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Mostra SP 2011: post 15

The Yellow Sea EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hwanghae, Hong-jin Na, 2010]

O Outro Lado do Sono EstrelinhaEstrelinha
[The Other Side of Sleep, Rebecca Daly, 2011

Rebecca Daly levou a sério o título de seu filme. O Outro Lado do Sono e seu quê de thriller indie-etéreo-irlandês desperta o cochilo interior em qualquer espectador. A trama não oferece respostas fáceis, mas a suposta inteligência da narrativa parece mais uma grande confusão de onde a diretora não soube achar a saída. A protagonista exagera na demência.

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Mostra SP 2011: os melhores filmes

A repescagem da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo terminou hoje e, apesar do ineditismo da seleção privar o espectador paulista de alguns filmes bem interessantes, belos títulos foram exibidos no evento. Eis meu top 15 da Mostra 2011:

15 Caverna dos Sonhos Esquecidos, Werner Herzog

14 Sábado Inocente, Aleksandr Mindadze

13 O Dominador, Kim Min-suk

12 O Garoto de Bicicleta, Jean-Pierre e Luc Dardenne

11 Era uma Vez na Anatólia, Nuri Bilge Ceylan

10 Tudo pelo Poder, George Clooney

9 The Yellow Sea, Hong-jin Na

8 O Céu sob os Ombros, Sérgio Borges

7 The Day He Arrives, Hong Sang-Soo

6 Habemus Papam, Nanni Moretti

5 Isto Não é um Filme, Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb

4 Fausto, Aleksandr Sokurov

3 O Palhaço, Selton Mello

2 Girimunho, Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina

1 Las Acacias, Pablo Giorgelli]

diretores

1 Aleksandr Sokurov, Fausto
2 Selton Mello, O Palhaço
3 Pablo Giardelli, Las Acacias
4 Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, Girimunho
5 Hong-jin Na, The Yellow Sea

atores

1 Ryan Gosling, Tudo pelo Poder
2 Michel Piccoli, Habemus Papam
3 Toni Servillo, Una Vita Tranquilla
4 Selton Mello, O Palhaço
5 Jung-woo Ha, The Yellow Sea

atrizes

1 Camila Pitanga, Eu Receberia as Piores Notícias
2 Maria Sebastiana, Girimunho
3 Everlyn Barbin, O Céu Sob os Ombros
4 Cécile de France, O Garoto de Bicicleta
5 Nadezhda Markina, Elena

atores coadjuvantes

1 Anton Adasinsky, Fausto
2 Moacyr Franco, O Palhaço
3 Alain Cavalier, Pater
4 Yun-seok Kim, The Yellow Sea
5 Gero Camilo, Eu Receberia as Piores Notícias

atrizes coadjuvantes

1 Svetlana Smirnova, Sábado Inocente
2 Evan Rachel Wood, Tudo pelo Poder
3 Fabiana Karla, O Palhaço
4 Nayra Calle Mamani, Las Acacias
5 Teuda Bara, O Palhaço

roteiros

1 Girimunho
2 The Day He Arrives
3 Fausto
4 Isto Não é um Filme
5 Habemus Papam

fotografias

1 Fausto
2 O Palhaço
3 Girimunho
4 Sábado Inocente
5 Era Uma Vez na Anatólia

montagens

1 The Yellow Sea
2 Girimunho
3 Tudo pelo Poder
4 O Céu sob os Ombros
5 O Dominador

direções de arte

1 Fausto
2 O Palhaço
3 Habemus Papam
4 Sábado Inocente
5 Era Uma Vez na Anatólia

trilhas

1 O Palhaço
2 O Dominador
3 Tudo pelo Poder
4 Fausto
5 Era Uma Vez na Anatólia

e o resto dos filmes em ordem alfabética:

A Milhas de Distância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Pierre Duculot
Aqui EstrelinhaEstrelinha, Braden King
Attenberg Estrelinha, Athina Rachel Tsangari
Blowfish EstrelinhaEstrelinha, Chi Y. Lee
Bullhead EstrelinhaEstrelinha, Michael R. Raskam
As Canções EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Eduardo Coutinho
Cisne EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Teresa Villaverde
A Cor da Romã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Sergei Paradjanov
Cut EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Amir Naderi
O Desaparecimento de Gato EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Carlos Sorín
Despair EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Rainer Werner Fassbinder
Os Dias Verdes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Hana Makhmalbaf
Elena EstrelinhaEstrelinha, Andrey Zvyagintsev
Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Beto Brant e Renato Ciasca
Fora de Satã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Bruno Dumont
The Forgiveness of Blood EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Joshua Marston
Frango com Ameixas EstrelinhaEstrelinha, Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
O Futuro EstrelinhaEstrelinha, Miranda July
Hanezu EstrelinhaEstrelinha, Naomi Kawase
Histórias da Insônia EstrelinhaEstrelinha½, Jonas Mekas
A Ilusão Cômica EstrelinhaEstrelinha, Mathieu Amalric
Irmãs Jamais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Marco Bellocchio
Jogos de Verão EstrelinhaEstrelinha, Rolando Colla
Kaidan Horror Classics EstrelinhaEstrelinha, Ochiai Masayuki, Shinya Tsukamoto, Lee Sang-il, Hirokazu Kore-eda
Labrador EstrelinhaEstrelinha½, Frederikke Aspökke
Laranja Mecânica EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Stanley Kubrick
Low Life EstrelinhaEstrelinha½, Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval
Montevidéu – O Sonho da Copa Estrelinha, Dragan Bjelogrlic,
As Ondas EstrelinhaEstrelinha, Alberto Morais
O Outro Lado do Sono Estrelinha, Rebecca Daly
Parada em Pleno Curso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Andreas Dresden
Pater EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Alain Cavalier
Respirar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Karl Markovics
Uma Rua Chamada Pecado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Elia Kazan
Sindicato de Ladrões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Elia Kazan
Tatsumi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Eric Khoo
Taxi Driver EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Martin Scorsese
A Terra Ultrajada EstrelinhaEstrelinha½, Michale Boganim
Toast EstrelinhaEstrelinha, S. J. Clarkson
Vida que Segue EstrelinhaEstrelinha½, Geraldine Doignon
Una Vita Tranquilla EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Claudio Cuppellini
Vulcão EstrelinhaEstrelinha, Runar Runarsson

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Mostra SP 2011: Top 10 dos Cinéfilos

Para manter a tradição, reuni um grupo de amigos cinéfilos para eleger os melhores filmes exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Cada votante mandou seu top ten. Foram atribuídos 10 pontos para cada primeiro colocado e assim sucessivamente até o décimo ganhar um ponto. O resultado foram dois empates. Um na última posição do top ten e outro na primeira. O desempate foi pelo número de votos. Mesmo com uma seleção enfraquecida pelo ineditismo, alguns filmes ainda conseguiram ser lembrados por muita gente.

10 Elena
Andrey Zvyagintsev
25 pontos, 3 votos

9 Tudo pelo Poder
George Clooney
25 pontos, 4 votos

8 Fausto
Aleksandr Sokurov
26 pontos, 4 votos

7 Caverna dos Sonhos Esquecidos
Werne Herzog
28 pontos, 5 votos

6 The Day He Arrives
Hong Sang-soo
47 pontos, 8 votos

5 Era Uma Vez na Anatólia
Nuri Bilge Ceylan
50 pontos, 9 votos

4 O Garoto da Bicicleta
Jean-Pierre e Luc Dardenne
53 pontos, 8 votos

3 Habemus Papam
Nanni Moretti
55 pontos, 8 votos

2 Las Acacias
Pablo Giarddelli
61 pontos, 9 votos

1 Isto Não é um Filme
Jafar Panahi eMojtaba Mirtahmasb
61 pontos, 9 votos

Votaram: eu, Andy Malafaya, Camila Vieira, Cecília Barroso, Celso Lazarin, Diego Maia, Elaine Patrícia Cruz, Helio Flores, Layo Barros, Michel Simões, Paula Ferraz, Tatiana Vasconcellos e Tiago Superoito.

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Mostra SP 2011: post 14

Attenberg Estrelinha
[Attenberg, Athina Rachel Tsangari, 2010]

A demência parece ser um estado de espírito na Grécia. Não sei bem se tem a ver com a crise econômica que quebrou o país, mas o cinema grego dos últimos anos parece apostar numa experimentação débil que lembra peças de teatro universitário. Attenberg bebe da mesma fonte de Dente Canino, exemplo maior da demência cinematográfica grega. O diretor daquele filme é ator neste e a diretora deste foi produtora do outro.

O filme gira em torno de uma mulher adulta que praticamente não teve experiências adultas na vida, incluindo sexuais. Comporta-se como uma menina de 5 anos. Se a ideia é fazer um paralelo com uma Grécia que teria parado no tempo, essa ideia é mal acabada. O filme funciona melhor quando centra fogo no processo de despedida de um pai doente, mas até lá precisamos ver os personagens imitando animais ou pulando pra lá e pra cá, o que serve como uma espécie de vinheta para pontuar o longa. Quer saber? Deixa quieto.

Jogos de Verão EstrelinhaEstrelinha
[Giochi d'Estate, Rolando Colla, 2011]

Jogos de Verão é o indicado da Suíça para o Oscar 2012, mas é mais italiano que a Sofia Loren. Atores, locação, língua, história. Tudo é italiano. Mas vamos ao que interessa. O longa segue uma fórmula de filmes teens mais crus, capricha em alguns clichês, sobretudo na definição dos personagens, que seguem uns padrões: um adolescente agressivo, um pai violento, uma mãe distante. A engrenagem demora a funcionar, mas a direção de Rolando Colla vai se acertando aos poucos e o resultado é seguro. A cena final, com o casal de adolescentes na praia, é um belo encerramento para o filme.

Toast EstrelinhaEstrelinha
[Toast, S. J. Clarkson, 2010]

Existem alguns filmes de que não se tem vontade de escrever porque, apesar de estarem longe de serem bons filmes, também não são exatamente ruins. Toast é bem confuso. A ideia é fazer uma biografia do chef Nigel Slater, mas a culinária nunca aparece realmente no filme, que centra fogo na infância supostamente sofrida do protagonista – na verdade, não mais sofrida do que a minha ou a sua. Outra opção esquisita é apresentar o filme como uma fábula colorida, com personagens caricatos, e situações que parecem saídas de contos infantis. Uma coisa não casa com a outra e o destino do personagem morre na nossa imaginação.

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Mostra SP 2011: post 13

Fausto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Faust, Aleksandr Sokurov, 2011]

Sábado Inocente EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[V Subbotu, Aleksandr Mindadze, 2011]

Os Dias Verdes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Green Days, Hana Makhmalbaf, 2009]

Numa prova de que muitas vezes as experiência cinematográfica sai das telas, o mais legal em assistir Os Dias Verdes nem chegou a ser o filme em si, que é um belo registro, mas vê-lo na frente de quatro iranianos, que faziam comentários em farsi e cantavam as músicas do filme. A diretora Hana Makhmalbaf, filha de Mohsen, apresentou a sessão. O longa retrata o processo eleitoral que terminou com o golpe de estado de Ahmadinejah, aos olhos de uma jovem em crise com sua identidade e com seu país. A trama que amarra o filme é simples, mas honesta, mas o mais forte está quando ela leva a câmera para as ruas e faz um road movie de depoimentos onde a palavra esperança nunca é pronunciada, mas está em todos os lugares.

Montevidéu – O Sonho da Copa Estrelinha
[Montevideo, Bog te Video: Prica Prva, Dragan Bjelogrlic, 2010]

Um dos roteiristas que assinam Montevidéu é Sdrjan Dragojevic, diretor do ótimo Bela Aldeia, Bela Chama. Sdrjan deveria estar precisando de dinheiro porque este filme, uma espécie de A Vida é Bela sérvio, é o melhor [pior?] exemplo de como um filme pode ser manipulador: um narrador-mirim deficiente físico, uma história de superação cheia de folclore local e protagonistas adolescentes cheios de energia que viram heróis nacionais. Tudo embalado por uma trilha feita-pra-chorar e situações apelativas, onde forçar a barra é regra. Medíocre.

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Mostra SP 2011: post 12

Girimunho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Girimunho, Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, 2011]

O Céu sobre os Ombros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[O Céu sobre os Ombros, Sérgio Borges, 2010]

Cisne EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Cisne, Teresa Villaverde, 2011]

O filme parte de um encontro de pessoas em crise: uma cantora que tenta sobreviver a um amor que não se consuma e um adolescente que tenta reconstituir sua família. Quando o caminho dos dois passa pelo de um garoto que comete um crime, os terremotos nas vidas dos dois parece dar lugar a uma possibilidade de calmaria. Cisne talvez seja o filme da Teresa Villaverde que eu mais gostei. O menos empostado. Dono de uma fotografia belíssima.

Blowfish EstrelinhaEstrelinha
[Hetun, Chi Y. Lee, 2011]

E de Taiwan vem uma daquelas histórias de amor que se enchem de imagens bizarras, situações estranhas e um ritmo esquisito. Blowfish, baiacu em inglês, acompanha o encontro entre um homem e uma mulher que apostam num novo relacionamento para esquecer paixões que chegaram ao fim. No fim, a mensagem do filme parece ser: “nessa vida, o importante é passar o baiacu adiante”.

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Mostra SP 2011: post 11

Caverna dos Sonhos Esquecidos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Cave of Forgotten Dreams, Werner Herzog, 2011]

Tudo pelo Poder EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Ides of March, George Clooney, 2011]

George Clooney é um dos caras mais legais de Hollywood. Boa praça, bonitão, ator correto e extremamente politizado. Seu filme anterior, Boa Noite e Boa Sorte, já demonstrava segurança atrás das câmeras. Em Tudo pelo Poder, Clooney revela que cresceu – e muito – como diretor, comandando um tema complexo e específico [a disputa entre os candidatos democratas pela indicação à presidência numa prévia] com muita sobriedade. Ele sabe bem o que quer. Nada sobra e nada falta ao filme.

O filme trabalha com a exatidão: é econômico, mas consistente e fluído. Clooney administra a virada na trama de uma maneira tão delicada que o espectador mal sente quando o jogo muda. O galã reserva para si um papel pequeno e deixa Ryan Gosling demonstrar seu talento como o assessor de imprensa cujos princípios são colocados em cheque. O elenco tem Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood e Marisa Tomei. Todos excelentes. A fotografia competente, a montagem dinâmica e a bela trilha garantem uma embalagem de primeira classe para um longa, que é a cara de seu diretor: elegante e inteligente.

Histórias da Insônia EstrelinhaEstrelinha
[Sleepless Night Stories, Jonas Mekas, 2011]

O filme de Jonas Mekas me parece seguir a linha-limite entre a brincadeira genuína e o golpe descarado. A proposta inicial seria colar uma série de encontros do diretor em noites de insônia. Funciona nos primeiros 15 minutos como uma mistura de humor inteligente, espontaneidade e registros coloquiais, amarrados com eficiência por letreiros engraçadinhos.

Mas passada a primeira impressão parece que o diretor mandou essa proposta às favas, inserindo alguns devaneios poéticos [o lagarto, a árvore] e exagerando no improviso [a câmera trêmula me parece muito mais comodismo do que linguagem]. No meio do caos que o diretor instala, há ótimos momentos, como as homenagens à cineasta Marie Menken e a Amy Winehouse. Mas também há coisas gratuitas como a participação de Björk.

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Mostra SP 2011: post 8

O Dominador  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Cho-Neung-Nyeok-Ja, Kim Min-suk, 2010]

O maior trunfo do estreante Kim Min-suk em seu filme de superpoderes foi acreditar na história que está contanto. O Dominador, que seria uma benção pop em nosso circuito comercial, é um filme sério sobre o assunto. Não está pra brincadeira. Não perde tempo com piadas metalinguísticas, nem citações ou referências.

Enquanto muitos diretores gastam energia nesses frufrus, Min-suk se concentra no comando de sua história, que não dá trégua ao espectador, e no acabamento de seu filme, incluindo fotografia, montagem, som, trilha e efeitos visuais discretos e precisos. Sobra para quem assiste embarcar ou não numa história envolvente contada da maneira mais competente que eu possa imaginar.

Respirar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Atmen, Karl Markovics, 2011]

O filme de Karl Markovics tirou do polêmico Michael a indicação da Áustria para o Oscar do ano que vem. Embora os dois sejam filmes duros, que revelam ou reafirmam uma faceta do cinema feito no país, a pedofilia é um tema muito mais delicado do que a vida conturbada de um rapaz que tenta sair de um centro de detenção juvenil e recomeçar sua vida.

Markovics usa algumas metáforas óbvias para justificar a escolha de seu título e segue uma tendência tradicional do cinema da Europa Central em criar filmes “limpinhos” e duros, mas no geral administra com propriedade o misto de fúria adolescente com a vontade do personagem de passar para o próximo capítulo. A identificação com o protagonista, embora não haja esforço para isso, é quase inevitável.

Labrador EstrelinhaEstrelinha
[Labrador, Frederikke Aspökke, 2011]

O filme de Frederikke Aspökke sofre com aquele temperamento nórdico que varia entre a melancolia frígida e o humor seco. Labrador mostra um reencontro em família, onde o peso do passado surge como catalisador de mudanças. A trama é repetitiva, mas as ideias de como conduzi-la talvez incomodem mais.

Despair EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Despair - Eine Reine Ins Licht, Rainer Werner Fassbinder, 1978]

A cópia restaurada de Despair, filme que marca o encontro entre Fassbinder, o dramaturgo Tom Stoppard que assina o roteiro e o autor Vladimir Nabokov, que escreveu o texto original, foi exibida no Festival de Cannes e é um dos achados da Mostra de Cinema de São Paulo desse ano. Apesar de ser digital, a qualidade do material é ótima e o filme impressiona na transposição de teatro para cinema. Dirk Bogarde está inspiradíssimo no papel, que Fassbinder transforma num tipo afetado, do homem que tenta dar um golpe na Alemanha pré-Segunda Guerra. O texto, extremamente sarcástico com o status quo e as personas da época, incluindo Hitler, é delicioso de se acompanhar e a fotografia, que não dispensa um movimento de câmera, ajuda a manter a agilidade e o dinamismo do material. Os coadjuvantes chamam a atenção.

Parada em Pleno Curso EstrelinhaEstrelinha½
[Halt Auf Freier Strecke, Andreas Dresden, 2011]

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Mostra SP 2011: post 7

Habemus Papam EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Habemus Papam, Nanni Moretti, 2011]

Algumas reações a Habemus Papam me pareceram mais descabidas do que a confusão com horários, janelas e legendas do filme de Nanni Moretti na Mostra. Muita gente cobrava do diretor uma posição mais veemente contra o Vaticano. No fim da sessão, ouvi um senhor falando em falta de coragem. Estranho porque, na minha compreensão, Moretti esfacela a Igreja Católica com um Papa com crise existencial, cardeais que pedem a Deus para não serem escolhidos para a vaga deixada por João Paulo II e um humor ferino, embora nunca agressivo, que ridiculariza as mordomias e a perda de fiéis do Vaticano. Se alguém quer mais do que isso, precisa dar uma ideias pro Michael Moore. Com inteligência e sem exagero, Moretti faz um dos filmes políticos mais bem resolvidos dos últimos tempos.

Irmãs Jamais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sorelle Mai, Marco Bellocchio, 2010]

Um dos projetos mais pessoais de Marco Bellocchio, Irmãs Jamais foi filmado ao longo de nove anos e tem como estrela a família do próprio diretor. A história tem um esquema documental, mas Bellocchio coloca os parentes para encenar uma trama fictícia na cidade onde eles moram. A proximidade entre cineasta e material rende uma intimidade pouco vista, mas também expõe precariedades. Como se tratava de um filme caseiro, o diretor não conta com quase nenhuma estrutura: a luz utilizada é natural e o filme, escuro, às vezes é meio difícil de ser assistido.

The Forgiveness of Blood EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Forgiveness of Blood, Joshua Marston, 2011]

A estreia de Joshua Marston foi num filme falado majoritariamente em espanhol que conseguiu render à colombiana Catalina Sandino Moreno uma indicação ao Oscar. Sete anos depois de Maria Cheia de Graça, o californiano volta à direção, desta vez com um drama falado em albanês e com uma história e atores locais. Mais globalizado, impossível. The Forgiveness of Blood é bem narrado, mas não foge àquele padrão meio frio e distante que se espera de um bom filme europeu. A trama parece saída de um livro de Ismail Kadaré, com famílias que não exercitam sua rivalidade violentamente através das gerações. Embora não traga nada de novo, é uma experiência bem interessante.

A Cor da Romã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sayat Nova, Sergei Paradjanov, 1968]

Confesso que tinha confundido A Cor da Romã com Sombra dos Ancestrais Esquecidos. Ambos passaram, alguns bons anos atrás, no Telecine. Enquanto o segundo narra um história com uma fotografia belíssima, este aqui é uma espécie de filme-instalação em homenagem ao poeta Sayat Nova, com referências que vão desde o cinema mudo ao teatro kabuki – e muita, muita religião. O poeta é caracterizado como um Jesus Cristo do seu tempo e Paradjanov explora essa semelhança em parábolas cristãs que nem sempre são claras. O não-realismo dá menos impacto às imagens, embora o diretor garanta um festival de quadros detalhadamente planejados.

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Mostra SP 2011: post 6

Eric Khoo

Tatsumi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tatsumi, Eric Khoo, 2011]

O singapuriano Eric Khoo, do chatinho e saudado Fica Comigo, arriscou uma mudança de estilo. Em Tatsumi, ele faz um biografia em forma de animação, homenageando um desenhista que inventou um novo gênero de mangás, mais realista e explícito na sexualidade. O resultado é acima da média porque Khoo mistura a história de seu personagem com as histórias que ele escreveu, dinamizando a trama. A ousadia da animação, que respeita o material original e se afasta dos padrões que costumamos ver, serve como tradução para a vida do autor. O filme vai acertando até o final, em que o peso de se fazer uma biografia surge e encerra esquematicamente a homenagem.

Miranda July

O Futuro EstrelinhaEstrelinha
[The Future, Miranda July, 2011]

A afetação nerdie de Miranda July incomoda muito. A diretora não tem a mão para saber quando deve parar de encher seus filmes com esquisitices fofas. O Futuro é bem melhor do que a estreia nefasta de July, Eu, Você e Todos Nós, onde parece decretar que todo mundo é imbecil. Aqui, ela não está interessada em “revelar” os pequenos segredos de cada um, mas procura deixar claro sua delicadeza débil, inserindo devaneios em todas as cenas. Na melhor delas, quando os namorados começam a imaginar a vida separados, o filme parece começar a apresentar um olhar interessante sobre solidão, mas July mais uma vez recorre a maneirismo indies e complica o resultado. Pode torcer pro animal-narrador com voz de bebê se dar mal, eu deixo.

Pierre Duculot

A Milhas de Distância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Au Cul du Loup, Pierre Duculot, 2011]

O material é clássico: mulher ganha uma casa no interior de herança e se apaixona por uma nova possibilidade de vida. O diretor Pierre Duculot até que trata o material de maneira menos óbvia, mesmo não foge dos elementos comuns: novo interesse amoroso, descoberta de segredos do passado, conciliação com a família. O pacote só não fica insatisfatório porque o diretor fotografa muito bem sua locação e ela ajuda a produzir o clima pretendido.

Geraldine Doignon

Vida que Segue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[De Le Vivant, Geraldine Doignon, 2011]

A estreante Geraldine Doignon entra aqui num terreno pantanoso, o dos filmes sobre reuniões de família em que os parentes lavam roupa suja. Em Vida que Segue, a morte da matriarca libera os ânimos dos personagens, que explodem em frustrações, ressentimentos e carências. Doignon conduz a trama com certa dignidade e faz questão de estabelecer um clima tenso, sem concessões. O desenho dos personagens às vezes parece excessivo. Todos são absolutamente tristes. Mas a diretora trata de dar substância a essa infelicidade e resolve o filme sem trair sua proposta. As galinhas são fundamentais para a catarse.

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