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Mostra SP 2008: balanço final

Eu faço parte daquela legião de obcecados pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Aquele banco de malucos que tiram folga, férias, fazem fila, gastam os tubos e adoram ver quatro, cinco, seis filmes por dia durante o festival. Mas eu acho difícil dimensionar o que a Mostra significa pra mim. Foi ela quem me fez decidir morar em São Paulo, a mudança mais radical da minha vida. Não pelo deslocamento em si (muita gente foi muito mais longe), mas pela minha natural queda pelo comodismo. A Mostra me fez mudar. E não foi uma mudança apenas para ver filmes, o que na minha lógica própria já seria motivo suficiente. A Mostra, e suas dimensões gigantes, e sua pluralidade, que fizeram decidir que São Paulo seria uma casa melhor para mim. Um lugar onde eu estaria mais perto do que me interessa, o cinema, a produção de cultura, a vida inteligente. Esta foi minha nona Mostra (deveria ter sido a décima, mas nem sempre você pode largar tudo para trás). E eu já começo a imaginar o que me reserva o ano que vem.

Bom, falando de balanço, minha idéia geral sobre o festival deste ano é que faltaram bons filmes. Além dos novos longas de Hayao Miyazaki, Laurent Cantet e Lucrecia Martel, entre outros, não estarem na seleção de 2008, os filmes que vieram não formaram um conjunto tão forte quanto o de outros anos. Geralmente eu termino a Mostra com quatro ou cinco filmes que eu considero obras-primas. Neste ano, só um mereceu cinco estrelas na minha visão. Dois outros chegaram bem perto disso, mas só chegaram. No entanto, para um festival em que eu não estava de férias e trabalhava durante o horário de boa parte das sessões, ter visto 51 filmes foi um feito.

Vamos então aos meus eleitos.

Top Ten Mostra SP 2008

Arnaud Desplechin

1 Um Conto de Natal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Arnaud Desplechin

Kyoshi Kurosawa

2 Sonata de Tóquio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kiyoshi Kurosawa

Miguel Gomes

3 Aquele Querido Mês de Agosto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Miguel Gomes

Jonathan Demme

4 O Casamento de Rachel EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jonathan Demme

Tomas Alfredson

5 Deixa Ela Entrar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Tomas Alfredson

Domingos Oliveira

6 Juventude EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos de Oliveira

Antonio Campos

7 Depois da Escola EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Antonio Campos

Sergey Dvortsevoy

8 Tulpan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sergey Dvortsevoy

Dardenne

9 O Silêncio de Lorna EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Emily Atef

10 Um Estranho em Mim EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Emily Atef

outros dez que merecem consideração

11 Queime Depois de Ler EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Joel e Ethan Coen
12 Horas de Verão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Olivier Assayas
13 Jodhaa Akbar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ashutosh Gowariker
14 A Fronteira da Alvorada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Philippe Garrel
15 Meu Winnipeg EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Guy Maddin
16 24 City EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jia Zhang-ke
17 Todo Mundo Tem Problemas Sexuais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos de Oliveira
18 Che: O Argentino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
19 Os Primeiros Anos de Wim Wenders EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Marcel Wehn
20 Liverpool EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Lisandro Alonso

melhores diretores
1 Kiysohi Kurosawa, por Sonata de Tóquio
2 Arnaud Desplechin, por Um Conto de Natal
3 Miguel Gomes, por Aquele Querido Mês de Agosto

melhores atores
1 Mathieu Amalric, por Um Conto de Natal
2 Toni Servillo, por Il Divo
3 Benicio Del Toro, por Che: O Argentino

melhores atrizes
1 Kyôko Koizumi, por Sonata de Tóquio
2 Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel
3 Susanne Wolff, por O Estranho em Mim

melhores atores coadjuvantes
1 Brad Pitt, por Queime Depois de Ler
2 Jérémie Renier, por O Silêncio de Lorna
3 Bill Irwin, por O Casamento de Rachel

melhores atrizes coadjuvantes
1 Emmanuelle Devos, por Um Conto de Natal
2 Catherine Deneuve, por Um Conto de Natal
3 Joan Chen, por 24 City

melhores roteiros
1 Aquele Querido Mês de Agosto
2 Um Conto de Natal
3 Deixa Ela Entrar

melhores fotografias
1 A Festa da Menina Morta
2 O Céu, a Terra e a Chuva
3 A Fronteira da Alvorada

melhores montagens
1 Aquele Querido Mês de Agosto
2 Sonata de Tóquio
3 Os Primeiros Anos de Wim Wenders

melhores direções de arte
1 Jodhaa Akbar
2 A Festa da Menina Morta
3 Meu Winnipeg

melhores trilhas
1 Jodhaa Akbar
2 Deixa Ela Entrar
3 Juventude

Os outros filmes:

Acácio EstrelinhaEstrelinha, de Marília Rocha
Adoração Estrelinha, de Atom Egoyan
Alvorada em Sunset, de Jeff McGary
O Amigo EstrelinhaEstrelinha, de Micha Lewinsky
O Canto dos Pássaros EstrelinhaEstrelinha, de Albert Serra
Cavalo de Duas Patas, de Samira Makhmalbaf
O Céu, a Terra e Chuva EstrelinhaEstrelinha, de José Luis Torres Leiva
Che: A Guerrilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
Cinzas do Passado Redux EstrelinhaEstrelinha, de Wong Kar-Wai
O Clone Volta para Casa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kanji Nakajima
Confissões de Super-Heróis EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Matt Ogens
Conhecendo Andrei Tarkovsky EstrelinhaEstrelinha, de Dmitry Trakovsky
Il Divo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paolo Sorrentino
A Festa da Menina Morta EstrelinhaEstrelinha, de Matheus Nacthergaele
Gomorra EstrelinhaEstrelinha, de Matteo Garrone
Hanami – Cerejeiras em Flor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Doris Dörrie
Ice EstrelinhaEstrelinha, de Makoto Kobayashi
Julgamento EstrelinhaEstrelinha, de Leonel Vieira
Lições Particulares Estrelinha, de Joachim Lafosse
Maldeamores Estrelinha, de Carlos Ruíz Ruíz e Mariem Pérez Riera
O Menino do Pijama Listrado, de Mark Herman
Palermo Shooting EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Wim Wenders
La Rabia EstrelinhaEstrelinha, de Albertina Carri
Rebobine, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Michel Gondry
El Regalo de Pachamama EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Toshifumi Matsushita
Rufião do Inferno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kihachi Okamoto
Sob Controle EstrelinhaEstrelinha, de Jennifer Lynch
Terra Vermelha EstrelinhaEstrelinha, de Marco Becchis
Three Monkeys EstrelinhaEstrelinha, de Nulri Bilge Ceylan
Vicky Cristina Barcelona EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Woody Allen
Waltz with Bashir EstrelinhaEstrelinha, de Ari Folman

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Mostra SP 2008: boletim 11

Carlos Ruíz Ruíz

Maldeamores Estrelinha, de Carlos Ruíz Ruíz e Mariem Pérez Riera

O público gostou bastante, mas essa coleção de histórias de amor, ou quase isso, é pobrezinha demais. O roteiro preguiçoso recicla clichês de comédias românticas e melodramas familiares. O texto é raso, o humor fácil e os personagens, mal construídos, estereotipam o latino ao máximo grau. Os diretores investem na fórmula do menos que é mais e fazem um filme para o povão pouco exigente. Porto Rico fica devendo.

Paolo Sorrentino

Il Divo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paolo Sorrentino

Engraçado, Il Divo é saudado como um exemplar do cinema italiano renovado, mas nada mais é do que um filme político com a montagem no fast. As cenas são calculadíssimas, o que resulta em alguns momentos realmente inspirados (sobretudo quando as soluções encontradas por Paolo Sorrentino pinçam o filme da condição de história para “ei, isto aqui é cinema, é truque”). Mas esse cinema pensado demais também cansa um pouco. A trilha berra em nossos ouvidos, mas é bem usada para os fins do diretor. A interpretação de Toni Servillo, embora invada muitas vezes a caricatura, é o que de melhor o filme tem a oferecer.

Dmitry Travoksky

Conhecendo Andrei Tarkovsky EstrelinhaEstrelinha, de Dmitry Trakovsky

Começou prometendo ser uma experiência interessante, com um tom bastante pessoal, onde o diretor compatriota de Tarkovsky tenta descobrir mais sobre seu cineasta favorito. Mas a inexperiência do autor (não sei se o sobrenome é de verdade ou se ele surrupiou de seu objeto de estudo) não soube concluir sua ambiciosa proposta: materializar o modo de Tarkovsky encarar o mundo. Era difícil mesmo. Então, embora ele tente pintar todas as entrevistas e informações que coleta ao longo do filme com um verniz de mais sério e profundo, o resultado fica no óbvio. O sentimento de frustração é inevitável, mas a viagem vale a pena, nem que seja pra ver a imagem da vila onde Tarkovsky nasceu, hoje uma área alagada, onde a única coisa que se vê é o topo de uma enorme cruz.

Toshifumi Matsushita

El Regalo de Pachamama EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Toshifumi Matsushita

O que esse japonês foi fazer na Bolívia é um mistério. Provavelmente tem a ver com sua experiência com documentários. El Regalo de Pachamama poderia bem ser um daqueles longas documentais que apresentam o cotidiano de personagens que vivem isolados, no caso o povo quéchua, que vive na Rota do Sal, mas vai além disso. Matsushita cria uma historinha mínima que funciona do começo ao fim (sendo o fim uma micro-história de primeiro amor), não se perde em excesso de detalhes, nem na vastidão na paisagem (o que virou marca do cinema latino-americano) e dirige seus não-atores melhor do que qualquer iraniano. Não tem nada de muito especial, mas é uma experiência válida.

Ashutosh Gowariker

Jodhaa Akbar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ashutosh Gowariker

Eu não recomendo este filme a ninguém porque ele exige bastante concessões do espectador. Primeiro, tem que se ter a mínima noção do que é Bollywood e da lógica do cinema comercial indiano. Segundo, é preciso ter paciência porque este é um filme com vários números musicais – e ele tem quase três horas e meia de duração. Quem não estiver disposto a relativizar certamente tentará ridicularizar esse filmaço, um espetáculo kitsch de primeira grandeza, uma ode ao exagero, pouquíssimo preocupado com verossimilhança, e coerente com uma filmografia popular. Jodhaa Akbar se baseia em fatos históricos pouco confiáveis para criar uma epopéia máxima, algo como um Cecil B. De Mille dos tempos atuais. Exagera em tudo.

Os figurinos multicoloridos explodem ao longo do filme, que começa com uma batalha que usa discretamente efeitos digitais. Os atores, limitados, são sempre orientados para o overacting. A Juliana Paes indiana, a lindíssima Aishwarya Rai, a maior atriz do país, lidera o elenco no papel título, contracenando com um galã bombadíssimo, canastrão como há tempos não se via. Há uma cena fantástica, em que a princesa começa a se interessar pelo imperador e admira seu torso nu ao sol, na melhor linha do antigo Cine Privê, da Band. Mas o melhor mesmo é a trilha sonora. A primeira música só chega aos 40 minutos de filme, mas traz dezenas de coleguinhas sucessivamente. E quando não canções, existe a trilha instrumental que joga um estrondoso “tanran!!!” em cada cena de tensão do filme.

Micha Lewinsky

O Amigo EstrelinhaEstrelinha, de Micha Lewinsky

A idéia inicial é boa: mulher pede a um cara que ela mal conhece para ele fingir ser seu namorado e depois morre. Ele resolve assumir o papel para a família da moça. No entanto, o diretor não sabe muito bem por onde levar o filme, não acha um tom interessante e se perde. Aqui e ali há uns cacoetes (a mãe do protagonista é superprotetora e carente; a relação entre a mãe da morta e a irmã é difícil; o pai é um cara amoroso), mas também existem cenas onde o filme muda de cores (como na carta lida no velório). O diretor termina tapando como pode as arestas que deixou (a relação entre o personagem principal e sua mãe se resolve sem explicação), abusa de imagens óbvias (como as da praia) e chega um resultado conciliatório meia-boca.

Jennifer Lynch

Sob Controle EstrelinhaEstrelinha, de Jennifer Lynch

Quando dirigiu Encaixotando Helena, Jennifer Lynch tinha 25 anos. O trauma foi tão grande que somente agora, 15 anos depois, ela se aventura novamente no comando de um longa-metragem. Há de se dizer que a filha de David Lynch envoluiu, embora a temática ainda seja a América doentia (bem próxima da América doentia de seu pai, diga-se de passagem) e os personagens continuem desequilibrados. Felizmente Jennifer resiste à tentação de introduzir elementos oníricos à narrativa do filme, o que seria uma herança entendível. Mesmo assim, Sob Controle, apesar de bem amarradinho, não é lá essas coisas. Depois do choque, parece fácil, truqueiro, clichezão. A projeção digital prejudica bastante o filme, que fica parecendo um daqueles longas policiais b com mistérios e reviravoltas, que passavam na Sessão de Gala.

Sergey Dvortsevoy

Tulpan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sergey Dvortsevoy

Tulpan é uma gracinha. Imagino o quanto essa palavra – gracinha – possa ser entendida como sinônimo de um filme feito para “distintas senhoras”. Mas não é bem isso o que eu quis dizer. Esse longa é surpreendente porque tudo indicava (sinopse, lugar de onde ele veio, atores não-profissionais) que ele seria mais um daqueles exemplares de filme pequenos sobre lugares pequenos dispostos a encantar o espectador por sua simplicidade e seus personagens singelos. Mas Sergey Dvortsevoy passa ao largo desta proposta, com dois grandes acertos: uma ótima direção de atores e um roteiro bem escrito e executado, que exalta a história e não cai no conto da paisagem bonita. Tulpan acerta porque é universal.

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Mostra SP 2008: boletim 10

Steven Soderbergh

Che: O Argentino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
Che: A Guerrilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh

Steven Soderbergh é um dos cineastas mais insólitos do mainstream norte-americano. Estreou alternativo, com sexo, mentiras e videotape, Palma de Ouro em Cannes; pareceu mais respeitável para ganhar o Oscar de melhor diretor por Traffic e fazer Erin Brockovich. No meio disso tudo, fez coisas estranhas como Kafka e Bubble e comédias divertidas com a série Onze Homens e um Segredo. Soderbergh vai do grande ao pequeno, do ousado ao despretensioso, com facilidade. Erra e acerta com freqüência. Quando anunciou que faria uma cinebiografia de Che Guevara, seria lógico pensar que este seria um de seus filmes sérios e convencionais. Sério, o projeto é. Convencional, nem tanto, principalmente para os padrões norte-americanos.

O projeto Che foi dividido em dois: O Argentino, que acompanha Guevara na Revolução Cubana, e A Guerrilha, retrato de seus últimos anos, treinando militantes na Bolívia. Ambos são obras com forte cunho documental, baseadas nos diários escritos pelo próprio Che, onde Soderbergh surpreende fazendo um retrato apaixonado do revolucionário. São quase filmes-panfleto, que transportam o personagem para aquele plano onde estão as criaturas inquestionáveis. Mas o diretor adota esta postura sem os exageros dramáticos comums a obras dessa natureza. Soderbergh vira advogado de defesa de Che Guevara em pequenas cenas que retratam, sobretudo, o código de ética e o senso de moral do personagem em meio à batalha.

Steven Soderbergh

Esta opção parece, a princípio, esconder a interpretação de Benicio Del Toro, já que não existem arroubos narrativos ou dramáticos comuns para se exaltar uma performance, convencer a platéia e ganhar prêmios. Não há nada parecido com um “eu estou grávida de Luís Carlos Prestes”, por exemplo. Do começo ao fim, o ator está discreto, sutil e silencioso. E, por isso mesmo, constrói aos poucos um personagem de primeira grandeza, de certa forma respeitando o Guevara vivido por um simpático Gael García Bernal em Diários de Motocicleta, mas o lançando num outro patamar de interpretação. A performance de Del Toro reflete o tom adotado por Soderbergh e vice-versa.

Em O Argentino, a opção por duas linhas narrativas paralelas causa um certo estranhamento. A primeira, em p&b com Guevara ministro, remonta o cinema norte-americano dos anos 70, factual, articulado e político. A segunda, com o cotidiano da guerrilha se alinha a um modelo narrativo mais atual, que explora detalhes em excesso, muitas vezes deixando o foco principal do filme para se ater a minúcias. As duas linhas temporais parecem competir (uma mais ágil; outra mais contemplativa, justamente a da guerra), mas terminam como complemento exato uma da outra. Este primeiro filme é um trabalho mais sóbrio do que o segundo, com uma câmera mais simples e uma trilha mais discreta.

Já o segundo longa, A Guerrilha, que adota uma narrativa única, mais simples, mas igualmente documental, permite que Soderbergh estetize mais a fotografia e que Alberto Iglesias mostre sua música. Curioso já que o filme se passa praticamente inteiro no campo de batalha. O longa funciona como contraponto para seu irmão gêmeo porque de certa forma mostra o ocaso da ideologia da Revolução Cubana. Del Toro mantém a mesma interpretação naturalista, mas agora com um quê mais melancólico diante de uma luta que não foi comprada pela população. Soderbergh, no entanto, encerra o longa com a mesma paixão juvenil que demonstrou, ainda que sem reverência, por aqueles devaneios ideológicos. Soderbergh é mesmo um dos cineastas mais insólitos do mainstream norte-americano.

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Mostra SP 2008: boletim 9

Matheus Nachtergaele

A Festa da Menina Morta EstrelinhaEstrelinha, de Matheus Nachtergaele

O filme de estréia de Matheus Nachtergaele como diretor tem acertos e erros. A história nos leva para uma pequena comunidade amazônica que vive em torno de um rapaz que ganhou fama por falar com o espírito de uma menina morta na região. A partir daí, o roteiro se divide entre tentar captar a lógica do ambiente, acertando na caracterização da vila, do cotidiano e de boa parte dos personagens, e ao mesmo tempo fazer o espectador comprar o quanto de underground tem o lugar, comandado por um cara afetado, descontrolado e que vive de vestido e faz sexo com o pai. Nesse aspecto, o filme chega bem perto do cinema ‘a vida é dura’, de Cláudio Assis, com uma série de momentos que parecem estar ali apenas para garantir a cota de autor alternativo de Nachtergaele: 1) galinha é degolada (esta já virou chavão); 2) porco é afogado (esta é nova para mim); além da tal cena de incesto, que chegou a gerar polêmica, mas é filmada de maneira bem discreta, quase escondida. O maior problema dela é que ela não se justifica no contexto, não acrescenta grande coisa à narrativa. Ou seja, parece gratuita.

Mas Nachtergaele acerta em muita coisa. A fotografia de Lula Carvalho é belíssima e, mesmo que a princípio pareça exibicionista, funciona bastante em favor do filme, que tem uma equipe técnica bem competente, ao mesmo tempo em que o coloca em sintonia com um cinema que sabe explorar a imagem no tom certo (como O Céu de Suely ou Clean). O desenho de alguns personagens é muito bom, como o das senhoras que circulam pela casa do santinho, boas atrizes, donas de cenas fortes. Jackson Antunes também ganha um personagem correto, embora pouco explorado. Já Juliano Cazarré é o melhor em cena, assumindo o papel do homem comum que traz o filme para a realidade e para uma postura mais ética em relação ao mundo. Dira Paes parece perdida, com um personagem sem função, e a aparição de Paulo José é pura perfumaria. Não serve para nada.

No entanto, é Daniel de Oliveira quem sofre com a inexperiência do diretor. Seu santinho é um personagem naturalmente afetado, mas Oliveira é dirigido para dar espetáculos em cada cena que aparece, o que o manda para o terreno do overacting muitas vezes ao longo do filme. É como se o diretor, um ator competente porém exagerado, se jogasse sobre o protagonista. Esse carma teatral atrapalha um pouco os êxitos de Nachtergaele, que, vez por outra, parece estar comandando atores num palco, com cenas muito marcadas, empostação excessiva da voz, excesso nos gestos. O clima over incomoda mais ainda nos momentos místicos do filme, como o encontro do personagem central com a mãe (Cássia Kiss meio deslocada) ou na cena final, que, apesar de uma imagem bonita, parece entregar um autor que não soube como encerrar seu filme.

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Mostra SP 2008: boletim 8

Albertina Carri

La Rabia EstrelinhaEstrelinha, de Albertina Carri

Parece que virou moda na América Latina fazer filmes conceituais, que mais parecem exercícios de escola de cinema. La Rabia parecia seguir um caminho bastante interessante até que o espectador percebe o quanto de fórmula o filme tem: um protagonista solitário (no caso, uma menininha muda); personagens que vivem em lugares ermos e que são brutalecidos, animalizados; uma câmera bonita, mas pouco preocupada em servir à narrativa, preferindo a plástica. As inserções de animação, que dão um diferencial ao filme, não funcionam em favor da história, parecem devaneios pictóricos que se resolvem em si mesmos. O projeto parecia bom, mas a execução deixou a desejar.

Kihachi Okamoto

Rufião do Inferno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kihachi Okamoto

O único trabalho de Kihachi Okamoto que devo ver (caso a repescagem não o ressucite) começa como um delicioso filme de ladrão simpático, completamente coerente com o cinema de ação/comédia que era feito ao redor do planeta na virada dos 50 para os 60. A montagem é genial, com as cenas conversando entre si. O uso da música e o timing dos atores revelam Okamoto como um maestro pop de primeira grandeza. Embora o ritmo caia bastante no final, o filme funciona tanto como diversão quanto como pontapé inicial na obra de um cineasta que tem bastante a oferecer.

Emily Atef

O Estranho em Mim EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Emily Atef

Seria o português Ruas da Amargura, mas cerca de dois minutos e meio de projeção (digital barato, documentário bem intencionado) me fizeram desejar o meu bem e correr do Espaço Unibanco para o Arteplex. Foi aí que peguei, por acaso, a sessão deste filme que, até então, estava na minha lista de filme para não ver. Diretora novata, alemã (tenho preguiça de alemães), com um filme sobre depressão pós-parto. Menos interessante, impossível. Mas Emily Atef, que apresentou a sessão, me surpreendeu. O Estranho em Mim é um filme com um tema muito específico, mas que tenta tratá-lo da maneira menos óbvia possível. Os clichês de história aparecem, mas a diretora rapidamente os transforma em cenas mais complexas. O elenco é bastante bom, com destaque para a protagonista.

Tomas Alfredson

Deixa Ela Entrar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Tomas Alfredson

Raríssimo exemplar de cinema que sabe inserir o fantástico nos modelos clássicos de gênero. Deixa Ela Entrar é a típica história do garoto perseguido na escola cuja vida ganha uma reviravolta com a chegada de uma menina à vizinhança. A diferença é quem é a mocinha e que segredos ela guarda. O desenrolar do filme segue uma estrutura igualmente clássica, com a aproximação dos dois, a revelação do drama e o confronto com os rivais, mas sempre inserindo a isso o elemento extra. Fazer isso na intensidade correta, deixando cada cena deliciosa, sem recorrer a mecanismos fáceis como trilha e câmera frenéticas, levando a sério o que poderia ser tratado como festa é o maior acerto de Tomas Alfredson.

José Luis Torres Leiva

O Céu, a Terra e a Chuva EstrelinhaEstrelinha, de José Luis Torres Leiva

Mais um exemplar da safra recente do cinema latino-americano que deixa a desejar. Na tentativa de conceituar seu projeto, o chileno José Luis Torres Leiva apela para a reprise dos clichês. Como em La Rabia ou Liverpool, o melhor dos três, o cotidiano é celebrado com uma câmera sempre disposta a exaltar a paisagem em detrimento de qualquer funcionalidade. As imagens são lindas, verdade, mas parecem puro exibicionismo. Leiva decide contar sua história com o mínimo de palavras possível, aparentemente se ancorando à imagem, mas essa opção termina revelando uma fragilidade incômoda de um projeto em que nada parece consistente.

Arnaud Desplechin

Um Conto de Natal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Arnaud Desplechin

O pouco que eu vi do cinema de Arnaud Desplechin me faz afirmar sem pensar duas vezes que ele está entre os meus diretores favoritos nos dias de hoje. Um de seus maiores acertos é a complexidade extrema que emprega na composição de seus personagens, que nunca podem ser definidos como bons ou maus, mas exatamente como o encontro entre estes dois, ambíguos e adoráveis. A obra-prima Reis e Rainha, lançado quatro anos atrás, já revelava a habilidade de Desplechin para costurar sua história a partir do desequilíbrio das relações familiares. O descontrole e a dificuldade em lidar com o próximo são transformados numa forma de afeto. Em Um Conto de Natal, em vez de um casal, temos uma família inteira na mira do diretor. Pais, filhos, irmãos, netos reunidos para uma atípica ceia de Natal, motivada pela doença da mãe, que colocará os históricos conflitos familiares em ebulição. Parece telefilme norte-americano, mas Desplechin desenvolve as tramas das maneiras mais improváveis, tornando assim suas ‘pessoas’ muito mais possíveis.

Uma diferença essencial a dois filmes que, de certa forma, celebram a mesma maneira de filmar é como os personagens de ambos vivem situações diversas. No primeiro, há uma família construída pelo afeto, uma família escolhida, em que as relações se esfacelaram mas se mantêm pelo amor. Neste último, há uma família separada pela falta de afeto, uma família recebida, onde as relações se mantêm por conveniência ou comodidade. Nos dois filmes, Desplechin dispensa soluções fáceis para os dilemas dos personagens. Em Um Conto de Natal, o clima conciliatório só ameaça aparecer na história de Laurent Capelluto e Chiara Mastroianni, mas a entrega da atriz à personagem, talvez a melhor de sua carreira, impede qualquer interpretação depreciatória.

No entanto, é o caminho mais à parte do filme. Apesar dos momentos de leveza garantidos pelos gêmeos e pelo pai, Jean-Paul Roussilon, que curiosamente tem os mesmos nome e sobrenome em ambos os longas, Um Conto de Natal é um filme pesado. Catherine Deneuve, que há tempos não aparecia tão bem na tela, surge com uma rainha dura ou o que restou dela, mas o roteiro nunca a trata como uma vilã ou ex-vilã que poderia justificar comportamentos. A personagem de Emmanuelle Devos, soberba, é um relâmpago de sobriedade e ceticismo no ambiente familiar. Serve como um ponto de equilíbrio meio cínico para a reunião de família. A atriz só não ganha em cena para Mathieu Amalric, o melhor ator do cinema atualmente. Ele sintetiza, resume, traduz sua família e o cinema de Arnaud Desplechin. É a ovelha negra num mundo de lugares comuns.

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Mostra SP 2008: boletim 6

Nuri Bilge Ceylan

Three Monkeys EstrelinhaEstrelinha, de Nuri Bilge Ceylan

Nuri Bilge Ceylan é um daqueles diretores de filmes de festival. Cannes já levou vários de seus filmes para a riviera. Climas, que deve estrear em circuito em breve, não ganhou nada, mas Three Monkeys saiu com um estranho prêmio de direção. Estranho porque não há nada no filme que diferencie ou exalte o trabalho de seu diretor. O roteiro trata de um dilema moral que gera pelo menos dois outros e coloca os três membros de uma família em choque. Até aí, o trivial era bem feito, embora as imagens de cartão postal (com filtro de plástico) que o filme oferece em abundância encham um pouco a paciência. No entanto, o que mais incomoda é um golpe final rasteiro de roteiro, a la Guillermo Arriaga, em que o filme parece amarradinho e inteligente.

Guy Maddin

Meu Winnipeg EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Guy Maddin

Um Amarcord circense e quase caótico de Guy Maddin? A coleção de pequenas experiências pessoais do diretor com sua cidade ganha relevo maior quando Maddin transcende os fatos para jogar com a construção da memória. Nesse tour, homenageia o local onde nasceu, celebra a história e a fantasia e, de quebra, ainda permite ao espectador invadir seus traumas e ressentimentos. O ritmo irregular, que vai do bem-humorado ao melancólico, pode assustar quem não estiver muito disponível para uma narrativa menos clássica, mas o filme nunca deixa de ser bastante corajoso.

Seis curtas intitulados Pornô Verde, co-dirigidos por Jody Shapiro e Isabella Rossellini, abriram a sessão levando o sexo dos animais com muito escracho e escatologia para a criançada. Complemento interessante.

Jia Zhang-Ke

24 City EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jia Zhang-Ke

Pelo menos umas trinta pessoas deixaram a sessão lotada antes da projeção terminar. 24 City, de certa forma, simboliza uma nova fase da carreira de Zhang-Ke, que parece apaixonado pela tecnologia digital e pela possibilidade de misturar documento e ficção, como fez (mais) com Em Busca da Vida e (menos) com Inútil. O filme, que procura construir o passado de uma fábrica prestes a ser demolida, é bastante simples e bonito, se apoiando nos depoimentos dos ex-trabalhadores. A tática de inserir atores em meio aos personagens consegue momentos comoventes como a cena de Joan Chen, que chega a fazer uma auto referência, mas parece pouco diante de um Jogo de Cena, por exemplo, em que Eduardo Coutinho radicaliza a discussão sobre a representação.

O curta Cry Me a River, de Zhang-Ke, que abriu a sessão, é bonitinho e tem uma bela cena num barco, mas parece um filme inacabado.

Domingos Oliveira

Todo Mundo Tem Problemas Sexuais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos Oliveira

Nem tanto, nem tão pouco. Fico pensando se a polêmica causada pelo manifesto anti-nudez de Pedro Cardoso não teria sido um golpe para vender o filme, o primeiro em algum tempo em que Oliveira trabalha com atores globais (Cláudia Abreu também integra o elenco). O texto, engraçado e bem interpretado, é fácil de se gostar e assume, inteligentemente, uma certa liberdade de expressão que choca a princípio, mas depois parece bastante integrada à proposta do projeto. A opção de Oliveira de ressaltar a origem teatral do filme é óbvia no conceito, mas a forma como foi executada, com apresentações em palco completando boa parte das cenas, é perfeita. E Pedro Cardoso, o polêmico, nunca esteve tão hilário.

Ari Folman

Waltz with Bashir EstrelinhaEstrelinha, de Ari Folman

Animações com temas sérios, adultos ou confessionais geralmente, já de partida, garantem o respeito por onde passam. Esse é o caso de Waltz with Bashir, através de qual o diretor Ari Folman faz um acerto de contas com seu tempo como soldado no Líbano. Há que se dizer que existem belas cenas, sim. No entanto, Folman, como outros diretores de animações sérias, adultas ou confessionais, peca por dois motivos principais. O primeiro é contar em animação, sem explorar as possibilidades do suporte, uma história que poderia ser narrada de qualquer outra maneira, que não justifica a escolha do formato. O segundo é escolher um modelo narrativo ordinário para contar sua história. A interpretação do sonho do soldado, mola mestra para o longa, ganha uma incômoda explicação di-dá-ti-ca no fim do filme. Folman parece querer deixar bem claro, em palavras, seu recado, como se sua animação não fosse capaz de explicar a que veio. Para completar a negação a seu suporte, o diretor se utiliza se imagens “reais” para encerrar o longa. É como se ele dissesse ao espectador: ‘olha, você viu um desenho, mas eu estava falando sério’. Decepcionante.

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Mostra SP 2008: boletim 5

Marília Rocha

Acácio EstrelinhaEstrelinha, de Marília Rocha

Eu sigo um princípio sobre filmes documentais. Toda e qualquer construção formal ou licença poética é permitida caso se cumpra a função primordial de um exemplar do gênero: coletar informações sobre o que está sendo documentado. No caso de Acácio, o alvo é um velhinho português que viveu em Angola por cerca de trinta anos. A diretora Marília Rocha tem boas idéias, sempre evitando cair na fórmula mais básica de documentários, jogando a câmera nos lugares menos esperados. Mas, depois de algum tempo de filme, esse mecanismo deixa de ser criativo e passa a parecer puro exibicionismo. Se o objetivo deste filme era documentar a vida de seu Acácio, ele não foi cumprido. Há pinceladas de história, mas a preocupação maior parece ser dar uma embalagem poética/intelectual ao material. É um filme para o umbigo, que oferece um cardápio ao espectador, mas não entrega a refeição completa. Eu saí do filme sem saber direito quem foi e o que fez o seu Acácio.

Antonio Campos

Depois da Escola EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Antonio Campos

Parece que dar forma a angústia adolescente virou uma obsessão no cinema norte-americano recente. Poucos filmes conseguem dar alguma contribuição para o estabelcimento de um olhar mais aprofundado sobre o jovem atual. Um deles é Depois da Escola, do estreante Antonio Campos, nova-iorquino filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes. O cineasta novato surpreende com uma visão madura e nada determinista da condição teen, centrando foco na imobilidade e na fúria silenciosa do protagonista (o ótimo Ezra Miller). O personagem, ainda que de uma forma específica, representa uma geração empacada (seja no culto ao fútil e aos músculos, seja pelas drogas ou pela internet, seja na busca cada vez mais fácil pelo sexo). Campos acerta em não tentar desenvolver todos estes temas, elegendo alguns que valem pelo conjunto e acerta de novo no uso da câmera e na montagem, ambas passíveis de comparações, mas ambas muito bem executadas. A harmonia só é abalada em um ou outro momento, justamente quando ele tenta ser mais explícito sobre sua preocupação com o jovem de hoje. Não precisava. Tudo o que o filme nos tinha apresentado até ali era não uma visão exatamente original, mas um olhar sério, inteligente e até mesmo carinhoso sobre um momento-chave na vida do homem.

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Mostra SP 2008: boletim 4

Wim Wenders

Palermo Shooting EstrelinhaEstrelinha, de Wim Wenders

O novo filme de Wim Wenders explica um pouco do corte de cabelo do alemão, que estava atrás de mim outro dia quando eu comprava uma empanada. Brincadeiras à parte, em Palermo Shooting, Wenders se arrisca num campo quase onírico, emulando de certa forma David Lynch, com personagens macabros aparecendo de relance e até com o fantasma de Lou Reed passando um recado. Como Wenders não domina muito bem esse campo, o filme chega a ser constrangedor em alguns momentos, embora não seja totalmente de se jogar fora. A perturbação do protagonista, que deveria abalizar o mergulho no fantástico/místico que domina o filme, nunca encontra uma boa justificativa, o que enfraquece ainda mais o conjunto. E tem músicas demais. Umas 30.

Miguel Gomes

Aquele Querido Mês de Agosto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Miguel Gomes

Duvido que apareça um filme mais original na Mostra. O misto de documentário e ficção apresenta uma vila em Portugal com seqüências que lembram um filme de Eduardo Coutinho, inclusive ao se revelar o processo por trás seja do documentário, seja do filme de ficção. A primeira parte, com ênfase na coleta de personagens, é genial. A transição para o que deveria ser o filme em si, a historinha, mantém a graça, mas perde um pouco em ritmo (como no Wenders há um excesso no uso de músicas embora o filme retrate uma banda). Mas a resolução recupera o frescor original e o filme fecha com um inteligente e bem humorado momento de DR entre a equipe de filmagem. Realmente, um filme único.

Woody Allen

Vicky Cristina Barcelona EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Woody Allen

Dá para falar muitas coisas deste filme, mas a sensação geral é de que se trata de um trabalho simpático, feliz e menor de um diretor grande. Woody Allen parece que ficou meio embasbacado com a Espanha e faz meio que uma reverência ao país, ensolarando seu filme, uma comédia dramática simples e gostosinha de se assistir. Vicky Cristina Barcelona mora entre a seriedade de Ponto Final e o escracho de Scoop. Allen peca um pouco na elaboração dos personagens, arquetípicos (o artista, a rebelde, a patricinha, a insana), e termina se escorando nos atores, com destaque para Penélope Cruz, ainda que não seja uma performance brilhante. De resto, a sensãção é de que o clima de “tudo se acerta” prevalece e que Allen só quis ser feliz durante as filmagens. Alguém o culpa?

Olivier Assayas

Horas de Verão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Olivier Assayas

Quando Demonlover e Clean pareciam definir o cinema de Olivier Assayas, ele chega com Horas de Verão, que o faz passear por outras searas. A divisão de uma herança serve para o diretor nos privar de sua câmera que buscava a imensidão em troca de uma imagem mais convencional. Seu novo filme é exatamente isso: um um trabalho mais clássico, onde a forma e o desenvolvimento dos personagens parecem muito próximos do cinema francês dos últimos vinte anos do que dos outros filmes do cineasta. Se a mudança na embalagem parece brusca, a direção de Assayas continua precisa. Charles Berling, num elenco que conta com Juliette Binoche e Jérémie Renier, ganha destaque ao personificar a nostalgia de tempos que não voltam mais.

Matt Oggens

Confissões de Super-Heróis EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Matt Ogens

Um ingresso comprado pelo título que revelou um filme precioso. Enquanto documentário, o filme não se arrisca muito, nos apresentando em goles pequenos cada um de seus quatro personagens. A questão é que esses personagens são verdadeiros achados, pessoas que se vestem de heróis de quadrinhos nas ruas de Hollywood para tirar fotos com turistas em troca de alguns trocados. Um Superman que inventa uma mãe famosa, um Hulk que foi sem-teto, uma Mulher-Maravilha ex-cheerleader e um Batman que diz que “deixou um rastro de corpos por aí”. Matt Ogens nos oferece essas histórias aos poucos, tornando os personagens cada vez mais falhos e deliciosos. Uma bela surpresa.

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Mostra SP 2008: boletim 3

Matteo Garrone

Gomorra EstrelinhaEstrelinha, de Matteo Garrone

Gomorra se esforça para fazer um raio-x aprofundado do modus operandi da máfia siciliana e, convenhamos, nada mais chato do que olhar uma radiografia. O diretor abre mão de protagonistas, o que ajuda a não desenvolver a contento nenhuma das histórias paralelas, e não estabelece conflitos, o que deve frustar bastante quem espera alguma ação. Um documentário funcionaria melhor. Enquanto a renovação do cinema italiano não chega, melhor se aventurar pelo que eles ainda fazem melhor do que ninguém: os melodramas familiares.

Wong Kar-Wai

Cinzas do Tempo Redux EstrelinhaEstrelinha, de Wong Kar-Wai

Não vi o corte original para poder fazer a comparação, mas Cinzas do Tempo em sua versão redux é decepcionante. A sensação é de se estar vendo um diretor sem a mínima intimidade com o material filmado se esforçando para tornar este material num filme “seu”. Num longa de artes marciais, as artes marciais se resumem a uma ou outra cena, geralmente filmadas com pressa para passar logo para os momentos de divagação, típicos de Kar-Wai. O uso dos filtros chega a ser irritante.

Joel e Ethan Coen

Queime Depois de Ler EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Joel e Ethan Coen

Eu geralmente recebo com pouco entusiasmo essas obras menores dos Coen. Eles parecem funcionar bem melhor quando são mais ousados, mas Queime Depois de Ler é uma pérola. Talvez seja a comédia mais bem acabada da dupla em se tratando de roteiro – um dos melhores timings para piadas em muito tempo. O humor convive com momentos de extrema sensibilidade, como as cenas da mais uma vez ótima Frances McDormand no parque ou de Richard Jenkins na Academia. O restante do elenco garante uma comédia de primeira, com destaque para George Clooney, JK Simmons e o geralmente subestimado Brad Pitt numa das melhores interpretações de sua carreira.

Leonel Vieira

Julgamento EstrelinhaEstrelinha, de Leonel Vieira

“O melhor filme da Mostra”, gritou o velhinho. Errr… não concordo muito não. Leonel Vieira deve ter visto muito filme brasileiro porque esse Julgamento bebe em fontes bastante reconhecíveis. O diretor tenta dar uma de moderno, adotando a mesma fotografia azulada usada hoje em dia para dar credibilidade a filmes supostamente sérios, mas isso não o salva de dar murro em ponta de faca, sendo mais um exercício de como remoer uma ditadura. O final, com reviravolta e tudo, é bem pobre. E há uma cena constrangedora no epílogo que parece punir um personagem por ele ter lavado as mãos. Portugal já fez coisa bem melhor.

Atom Egoyan

Adoração Estrelinha, de Atom Egoyan

A premissa é interessante: se apropriar de uma história para si, como se ela fosse a sua. O problema é que tudo o que vem depois é muito ruim, muitas vezes beirando o ridículo. Egoyan parece bater na mesma tecla de sempre, intolerância, e com o mesmo formato de sempre, reinvenção inserida à narrativa, mas cada vez com resultados mais pobres. Adoração tem cenas que colocam em cheque tudo o que o diretor tenta levar a sério, como os chats com adolescentes fazendo profundas análises sociológicas e políticas ou as intervenções da burca metálica. Essas cenas, somadas à verdadeira história da professora de teatro, tiram qualquer mérito deste filme.

Kyoshi Kurosawa

Sonata de Tóquio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kyoshi Kurosawa

Embora eu tenha duvidado dele no início da meia-hora final, em que as catarses dos personagens vêem à tona com certo destempero, é um dos melhores filmes da Mostra até agora. Talvez seja o melhor. Kurosawa se afasta um pouco de seu foco habitual para voltar a atenção para um Japão pouco explorado no cinema, um país impiedoso com quem fica de lado. Nesse Japão mostrado pelo diretor, os personagens são obrigados a conviver com seus próprios abismos enquanto buscam um rumo a seguir. Kurosawa é um cineasta de uma habilidade impressionante na criação de cada cena. Os elementos parecem conversar entre si e a imagem mais comum sempre parece valorizada ao máximo. Aqui, esse talento ajuda a desenvolver o vazio de cada personagem, sempre se apropriando de um timing preciso para contar a história. Mal comparando, é como se Babel fosse bem escrito e bem filmado.

Kanji Nakajima

O Clone Volta para Casa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kanji Nakajima

Pouco antes de entrar o Tiago Superoito me informou: “sabe quem estava atrás de você?”. Pensei na Marta, no Kassab, em alguém da Liga, mas era o Wim Wenders mesmo. Ele tinha esquecido o pente, mas foi bem legal. Foi ele que escolheu este filme para a Mostra. Eu tenho certa condescendência para filmes japas, ainda mais quando eles têm um quê etéreo e de ficção-científica. Esse tinha. A idéia não é tão nova (debater a clonagem e seus efeitos), mas uma certa inocência/imaturidade inerente ao filme me agradou muito. O embaralhamento da memória traz algumas seqüências bem bonitas, como a do irmão carregando o outro que acabou de desmaiar.

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Mostra SP 2008: boletim 2

Lisandro Alonso

Liverpool EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Lisandro Alonso

Lisandro Alonso tem um grande mérito: tentar criar uma narrativa essencialmente cinematográfica, praticamente abolindo a palavra. Desta forma, cria uma série de imagens imponentes, explorando a rota de busca sem explicações do protagonista. Acompanhar a solidão do personagem é uma experiência bastante interessante, mas Alonso guarda alguns maneirismos, como se perder em detalhes sem importância, ora parecendo estar apenas enchendo lingüiça. No entanto, o conjunto funciona bem. A cena final é bem bonita.

Mark Herman

O Menino do Pijama Listrado Bolinha azul, de Mark Herman

Se eu soubesse que seria O Caçador de Pipas II certamente não teria jogado meu dinheiro fora. O filme é de uma pobreza lastimável, se aproveitando de todos os clichês possíveis e imagináveis da literatura chinfrim que espera produzir lágrimas a esmo explorando criancinhas em situações “inaceitáveis”. Tudo é arredondado para o lado mais fácil, burro e choroso – desde o roteiro tatibitate ao visual que parece de propaganda de sabonete (de época, claro). Nem a presença de atores respeitáveis como Vera Farmiga e David Thewlis salva o pacote.

Albert Serra

O Canto dos Pássaros EstrelinhaEstrelinha, de Albert Serra

Honor de Cavalleria, filme anterior do diretor, tinha o mesmo esboço (personagens sem direção, imagem explorada à exaustão), mas, apesar de sua tendência ao hermetismo, conseguia ter mais conceito e se justificar na relação de dependência entre os protagonistas. Este aqui parece muito mais um experimento formal que não sabe muito bem o que fazer com os personagens, bêbados na imensidão do cenário. A fotografia tem momentos brilhantes, mas o filme parece oco.

Jeff McGary

Alvorada em Sunset Bolinha azul, de Jeff McGary

Típico filmequinho que serve para completar a programação de festivais. Rodado num digital horrendo – parece VHS – joga uma série de casais em quartos de um hotel e tenta discutir amor, sexo, desejo e putaria, saindo virgem de qualquer tentativa de ser bem-sucedido. O elenco, bem fraco, ajuda a enterrar as pretensões do diretor. Só a bitch que não pára de falar garante alguma graça. Pouca.

Domingos Oliveira

Juventude EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos Oliveira

Acho que é o primeiro filme da fase digital de Oliveira que consegue ter uma plástica mais inventiva, com muitos momentos bem bonitos. No mais, bebe do velho tema da reunião de amigos para repassar a vida, mas faz isso com humor e inteligência. Paulo José, Aderbal Freire Filho e o próprio cineasta, todos atores e diretores, entregam interpretações bem sólidas. A inserção do teatro à narrativa funciona para reiventar o filme e garante alguns momentos comoventes. Talvez seja o melhor filme de Oliveira desde a obra-prima Todas as Mulheres do Mundo.

Dardenne

O Silêncio de Lorna EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Apesar de ter um roteiro mais explicadinho do que seus outros trabalhos, O Silêncio de Lorna é um dos melhores filmes dos Dardenne. Desde Rosetta que eu não me envolvia tanto com um longa dos belgas, que souberam transformar seus personagens geralmente gelados em figuras cheias de camadas. A protagonista se revela aos poucos, seja no roteiro que entrega em pequenas doses o que está se passando na tela quanto na atriz que serve a uma transformação silenciosa de sua personagem. É um Dardenne mais acessível e redondinho. Será que foi por causa disso que eu gostei tanto?

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