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Metéora

Metéora

Metéora é o nome de um complexo de seis mosteiros que ficam sobre imensos picos rochosos na região central da Grécia, uma paisagem única que inspirou o cineasta Spiros Stathoulopoulos a criar uma história de amor bem particular, batizada com o mesmo nome do lugar. Metéora, o filme, é um respiro no cinema recente grego, que adotou a demência para se expressar sobre a condição político-econômica do país, um dos mais abalados pela crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. Stathoulopoulos encontra no cenário natural da região a matéria-prima para criar um libelo contra o desespero, que parece ser a metáfora perfeita para falar da Grécia.

O filme é protagonizado por dois monges, um homem e uma mulher, que vivem em mosteiros diferentes, um de frente para o outro, separados pelo abismo que divide as montanhas que os guardam. Mesmo à beira do abismo, como o povo grego, os dois se encontram e se apaixonam. Fogem escondidos, se encontram em terra firme e se amam. O diretor aproveita essa história para revelar os habitantes da região e costurar lendas e tradições ao amor proibido dos dois monges, muitas vezes recorrendo à animação como recurso para ilustrar esse peso histórico. Cria cenas de uma beleza clássica e refinada, envolve os personagens num manto de culpa para depois afirmar que o desespero é a única coisa que não tem jeito. Serve para os monges, serve para a Grécia, serve para o mundo.

Metéora EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Metéora, Spiros Stathoulopoulos, 2012]

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Inside Llewyn Davis

Inside Llewyn Davis

As coisas simplesmente não acontecem para Llewyn Davis. As notas melancólicas do folk que ele toca não apenas são seus instrumentos de trabalho, mas parecem emoldurar seu espírito e, de certa maneira, traduzir sua essência. Músico talentoso, cantor de rara sensibilidade, o homem já está na batalha para ser reconhecido por sua arte há um bom tempo, mas, quando não se depara com os empecilhos da vida, do mercado, das gravadoras, encontra obstáculos em si mesmo. Llewyn Davis tem rígidos princípios éticos em relação a sua música, embora seu conceito de moral – quando a questão é sobrevivência – seja bastante elástico.

O homem comum sempre esteve no centro do cinema dos irmãos Coen, embora alguns dos personagens de seus filmes estivessem envolvidos em situações fora do normal. A trajetória do protagonista de Inside Llewyn Davis, longa que abre nesta quinta-feira a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não abre espaço para grandes eventos ou cenas pouco ortodoxas. O homem comum deste filme é um homem comum mesmo. Os diretores parecem interessados em acompanhar a vida circular do personagem, uma odisseia construída a partir de pequenos fracassos. É desse espiral de desilusões que se repetem que surge a poesia irônica do filme.

O guatemalteca Oscar Isaac faz jus à melhor oportunidade que recebeu na carreira. Ele lança Llewyn Davis num intervalo idiossincrático entre a falta de pudores de um homem que pede, noite após noite, abrigo na casa de conhecidos ou desconhecidos e um artista que não admite fazer concessões. O personagem, inspirado na vida e na obra do músico Dave Van Ronk, é difícil de classificar: a fragilidade e a sutileza de suas apresentações musicais contrastam com a brutalidade de quando seu orgulho é ferido. Falta harmonia para Davis, sobra para Isaac.

O ator, que tem formação musical, assumiu, ele mesmo, os instrumentos que toca. O que seria um acessório se transforma em créditos para sua interpretação. A dedicação de Isaac para chegar até o âmago desse homem complicado que é seu personagem transparece na tela. É comum ver um artista empenhado em interpretar outro artista com tanta sinceridade no cinema. É raro vê-lo conseguir. Isaac transita com facilidade entre a melancolia daquele universo, daquela Nova York fria do início da cena folk, e o humor negro, marca dos Coen, que habita em todo o filme. Humor que se apodera da falta de sorte do protagonista para ajudar a traduzi-lo.

Na jornada de azar do músico, grande coadjuvantes cruzam a tela. Desde a namorada do amigo – Carey Mulligan deliciosamente furiosa, flertando com o overacting, mas sempre escapando por pouco – até o estranho chapado – John Goodman, literalmente alucinado, no que parece ser um personagem surgido apenas para provocar Llewyn Davis. Justin Timberlake e Adam Driver também dão as caras, ambos promovendo quase pequenas revoluções na vida do protagonista. O roteiro apresenta todos de maneira inusitada e os tira de cena do mesmo jeito.

Os Coen sempre tratam de quebrar nossas expectativas, seja com a má sorte crônica do personagem, seja com cenas que insinuam determinados desfechos, mas trombam com o imprevisível. Seja com uma curva que nunca é feita ou com o carinho que responde a uma grosseria, a imprevisibilidade parece ser um dos temas principais do filme: para os diretores, estamos todos, assim como – e junto – com personagem, sujeitos ao destino e à (boa ou má) vontade dos outros. As coisas às vezes simplesmente não acontecem.

Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Só EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Inside Llewyn Davis, Joel Coen & Ethan Coen, 2013]

Veja também:

Guia de sobrevivência na Mostra

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La Jaula de Oro

La Jaula de Oro

Se os cineastas mexicanos parecem viciados num cinema extremamente violento, que conquistou fãs mundo afora por apostar na repulsa como forma de expressão, La Jaula de Oro pode apontar novos ares para a produção cinematográfica do país, que precisa urgentemente desta renovação. Diego Quemada-Díez, um estreante em longas metragens que trabalhou como operador de câmera para Alejandro Gonzalez Iñarritu e Fernando Meirelles, encontrou uma forma de extrair lirismo de uma história dura, filmada de maneira realista, mas sem afetação.

A câmera inquieta do cineasta encontra Juan, Sara e Samuel, três adolescentes desiludidos com a vida miserável nas favelas da Guatemala, três jovens que sonham em transformar suas vidas nos Estados Unidos. Para isso, embarcam numa jornada através do México, que separa sua terra natal de seu objeto do desejo. No meio do caminho, conhecem Chauk, um índio da idade deles que, sem falar a mesma língua que o trio, resolve se unir ao grupo. Juntos, eles partem numa travessia que revela a desesperança de uma multidão.

Quemada-Díez, espanhol de nascimento, desenha uma América Central pronta para fazer as malas. O desenraizamento, mais do que uma questão cultural, mais do que ser o resultado da era global, é imposto pela necessidade de sobreviver. Ao mesmo tempo em que, a cada parada dos protagonistas, constrói essa imagem devastadora da região, o cineasta desenvolve cada um de seus personagens e as relações entre eles. Trabalha com estereótipos, mas se afasta do óbvio. Trata cada uma daquelas crianças com carinho apesar de submetê-las às mais variadas provas. Despede-se de quem fica pelo caminho com dignidade.

“La Jaula de Oro” também é o título de uma música “ranchera”, escrita por Enrique Franco, compositor que nasceu no México, mas se naturalizou norte-americano. A letra trata da imigração para os Estados Unidos e já serviu de inspiração para um filme nos anos 80. Apesar de não ser uma adaptação da canção, que é sobre um mexicano que já vive no “exílio”, o longa de Quemada-Díez, que é um dos finalistas ao prêmio principal da Mostra de Cinema de São Paulo – e tem chances -, herdou seu espírito triste e inconformado.

O estilo documental com que o diretor filma dribla a inclinação que filmes protagonizados por personagens adolescentes têm para seguir fórmulas. O roteiro, ao assumir esse compromisso realista, foge do modo esquemático, mesmo quando retrata rivalidades internas e demonstrações de amizade. O elenco, acertadíssimo, reafirma esta tendências. Todos aqueles personagens são plausíveis, todos aqueles destinos são possíveis. La Jaula de Oro explica para os defensores do cinema espetacularizado que o México tem praticado que as algumas das tragédias mais dolorosas acontecem sem alarde.

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[La Jaula de Oro, Diego Quemada-Díez, 2013]

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Tatuagem

Tatuagem

Onde Hilton Lacerda estava escondido nos últimos dez anos? Bastou o roteirista sair da sombra de Cláudio Assis, de quem escreveu todos os longas, para se revelar um provocador romântico com uma extrema consciência do mundo em que vive, mas com uma leveza para dar fluxo a suas ideias e uma sofisticação sem par para materializar as cenas que imagina. Tatuagem, sua primeira ficção, é um assombro. Seja pelo extremo cuidado com as imagens, a trilha e som; seja por causa do requinte do texto, atento ao Brasil de 1978, mas sem ranço sindicalista.

A sutileza, esse talento incomum que o diretor revela para movimentar sua história, deveria esbarrar na militância de Assis, para quem a provocação nunca foi suficiente. Era preciso ir para a guerra. Sem ter que dividir responsabilidades e méritos com o amigo, Lacerda fez um manifesto político apaixonado que, sem grandes eventos morais, acha numa pequena história sobre encontros e desencontros, o espaço ideal para dar voz ao autor. Ele veste as fantasias dos atores do grupo de teatro cuja trajetória acompanha para acomodar seu discurso libertário.

Várias vezes ao longo do filme, na boca de seu protagonista Clécio – Irandhir Santos, talvez o melhor ator brasileiro desta década -, o cineasta explica sua revolução. As apresentações e os números musicais que concebe em riqueza de detalhes para o filme são transgressão pura e simples. O mais radical deles é uma “ode ao cu”, reverenciado como instrumento revolucionário máximo. A cena, brilhantemente fotografada, assim como todo filme, é mais forte do que qualquer arroubo de Cláudio Assis. Lacerda contrapõe militares e artistas, mas são esses que se assumem como soldados. Soldados da mudança.

A cena de sexo entre Clécio e Fininha, personagem do novato – e ótimo – Jesuíta Barbosa, é belíssima: longa, coreografada como um balé, sensual e quase explícita. De uma ousadia que deixa qualquer Sergio Bianchi no chinelo. O momento, explosivo como quase tudo em Tatuagem, também é de uma delicadeza extrema como na cena em que o casal dança ao som de A Noite do Meu Bem. Mesmo quando recicla ideias e símbolos desgastados, como esta canção, Lacerda encontra o tom para encaixá-los na linha da vida de seu filme. História e trangressão caminham lado a lado. E de mãos dadas.

Da direção de fotografia ao desenho de som, da trilha sonora ao texto, das interpretações à montagem. Tudo é lindo e tudo é vivo em Tatuagem. Não existe escândalo na aproximação entre o diretor do grupo de teatro e o soldado. Não existe estranhamento no fato de um homossexual assumido ter tido um filho com uma mulher bem resolvida. Não existe tratamento diferente para as afetações e os trejeitos de personagens como Paulete. A viadagem também era a vida em 1978, diz Lacerda. Cabe ao mundo, atrasado, acompanhar.

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[Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013]

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Mostra SP 2013: seis filmes brasileiros

Riocorrente

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[Riocorrente, Paulo Sacramento, 2013]

“As ideias precisam voltar a ser perigosas”, afirma a protagonista de Riocorrente, filme de Paulo Sacramento escolhido pelo júri da Abraccine como o melhor da Mostra de Cinema de São Paulo. A frase, além de traduzir a inquietude das personagens do primeiro longa de ficção do diretor, parece ser uma pista das intenções do próprio cineasta na realização de seu filme. Poderoso retrato da opressão da metrópole sobre o homem, Riocorrente assume um lugar diferenciado na recente produção cinematográfica brasileira. Seus simbolismos, ao mesmo tempo em que conversam com um cinema de “mestres malditos” de outras gerações, emolduram um debate completamente contemporâneo. Sacramento ousa no discurso e ousa ainda mais na forma. O cineasta está disposto a provocar e, para isso, não se acanha em materializar suas “ideias perigosas”, explosivas, que revelam um homem inconformado com o status quo, um artista em perpétuo desconforto e, mais do que isso, um cinema que não se contenta em ser um só.

Depois da Chuva

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[Depois da Chuva, Cláudio Marques & Marília Hughes, 2013]

Essa inquietude aparece também em outro longa de estreia presente na Mostra: Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes. Mas no filme que abre espaço para outra frente de produção no cinema nordestino, a Bahia, o incômodo dos personagens – e dos cineastas – é diferente. É um incômodo com as convicções. O protagonista, criado a partir das experiências pessoais de Marques, não encontra respostas nem no clima de esperança fabricado pelo movimento Diretas Já, nem no discurso empírico do grupo de anarquistas a que se junta. A fúria silenciosa do personagem só encontra voz no fortíssimo movimento punk rock baiano do início dos anos 80, praticamente desconhecido fora do estado e recriado com certa ousadia pelos diretores. Marques e Hughes abriram mão do quase irresistível estereótipo baiano para fazer um filme sem sotaque, mas com outros temperos. Eles apontam para uma Bahia diferente, de classe média, que não é afro, onde as pessoas escutam rock. Os passos do protagonista nesse terreno tanto universal quanto particularmente soteropolitano são tão surpreendentes quanto algumas opções dos diretores.

De Menor

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[De Menor, Caru Alves de Souza, 2013]

A opção é justamente o que dá o diferencial a De Menor, filme da também estreante Caru Alves de Souza. Filha da cineasta Tata Amaral, a diretora evita os caminhos mais tradicionais – e mais fáceis – para tratar de uma das questões mais exploradas pelo cinema brasileiro, a do jovem que se envolve com o crime. Caru oferece um novo olhar para o tema ao escolher lidar com o problema por dentro. Ela evita mostrar a ação em si para tratar de suas consequências na relação entre dois irmãos e decide também esmiuçar o processo jurídico. O único senão ao filme é o didatismo, em alguns momentos excessivo. O texto decorado, quase declamado, na primeira cena da defensora diante do juiz tem momentos constrangedores, mas não impede que a cineasta construa um roteiro cheio de delicadeza e intimista, que encontra em Santos um cenário original para um filme com um tema como este. Esta vontade de escapar da obviedade, mesmo que possa frustrar o espectador, ávido por acompanhar a ação, é uma das particularidades do filme.

Amor, Plástico e Barulho

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[Amor, Plástico e Barulho, Renata Pinheiro, 2013]

Outro longa que trabalha a frustração em sua premissa – de história e de cinema – é Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. A pernambucana, que estreia em ficções, invade a gigantesca cena da música brega no Recife, criando um espécie de versão “cultura popular” de A Malvada, onde uma jovem dançarina não mede esforços para chegar à condição de estrela, que ela acredita que sua musa inspiradora já alcançou. A frustração aparece tanto na tentativa da aspirante quanto na desilusão da veterana – e Renata a utiliza também como método de cinema: para traduzir a efemeridade desse universo, a diretora arquiteta uma série de situações para, na hora h, frustrar as expectativas e não permitir catarses. O espectador não tem chance de ver o “nascimento” da estrela, mas em contrapartida é bombardeado por uma série de imagens de YouTube, como se a cineasta dissesse que ali está seu futuro. O duelo de interpretações é excepcional. Tanto Nash Laila quanto Maeve Jinkings, uma das melhores atrizes brasileiras do momento, estão excelentes em seus papeis.

O Lobo Atrás da Porta

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[O Lobo Atrás da Porta, Fernando Coimbra, 2013]

O elenco cheio de talentos é um dos grandes trunfos de outro filme, O Lobo Atrás da Porta, estreia de Fernando Coimbra na direção. Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento e Juliano Cazarré chamam a atenção, mas o filme é bem mais do que seu casting. Em seu primeiro longa, Coimbra revela um impressionante domínio de cena. É raro ver um filme brasileiro que se propõe a fazer um cinema narrativo clássico com tanta competência, principalmente em se tratando da reconstituição de uma história real – e bastante conhecida. O roteiro abraça um ritmo tranquilo, o que O filme é extremamente bem fotografado, tem uma montagem e um roteiro exemplares, rigorosos, mas cheios de fluidez, e um trabalho sonoro que captura as interferências externas para dentro da história principal.

O Exercício do Caos

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[O Exercício do Caos, Frederico Machado, 2013]

O som é um dos personagens principais de O Exercício do Caos, belo filme de estreia de Frederico Machado, primeiro longa maranhense que ganha distribuição nacional. O cineasta aposta numa narrativa com poucos diálogos, mas que encontra numa excelente composição sonora a forma ideal para traduzir a anestesia da rotina da família que protagoniza o filme. O som ambiente, sempre alto, ultrapassa a realidade daquelas pessoas, como se servisse de cortina e de clausura para os personagens. Machado consegue capturar um certo elemento fantasmagórico que coabita a fazenda onde a trama se passa. O filme tem um dos conjuntos técnicos mais harmônicos e rigorosos entre os longas brasileiros exibidos na Mostra, o que, num trabalho mais conceitual, corre o risco de virar matéria-prima, mas que em O Exercício do Caos emolduram um projeto sólido, com um algo existencialista, ambicioso sem dúvida, mas que não cede à afetação.

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Mostra SP 2013: pílulas

Lições de Harmonia

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[Uroki Garmonii, Emir Baigazin, 2013]

As primeiras cenas de Lições de Harmonia pareciam indicar que dali viria mais um exemplar do cinema étnico que brota fácil nas terras das antigas repúblicas soviéticas e dos países da Ásia Central. No entanto, o longa de estreia de Emir Baigazin dribla tantos os lugares comuns quanto as expectativas de filmes que têm sotaque. O cineasta realiza um drama escolar que parte de particularidades locais para trazer questões universais, voltando invariavelmente a refletir as características de sua sociedade original. Baigazin começa como um John Hughes cazaque, desenhando personagens complexos, que lidam com seus dramas pessoais ao mesmo tempo em que se debatem com os conflitos naturais da vida de estudante, agravados por uma intervenção cada vez maior de gangues dentro das escolas do país.

O diretor não teria filme se não tivesse conseguido encontrar três atores tão dedicados, como os garotos que vivem Aslan, Mirsayn e Bolat (este último, o vilão do filme, constrói perfeitamente um gângster em formação, do timing de cada fala à maneira como se movimenta – se estivesse em Hollywood, poderia fazer carreira). A delicadeza com que o diretor constrói o terreno para apresentar cada personagem se combina com o rigor estético de criar imagens não apenas bonitas, mas que emolduram e servem de apoio à narrativa. Delicadeza e rigor que encaminham o espectador para a meia hora final em que as aulas sobre a teoria da evolução que aparecem nas entrelinhas da trama principal ditam novas regras, novos rumos e novas perspectivas sobre os protagonistas. Baizagin pode passar do ponto aqui e ali, mas sua disciplina, sua métrica e, principalmente, sua dedicação para compreender seus personagens são admiráveis.

Manakamana

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[Manakamana, Stephanie Spray & Pacho Velez, 2013]

A deusa hindu Bhagwati atende os desejos dos peregrinos que vão visitá-la em seu templo escondido nas montanhas do Nepal. Pessoas com as mais variadas origens que representam as mais variadas camadas da população do país. Milhares de fiéis que, ano a ano, repetem o mesmo ritual: atravessam vales e montes num pequeno teleférico para prestar suas homenagens e pedir suas bençãos. O templo de Bhagwati é o Manakamana que batiza o filme de Stephanie Spray & Pacho Velez. Os diretores reproduzem essa rotina circular dos nepaleses acompanhando as idas e vindas dos devotos da deusa, guardando o mistério de sua imagem e de sua morada. cada vez que o bondinho sai, o filme nos presenteia com a surpresa do próximo protagonista. Muitas vezes são dez minutos de silêncio que nos levam à meditação: o que leva aquelas pessoas a percorrer aquele caminho? De onde elas vêm e para onde elas vão? Cada viagem nos revela uma face do povo do Nepal. Um motivo. Uma possibilidade. A deusa abençoa aqueles que vão, aqueles que voltam, e a gente acompanha aqueles peregrinos, sempre enclausurados num mesmo plano, sempre dispostos a buscar aquela benção.

Lukas, o Estranho

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[Lukas Nino, John Torres, 2013]

Se o cinema vive buscando novos formatos, Lukas, o Estranho parece ser a forma mais descompromissada de encontrá-lo. A bagunça que John Torres promove em sua obra mais recente tem o frescor de um cineasta à procura de uma linguagem própria e a leveza de um trabalho que não se preocupa em oferecer conceitos fechados ou mesmo sólidos. O filipino faz sua “revolução” na forma de filme caseiro, algo parecido com os Super-8 experimental, em que um fiapo de história encontra um quase-formato de cinema silencioso em que há um filme dentro do filme e os atores são pessoas da vizinhança. A simplicidade com que apresenta suas experiências malucas tem mais vitalidade do que cinemas mais, digamos, sérios. Lukas, Wang Basilio e Melanie Moran ficarão imortalizados na efemeridade da brincadeira deste filipino.

Veja também: minha cobertura para a Mostra.

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Mostra SP 2013: A Fuller Life

A Fuller Life

Diante de uma história tão rica, era de se esperar um pouco mais de A Fuller Life. A história, que ninguém se engane, continua lá – e continua rica, mas o formato que Samantha Fuller escolheu para falar sobre o pai parece cômodo demais. A diretora abre o filme com uma apresentação que parece de programa de TV: falando diretamente para a câmera, ela alterna jogos de palavras e clichês sobre seu pai, o cineasta Samuel Fuller, enquanto caminha pela biblioteca dele, colecionando objetos que o caracterizam, como um rifle. É a parte mais ousada – e a que menos funciona – do filme, que a partir daí convida atores, cineastas, roteiristas (entre eles Mark Hammil, Jennifer Beals e o grande William Friedkin) para ler trechos da autobiografia do homem.

As passagens lidas, da experiência como repórter de polícia ao tempo em que lutou na Segunda Guerra Mundial, passando pelo início do namoro com Hollywood, Samantha Fuller ilustra com fotos e muitas imagens da época, a maioria delas imagens raras, filmadas pelo próprio cineasta. Essa riqueza imagética somada ao texto simples e saboroso do cineasta levantam o material e ajudam a contar os detalhes de uma trajetória única no cinema americano. Um dos momentos mais emocionantes é quando a atriz Constance Towers, estrela de O Beijo Amargo, rodado há quase 50 anos, aparece como uma linda senhora na tela.

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[A Fuller Life, Samantha Fuller, 2013]

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Mostra SP 2013: Escudo de Palha

Escudo de Palha

O que sobrou dos rígidos princípios éticos da sociedade japonesa depois da crise econômica que o país vem passando nos últimos anos? O que sobrou do espírito japonês com a cada vez mais crescente perda de identidade de seu povo para o mundo globalizado? Estas parecem ser perguntas que Takashi Miike faz em Escudo de Palha, filme, que disfarçado de longa de ação, parece um estudo do comportamento de uma sociedade. O cineasta parte de um plot simples: um senhor riquíssimo oferece uma recompensa bilionária para que qualquer pessoa mate o homem que assassinou sua neta de sete anos. O acusado se apresenta à polícia e precisa ser escoltado por um grupo de cinco agentes de Fukuoka até Tóquio. Uma jornada para salvar a vida de um criminoso onde os próprios policiais colocam em xeque sua missão e suas convicções.

Miike, um diretor que alterna filmes sensíveis e de timing certeiro com violência plástica e cinema para ser consumido rapidamente, aqui encontra um ponto de intercessão entre todas estas vertentes. Escudo de Palha trabalha no gigantismo e nos detalhes. As cenas de ação, ininterrupta, em sucessão, numa escala enorme, que parece inédita em sua extensa cinematografia. A sequência do engarrafamento de viaturas e da chegada do caminhão é apoteótica, enquanto as cenas do trem bala aproveitam a alta velocidade para não dar respiro ao espectador. No entanto, o diretor reserva bastante espaço para trabalhar cada um dos personagens, revelar sua motivações e suas dualidades e, a partir daí, espalhar várias versões do conceito de justiça e mostrar as deturpações morais que enxerga em seu país.

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[Wara no Tate, Takashi Miike, 2013]

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Mostra SP 2013: cobertura

Começou a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, um dos eventos de cinema mais importantes do Brasil. A trigésima sétima edição. A décima quarta que eu acompanho. Vou concentrar aqui neste post minha cobertura do evento.

MetéoraChild's Pose

Listas para o UOL:

Cinco curtas de grandes diretores
Cinco filmes asiáticos
Cinco filmes brasileiros premiados
Cinco filmes para ver no primeiro dia de Mostra
Cinco vencedores de festivais internacionais

Guia de Sobrevivência:

Guia de sobrevivência na Mostra de Cinema de São Paulo

Filmes vistos (com links para críticas):

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Dr. Fantástico, Stanley Kubrick
O Grande Golpe, Stanley Kubrick
O Iluminado, Stanley Kubrick
Nascido para Matar, Stanley Kubrick
Tatuagem, Hilton Lacerda

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Uma Família de Tóquio, Yôji Yamada
Lições de Harmonia, Emir Baigazin
Providence, Alain Resnais
Riocorrente, Paulo Sacramento

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Child’s Pose, Calin Peter Netzer
Depois da Chuva, Cláudio Marques & Marília Hughes
Escudo de Palha, Takashi Miike
Inside Llewyn Davis, Joel & Ethan Coen
Metéora, Spiros Stathoulopoulo
O Menino e o Mundo, Alê Abreu

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De Menor , Caru Alves de Souza
O Grande Mestre, Wong Kar-Wai
Lukas, o Estranho, John Torres
Manakamana, Stephanie Spray & Pacho Velez
Mário Lago, Marcos Abujamra & Markão Oliveira
Omar, Hany Abu-Assad
Pelo Malo, Mariana Rondón
Segurança Nacional, Ji-yeong Jeong
Vida, Tatiana Villela

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Avanti Popolo, Michael Wahrmann
Exilados do Vulcão, Paula Gaitán
O Garoto que Comia Alpiste, Ektoras Lygizos
Histórias de Arcanjo – Um Documentário sobre Tim Lopes,
O Foguete, Kim Mordaunt
A Fuller Life, Samantha Fuller
Lasting, Jacek Borcuch
Outro Sertão, Adriana Jacobsen & Soraia Vilela
Rio Cigano, Julia Zakia

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Conversa com JH, Ernesto Rodrigues
A Gaiola de Ouro, Ruben Alves
O Garoto Lobisomem, Sung-Hee Jo
Paradjanov, Olena Fetisova & Serge Avedikian
Um Perdão Necessário, Judy Kibinge
Rubem Braga – Olho as Nuvens Vagabundas, André Weller

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Guia de sobrevivência na Mostra de Cinema de São Paulo

Nos 15 anos em que eu acompanho a Mostra de Cinema de São Paulo, aprendi algumas lições. Na correria de um festival como este, com quase 400 filmes no catálogo, cinemas espalhados pela cidade e intervalos apertados entre as sessões, é impossível sair ileso. O cansaço e a própria natureza do evento nos faz perder alguns filmes, desistir de sessões e privilegiar o que nem sempre é prioridade. Por isso, listo aqui algumas dicas para você otimizar sua programação.

Child's Pose

1 Evite filmes programados para estrear.

A dica é direcionada para quem gostar de ver filmes que dificilmente vão ganhar espaço no circuito comercial brasileiro. Cinematografias pouco tradicionais, filmes com longa duração, filmes raros que estão sendo exibidos em cópias restauradas. Investindo neles você aumenta seu leque de filmes vistos e não corre o risco de gastar um precioso ingresso da Mostra com um filme que vai estrear duas semanas depois. Porém, é preciso ter em mente que a previsão de estreia nem sempre se concretiza, o que nos leva à segunda dica.

2 Se você quer muito ver um filme, não deixe passar essa oportunidade.

O circuito comercial é uma bagunça. Mesmo que o filme tenha sido comprado por uma distribuidora, isso nem sempre significa que ele vai ser exibido num cinema perto de você. Então, se você está ansioso por esse ou aquele filme, corra para garantir seu ingresso porque você não vai se perdoar se a estreia dele for adiada ou cancelada. Um exemplo é À Prova de Morte, de Quentin Tarantino, exibido no festival de 2007. O filme estava comprado, com data de estreia marcada, mas terminou só chegando ao circuito três anos depois.

3 Evite filmes brasileiros à noite.

Nossa safra de filmes brasileiros vai muito bem, obrigado, mas se você não fizer parte da equipe de um deles, fuja das sessões noturnas desses longas. Principalmente se for a primeira exibição na Mostra. Geralmente, os horários “nobres” são utilizados para fazer a premiére dos filmes na cidade. Ou seja, o diretor é chamado para falar sobre o trabalho, sempre chama a equipe para a frente da tela, apresenta um a um, o que é ótimo para valorizar o cinema brasileiro, mas é péssimo para quem tem sessão marcada duas horas depois. Prefira sessões mais cedo. O mesmo vale para filmes estrangeiros com diretores presentes no evento.

4 Reserve seu ingresso o quanto antes.

Chegar em cima da hora da sessão para tentar um ingresso é suicídio em época de Mostra. Os cinéfilos são um pessoal maluco, que garante sua entrada dias antes do filme ser exibido. Melhor comprar pela internet ou, caso você tenha um dos pacotes, retirar o ingresso assim que ele for liberado. Se deixar para comprar no dia, chegue cedo, de preferência quando a bilheteria abrir. E vá decidido. Ficar escolhendo os filmes no caixa gera fila, enfurece quem está esperando e pode fazer você chegar atrasado à sessão.

5 Reserve tempo entre um filme e outro. E escolha cinemas próximos.

Lembre-se sempre: as sessões da Mostra não são iguais às sessões do circuito comercial. Elas atrasam. Os filmes chegam em cima da hora, o cara que faz a legenda some, os arquivos travam. Pode acontecer uma infinidade de problemas que atrapalham a projeção, então, melhor se garantir reservando um espaço maior entre um filme e outro. Pelo menos meia hora. E o mais importante: escolha cinemas próximos um do outro. Melhor abrir mão desse ou daquele filme e passar um período maior (ou o dia inteiro) num cinema para não correr o risco de perder alguma sessão.

Inside Llewyn Davis

6 Escolha poltronas perto das saídas.

Os tempos são de correria e não dá para bobear se você tem um filme marcado para logo depois da sessão que você vai assistir agora. Portanto, reserve sua poltrona perto das saídas para que você possa correr se precisar. Cadeiras “acessíveis” evitam que você fique preso numa fila pós-sessão, atrás de gente que está na sua frente, mas muito menos apressada que você. Depois de algumas sessões, você não vai querer outra coisa.

7 Lista de espera funciona.

Não se desespere se você não conseguir o ingresso para a sessão que tanto queria. Chegue cedo e peça para por seu nome na lista de espera. Muita gente que retira os ingressos não consegue chegar a tempo da sessão e o pessoal do cinema geralmente libera a entrada de mais uma dez, quinze pessoas. Portanto, quanto antes você colocar seu nome da lista, mais chances de você assistir seu filme, mesmo que perca os primeiros minutos da sessão.

8 Leve água e lanche na mochila.

No corre-corre da Mostra, é dificil arranjar tempo para comer. Melhor garantir seu lanche, levando as guloseimas na mochila. A solução, além de mais prática, também é bem mais barata porque, convenhamos, os preços dos lanches nas salas de cinema estão cada vez mais abusivos. Levando o lanchinho de casa, você economiza, não passa fome e não perde seu precioso tempo para fazer xixi, conversar com os amigos e se locomover entre uma sessão e outra.

9 Tenha sempre um plano B.

Importantíssimo. Em qualquer festival que se preze, a programação muda constantemente pelos mais variados motivos. Resultado: o filme que você tinha agendado pode não passar mais ou você pode não chegar a tempo de uma sessão porque a anterior atrasou. Quando isso acontece, quem tem uma segunda opção geralmente se sai melhor. Se você sabe o que está passando em horários intermediários e salas vizinhas, evita consultar a programação pela enésima vez, não perde tempo e se encaminha para seu plano B, que pode até surpreender.

10 Troque ideias nas filas.

Os guias ajudam, mas não fazem todo o trabalho. Eles apostam em filmes que fizeram sucesso em festivais, que têm chances de concorrer ao Oscar ou em diretores famosos, mas ignoram filmes que não tem pedigree. Muitos favoritos dos festivais surgem no boca-a-boca. Principalmente na Mostra, que premia longas de diretores iniciantes. O filme que o pessoal da fila está indicando pode ser o vencedor do evento neste ano.

Espero que as dicas ajudem. Boa Mostra pra você!

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