo Sorrentino

Il Divo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paolo Sorrentino

Engraçado, Il Divo é saudado como um exemplar do cinema italiano renovado, mas nada mais é do que um filme político com a montagem no fast. As cenas são calculadíssimas, o que resulta em alguns momentos realmente inspirados (sobretudo quando as soluções encontradas por Paolo Sorrentino pinçam o filme da condição de história para “ei, isto aqui é cinema, é truque”). Mas esse cinema pensado demais também cansa um pouco. A trilha berra em nossos ouvidos, mas é bem usada para os fins do diretor. A interpretação de Toni Servillo, embora invada muitas vezes a caricatura, é o que de melhor o filme tem a oferecer.

Dmitry Travoksky

Conhecendo Andrei Tarkovsky EstrelinhaEstrelinha, de Dmitry Trakovsky

Começou prometendo ser uma experiência interessante, com um tom bastante pessoal, onde o diretor compatriota de Tarkovsky tenta descobrir mais sobre seu cineasta favorito. Mas a inexperiência do autor (não sei se o sobrenome é de verdade ou se ele surrupiou de seu objeto de estudo) não soube concluir sua ambiciosa proposta: materializar o modo de Tarkovsky encarar o mundo. Era difícil mesmo. Então, embora ele tente pintar todas as entrevistas e informações que coleta ao longo do filme com um verniz de mais sério e profundo, o resultado fica no óbvio. O sentimento de frustração é inevitável, mas a viagem vale a pena, nem que seja pra ver a imagem da vila onde Tarkovsky nasceu, hoje uma área alagada, onde a única coisa que se vê é o topo de uma enorme cruz.

Toshifumi Matsushita

El Regalo de Pachamama EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Toshifumi Matsushita

O que esse japonês foi fazer na Bolívia é um mistério. Provavelmente tem a ver com sua experiência com documentários. El Regalo de Pachamama poderia bem ser um daqueles longas documentais que apresentam o cotidiano de personagens que vivem isolados, no caso o povo quéchua, que vive na Rota do Sal, mas vai além disso. Matsushita cria uma historinha mínima que funciona do começo ao fim (sendo o fim uma micro-história de primeiro amor), não se perde em excesso de detalhes, nem na vastidão na paisagem (o que virou marca do cinema latino-americano) e dirige seus não-atores melhor do que qualquer iraniano. Não tem nada de muito especial, mas é uma experiência válida.

Ashutosh Gowariker

Jodhaa Akbar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ashutosh Gowariker

Eu não recomendo este filme a ninguém porque ele exige bastante concessões do espectador. Primeiro, tem que se ter a mínima noção do que é Bollywood e da lógica do cinema comercial indiano. Segundo, é preciso ter paciência porque este é um filme com vários números musicais – e ele tem quase três horas e meia de duração. Quem não estiver disposto a relativizar certamente tentará ridicularizar esse filmaço, um espetáculo kitsch de primeira grandeza, uma ode ao exagero, pouquíssimo preocupado com verossimilhança, e coerente com uma filmografia popular. Jodhaa Akbar se baseia em fatos históricos pouco confiáveis para criar uma epopéia máxima, algo como um Cecil B. De Mille dos tempos atuais. Exagera em tudo.

Os figurinos multicoloridos explodem ao longo do filme, que começa com uma batalha que usa discretamente efeitos digitais. Os atores, limitados, são sempre orientados para o overacting. A Juliana Paes indiana, a lindíssima Aishwarya Rai, a maior atriz do país, lidera o elenco no papel título, contracenando com um galã bombadíssimo, canastrão como há tempos não se via. Há uma cena fantástica, em que a princesa começa a se interessar pelo imperador e admira seu torso nu ao sol, na melhor linha do antigo Cine Privê, da Band. Mas o melhor mesmo é a trilha sonora. A primeira música só chega aos 40 minutos de filme, mas traz dezenas de coleguinhas sucessivamente. E quando não canções, existe a trilha instrumental que joga um estrondoso “tanran!!!” em cada cena de tensão do filme.

Micha Lewinsky

O Amigo EstrelinhaEstrelinha, de Micha Lewinsky

A idéia inicial é boa: mulher pede a um cara que ela mal conhece para ele fingir ser seu namorado e depois morre. Ele resolve assumir o papel para a família da moça. No entanto, o diretor não sabe muito bem por onde levar o filme, não acha um tom interessante e se perde. Aqui e ali há uns cacoetes (a mãe do protagonista é superprotetora e carente; a relação entre a mãe da morta e a irmã é difícil; o pai é um cara amoroso), mas também existem cenas onde o filme muda de cores (como na carta lida no velório). O diretor termina tapando como pode as arestas que deixou (a relação entre o personagem principal e sua mãe se resolve sem explicação), abusa de imagens óbvias (como as da praia) e chega um resultado conciliatório meia-boca.

Jennifer Lynch

Sob Controle EstrelinhaEstrelinha, de Jennifer Lynch

Quando dirigiu Encaixotando Helena, Jennifer Lynch tinha 25 anos. O trauma foi tão grande que somente agora, 15 anos depois, ela se aventura novamente no comando de um longa-metragem. Há de se dizer que a filha de David Lynch envoluiu, embora a temática ainda seja a América doentia (bem próxima da América doentia de seu pai, diga-se de passagem) e os personagens continuem desequilibrados. Felizmente Jennifer resiste à tentação de introduzir elementos oníricos à narrativa do filme, o que seria uma herança entendível. Mesmo assim, Sob Controle, apesar de bem amarradinho, não é lá essas coisas. Depois do choque, parece fácil, truqueiro, clichezão. A projeção digital prejudica bastante o filme, que fica parecendo um daqueles longas policiais b com mistérios e reviravoltas, que passavam na Sessão de Gala.

Sergey Dvortsevoy

Tulpan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sergey Dvortsevoy

Tulpan é uma gracinha. Imagino o quanto essa palavra – gracinha – possa ser entendida como sinônimo de um filme feito para “distintas senhoras”. Mas não é bem isso o que eu quis dizer. Esse longa é surpreendente porque tudo indicava (sinopse, lugar de onde ele veio, atores não-profissionais) que ele seria mais um daqueles exemplares de filme pequenos sobre lugares pequenos dispostos a encantar o espectador por sua simplicidade e seus personagens singelos. Mas Sergey Dvortsevoy passa ao largo desta proposta, com dois grandes acertos: uma ótima direção de atores e um roteiro bem escrito e executado, que exalta a história e não cai no conto da paisagem bonita. Tulpan acerta porque é universal.

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Mostra SP 2008: boletim 10

Steven Soderbergh

Che: O Argentino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
Che: A Guerrilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh

Steven Soderbergh é um dos cineastas mais insólitos do mainstream norte-americano. Estreou alternativo, com sexo, mentiras e videotape, Palma de Ouro em Cannes; pareceu mais respeitável para ganhar o Oscar de melhor diretor por Traffic e fazer Erin Brockovich. No meio disso tudo, fez coisas estranhas como Kafka e Bubble e comédias divertidas com a série Onze Homens e um Segredo. Soderbergh vai do grande ao pequeno, do ousado ao despretensioso, com facilidade. Erra e acerta com freqüência. Quando anunciou que faria uma cinebiografia de Che Guevara, seria lógico pensar que este seria um de seus filmes sérios e convencionais. Sério, o projeto é. Convencional, nem tanto, principalmente para os padrões norte-americanos.

O projeto Che foi dividido em dois: O Argentino, que acompanha Guevara na Revolução Cubana, e A Guerrilha, retrato de seus últimos anos, treinando militantes na Bolívia. Ambos são obras com forte cunho documental, baseadas nos diários escritos pelo próprio Che, onde Soderbergh surpreende fazendo um retrato apaixonado do revolucionário. São quase filmes-panfleto, que transportam o personagem para aquele plano onde estão as criaturas inquestionáveis. Mas o diretor adota esta postura sem os exageros dramáticos comums a obras dessa natureza. Soderbergh vira advogado de defesa de Che Guevara em pequenas cenas que retratam, sobretudo, o código de ética e o senso de moral do personagem em meio à batalha.

Steven Soderbergh

Esta opção parece, a princípio, esconder a interpretação de Benicio Del Toro, já que não existem arroubos narrativos ou dramáticos comuns para se exaltar uma performance, convencer a platéia e ganhar prêmios. Não há nada parecido com um “eu estou grávida de Luís Carlos Prestes”, por exemplo. Do começo ao fim, o ator está discreto, sutil e silencioso. E, por isso mesmo, constrói aos poucos um personagem de primeira grandeza, de certa forma respeitando o Guevara vivido por um simpático Gael García Bernal em Diários de Motocicleta, mas o lançando num outro patamar de interpretação. A performance de Del Toro reflete o tom adotado por Soderbergh e vice-versa.

Em O Argentino, a opção por duas linhas narrativas paralelas causa um certo estranhamento. A primeira, em p&b com Guevara ministro, remonta o cinema norte-americano dos anos 70, factual, articulado e político. A segunda, com o cotidiano da guerrilha se alinha a um modelo narrativo mais atual, que explora detalhes em excesso, muitas vezes deixando o foco principal do filme para se ater a minúcias. As duas linhas temporais parecem competir (uma mais ágil; outra mais contemplativa, justamente a da guerra), mas terminam como complemento exato uma da outra. Este primeiro filme é um trabalho mais sóbrio do que o segundo, com uma câmera mais simples e uma trilha mais discreta.

Já o segundo longa, A Guerrilha, que adota uma narrativa única, mais simples, mas igualmente documental, permite que Soderbergh estetize mais a fotografia e que Alberto Iglesias mostre sua música. Curioso já que o filme se passa praticamente inteiro no campo de batalha. O longa funciona como contraponto para seu irmão gêmeo porque de certa forma mostra o ocaso da ideologia da Revolução Cubana. Del Toro mantém a mesma interpretação naturalista, mas agora com um quê mais melancólico diante de uma luta que não foi comprada pela população. Soderbergh, no entanto, encerra o longa com a mesma paixão juvenil que demonstrou, ainda que sem reverência, por aqueles devaneios ideológicos. Soderbergh é mesmo um dos cineastas mais insólitos do mainstream norte-americano.

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