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Mostra SP 2005: Top 20


melhores filmes:
1 O Mundo, de Jia Zhang-ke.
2 Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin.
3 Marcas da Violência, de David Cronenberg.
4 Os Atores do Teatro Queimado, de Rithy Panh.
5 Caché, de Michael Haneke.
6 Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes.
7 2046, de Wong Kar Wai.
8 O Inferno, de Danis Tanovic.
9 Good Night, and Good Luck, de George Clooney.
10 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach.
11 Brokeback Mountain, de Ang Lee.
12 Flores Partidas, de Jim Jarmusch.
13 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira.
14 Café da Manhã em Plutão, de Neil Jordan.
15 Por um Mundo Menos Pior, de Alejandro Agresti.
16 Impulsividade, de Mike Mills.
17 Trilogia – O Vale dos Lamentos, de Theo Angelopoulos.
18 Seven Swords, de Tsui Hark.
19 Eleição, de Johnny To.
20 Noiva e Preconceito, de Gurinder Chadha.

outros destaques:
Por Dentro da Garganta Profunda, de Fenton Bailey e Randy Barbato; Além do Azul Selvagem, de Werner Herzog; Cidade Baixa, de Sérgio Machado; Estrela Solitária, de Wim Wenders; Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso.

melhor direção:
Jia Zhang-ke, por O Mundo

melhor ator:
Mathieu Almaric, por Reis e Rainha

melhor atriz:
Emmanuelle Béart, por O Inferno

melhor ator coadjuvante:
Vincent D’Onofrio, por Impulsividade

melhor atriz coadjuvante:
Maria Bello, por Marcas da Violência,

melhor roteiro:
Reis e Rainha

melhor fotografia:
O Mundo

melhor montagem:
Reis e Rainha

melhor direção de arte:
2046

melhor música:
Eleição

melhor som:
Seven Swords

piores filmes:
1 Palindromes, de Todd Solondz.
2 Carreiras, de Domingos Oliveira.
3 Batalha no Céu, de Carlos Reygadas.
4 Be Movies: programa 2, de Khavn.
5 Nuvens Carregadas, de Tsai Ming-Liang.

melhor episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Bilu e João, de Katia Lund.

pior episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Os de John Woo, Stefano Veneruso, Mehdi Charef e Jordan & Ridley Scott, empatados.

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Mostra SP 2005: dia 13

Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin.

Último dia de Mostra pra mim; um filme maravilhoso. O que a estrutura do longa de Desplechin tem de complexa, tem de inteligente. O filme se costura a partir da desconstrução de si mesmo. Eu pessoalmente fiquei impressionado em como Desplechin é hábil nesta tarefa nada banal: estabelecer a partir da negação. O roteiro e a montagem são articuladíssimos com o desenvolvimento das personagens, interesse principal do filme. Emmanuelle Devos e Mathieu Almaric, os dois deslumbrantes, lideram um elenco onde todos – absolutamente todos – são interessantes, ricos, multifacetados. Há um punhado de cenas belíssimas e a coopção total do espectador. Abrir e fechar o filme com “Moon River” é um golpe genial.

Carreiras, de Domingos Oliveira.

Além da completa ignorância de como funciona uma redação de televisão e da visão preconceituosíssima do jornalista como figura desumana, vendida, corrupta e drogada, o filme sofre pela precariedade de texto e por praticamente (e acovardadamente, talvez) transformar Priscilla Rozenbaum numa versão Domingos Oliveira com dicção melhor, efusivazinha, verborragicazinha, inquietazinha. Para um filme que abre com um pedido de desculpas por existir que se transforma em “me aceitem do jeito que eu sou e me defendam” logo depois, era pedir demais qualquer coisa diferente.

Batalha no Céu, de Carlos Reygadas.

“É pau, é cu, é boceta”, já diria o Otto (que uns amigos meus perversinhos chamam de Idiotto), tadinho. Eu até gosto dele. Mas essa é bem a idéia do novo filme do aclamadinho Reygadas. A poesia é bruta e a mensagem vem em golpes de faca. Deixando de lado o exibicionismo do sexo explícito – ou alguém me convence que aquele boquete tinha sentimentos? (e aqui eu não faço nenhum tipo de alusão ou julgamento de The Brown Bunny, pelo único e exclusivo fato de não tê-lo visto, mas a) eu não gosto da estréia de Reygadas, Japón e b) eu gosto muito da estréia de Vincent Gallo, Buffalo 66) -, o filme ainda usa a grotesca tática de já deixar o espectador numa encruzilhada: reclamar do sexo entre pessoas muito gordas (e da câmera insistentemente fixa em seus corpos nus) vira preconceito crudelíssimo de pessoas regradas pelo belo clássico e fica complicado afirmar que o diretor é quem foi o crápula ao explorar essa “característica” sob a alcunha do cinema de autor. Há uma cena em 360º de movimento de câmera que é bem boa, mas de resto tudo parece algo entre o cinema de universitário querendo mostrar que sabe tudo da linguagem e a estética do choque pelo choque. A questão que seria a central do filme vira coadjuvante… sem luxo.

P.S.: agradecimentos mil ao Fábio e à Maíra, que me deram teto durante 15 dias, depois de meus planos a e b furarem repentinamente. Preciso deixar registrado aqui também meu encontro com o Michel Simões, no final da sessão de Eleição, que resultou num bate-papo divertido e numa carona, e o reencontro com o Daniel Libarino, com filme visto junto e tudo. Amanhã postos um Top 10 da Mostra e comento os resultados do júri e do público. O Mundo levou o prêmio da crítica. Merecidíssimo.

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Mostra SP 2005: dia 12

Memórias Ocultas, de Buddhadev Dasgupta.

Os elementos mágicos do filme são seu maior problema já que o roteiro é capaz de criar situações complexas, dirigidas com simplicidade e eficiência. As intervenções do não-factual parecem perdidas no meio de tantas informações sobre a família que protagoniza o filme. Sem elas, o novo longa de Dasgupta estaria bem perto de ser uma obra-prima, já que há alguns momentos assim. O ator que faz Sumanta é muito bom.

Humilhação, de Masahiro Kobayashi.

Filme que tem pena da personagem raramente me agrada. Esse, além de ter pena, é completamente incompetente em causar identificação com a protagonista. O filme é bem econômico no tempo, mas aproveita muito mal seus 82 minutos em reprovar o constrangimento e fazer disso uma linha narrativa para justificar a preguiça em desenvolver melhor a personagem.

Eleição, de Johnnie To.

Caminhava a passos largos para ser um dos melhores filmes da Mostra, como filme de gângster deslocado do seu cenário, com os coadjuvantes comandando a ação, inteligente e muito bem dirigido. Mas depois do seu clímax, quando se resolve a quaestão central da história, segue um caminho tão mal delineado – com cenas dispensáveis (como a no topo do prédio) e uma tentativa de mostrar a corrupção “da alma” como algo indenfensável – que faz o longa perder bastante seu impacto. Johnnie To é hábil – há muitos momentos sublimes -, mas não soube resolver seu filme.

Nuvens Carregadas, de Tsai Ming-Liang.

Difícil dizer o que Ming-Liang pretendia com este filme, que retoma as personagens de Que Horas São Aí? e do curta A Passarela se Foi numa seqüência com ausência absoluta do que dizer. O diretor parece mais preocupado em convencer pelo riso fácil, baseadas em gags esquisitinhas, ou pelas numerosas cenas de sexo. Os números musicais, cinco, se eu não me engano, vão do bonitinho (o das mulheres e o dos guarda-chuvas à apelação (o do pênis).

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Mostra SP 2005: dia 10

Mistérios da Carne, de Gregg Araki.

Há alguma poesia em mais uma tentativa de mergulho de Araki no quê marginal das pessoas comuns. A melancolia que o diretor empresta a suas personagens diferentes parece legítima, mas existe um hiato quando a questão é o que dizer. O mistério proposto pela trama é o que de menos importa. É o caminho para chegar na sua solução que revela os processos íntimos dos dois protagonistas.

A Criança, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne.

Os Dardenne têm um talento inegável para filmar o fatalismo, a tragédia, a amoralidade. A questão talvez seja que seu cinema imediato, seu ultra-realismo siga uma fórmula que está cada vez mais desgastada. A Criança, como os outros títulos da carreira da dupla, persegue o confrontamento entre o homem e o inevitável, mas desta vez não há a mesma tristeza pelo conformismo que em Rosetta (1999), de longe, o melhor e mais redondo filme da dupla. O drama não parece mais tão urgente, as personagens parecem presas a um modelo cansado de marginalidade (leia-se: para personagens à margem e não, bandidos); as idéias já não são mais tão fortes.

Tirando o Véu, de Angelina Maccarone.

Drama econômico que, tirando algumas boas idéias (de amarração, sobretudo), é filmado de maneira bem convencional, com direito a alguns clichês cansativos. Há uma idéia bem maniqueísta de como “o inimigo” deve ser: amoral, agressivo física ou verbalmente. O melhor é não ressaltar o “exotismo” da protagonista iraniana. Visto na FAAP, na companhia do Marcelo Valletta e da Ana Paul, que na noite anterior, além da cerveja e do caldinho, me proporcionaram ver o belíssimo A Palavra (1955), do Carl Dreyer, e dois curtas raros: Film (1965), de Alan Schneider, único filme escrito pelo Beckett, último trabalho do Buster Keaton, e Le Gros et le Maigre (1961), um dos primeiros Polanski.

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Mostra SP 2005: dia 9

Os Canibais, de Manoel de Oliveira.

Um conto popular vira musical operístico. Manoel de Oliveira, trabalhando com o absurdo, consegue resultados esplendidamente visuais e, mais uma vez, arranha com dor a carne da burguesia. O amor resiste aos obstáculos? Os interesses pessoais sobrepujam o amor, a ética? A última cena, onde o cineasta se permite destruir a última ligação do filme com o factual, algo que pode mesmo ser extremamente desprezível, é o ponto final mais adequado para uma fábula de mestre.

O Fim do Mundo/Namorados, de Shiori Kazama.

O velho conflito do jovem com suas metas, com seu futuro. Personagens perdidos no meio da metrópole, sem saber muito bem o que fazer com suas vidas e tentando se apegar a algo que se pretende sólido. Algumas cenas despertam certo interesse, mas a poesia que se tenta nunca se consuma muito bem.

Marcas da Violência, de David Cronenberg.

A sua família é você quem escolhe. Tom Stall escolheu sua parceira e com ela teve dois filhos. E nada vai fazer com que ele desista da família dele. Nada que venha de fora, nada que venha de dentro. Muita gente tem chamado de um Cronenberg “limpo”, mas, na verdade, é um dos filmes mais bem dirigidos do diretor, que consegue um crescendo aterrorizante com muita sutileza. Os momentos de riso, que a platéia fez questão de multiplicar, são um pouco incômodos. O filme, a meu ver, funcionaria plenamente se fosse completamente duro, mesmo assim não há demérito.

Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes.

Talvez pelo sotaque, pelas expressões conhecidas, pela cultura muito próxima. Mas provavelmente por muito mais que isso. O longa de estréia de Marcelo Gomes é o melhor filme brasileitro do ano e um dos melhores filmes da Mostra. A história, simples, ganhou um dos roteiros mais bem acabados dos últimos tempos e uma caprichadíssima fotografia, que nunca se exalta no filtro e ganha pontos com a câmera criativa e os belos quadros que promove, competência presente em todas as searas aqui. João Miguel, apesar de fazer o “nordestino simpático” que já nos conquistou em muitos filmes com outros atores tão talentosos quanto, está perfeito no papel e é dono da melhor cena-solo do filme. É um filme que não busca atenção para si e isto faz dele muito maior do que muita coisa que surge por aí.

Be Movies: programa 2, de Khavn.

Tosco, tosco e de muito mau gosto. As sinopses indicavam curtas de terror, mas a coletânea de filminhos aqui caberia mais na definição de trash. Khavn não tem muito a dizer, então, busca o choque pela violência, sexo e podreira. Os filmes, que sempre começam na mesa de jantar de uma família filipina composta por um pai psicopata, uma mãe maluca, uma filha dadeira, um filho grandão e bobo, um bebê-anão e um morto, são muito mal feitos, num digital vagabundíssimo, com zero de coerência. As piadas funcionam muito pouco. O melhorzinho é o programa de TV da dona-de-casa.

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Mostra SP 2005: dia 8

Aniki-bobó, de Manoel de Oliveira.

Bem, não vou me prolongar muito. Não há quase nada a dizer. O filme é lindo, encantador e, quer se queira ou não, já lança vários dos olhares sobre o mundo que nós vemos (bem mais elaborados, obviamente) nos filmes mais recentes de Manoel de Oliveira. Curioso foi ouvir comentários sobre como o filme era engraçado, o que ele certamente é, mas esta pérola, que se considera o marco zero do neo-realismo (essas coisas são sempre questionáveis), é muito mais do que um filme bonitinho. É um filme sobre o mundo, sobre confrontar-se, sobre crescer.

500 Almas, de Joel Pizzini.

Belo filme de Pizzini, que é extremamente carinhoso com a apresentação dos remanescentes da tribo Guató, que sobrevivem no Pantanal Mato-grossense. O documentário é intercalado por aparições de Paulo José, que nas peles de generais, juízes e religiosos ajuda a compor o histórico do povo, que foi considerado extinto por quase uma década. Algo que eu pensei que não fosse funcionar, mas que se revela bem eficaz a cada nova intervenção. A fotografia, a cargo de Mário Carneiro, que assinou vários filmes do Cinema Novo, é um dos pontos altos do filme, que peca apenas porque muitas das cenas onde há sobreposição de sons ficam incompreensíveis.

Caminhão Cinza Pintado de Vermelho, de Srdjan Koljevic.

Um homem daltônico que acaba de sair da cadeia e uma roqueira revoltada que descobre que está grávida. Os cenários são as estradas das repúblicas da antiga Iugoslávia, em 1991, quando a guerra civil começava a esfacelar o país. Enquanto surge uma história de amor cheia de piadinhas dentro da boléia do caminhão, a dupla cruza os mais diferentes grupos étnicos e políticos, mas não percebe muito bem o que está acontecendo. O diretor faz de tudo para reforçar este clima away, dando características extremamente simpáticas para as personagens, que, mesmo quando mergulhados na crise do país, estão completamente alheios ao contexto. A brincadeira fica forçada porque as idéias até são boas, mas sua tradução nunca funciona plenamente.

 

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Mostra SP 2005: dia 7

Cine-fragmentos, de Alain Cavalier.

Coleção de recortes do cotidiano de Cavalier, captados ao longo de dez anos, costurados com eficiência a ponto de criar várias historietas, principal linha narrativa que o filme persegue. O diretor não tem pudores em mostrar sua intimidade e a da família, às vezes parecendo até ofensivo com sua esposa.

Vento e Areia, de Victor Sjöström.

Sjöström chega a Hollywood amadurecendo todas as idéias que exercitou ao longo dos anos filmando na Suécia. Um filme com uma composição visual invejável, tanto na fotografia, nas truncagens, quanto nos efeitos visuais, capaz de criar até ciclones artificiais. Uma obra-prima, eu diria. Lilian Gish, excepcional, mostra porque foi uma das poucas estrelas que ultrapassou os limites do cinema mudo.

O Inferno, de Danis Tanovic.

Uma família para a qual tudo deu errado. As histórias paralelas das três irmãs ganhou tratamento impiedoso do roteirista Krzysztof Piesiewicz, traduzido com fidelidade por Tanovic, que acerta na fotografia, na montagem e na música aterrorizante. A seqüência em que Emmanuelle Béart segue o marido até um hotel é magnífica, mas há um punhado de grandes cenas e muitas boas interpretações. O filme é o segundo da trilgia baseada em A Divina Comédia, de Dante, que seria dirigida pore Kieslowski. O primeiro foi o irregular Paraíso, de Tom Tykwer.

Crime Delicado, de Beto Brant.

Primeira bola fora de Beto Brant, baseada num texto muito pretensioso e pouco convicente de Sérgio Sant’Anna, que tenta incorporar a arte (ou as artes) à, digamos, essência da vida. Esta preocupação é o eixo central do roteiro, que deixa escapulir, talvez conscientemente, uma história mais consistente para o protagonista. Os intermezzos com as encenações de teatro são longos demais para um filme tão curto. E a melhor cena – quem diria? – é a protagonizada pelo intragável Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga, que está excelente (e parece bêbado).

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Mostra SP 2005: dia 6

O Território, de Aron Gauder.

Divertidíssimo, com um humor bastante em voga, unindo sarcasmo e crítica política, com público-alvo inegável: o adolescente. A história é bem boba, mas há dezenas de cenas engraçadíssimas. Sim, parece South Park. Aliás, parece mais Terrance and Phillipe. A técnica de animação (perdoem-me por ser completamente leigo nisso) é deliciosa, bastante diferente dos filmes feitos do outro lado do oceano.

Palindromes, de Todd Solondz.

Todd Solondz tinha meu apreço. Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1996), filme sobre os estranhos e os espaços que eles encontram pelo mundo, era um belo ensaio do que vinha por aí. E eu realmente gosto de Felicidade (1998), que traz o incômodo à superfície embora muitas vezes se recorra à armadilha do choque. Histórias Proibidas (2001) tenta fazer o mesmo e tem algum sucesso nisso, mas em escala bem menor. O novo longa do diretor é uma surpresa. Uma péssima surpresa. Palindromes é uma ode ao bizarro, um elogio à diferença. Solondz, ansiosíssimo por acintar mais uma vez a América, cometeu o filme mais repulsivo dos últimos tempos. Um filme que se ergue sobre o quão patético consegue tornar tudo a sua volta. Que se baseia no ridículo para convencer a platéia pelo riso, pela gargalhada, pelo escárnio. E a platéia de ontem do Cineclube Vitrine 1 (ou pelo menos, enorme parte dela) estava muito disposta a rir de tudo, desde a moça extremamente gorda e o coral de deficientes físicos até até o sexo com crianças. O riso era tão descontrolado que até em cenas de corte (como um carro passando por uma rodovia) era momento para alguma manifestação. A história da menina Aviva, que Solondz se dispôs a contar, deveria mostrar que tudo é igual e que nada muda (o tal palíndromo do título, a palavra que lida de trás pra frente tem a mesma grafia), mas só fez ressaltar a diferença pelo grotesco.

P.S.: depois de quase mais de dois anos e meio de contato pelos blogues, finalmente conheci hoje pessoalmente o Daniel Libarino, do The Bridge, num encontro bem por acaso que se transformou numa conversa rápida e que eu espero que seja repetida até antes de eu voltar para casa.

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Mostra SP 2005: dia 5

A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach.

Uma das melhores crônicas familiares norte-americanas em muito tempo. Faz uma belíssima mistura de melancolia com referências pop (seja nas citações do roteiro, seja na trilha) sem aquele quê de ?olha como eu sou inteligente? e consegue dar densidade aos dramas das personagens, em plenos anos 80, a década perdida. O elenco é uma pérola: desde os dois garotos a Laura Linney, sempre bem, e Jeff Daniels, talvez no melhor papel (e interpretação) da sua carreira. Baumbach é o co-roteirista de um dos melhores filmes lançados neste ano no Brasil: A Vida Marinha com Steve Zissou. Não é à toa que Wes Anderson produz este filme.

Os Artistas do Teatro Queimado, de Rithy Panh.

Foi um verdadeiro parto ver este filme. Seria o primeiro da Mostra, mas o equipamento no Arteplex 1 não era compatível com a cópia (por sinal, um digital super básico). Nesta segunda tentativa, o mesmo problema na Sala Uol, resolvido com alguns minutos de espera. Tinha que valer a pena. E valeu mesmo. O filme de Rithy Panh é um documentário sem ser um documentário. Parte do cotidiano dos atores que vivem nas ruínas de um teatro que enfrentou um incêndio para abrir cada vez mais seu foco e mostrar o que é o Camboja hoje. Panh faz isso sem alarde, ficciona as cenas do dia-a-dia e as registra, utilizando gente de verdade que está ali de verdade. Essa indefinição entre o documentário e a ficção (que é rememorada sempre que possível) dá matizes muito mais ricos ao filme, que, das mínimas situações cotidianas aos registros fiéis de miséria e desorganização social, todos com seu contexto histórico devidamente explicado, fica cada vez maior na memória. Lição para quem acha que o choque denuncia com mais força.

Meu Pai Tem 100 Anos, de Guy Maddin.

O curta escrita por Isabella Rossellini atravessa várias versões. Começa experimental, meio cabeça, com frases ao vento e imagens estranhinhas. Em seguida, vira brincadeira com alguma seriedade com o diálogo entre a barriga do Rossellini, Hitchcock, Selznick, Fellini e uma ponta de Chaplin. E por mim se conclui como lamento de uma filha que queria que o país fosse mais e melhor lembrado, que acha que ele mereceu e merece mais espaço na memória, que teme que sua arte seja esquecida pela falta de herdeiros, que tenta justificar sua obra. Para mim, pareceu inocente, desnecessário e mal escrito.

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Mostra SP 2005: dia 4

Viagem à Itália, de Roberto Rossellini.

Um filme bem interessante à medida que relaciona conhecer um país estranho com revelar o parceiro com quem se vive há anos. O cinema como retrato da realidade está presente nas descobertas históricas e geográficas, na câmera documental, no quê popular. É menor em relação aos filmes mais, digamos, importantes de Rossellini, mas não deixa de ser um bom trabalho, ainda que o final pareça bobo. Ingrid Bergman (aqui com o bom George Sanders) faz crescer qualquer obra.

Ritual de Amor, de Victor Sjöström.

Sjöström maduro, com direção mais firme e belas soluções visuais, ainda que menos ousado. O tema ainda é culpa, punição, penitência, redenção, que parecem ser o forte do cinema do diretor. Desta vez, a história é a de uma mulher acusada de matar o marido, mas a discussão de culpa se dá menos no factual e mais no plano intencional, psicológico, o que é, de certa forma, de uma ousadia expressiva. A reconstituição de época é espetacular.

Esposa e Mártir, de Sam Wood.

O filme, restaurado recentemente depois de mais de 70 anos perdido, é um típico produto de estúdio norte-americano, com o diferencial de ser estrelado por dois grandes astros da Hollywood iniciante: Rudolph Valentino e Gloria Swanson. A história, boba e muitas vezes bastante ingênua, fala de casamento arranjado, verdadeiro amor e bons corações. O conflito é mínimo, mas Wood, que viria a fazer muitos filmes (desde dramas oscarizáveis até comédias dos irmãos Marx) já mostrava muita intimidade na composição das cenas. As externas, sejam em estúdio ou não, são ótimas.

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