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Quarteto Fantástico

Quarteto Fantástico

Depois de conceber Poder Sem Limites, um belíssimo filme de estreia que trazia heróis para um mundo muito mais real do que estamos acostumados a ver e mergulhava em personagens complexas, trazendo o drama do adolescente em vários níveis para o centro da trama, Josh Trank parecia ser a pessoal ideal para dar nova vida ao Quarteto Fantástico no cinema. O reboot sonhado pela Fox, que detém os direitos sobre o supergrupo da Marvel, assim como tem os dos X-Men, poderia estabelecer com este filme um universo compartilhado para seus heróis nos moldes do que seus rivais têm criado com bastante sucesso. Mas os planos do estúdio estão oficialmente frustrados. Tanto os boatos que cercaram a produção conturbada quanto as primeiras críticas ao novo longa infelizmente são verdadeiros: o novo Quarteto Fantástico é um filme ruim.

O “decreto” dos críticos não é exagerado. O longa tem tantos problemas que fica até difícil elencá-los sem correr o risco da análise parecer obsessivamente negativa. De um modo geral, há um conflito entre o tom do filme, que se pretende mais sóbrio e profundo do que o dos longas infantilizados que Tim Story dirigiu na década passada, e o roteiro, muitas vezes primário, que parece ter sido escrito às pressas, diante de tantas frases feitas e lugares comuns, que anuncia a cada sequência o que está acontecendo em diálogos explicativos e que rarissimamente se dedica a explorar as personagens. A ideia saudável de tentar se aproximar da maior complexidade que o cinema deste gênero pede hoje desaparece e, se não forem realmente melhores, os filmes de Story parecem ao menos mais coerentes ao se assumirem como aventuras descartáveis.

Trank parece ter tido sérios problemas com o estúdio em relação ao que cada um esperava do projeto. Assustado com as reações ruins, teria tuitado uma frase emblemática: “um ano atrás eu tinha uma versão fantástica disso. E ela teria recebido ótimas críticas. Vocês provavelmente nunca a verão. Essa é a realidade”. As farpas podem indicar que as interferências da Fox teriam transformado radicalmente o projeto, convertendo-o num filme de origem menos arriscado, embora a história tenha suas ousadias, se aproximando mais do grupo em sua versão Ultimate nos quadrinhos. Podem explicar inclusive o descaso completo com uma personagem tão fundamental como o Dr. Destino, resumido a um adolescente revoltado com o mundo que ganha poderes e coloca em prática um plano maligno para destruir o que considera incurável. Já passamos dessa fase.

Mas será que os atritos entre cineasta e estúdio explicariam a falta de cenas de ação realmente empolgantes, o cenário frio que não ajuda a causar empatia com as personagens, a apresentação do grupo em ação que segue um roteiro batido, onde cada um demonstra seus poderes e se dá mal e depois resolve agir em conjunto para evitar o 7×1? Será que justifica o fato de Reed Richards, um dos homens mais inteligentes da Marvel, apontar para o efeito especial para dar uma explicação didática do que está acontecendo antes da luta contra o vilão? Certamente não ajuda a entender como um estúdio que ganhou tanto dinheiro com a franquia mutante aceita cenários sem vergonha que parecem cromaquis e efeitos visuais muitas vezes primários. E não justifica também o visual equivocado do vilão ou os uniformes preguiçosos dos heróis.

A escalação de Michael B. Jordan como Tocha Humana, a maior polêmica nos bastidores, foi o menor dos problemas. O ator pelo menos tenta recuperar o tom irresponsável do herói – que Chris Evans encarnou bem melhor nos filmes de Story, diga-se – e parece mais à vontade do que o resto do elenco, sobretudo em relação a Miles Teller, apático, e Kate Mara, excessivamente sisuda. Tanto Jamie Bell quanto o Coisa são relegados a segundo plano, mas incômodas mesmo são as interpretações de Reg E. Cathey, como Franklin Storm, pai de Susan e Johnny, dono do pior texto do longa, e Toby Kebbel, como Destino, que parece antagonista de novela teen embora tenha sido um vilão furioso em Planeta dos Macacos: O Confronto.

Tantos problemas se somam ao fato de que reboots geralmente são mal vistos pelo público. E se a bilheteria reagir tão mal ao filme quanto à crítica, o segundo longa do grupo, agendado para 2017, fica comprometido e a ideia de unir o quarteto aos mutantes no cinema, mais ainda. Resta saber se a Fox abriria mãos dos direitos e do orgulho e devolveria a trupe de Reed Richards para a Marvel nos cinemas. Para o estúdio, seria uma derrota pior do que a de vilão de quadrinhos. Para o espectador, um fio de esperança. Para Josh Trank, o ideal agora é procurar um projeto pequeno para tentar reconstruir uma carreira promissora. Ele já perdeu um dos longas solo de Star Wars e isso pode ser apenas o começo.

Quarteto Fantástico Estrelinha½
[Fantastic Four, Josh Trank, 2015]

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Ranking: o Universo Cinematográfico Marvel e seus 12 primeiros filmes

A estratégia da Marvel de se transformar num estúdio e assumir o comando das adaptações de suas principais personagens para o cinema deu certo. Sete anos e bilhões de dólares depois, chega ao fim da chamada segunda fase do universo cinematográfico da editora, que já rendeu 12 longas, estabeleceu uma franquia interessante e lucrativa e, mais do que qualquer coisa, realizou o sonho de milhões de leitores mundo afora: transportou com dignidade alguns dos maiores heróis dos quadrinhos para o cinema. A fórmula da Marvel é simples: respeitar, mesmo que nem sempre literalmente, as HQs, sem abrir mão da ironia e da ação. O saldo é bom, mas alguns filmes são bem mais interessantes do que os outros. E, na minha humilde opinião, a Marvel funciona melhor quando faz cinema de gênero, seja filme de assalto, de espionagem ou óperas espaciais A lista abaixo relaciona todos os longas do estúdio por ordem de preferência, tentando justificar a posição de cada um. Deixem suas listas nos comentários.

Thor: O Mundo Sombrio

12 Thor: O Mundo Sombrio
[Thor: The Dark World, Alan Taylor, 2013]

Mesmo sendo o mais fraco dos filmes da Marvel, a segunda aventura solo do Deus do Trovão traz uma cena excepcional em que Tom Hiddleston mostra seu talento dramático num diálogo entre Lóki e Thor. Os Gigantes de Gelo podem não ser adversários formidáveis, mas a batalha no mundo sombrio rende algumas sequências de ação empolgantes.

O Incrível Hulk

11 O Incrível Hulk
[The Incredible Hulk, Louis Leterrier, 2008]

Sai Eric Bana e entra Edward Norton, que é muito mais ator. A segunda aventura solo do Hulk não tem uma assinatura de peso, mas, além de pagar as contas, é um filme de ação até eficiente (cuja história começa no Brasil!) e apaga da existência aquela performance horrorosa do Nick Nolte como pai de Bruce Banner no longa de Ang Lee, que era melhor diretor, mas não entrou no clima.

Homem de Ferro 2

10 Homem de Ferro 2
[Iron Man 2, Jon Favreau, 2010]

O maior mérito do filme é introduzir a Viúva Negra no Universo Marvel e Scarlett Johansson mostra a que veio numa cena de tirar o fôlego, mas o filme é muito mais feliz no desenvolvimento da personalidade de Tony Stark do que na história em si. Tantos “homens de ferro” tiram o peso do original e o vilão do Mickey Rourke, que até está sóbrio, não é lá grande coisa.

Thor

9 Thor
[Thor, Kenneth Branagh, 2011]

O primeiro longa solo do Thor foi o filme mais arriscado da Marvel. Trazer o panteão de deuses nórdicos para a tela e erguer Asgard poderia dar incrivelmente errado, mas sob o comando do shakespeareano Kenneth Branagh o filme mostrou solidez. E Chris Hemsworth, a primeira grande aposta do estúdio, segura a onda. Está longe de ser um grande filme, mas cumpre seu papel com alguma classe.

Vingadores: Era de Ultron

8 Vingadores: Era de Ultron
[Avengers: Age of Ultron, Joss Whedon, 2015]

Se o primeiro longa do supergrupo realizou um sonho de infância, o segundo aponta para aquele que talvez seja o principal problema da Marvel daqui pra frente: o que fazer com tantas personagens? Para dar espaço para todas as estrelas e ainda criar uma história de alcance global, Joss Whedon terminou não desenvolvendo bem os novatos no time: Feiticeira Escarlate, Mercúrio e Visão, dono de um visual excepcional, ganharam intérpretes dignos, mas aparecem menos do que a gente gostaria.

Homem de Ferro 3

7 Homem de Ferro
[Iron Man Three, Shane Black, 2013]

A transformação da personagem do Mandarim, considerada heresia por muitos fãs, foi uma das ousadias mais bem-vindas da Marvel no cinema. Ben Kingsley tem o talento necessário para encarar o desafio e o filme, embora tenha aquela desnecessária aparição da “mulher de ferro”, mais uma vez ajuda a desenvolver a história do protagonista. Robert Downey Jr. tem uma cena especial com Ty Simpkins.

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Homem-Formiga

Homem-Formiga

O filme acaba e antes das cenas extras – são duas e ambas valem a pena – o garotinho de uns 10 ou 11 anos, que provavelmente gostou do que viu a julgar pela ótima reação da plateia, faz uma reflexão: “eu acho que o primeiro filme tinha que ser com o Hank Pym como Homem-Formiga”. A reclamação do marvel boy faz sentido. Ao longo de todo este projeto, as notícias relacionadas à produção causaram desconfiança nos mais puristas, o autor do texto incluído: 1 Scott Lang é o protagonista; 2 o filme é uma comédia com Paul Rudd no papel principal; 3 Edgar Wright abandona a direção; 4 Peyton Reed assume a direção; 5 cadê a Vespa?

Mas depois que o tumulto de troca de comando e de se acostumar com a ideia de Lang ser o herói principal (para quem não conhece a história, Hank Pym é o Homem-Formiga original e Lang assume o uniforme bem depois), as expectativas mudaram em relação ao filme, sobretudo depois que a segunda aventura dos Vingadores não empolgou tanto assim. Um longa com um herói fora dos holofotes e com ótimas possibilidades de efeitos visuais parecia ter mais chances de funcionar. Faltava descobrir se Rudd colocaria seu talento como humorista em favor da personagem ou se Homem-Formiga viraria mais um exemplar desta nova comédia americana, chata que só.

E o resultado é surpreendente em todos os sentidos. Primeiro, Peyton Reed impõe uma leveza ao material que falta em muitos filmes da Marvel, mas sem perder o respeito com a criação de Stan Lee. O roteiro encontra uma maneira inteligente de espalhar o humor ao longo do filme, em doses homeopáticas, o que levanta a bola para o desenvolvimento da história e não enxerga as piadas como objetivo final. O próprio Rudd entende bem até onde deve ir com a comédia e parece bem à vontade com o papel. O filme flui que é uma beleza, quase tão bem quanto Guardiões da Galáxia.

Segundo, o texto é tão bem amarrado que a ideia de trazer Lang para o centro da história parece mesmo uma boa ideia. Como Homem-Formiga é um filme de assalto clonado para o universo dos super-heróis, é mais lógico colocar um “escape artist” como protagonista, o que não significa escantear Hank Pym, que ganha um Michael Douglas inspirado em sua defesa e estrela uma das cenas mais emocionantes do longa, um flashback em que assume o uniforme do herói. Esta mesma construção inteligente encontra um meio de homenagear e explicar a ausência – ausência? – da Vespa. E ainda há espaço para citar o The Cure.

Além disso, como já era de se esperar, o filme acontece num momento perfeito, em que a tecnologia fornece um aparato mais do que suficiente para se criar um longa com uma personagem minúscula: os efeitos visuais parecem simples ao mesmo tempo em que são espetaculares e o roteiro aproveita muito bem suas possibilidades. Há um punhado de cenas deliciosas, como a primeira vez de Lang no traje, a descida pela tubulação e o momento mais impressionante do filme, em que o herói diminui até o nível subatômico, o que permite que os artistas gráficos criem um belíssimo trabalho fora da casinha.

No saldo, ainda há de se comemorar o fato deste ser um dos filmes mais bem costurados a um Universo Marvel cada vez maior e mais definido. Todos os diálogos e cenas que ajudam a inserir o longa ao lado de seus pares são bem construídas e verdadeiramente empolgantes, principalmente, aquela em que o herói encontra com um dos Vingadores. A primeira das cenas escondidas é especial e dá novas perspectivas para a personagem de Evangeline “Lost” Lilly. Se o lado mais fraco da balança é o vilão unidimensional de Corey Stoll, com Homem-Formiga, a Marvel prova que é possível seguir um caminho bem mais discreto sem perder as características de seus heróis. Tamanho, neste caso, não é mesmo documento.

Homem-Formiga EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Ant-Man, Peyton Reed, 2015]

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Guardiões da Galáxia

Guardiões da Galáxia

Chegou o momento que todo mundo temia: a Marvel foi pro espaço. Depois de seis anos transportando e traduzindo seu complexo universo para o cinema, acertando em maior ou menor grau na transposição de alguns de seus principais heróis para as telas, a Casa de Ideias decidiu decolar voo, mirando lá no meio das mais distantes galáxias. A ousadia estava em abrir mão dos nomes mais conhecidos de seu casting interestelar (alguns estão sob as garras de outros megaestúdios; outros simplesmente não atenderiam aos objetivos do projeto Marvel nos cinemas). A aposta foi num grupo publicado esparsamente ao longo das últimas cinco décadas. Personagens cujas histórias pouca gente – ou quase ninguém – efetivamente leu. Até porque os integrantes deste grupo mudaram drasticamente neste período.

A surpresa de toda a crítica tem sido em como Guardiões da Galáxia funciona exemplarmente nas telas, misturando ação e humor numa dosagem certa, e ainda servindo de ponte para a próxima aventura da editora/estúdio, mas o improvável longa dirigido por James Gunn, um cineasta surgido nos porões do cinema trash, é mais do que um produto eficiente, é  um dos melhores filmes adaptados dos quadrinhos da Marvel. Um dos principais motivos para isto é justamente o que provavelmente deixará este longa fora das listas de melhores filmes baseados em quadrinhos nos próximos anos: a invisibilidade de seus personagens. Com protagonistas praticamente desconhecidos, com um grupo sem tradição, Gunn foi capaz de fazer um trabalho despretensioso, em que pode tomar liberdades sem se preocupar com fãs xiitas ou grandes obrigações mercadológicas.

É quase como se estivéssemos diante de uma ficção-científica absolutamente nova, que não nega sua natureza de blockbuster e transita com extrema facilidade entre os filmes do gênero feitos entre meados dos anos 70 e o começo da década seguinte. Plasticamente, o filme é bem arriscado também porque aposta num visual ultracolorido, que o diretor de fotografia, cenógrafos, figurinistas e principalmente maquiadores administram com uma invejável exatidão. A mistura de cores sempre parece estar no limite, mas tudo funciona muito bem e serve aos propósitos dos realizadores. Assumidamente leve, o roteiro de Guardiões da Galáxia oferece cenas de ação deliciosas (como a fuga da prisão espacial) na mesma medida em que cria momentos  extremamente sentimentais (quando Groot muda seu discurso pela primeira vez), sem nunca passar do ponto.

Os atores estão muito à vontade em seus papéis, o que ajuda bastante à engrenagem, com destaque para Chris Pratt e Zoe Saldana, intérpretes do Senhor das Estrelas e de Gamora, mas tanto Dave Bautista, que faz Drax, o Destruidor, quanto Michael Rooker, no papel de Yondu Udonta, têm performances deliciosas. Agora, se há um homem para saudar, este é Bradley Cooper, completamente entregue à amoralidade de Rocket Racoon, com dezenas de falas memoráveis. E Groot é o melhor personagem da vida de Vin Diesel. E sua melhor interpretação também. Todo eles parecem se divertir tanto no filme que dá pra entender porque atores como Glenn Close, Djimon Honsou e John C. Reilly aceitaram fazer papéis tão pequenos. Esta coloquialidade de Guardiões da Galáxia, sem grandes poderes e responsabilidades, mesmo em seus momentos mais arriscados deve aproximar muito o espectador.

James Gunn pontua a história do grupo de outsiders intergaláticos, reunido por acaso, com um humor caseiro que dialoga não apenas com o público que lê quadrinhos ou que consome ficção-científica, mas com um espectador interessado em dar boas risadas no cinema, que vai ser capaz de identificar uma história com começo, meio e fim, mesmo dentro de um projeto maior. Enquanto a DC transforma até seus heróis mais solares em personagens amargurados e carracundos achando que esse é o caminho para traduzi-los com dignidade para o cinema, a Marvel resolveu olhar para as estrelas com a curiosidade e o improviso de um garoto que ganhou sua primeira luneta para abrir um universo de possibilidades para seus personagens e espectadores.

Guardiões da Galáxia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014]

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X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Uma das melhores seqüências de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é estrelada por um Mercúrio um tanto desfigurado em relação à persona sisuda criada nos quadrinhos. A cena é, em todos os bons sentidos, exibicionista. Em sua estreia no universo dos pupilos de Charles Xavier nos cinemas, o personagem vivido por um abobalhado Evan Peters funciona, inclusive, como um alívio cômico para a trama, e, como o aproveitamento do velocista na história é leve, rápido e eficiente, Bryan Singer parece mandar um recado implícito para fãs radicais: mudar as coisas de lugar pode não ser tão ruim assim. O novo filme dos filhos do átomo nasceu como seus heróis, mutado, mutante, diferente de seu original.

Dias de um Futuro Esquecido, a história original das HQs, é uma das melhores aventuras dos X-Men e uma das mais bonitas tramas sobre viagens no tempo e futuros alternativos. Mas, como era de se esperar, dos quadrinhos, sobrou apenas o conceito do argumento, mudando protagonismos, contextos e se adaptando a – e tentando fazer convergir – uma cronologia mutante que já se estende por seis filmes. O novo longa, embora encontre seus fundamentos num dos momentos mais clássicos e inspirados do grupo, é primordialmente uma seqüência direta de X-Men: Primeira Classe, cujas estrelas são, mais uma vez, Charles Xavier, Magneto e Mística, em novas e belas interpretações de James McAvoy, Michael Fassbender e Jennifer Lawrence, com um espaço mais farto para o Fera e também para Wolverine.

É o herói das garras de adamantium que rouba de Kitty Pryde, ponta de luxo de Ellen Page, o protagonismo da viagem no tempo. Ele sai de um futuro distópico, que dizimou boa parte dos mutantes, onde os poucos X-Men que sobraram são perseguidos por sentinelas, para impedir um fato do passado que desencadearia o ódio aos portadores do gene x. Esse passado é o início da década de 70, pouco tempo depois dos fatos narrados em Primeira Classe. E o fato que precisa ser evitado não é mais o assassinato do senador Robert Kelly pela mutante Sina, mas a morte de Bolívar Trask, ponta de luxo de Peter Dinklage, pelas mãos de Mística.

O roteiro de Simon Kinberg, que trabalha sobre um argumento coescrito pelo diretor do filme anterior, Matthew Vaughn, faz o possível e o impossível para adequar as premissas dos quadrinhos ao universo instalado nos cinemas, possibilitando não apenas a continuidade da franquia, como seu diálogo com a trilogia original, da qual dois terços foram comandados por Singer. Este, por sinal, volta como diretor à série 11 anos depois de entregar X-Men 2, que ainda permanece como o melhor filme dos mutantes, igualmente mutado de uma trama específica dos quadrinhos, Deus Ama, O Homem Mata. Nem Singer, nem Kinberg deixaram de cobrir todos os buracos, mas X-Men: Dias de um Futuro Esquecido empolga mesmo assim.

Cientes de era preciso transformar ideias, os criadores resolveram não ter pudores em mudar alguns cânones e ainda acharam espaço para introduzir personagens clássicos dos quadrinhos no cinema. Blink, que aparece no grupo de mutantes do futuro, talvez seja a que melhor teve seus poderes retratados no filme, estrelando uma cena de ação empolgante, em contraste com seus poucos diálogos. O excesso de personagens continua sendo um problema porque há pouco espaço para todos, mas o golpe de Singer, de resgatar os mutantes dos filmes originais, captura o espectador num laço emocional em que a própria natureza do longa, de mostrar a ação em tempos paralelos, trata de justificar o pouco tempo em cena.

Halle Berry, Shawn Ashmore e, sobretudo, Ian McKellen e Patrick Stewart, retomam seus papéis no que é ao mesmo tempo uma maneira de resolver seus personagens e uma homenagem a esses intérpretes. E, por mais que este filme se volte para seu parente mais imediato, a vontade de dialogar com os primeiros longas atravessa toda a história. A viagem no tempo não está apenas no centro da trama de Dias de um Futuro Esquecido, mas em todas as entrelinhas, em todas as pontas de luxo, em todas as motivações. O melhor é que mesmo transfigurando a essência da HQ clássica, Singer encontrou equivalências e para oferecer novos horizontes para os mutantes no cinema numa história sólida.

No fim das contas, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido tem tanto a função de passagem de cetro, como revela a cena em que James McAvoy e Patrick Stewart dividem a tela, como a de memorial, como nos afirma a primeira – e imensamente emocional – das duas cenas escondidas nos créditos. Se a ideia era reorganizar a cronologia dos heróis no cinema, o filme cumpre sua premissa com honestidade e sem vergonha. Sem vergonha de se utilizar de um recurso que as HQs usam há décadas. Sem vergonha de ter chamado atores da primeira trilogia por pouco tempo para lembrar ao leitor que ele está num lugar seguro. Sem vergonha de puxar pelo emocional.

Afinal, os X-Men têm todos aqueles poderes, estrelam histórias complexas, são metáforas para tantas coisas, mas a gente gosta deles mesmo porque eles são nossos amigos, né? Então, se umas lagrimazinhas chatas insistirem em se formar nos seus olhos quando uma certa cena lembrar da época em que você entrou para uma certa escola e mostrar que dá pra mudar tudo sem se preocupar se a ciência confirma isso, tenha certeza de que você não está só nessa. Acreditar na fantasia está no sangue de qualquer mutante que se preze.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[X-Men: Days of Future Past, Bryan Singer, 2014]

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Capitão América: O Soldado Invernal

Capitão América: O Soldado Invernal

A essência do Capitão América é sua maior força e seu principal obstáculo. Criado como símbolo do patriotismo americano em plena Segunda Guerra Mundial, hoje o personagem vive uma dicotomia: ao mesmo tempo em que ainda representa o soldado nos campos de batalha, talvez o único lugar onde a inocência de sua concepção ainda caiba, sofre com a falta de espaço para uma figura com este perfil no mundo atual. Para funcionar no cinema, o herói precisava perder ser trazido para um patamar menos idealizado e dialogar com questões essencialmente contemporâneas, mas, o mais importante, sem perder os princípios que definem o personagem. Essa combinação difícil chega às telas em Capitão América: O Soldado Invernal.

Se o primeiro longa do heroi, caminhava por uma estrada mais inocente – como mandam os preceitos do herói, que estava sendo apresentado ali -, os irmãos Anthony & Joe Russo, diretores deste segundo filme que vêm de uma formação televisiva, transportam o personagem para o meio de uma guerra silenciosa, envolvendo uma trama de conspiração e pondo em cheque instituições de segurança americanas, algo que a TV tem feito melhor do que o cinema nos últimos tempos. O roteiro tanto trabalha a crise de confiança que molda nossa relação com nossos representantes quanto conversa com alguns grandes longas de espionagem do auge da Guerra Fria, criando um recheio menos óbvio para um filme de super-herói.

Recheio que fica mais encorpado com a adição de Robert Redford ao elenco. É impressionante que o papa do cinema independente americano tenha aceito um papel num blockbuster de super-heróis aos 77 anos, quando sua carreira parecia não precisar de nenhuma novidade. Cada cena em que Redford aparece na tela eleva o filme para outro plano de respeitabilidade. Essa tática da Marvel de rechear seus filmes de atores com assinatura é importante para diferenciá-los. Chris Evans retoma o papel principal dando conta do recado e Scarlet Johansson, menos sexy, mas mais à vontade, desmistifica a Viúva Negra. Sua presença e a introdução do Falcão de Anthony Mackie funcionam não apenas como apoio para o protagonista, mas servem para conectá-lo com os dias de hoje.

Mas não é somente isso. Aos Russo não falta bom humor para que o próprio herói ironize essa sua vinda de outros tempos, de outra época, de outra realidade. O próprio Capitão faz piada com sua origem e com tudo o que perdeu nos 70 anos em que ficou congelado. A lista de coisas a conferir que ganhou itens diferentes em cada país em que o filme foi lançado parece um simples alívio cômico, mas serve para mostrar que o personagem vive uma sensação incômoda de não-pertencimento. O homem é um estranho num mundo estranho, hostil, onde os princípios que o formaram não só saíram de moda como foram trocados pela desconfiança generalizada.

Ao Capitão cabe encontrar seu lugar nesse mundo novo. Aos irmãos Russo coube achar uma trama realista, contemporânea, mas que não compromete a fantasia do universo do herói, e um texto inteligente, pop, mas cheio de entrelinhas, que desafia o espectador que não viu os outros longa da Marvel e que desafia também o próprio herói a entrar em choque com o que está lá fora.

Capitão América: O Soldado Invernal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Capitain America: The Winter Soldier, Anthony & Joe Russo, 2014]

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Wolverine Imortal

Wolverine Imortal

A melhor notícia sobre Wolverine Imortal é que, diante da primeira aventura solo do x-man, esse novo longa não tinha como não ser melhor. Mas o filme vai além disso: James Mangold realmente consegue entregar um trabalho decente, que tenta reinventar o personagem enquanto lobo solitário, embora tenha tomado muitas liberdades em relação aos acontecimentos nas HQs. Os fãs de quadrinhos já devem estar vacinados para assimilar as transformações porque passam personagens e arcos de histórias nos cinemas e o novo longa do mutante canadense não poupa perfis, identidades e fatos da saga de Wolverine no Japão, em que o filme é baseado.

Mas quem deve mais sofrer com isso é o fã radical já que as novas amarrações do roteiro, assinado pelos ótimos Scott Frank e Christopher McQuarrie, são bastante sólidas e conseguem dar algum refresh no personagem, já desgastado em quatro filmes (cinco se contarmos com a ponta em X-Men: Primeira Classe). Mangold, que há alguns anos deu roupa nova a um western clássico em Os Indomáveis, também fez um trabalho correto aqui: se a história não é tão fiel às HQs, o espírito do personagem e a paleta de cores da série, mais sombria, se mantêm preservados, mesmo diante de uma vilã kitsch com Madame Hidra.

O filme, no entento, ainda é tímido no desenvolvimento do personagem. Ele aponta para o lado certo, mas fica na superfície boa parte do tempo. Mas ganha pontos por guardar espaço para cenas que homenageiam o cinema japonês, com ninjas, yakuzas e até robôs gigantes. Há várias sequências de luta, algumas deliciosas, onde os atores podem demonstrar como foram bem coreografados, com destaque para a Yukio, de Rila Fukushima, personagem completamente transfigurada pelo roteiro, o que diminuiu seu impacto, mas que encontrou uma reinterpretação interessante. A melhor cena de ação do longa, no entanto, é estrelada mesmo por Hugh Jackman no topo de um trem bala, cheia daquelas mentiras que todo mundo adora assistir.

Mangold não poupa Mariko Yoshida nem o Samurai de Prata em sua reinvenção da saga, mas ambas as mudanças oferecem novas perspectivas para os personagens e reforçam um olhar do diretor sobre o Japão. Wolverine Imortal não usa o país apenas como cenário, mas se aproveita da combinação única entre o novo e o antigo, o tecnológico e o tradicional, como ambiente para que os conflitos internos do personagem ganhem tradução. Funciona, mas sem mergulho. Com um pouco de boa vontade, dá até para perdoar o excesso de participações de Famke Janssen no filme. Jean Grey não é apenas um amor do qual Logan não consegue se livrar. Ela catalisa a mutação secundária pelo qual nosso herói precisa passar.

Wolverine Imortal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Wolverine, James Mangold, 2013]

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Homem de Ferro 3

Homem de Ferro 3

Os recentes ataques na maratona de Boston mostram que, no mundo atual, há uma necessidade cada vez maior de se exibir vilões. A sociedade midiática em que vivemos exige a personalização do mal. Ele precisa ter rosto, voz, precisa se mostrar um para se mostrar atingível. Um dos maiores acertos da Marvel no cinema é como o estúdio conseguiu inserir seus personagens num contexto contemporâneo, credibilizando suas aventuras ao colocá-los frente a perigos reais, palpáveis, que normalmente passam pelas ideias do terrorismo. Por isso mesmo, toda a concepção por trás do personagem do Mandarim, o antagonista de Homem de Ferro 3, é excelente. Ele é o vilão do mundo pop, o mal reconhecível, uma estrela da mídia às avessas, um mito do horror.

O Mandarim não é apenas o melhor vilão dos filmes do Homem de Ferro, mas é o único entre esses personagens tratado com relevância. O roteiro do filme explora sua identidade em várias camadas, sem medo de arriscar, deixando Ben Kingsley à vontade para brincar com quiser com o personagem. Shane Black, que substitui Jon Favreau na direção, rouba espaço no roteiro mais uma vez centrado no magnetismo de Robert Downey Jr., novamente excelente, para criar um personagem tão rico quanto o herói. O Homem de Ferro, por sinal, perde definitivamente o protagonismo do filme para Tony Stark. Este é um filme sobre o homem por trás da máscara de ferro, pelo aspecto dramático das crises de ansiedade do personagem, quanto pelo aumento das cenas de humor, tão fortes quanto no primeiro trabalho de Shane Black como roteirista, Máquina Mortífera.

A comédia, que foi fundamental na composição do personagem no cinema, ganha um tratamento especial nas cenas em que Downey Jr. contracena com o pequeno Ty Simpkins, dono de um currículo que inclui trabalhos com Steven Spielberg, Sam Mendes e Todd Field. Os diálogos ferinos entre Stark e Harley, personagem do garoto, são deliciosos na velocidade e na intensidade. É a melhor dupla do ano até o momento. Apesar das cenas de ação de Homem de Ferro 3 serem realmente muito boas, com destaque para o ataque à mansão e o resgate do avião, este é um filme que se destaca mesmo pela qualidade de seu texto. Isso abre espaço para belas interpretações, como a de Gwyneth Paltrow, que ganha até a chance de brincar de super-heroína; Jon Favreau, que longe da direção investe num timing cômico perfeito para seu Happy; e Guy Pearce, que desenvolve bem seu personagem canastrão.

Mais do que ser um filme redondo, Homem de Ferro 3 é um belo pé direito para o início da chamada Fase 2 da Marvel nos cinemas. Black costura os eventos de Os Vingadores à trama, justificando tanto o caráter solo deste longa quanto a possibilidade de novas parcerias entre os heróis. O plano da editora, ou do estúdio, para seus personagens na tela grande é calculado com impressionante coesão, mas mirando nos valores individuais dos filmes e dos heróis, conversando com um público cada vez maior, mas sem fazer grandes concessões. Este foi o último longa de Robert Downey Jr. sob contrato. O que está por vir precisa ser renegociado e a Marvel tem como norma valorizar personagens e não intérpretes. Eis um dilema de verdade que heróis do mundo real precisarão resolver para impedir a vitória do mal.

Homem de Ferro 3 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Iron Man Three, Shane Black, 2013]

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Trailer: Thor – O Mundo Sombrio

O segundo solo filme do Deus do Trovão, Thor – O Mundo Sombrio, de Alan Taylor, tem previsão para estrear no Brasil no dia 8 de novembro. Voltam ao elenco Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Rene Russo e Stellan Skarsgard. Christopher Eccleston assume o papel de Malekith e Adewale Akinnuoye-Agbaje será Algrim. O filme faz parte da chamada Fase 2 dos heróis da Marvel no cinema, que começa nesta sexta, com o lançamento de Homem de Ferro 3.

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Capitão América: O Primeiro Vingador

Chris Evans, Hugo Weaving

Capitão América, Superman, Asa Noturna, Ciclope. O que esses quatro heróis têm em comum? Todos, em maior ou menor grau, carregam nas costas o peso do mundo. São líderes, ícones, exemplos a se seguir. Responsáveis pelos que os seguem e por todo o resto. Seu heroismo, na maior parte das vezes, é reduzido a bom mocismo. Sua integridade, na maior parte das vezes, é confundida com falta de profundidade, excesso de linearidade, chatice mesmo. É difícil defender quem assume a frente de batalha quando quem se esconde nas trincheiras parece mais sombrio.

Mais difícil ainda é defender um herói que leva no peito a bandeira de um país. E o negócio piora ainda quando esse país são os Estados Unidos. O país que é standard. Aquele de que é muito mais legal só apontar o lado ruim. Pois bem, o Capitão América é exatamente isso: um dos símbolos mais poderosos dos Estados Unidos. Um ícone, um líder, um exemplo a seguir. Como fazer um filme deste personagem e ignorar sua condição de arma de propaganda?

A resposta vem numa das melhores seqüências de Capitão América – O Primeiro Vingador: tirando onda. No filme, o diretor Joe Johnston gasta um bom tempo mostrando como, antes de ser um soldado a serviço da pátria, o herói foi instrumento de manipulação popular. Sem julgamentos, mas sem ignorar o tema. Este é um dos trunfos do longa, que, de uma maneira geral, atende ao que se espera de um filme sobre o Capitão América: todo certinho, nada mais, nada menos.

A Marvel esperou o quanto pode para levar Steve Rogers ao cinema talvez porque este seria um de seus filmes mais delicados, por mexer com elementos além da aventura tradicional. Novamente, Johnston gasta um tempo razoável para mostrar que Steve Rogers já era como é muito antes de se tornar um supersoldado. E se assumiu um risco ao fazer o filme situado durante a Segunda Guerra Mundial. Funcionou, mas faltou habilidade para materializar justamente o que separa heroísmo de bom mocismo. Faltou dar peso ao personagem. O visual high-tech retrô funciona bastante bem. Os efeitos especiais que fazem de Chris Evans um nerd mirrado são os mais originais em muito tempo. Mas o filme é leve como uma pluma.

Capitão América: O Primeiro Vingador EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Captain America: The First Avenger, Joe Johnston, 2011]

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