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Silêncio

Silêncio

A razão pela qual Martin Scorsese parece ter se atraído por este projeto, de transformar o livro Silêncio num filme, é a mesma pela qual ele não consegue dar conta desta ambição: o contraditório discurso de fé do protagonista. Parece muito sedutor querer materializar o pensamento do personagem, o padre Rodrigues, que realmente acredita que sua crença em Deus está acima de todas as coisas, e ao mesmo tempo mostrar que este é um discurso colonialista de um grupo que pretende trazer sua fé prontinha, embalada como “a fé verdadeira” para um povo que, secularmente, já tem outras crenças. Essa dicotomia provavelmente deve ter interessado muito ao cineasta, que apesar de ter uma formação cristã e católica muito forte, sempre foi um homem de espírito contestador, tanto é que fez um filme como A Última Tentação de Cristo.

Em Silêncio, o problema, a meu ver, é conseguir equilibrar estas duas pontas: discurso de fé e a problematização desse discurso. Na maior parte do filme, o que se sobressai é o discurso do protagonista, que termina se confundindo com o discurso do próprio filme, e, consequentemente, vira o discurso de Scorsese. E, para dar corpo a este discurso, as saídas narrativas são transformar os governantes japoneses, aqueles que não permitem que o personagem mantenha e propague sua fé, em vilões. Se eles realmente usam a violência para coagir os padres jesuítas, eles fazem isso como reação a um povo estrangeiro que invade o país deles para impor um novo pensamento.

Os questionamentos do Scorsese parecem, durante quase todo o filme, sufocados por esse discurso de fé. Tudo fica muito nas entrelinhas. Há dois momentos em que o diretor traz essas questões para o debate principal, mas os argumentos terminam mais como explicações para o espectador sobre o como e por que as coisas se desenrolaram do que como discussão ética. Scorsese parece incomodado o tempo inteiro com a mensagem que o filme está passando, mas não consegue equilibrar os discursos. E o que é mais problemático: Andrew Garfield, apesar de esforçado, nunca parece ter a maturidade do personagem a ponto de nos convencer do que ele acredita.

Falta estofo a Garfield para encarar a complexidade do protagonista e falta uma definição maior de que personagem Liam Neeson está interpretando. Se Garfield parece ingênuo, Neeson tem uma postura diferente a cada nova cena. Scorsese só parece estar à vontade na cena em que Neeson tenta traduzir a maneira como o japonês lida com religião e espiritualidade. Embora o discurso seja novamente violento, ele oferece novas nuances para a discussão, justifica de uma maneira torta, a visão simplista de homem de fé contra “bárbaros ateus”. Mais o buraco é mais embaixo.

Já faz um tempo que o cineasta, utilizando uma expressão não tão precisa, dirige no piloto automático. Todos seus filmes têm grandes momentos visuais e uma imensa competência em executar o que ele imagina para a história, mas seus últimos trabalhos pecam por um certo distanciamento do objeto. Scorsese é tão profissional que, muitas vezes, parece olhar com frieza para o que está filmando. Mesmo longas de conteúdo necessariamente mais emocional, como A Invenção de Hugo Cabret, parecem programados demais, calculados em excesso.

Isso não significa que Scorsese dirija mal. Obviamente ele é um grande diretor e um dos mais profundos conhecedores da história do cinema, mas parece mostrar que suas obsessões e seu perfeccionismo algumas vezes atrapalham a maneira como ele se relaciona com seus objetos. Silêncio é um bom exemplo desta dicotomia: mesmo no meio de uma produção cheia de percalços, o cineasta se esforça para dar ao filme um peso de estudo sobre a fé do protagonista, embora nunca realmente consiga dar conta desta missão.

Apesar de sua formação, Scorsese falha em materializar a crença de Rodrigues, o missionário jesuíta português enviado ao Japão feudal para recuperar o padre Ferreira, religioso que desapareceu em missão de catequese. Embora siga a cartilha do livro de Shusaku Endō, autor católico japonês cuja história tenta provar a fé do personagem principal mesmo diante das situações mais adversas, Scorsese não parece acreditar muito no que está filmando ou talvez esteja mais preocupado com o rigor estético, que permanece intacto.

A impressão é de que o filme nunca entra realmente no espírito do protagonista. Parece cético ou pouco interessado em relação a sua religiosidade. Os dilemas que os padres e os “convertidos” enfrentam, que passam necessariamente por negar sua fé em público, são filmados de forma apática por Scorsese. Embora as cenas procurem mostrar o passo-a-passo desses momentos de provação dos personagens, o timing e a intensidade dessas sequências são prejudicados pela falta de densidade das performances e por uma certa burocracia na maneira de filmar.

Silêncio, o livro, é considerado a obra-prima de Endō, mas sua natureza colonialista talvez tenha sido um problema para esta segunda adaptação para o cinema. Existe uma japonesa, dos anos 70, dirigida por Masahiro Shinoda, que parece bem mais à vontade para se debruçar sobre o tema. Se tem um discurso simplesmente confuso ou se parece impróprio para uma época em que a diversidade religiosa é cada vez mais aceita, a certeza em relação a Silêncio é de que Scorsese não conseguiu deixar claro o que ele pensa sobre aquele personagem e sobre aquelas contradições.

Silêncio EstrelinhaEstrelinha½
[Silence, Martin Scorsese, 2016]

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 9

Os Campos Voltarão

Os Campos Voltarão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Torneranno i Prati, Ermanno Olmi, 2014]

Um soldado canta do alto de uma trincheira. Sua voz poderosa, que cruza os campos num raro momento de paz no front, ganha elogios de seus inimigos, que pedem mais uma. É assim, com este absurdo de guerra, que Ermanno Olmi inicia seu novo filme, que fala sobre o absurdo da guerra. Entre longas e curtas, este é o 84º título da carreira de um cineasta de 84 anos: são apenas 80 minutos que valem muito mais do que os últimos dez anos de filmes sobre conflitos mundiais. A guerra de Os Campos Voltarão é a primeira das grandes, mas que o diretor apresenta de dentro para fora. Praticamente todas as cenas do filme acontecem dentro do bunker em que a tropa italiana tenta resistir ao inimigo. A guerra em si se resume a explosões perto de onde estão os soldados e “fogos de artifício” no céu. Os diálogos são sobre a guerra, mas são mais ainda sobre a vida, o medo, a incerteza. O humano vem antes da política para Olmi, que desbota as cores do longa até bem perto do preto-e-branco e envolve seu filme numa trilha sonora improvável composta pelo jazzista Paolo Fresu. A paleta pálida e a música estranha ajudam a encenação algo teatral a transportar aquela história para uma espécie de dimensão diferente, reforçando o lado bizarro do conflito com uma poesia triste e dura, estranha e de beleza esquisita. A batalha dos soldados de Olmi acontece mais dentro deles do que do lado de fora. É uma batalha contra um inimigo invisível, um fantasmas onipresente e sem forma definida, o horror da guerra.

O Rei da Comédia

O Rei da Comédia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The King of Comedy, Martin Scorsese, 1982]

O Rei da Comédia é uma fábula do absurdo. E, por mais absurdo que seja, permanece completamente atual em seu retrato do culto à celebridade. Há mais de trinta anos, Martin Scorsese se reuniu mais uma vez com seu favorito Robert De Niro para investigar o desejo pela exposição na figura de Rupert Pupkin, um homem cujo sonho é se tornar um comediante de stand up da televisão. Para falar de humor, resgatou uma das maiores lendas do cinema, Jerry Lewis, que havia tempos não fazia nada realmente relevante. Jerry aqui interpreta a inspiração, o objetivo e o alvo de Pupkin, Jery Langford, apresentador de um talk show de sucesso na TV. O encontro inusitado das duas personagens mexe profundamente com Pupkin, cuja mitomania faz com que ele transite entre a fantasia da conquista e a realidade para onde sua mãe o chama no meio de cada uma de suas viagens. Para ele, Langford é mais do que uma passagem para a fama e o reconhecimento, é a chance de ver seu sonho realizado. O roteiro de Paul D. Zimmerman, um dos três que ele escreveu na vida, atravessa os limites entre a comédia proposta desde a primeira cena e o estudo sério da personagem com muito jogo de cintura, sem perder a fábula, sem abrir mão da melancolia. De Niro tem uma coleção de interpretações maravilhosas, mas seu Rupert Pupkin oferece uma vitalidade até então nova para seu repertório. Ele defende a farsa de Pupkin com muita verdade, cheio de nuances, encontrando pertinência para cada transtorno do protagonista. A seriedade de Jerry Lewis também impressiona e o contraste com a personagem deliciosamente alucinada de Sandra Bernhard cria algumas cenas excelentes perto do final. O Rei da Comédia nunca foi reconhecido como a obra-prima da sutileza que é.

Sob Nuvens Elétricas

Sob Nuvens Elétricas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Pod Elektricheskimi Oblakami, Aleksey German Jr., 2015]

Um prédio moderno, de curvas ousadas, mas abandonado no esqueleto é a imagem mais recorrente de Sob Nuvens Elétricas. Estamos na Rússia, apenas dois anos à frente, em 2017, centenário da revolução que levou Lênin ao poder. E sob os ecos desta história tão massacrante, que eliminou o humano em prol do conjunto, experenciamos a visão de futuro de Aleksey German Jr. Um futuro tão fracassado quanto a experiência socialista. Em sua pálida distopia, o que seduz não são as personagens, que parecem tão perdidas na paisagem como o protagonista do primeiro dos sete capítulos do filme, um imigrante quirguiz que vaga por ruínas, pelo gelo e pelas ruas da cidade com um rádio quebrado. A sedução também não vem da história, que German libera a conta-gotas, em diálogos codificados, nos intervalos das imagens de cores esmaecidas, de quadros que materializam a solidão, a desesperança, o incompreensível. É na plástica que German traduz seu pessimismo discreto com o que a Rússia construiu para si, é na estética congelante que mora seu grito de horror em relação ao futuro de seu país, é num prédio lindíssimo, imponente e pela metade que encontra a imagem perfeita para cristalizar a catástrofe de uma promessa.

O Evento

O Evento EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sobytie, Sergei Loznitsa, 2015]

De seus vinte títulos como diretor, dezessete filmes do bielorrusso Sergei Loznitsa são documentários. O Evento, seu longa mais recente, é uma costura de imagens em found footage coletadas de diversos cineastas independentes sobre os eventos em Leningrado, em 1991, que levaram à dissolução da União Soviética. As imagens da multidão na praça central da cidade são não apenas a opção formal, mas a linha narrativa do filme. Elas são sobrepostas por entrevistas, depoimentos, pronunciamentos de rádio e TV e discursos, estes os únicos que não aparecem em off, para dar corpo e volume para seu retrato do movimento contra-URSS, como consequência de um desejo coletivo da população, que pergunta porque a televisão só exibe o Balé Bolshoi e que quer saber se Mikhail Gorbachev está realmente morto, como dizem os boatos. O preto-e-branco onipresente em todo o filme oficializa o tom de documento histórico, além de dar peso e textura ao discurso, que Loznitsa deixa a cargo do espectador, mas que parece muito claro quando o cineasta nos afirma que aquele movimento nasce e cresce nas ruas.

A Volta

A Volta Estrelinha½
[Elämältä Kaiken Sain, Mika Kaurismaki, 2015]

Depois da bela surpresa de A Jovem Rainha, Mika Kaurismaki enterra a boa impressão em A Volta, comédia dramática com ecos de filme de suspense, envolta numa onda de clichês e reviravoltas rocambolescas que nunca diz exatamente a que veio. Baseado no livro de Petri Karra, o filme tenta encontrar um equilíbrio entre o lugar comum da frieza do comportamento nórdico e um certo calor latino provavelmente herdado da passagem do cineasta pelo Brasil, onde morou por anos. Ele tenta capturar o drama familiar da mulher que resolve se mudar para a casa do pai no interior junto com o namorado e a filha dele, mas nunca desenvolve as distância entre as personagens de maneira realmente eficiente, e aposta num romance em que parece não acreditar, inserindo uma subtrama policial que parece cair do céu para dar algum movimento ao material. Todas as personagens têm algum grau de estereotipia, principalmente a adolescente gótica e o velho rabugento. As belas imagens à beira de um lago não salvam esse novelão da nulidade.

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O Lobo de Wall Street

O Lobo de Wall Street

O debate que se formou em torno de O Lobo de Wall Street parece não ir diretamente ao principal senão do filme. Pouco interessa se Martin Scorsese compra o discurso de Jordan Belfort e vende seu protagonista como um anti-herói americano, defendendo o comportamento amoral do homem vivido por Leonardo Di Caprio. O cineasta já fez isso muitas vezes, sobretudo em alguns de clássicos filmes de máfia, e esse desconto que o diretor dá aos personagens nunca foi um problema de verdade. A amoralidade tanto em suas obras mais antigas quanto neste novo longa parece simplesmente ser um reflexo natural da maneira como os protagonistas lidam com o mundo. E geralmente é um caminho mais frutífero. Procurar entender e traduzir um homem como Belfort parece bem saudável para um cineasta de 72 anos.

A questão maior em torno de O Lobo de Wall Street não estaria, então, no fim, nas intenções, mas no meio, na forma encontrada por Scorsese para retratar esse universo tão particular que é o do mercado financeiro americano. Para dar conta desse mundo fechado, de ritmo alucinante, o cineasta fez um filme de excessos. Excessos visuais, excessos verbais, excessos morais. Estes últimos, os únicos que parecem ter incomodado os espectadores de uma maneira geral, mas os menos relevantes. A lábia verborrágica do protagonista – um Di Caprio, inspirado, completamente disposto a alcançar a velocidade do filme – contamina todo o resto e, não poucas vezes, Scorsese, na busca por retratar a histeria, faz um filme que beira o histriônico. É uma saída bem entendível para uma obra com essa temática, mas não seria uma solução mais fácil?

Em sua primeira chance de invadir essa área, Scorsese escolheu exatamente a representação mais comum, mais tradicional, dos profissionais do mercado financeiro. E essa representação passa diretamente por manter o filme um, dois, três, muitos tons acima. Não existe uma cena sequer no longa em que algo extremamente excitante ou alucinante – aliás, alucinógena – esteja acontecendo, como se aqueles personagens só pudessem existir e operar num estado constante de delírio, de perda de sentidos. Existe até uma lógica nessa orientação que permite tratar os personagens com uma certa permissividade, sem defendê-los ou condená-los. Mas o preço a pagar é transformar o filme numa montanha-russa que à primeira vista pode parecer desgovernada, mas que segue um roteiro bem definido.

Nem se trata de dizer que o diretor recorreu a lugares comuns ou ofereceu um retrato unilateral daqueles personagens, mas, na tentativa de decifrar esse universo, Scorsese arriscou suas fichas num estado de espírito desregrado, quase abusivo, que exige parceria de quem está do outro lado da tela. Durante três horas, o espectador precisa galopar junto para alcançar O Lobo de Wall Street, como fizeram Di Caprio, Jonah Hill, a beldade (e boa atriz) Margot Robbie e a montadora Thelma Schoonmaker, em sua enésima colaboração com o diretor. Estamos todos diante de uma ópera-rock amoral em que Martin Scorsese revela estar mais veloz e mais furioso do que nunca. Uma corrida em que só tem espaço quem estiver disposto a pisar fundo no acelerador, sem medo das conseqüências.

O Lobo de Wall Street EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013]

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Ranking: Liga dos Blogues escolhe os melhores filmes de todos os tempos

A Liga dos Blogues Cinematográficos, grupo formado por mais de 60 blogueiros de língua portuguesa e do qual eu faço parte há mais de dez anos, atualizou seu ranking dos melhores filmes de todos os tempos. Não se trata de uma votação direta, com os membros do grupo elegendo seus filmes favoritos, mas de um work-in-progress em que cada filme é submetido à avaliação dos integrantes, recebendo notas entre zero e dez. A lista abaixo inclui os filmes com as maiores notas (entre colchetes está a média geral). Alguns filmes importantes ainda não foram avaliados pela Liga. Para ver a lista completa, com os 100 filmes melhores filmes, basta visitar o blogue do grupo.

Laranja Mecânica

20 Laranja Mecânica
[A Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971] [9,23]

Tabu

19 Tabu
[Tabu, Miguel Gomes, 2012] [9,25]

Persona

18 Persona
[Persona, Ingmar Bergman, 1966] [9,26]

Império do Crime

17 Império do Crime
[The Big Combo, Joseph H. Lewis, 1955] [9,29]

Ouro e Maldição

16 Ouro e Maldição
[Greed, Erich von Stroheim, 1924] [9,29]

O Espírito da Colmeia

15 O Espírito da Colmeia
[El Espíritu de la Colmena, Victor Erice, 1973] [9,36]

Luzes da Cidade

14 Luzes da Cidade
[City Lights, Charles Chaplin, 1931] [9,39]

Taxi Driver

13 Taxi Driver – Motorista de Táxi
[Taxi Driver, Martin Scorsese, 1976] [9,40]

O Poderoso Chefão - Parte II

12 O Poderoso Chefão – Parte II
[The Godfather - Part II, Francis Ford Coppola, 1974] [9,43]

Cidadão Kane

11 Cidadão Kane
[Citizen Kane, OrsonWelles, 1941] [9,43]

2001

10 2001 – Uma Odisseia no Espaço
[2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968] [9,50]

O Poderoso Chefão

9 O Poderoso Chefão
[The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972] [9,50]

Três Homens em Conflito

8 Três Homens em Conflito
[Il Buno, Il Brutto, Il Cativo, Sergio Leone, 1966] [9,52]

Onde Começa o Inferno

7 Onde Começa o Inferno
[Rio Bravo, Howard Hawks, 1959] [9,54]

Crepúsculo dos Deuses

6 Crepúsculo dos Deuses
[Sunset Blvd, Billy Wilder, 1950] [9,55]

Psicose

5 Psicose
[Psycho, Alfred Hitchcock, 1960] [9,56]

A Turba

4 A Turba
[The Crowd, King Vidor, 1928] [9,58]

Um Corpo que Cai

3 Um Corpo que Cai
[Vertigo, Alfred Hitchcock, 1958] [9,61]

Janela Indiscreta

2 Janela Indiscreta
[Rear Window, Alfred Hitchcock, 1954] [9,66]

A Palavra

1 A Palavra
[Ordet, Carl Theodor Dreyer, 1955] [9,72]

Entre esses 20 primeiros colocados, o mais surpreendente é a inclusão de O Império do Crime, noir de 1955, e do espanhol O Espírito da Colmeia, que raramente entram em relações como esta, sem falar na menção de Tabu, filme do português Miguel Gomes que só chegou este ano aos cinemas brasileiros. A vitória de A Palavra também contraria “as regras” deste tipo de ranking, que tradicionalmente elege Cidadão Kane, de Orson Welles, ou Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchchock. Para quem gosta de listas, é obrigatório conhecer a lista de melhores filmes de todos os tempos, organizada pela revista inglesa Sight & Sound. Os primeiros 250 colocados estão aqui. E no começo do ano eu organizei uma enquete com críticos de cinema, cineastas e profissionais ligados ao assunto que elegeu os 50 melhores filmes da história.

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Top 10 Sight & Sound: votos dos diretores

Aqui seguem algumas das listas individuais dos cineastas para a enquete dos melhores filmes de todos os tempos, organizada pela revista inglesa Sight & Sound. Os títulos dos filmes estão em inglês.

Woody Allen

“Bicycle Thieves” (1948, dir. Vittorio De Sica)
“The Seventh Seal” (1957, dir. Ingmar Bergman)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles
“Amarcord” (1973, dir. Federico Fellini
“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)
“The 400 Blows” (1959, dir. Francois Truffaut)
“Rashomon” (1950, dir. Akira Kurosawa)
“La Grande Illusion” (1937, dir. Jean Renoir)
“The Discreet Charm Of The Bourgeoisie” (1972, dir. Luis Bunuel)
“Paths Of Glory” (1957, dir. Stanley Kubrick)

Richard Ayoade

“Persona” (1966, dir. Ingmar Bergman)
“Le Mépris” (1963, dir. Jean-Luc Godard)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Ordet” (1955, dir. Carl Theodor Dreyer)
“Barry Lyndon” (1975, dir. Stanley Kubrick)
“Crimes And Misdemeanors” (1989, dir. Woody Allen)
“The Apartment” (1960, dir. Billy Wilder)
“Tokyo Story” (1953, dir. Yasujiro Ozu)
“Make Way For Tomorrow” (1937, dir. Leo McCarey)
“Badlands” (1973, dir. Terrence Malick)

Bong Joon-Ho

“A City Of Sadness” (1989, dir. Hou Hsiao-hsien)
“Cure” (1997, dir. Kiyoshi Kurosawa)
“The Housemaid” (1960, dir. Kim Ki-young)
“Fargo” (1996, dir. The Coen Brothers)
“Psycho” (1960, dir. Alfred Hitchcock)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Touch Of Evil” (1958, dir. Orson Welles)
“Vengeance Is Mine” (1973, dir. Shohei Imamura)
“The Wages Of Fear” (1953, dir. Henri-Georges Clouzot)
“Zodiac” (2007, dir. David Fincher)

Francis Ford Coppola

“Ashes And Diamonds” (1958, dir. Andrzej Wajda)
“The Best Years Of Our Lives” (1946, dir William Wyler)
“I Vitteloni” (1953, dir. Federico Fellini)
“The Bad Sleep Well (1960, dir. Akira Kurosawa)
“Yojimbo” (1961, dir. Akira Kurosawa)
“Singin’ In The Rain (1952, dir. Stanley Donen & Gene Kelly)
“The King Of Comedy” (1983, dir Martin Scorsese)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“The Apartment” (1960s, dir. Billy Wilder)
“Sunrise” (1927, dir. F.W. Murnau)

Jean-Pierre & Luc Dardenne

“Accatone” (1961, dir. Pier Paolo Pasolini)
“The Big Heat” (1953, dir. Fritz Lang)
“Dodes’ka-den” (1970, dir. Akira Kurosawa)
“Germany Year Zero” (1948, dir. Roberto Rossellini)
“Loulou” (1980, dir. Maurice Pialat)
“Modern Times” (1936, dir. Charlie Chaplin)
“The Searchers” (1956, dir. John Ford)
“Shoah” (1985, dir. Claude Lanzmann)
“Street Of Shame” (1956, dir. Kenji Mizoguchi)
“Sunrise” (1927, dir. F.W. Murnau)

Guillermo Del Toro

“Frankenstein” (1931, dir. James Whale)
“Freaks” (1932, dir. Todd Browning)
“Shadow Of A Doubt” (1943, dir. Alfred Hitchcock)
“Greed” (1925, dir. Erich Von Stroheim)
“Modern Times” (1936, dir. Charlie Chaplin)
“La Belle Et La Bete” (1946, dir. Jean Cocteau)
“Goodfellas” (1990, dir. Martin Scorsese)
“Los Olvidados” (1950, dir. Luis Bunuel)
“Nosferatu” (1922, dir. F.W. Murnau)
“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)

Sean Durkin

“The Shining” (1980, dir. Stanley Kubrick)
“Rosemary’s Baby” (1968, dir. Roman Polanski)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“3 Women” (1977, dir. Robert Altman)
“The Birds” (1963, dir. Alfred Hitchcock)
“The Goonies” (1985, dir. Richard Donner)
“The Piano Teacher” (2001, dir. Michael Haneke)
“Persona” (1966, dir. Ingmar Bergman)
“The Panic In Needle Park” (1971, dir. Jerry Schatzberg)
“The Conformist” (1970, dir. Bernardo Bertolucci)

Michel Hazavanicius

“City Girl” (1930, dir. F.W. Murnau)
“City Lights” (1931, dir. Charlie Chaplin)
“To Be Or Not To Be” (1942, dir. Ernst Lubitsch)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“The Apartment” (1960, dir. Billy Wilder)
“The Shining” (1980, dir. Stanley Kubrick)
“North By Northwest” (1959, dir. Alfred Hitchcock)
“The Third Man” (1949, dir. Carol Reed)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Snow White And The Seven Dwarfs” (1937, dir. Walt Disney)

Miranda July

“Blind” (1987, dir. Frederick Wiseman)
“Smooth Talk” (1985, dir. Joyce Chopra)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)
“After Life” (1998, dir. Hirokazu Koreeda)
“Somewhere In Time” (1980, dir. Jeannot Szwarc)
“Cheese” (2007, dir. Mika Rottenberg)
“Punch Drunk Love” (2002, dir. Paul Thomas Anderson)
“The Red Balloon” (1956, dir. Albert Lamorisse)
“A Room With A View” (1985, dir. James Ivory)
“Fish Tank” (2009, dir. Andrea Arnold)

Michael Mann

“Apocalypse Now” (1979, dir. Francis Ford Coppola)
“Battleship Potemkin” (1925, dir. Sergei Eisenstein)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“Avatar” (2009, dir. James Cameron)
“Dr. Strangelove” (1964, dir. Stanley Kubrick)
“Biutiful” (2010, dir. Alejandro Gonzalez Inarritu)
“My Darling Clementine” (1946, dir. John Ford)
“The Passion Of Joan Of Arc” (1928, dir. Carl Theodor Dreyer)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“The Wild Bunch” (1969, dir. Sam Peckinpah)

Steve McQueen

“The Battle Of Algiers” (1966, dir. Gillo Pontecorvo)
“Zero de Conduite” (1933, dir. Jean Vigo)
“La Regle du Jeu” (1939, dir. Jean Renoir)
“Tokyo Story” (1953, dir. Yasujiro Ozu)
“Couch” (1964, dir. Andy Warhol)
“Le Mépris” (1963, dir. Jean-Luc Godard)
“Beau Travail” (1998, dir. Claire Denis)
“Once Upon A Time In America” (1984, dir. Sergio Leone)
“The Wages Of Fear” (1953, dir. Henri-Georges Clouzot)
“Do The Right Thing” (1989, dir. Spike Lee)

Jeff Nichols

“Cool Hand Luke” (1967, dir. Stuart Rosenberg)
“Badlands” (1973, dir. Terrence Malick)
“Hud” (1963, dir. Martin Ritt)
“The Hustler” (1961, dir. Robert Rossen)
“Lawrence Of Arabia” (1962, dir. David Lean)
“Butch Cassidy And The Sundance Kid” (1969, dir. George Roy Hill)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“North By Northwest” (1959, dir. Alfred Hitchcock)
“Stagecoach” (1939, dir. John Ford)
“Fletch” (1985, dir. Michael Ritchie)

David O. Russell

“It’s A Wonderful Life” (1946, dir. Frank Capra)
“Chinatown” (1974, dir. Roman Polanski)
“Goodfellas” (1990, dir. Martin Scorsese)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)
“Pulp Fiction” (1994, dir. Quentin Tarantino)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Young Frankenstein” (1974, dir. Mel Brooks)
“The Discreet Charm Of The Bourgeoisie” (1972, dir. Luis Bunuel)
“The Godfather” (1972, dir. Francis Ford Coppola)
“Blue Velvet” (1986, dir. David Lynch)
“Groundhog Day” (1993, dir. Harold Ramis)

Martin Scorsese

“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)
“2001: A Space Odyssey” (1968, dir. Stanley Kubrick)
“Ashes And Diamonds” (1958, dir. Andrzej Wajda)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“The Leopard” (1963, dir. Luchino Visconti)
“Palsa” (1946, dir. Roberto Rossellini)
“The Red Shoes” (1948, dir. Michael Powell & Emeric Pressburger)
“The River” (1951, dir. Jean Renoir)
“Salvatore Giuliano” (1962, dir. Francesco Rosi)
“The Searchers” (1956, dir. John Ford)
“Ugetsu Monogatari” (1953, dir. Kenji Mizoguchi)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)

Quentin Tarantino

“The Good, The Bad & The Ugly” (1966, dir. Sergio Leone)
“Apocalypse Now” (1979, dir. Francis Ford Coppola)
“The Bad News Bears” (1976, dir. Michael Ritchie)
“Carrie” (1976, dir. Brian DePalma)
“Dazed And Confused” (1993, dir. Richard Linklater)
“The Great Escape” (1963, dir. John Sturges)
“His Girl Friday” (1940, dir. Howard Hawks)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“Pretty Maids All In A Row (1971, dir. Roger Vadim)
“Rolling Thunder” (1977, dir. John Flynn)
“Sorcerer” (1977, dir. William Friedkin)
“Taxi Driver” (1976, dir. Martin Scorsese)

Edgar Wright

“2001: A Space Odyssey” (1968, dir. Stanley Kubrick)
“An American Werewolf In London” (1981, dir. John Landis)
“Carrie” (1976, dir. Brian DePalma)
“Dames” (1934, dir. Ray Enright & Busby Berkeley)
“Don’t Look Now” (1973, dir. Nicolas Roeg)
“Duck Soup” (1933, dir. Leo McCarey)
“Psycho” (1960, dir. Alfred Hitchcock)
“Raising Arizona” (1987, dir. The Coen Brothers)
“Taxi Driver” (1976, dir. Martin Scorsese)
“The Wild Bunch” (1969, dir. Sam Peckinpah)

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Ilha do Medo

Ilha do Medo

Ilha do Medo é um filme antigo, perdido no tempo, quase datado. Parece um daqueles suspenses psicológicos feitos entre o final dos anos 40 e meados da década de 60, em que os roteiros são sotisticados, mas não necessariamente assustadores. E o que torna o filme grande é a direção. No longa de Martin Scorsese, é justamente o trabalho do diretor o que diferencia o filme e o leva para outro patamar. Apaixonado pela história do cinema, Scorsese usa Ilha do Medo para desfilar suas referências sobre filmes noir, de suspense e de horror.

Scorsese trabalha com o onírico, o que permite que suas opções arriscadas, que poderiam estragar filmes com uma narrativa mais convencional, fluam com naturalidade. Ilha do Medo é um filme em que a direção engole o roteiro. O texto de Dennis Lehane, o mesmo autor de Sobre Meninos Lobos, tem uma construção inteligente, que homenageia e recicla a literatura e o cinema de décadas atrás, mas pode ser maçante ou mesmo óbvio aqui e ali, como na cena em que a personagem de Patricia Clarkson explica “o que está acontecendo”. A direção dá classe ao material.

O diretor fez sessões de filmes antigos, como Desafio do Além, de Robert Wise, e Os Inocentes, de Jack Clayton, para o elenco e a equipe para dar ao grupo o tom exato do que pretendia. Leonardo DiCaprio, que produz o filme, é quem captou melhor a ideia: está excelente como o confuso agente do FBI que investiga o desaparecimento de um manicômio. Mas Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow e Emily Mortimer também sabem circundar os limites entre o sóbrio e o exagero muito bem. E Jack Earle Haley, num papel minúsculo, dá o exato tom da loucura pedido por Scorsese.

Por outro lado, o diretor poucas vezes nos últimos tempos administrou tão bem seus colaboradores. A montagem de Thelma Schoonmaker, que perdeu a mão em alguns de seus filmes recentes, parece bastante controlada – ainda que os momentos mais “fora de prumo” combinem bastante com o conjunto. Robert Richardson opera sua câmera com reverência ao cinema noir. Há pelo menos uma dúzia de imagens que remetem a um cinema B clássico (sendo que o cinema de Scorsese é um cinema A clássico). A trilha costura composições de autores reconhecidos sempre num tom acima, como se estivesse num modo “vamos enloquecer o espectador”.

O mais interessante do cinema noir é como seus elementos colocam a representação do real em conflito com a farsa o tempo todo. Há vários momentos histriônicos nos exemplares do gênero que, mesmo podendo ter surgido de falhas, se tornaram características, particulares desse tipo de cinema. Então os momentos de descontrole do filme de Scorsese funcionam tanto como representação do próprio ambiente de insanidade do longa quanto como homenagem aos gêneros reinterpretados pelo cineasta. E, por mais que estes momentos (overactings, câmeras nervosas, trilha excessiva) pareçam exageros ou descuidos, tudo parece estar exatamente da maneira como Scorsese planejou.

Ilha do Medo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Shutter Island, Martin Scorsese, 2010]

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Top 40: melhores filmes de 2006

Para não ficar de fora das discussões sobre os melhores filmes que foram lançados em circuito em 2006, já que o Frankie, dois posts abaixo, considera apenas o que eu vi no cinema no ano, publico aqui minha lista de favoritos entre os filmes que tiveram estréias oficiais em solo brasileiro. Os cinco primeiros serão meus cinco indicados para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos, cuja votação começa no dia 21. Pela primeira vez, um filme brasileiro encabeça minha lista.

No oscarBUZZ, ressucitado, as repercussões dos indicados dos guilds e minhas expectativas para a corrida ao Oscar.

1 O Céu de Suely, de Karim Aïnouz
2 O Novo Mundo, de Terrence Malick
3 A Dama na Água, de M. Night Shyamalan
4 Caché, de Michael Haneke
5 O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

6 O Plano Perfeito, de Spike Lee
7 2046, de Wong Kar-Wai
8 O Crocodilo, de Nanni Moretti
9 Os Infiltrados, de Martin Scorsese
10 Amantes Constantes, de Philippe Garrel

11 Miami Vice, de Michael Mann
12 Munique, de Steven Spielberg
13 Impulsividade, de Mike Mills
14 A Casa do Lago, de Alejandro Agresti
15 Orgulho e Preconceito, de Joe Wright

16 Amor em 5 Tempos, de François Ozon
17 Ponto Final, de Woody Allen
18 A Última Noite, de Robert Altman
19 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach
20 O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro

21 Vôo United 93, de Paul Greengrass
22 O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hambuger
23 007 – Cassino Royale, de Martin Campbell
24 As Chaves de Casa, de Gianni Amelio
25 Dália Negra, de Brian De Palma

26 Estamira, de Marcos Prado
27 Superman – O Retorno, de Bryan Singer
28 Abismo do Medo, de Neil Marshall
29 Viagem Maldita, de Alexandre Aja
30 O Tempo que Resta, de François Ozon

31 O Diabo Veste Prada, de Scott Frankel
32 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira
33 Boa Noite, e Boa Sorte., de George Clooney
34 Árido Movie, de Lírio Ferreira
35 A Criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

36 A Concepção, de José Eduardo Belmonte
37 Eleição – Submundo do Poder, de Johnnie To
38 Eu me Lembro, de Edgard Navarro
39 O Homem-Urso, de Werner Herzog
40 Volver, de Pedro Almodóvar

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Enquete: qual o melhor filme de Martin Scorsese?

resultado da enquete:

1 Taxi Driver (1976) 26,40% (33 votos)
2 Touro Indomável (1980) 11,20% (14 votos)
3 A Última Tentação de Cristo (1988) 10,40% (13 votos)
4 Gangues de Nova York (2002) 8,00% (10 votos)
4 Depois de Horas (1985) 8,00% (10 votos)
4 A Época da Inocência (1993) 8,00% (10 votos)
7 Os Bons Companheiros (1990) 6,40% (8 votos)
7 Cabo do Medo (1991) 6,40% (8 votos)
9 O Aviador (2004) 4,80% (6 votos)
10 Cassino (1995) 4,00% (5 votos)

e mais:
New York, New York (1977) 1,60% (2 votos)
Caminhos Perigosos (1973) 0,80% (1 voto)
Alice Não Mora Mais Aqui (1974) 0,80% (1 voto)
O Rei da Comédia (1983) 0,80% (1 voto)
A Cor do Dinheiro (1986) 0,80% (1 voto)
Kundun (1997) 0,80% (1 voto)
Vivendo no Limite (1999) 0,80% (1 voto)

Total: 125 votos.

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O Aviador

O Aviador

Dono de uma filmografia extensa, riquíssima em títulos que ajudaram a fazer a história do cinema, Martin Scorsese gosta de espiar o homem americano. E não é de hoje. É através do homem americano que Scorsese solta sua voz sobre seu país, sobre o que pensa de seu povo. Daniel Day-Lewis, Ray Liotta e, principalmente, Robert De Niro já foram instrumentos para que o cineasta pudesse se fazer ouvir. Em O Aviador, Scorsese fala da América e do cinema, através de da figura de Howard Hughes, o milionário visionário que seria o protótipo do americano ideal: desbravador, determinado e, apesar das controvérsias, íntegro. Um modelo a seguir. Prato cheio para especular sobre os interesses em fazer uma biografia desta personagem.

Mas se Scorsese fosse um diretor cujos filmes não têm nuances, Gangues de Nova York, a punhalada do diretor no coração do seu país, não passaria de uma breve história de vingança. Há até quem veja o filme assim. Como há quem veja este novo longa como uma desesperada tentativa do diretor em finalmente por as mãos num Oscar. O Aviador, muito mais que uma superprodução, que um filme grande, é uma história particular, que somente ganha ares gigantes por causa de seu personagem. Um sonhador, um homem que buscava dar fim as utopias, que gastou fortunas para realizar seus delírios, para atingir o inatingível e alimentar sua megalomania.

Mas Hughes, de tantas vitórias, de caráter tão épico, era também um herói enérgico falível frente a inimigos invisíveis e microscópicos, que enxerga conspiração no cara da limpeza. Scorsese abusa da beleza dos planos quando o assunto é mostrar o retratado como o homem só, triste e doente que ele guardava para si. Todas as cenas na sala de projeção de Hughes são genialmente fotografadas. Planos que remetem a John Ford e Orson Welles, os maiores do cinema americano, dos quais Scorsese é herdeiro direto. O cineasta do deserto também é homenageado nas infinitas cenas em espaço aberto, seja no ar, seja em terra – firme para muitos, mas não para Howard Hughes.

O Aviador é suntuoso. Menos no dinheiro gasto nele, mais na excelência que toma forma na tela. Se o tom azulado incomoda (muito, às vezes), a maneira como Scorsese dispõe os acontecimentos que formataram a história de Hughes, reflexo da recente história da América, causam um certo incômodo necessário. O espetáculo cinematográfico tem seus momentos de afetação (como a interpretação de Cate Blanchett como Katharine Hepburn também os têm), mas também é o palco para um cineasta que sempre tem algo a dizer. E que desta vez escolheu Leonardo Di Caprio para falar por ele. Na sua magnífica performance, Di Caprio, o melhor ator deste ano, diz tudo. Diz que o céu é azul e que, mesmo que o inimigo esteja à volta, não é nada demais pegar o avião e dar uma voltinha.

O Aviador EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Aviator, Martin Scorsese, 2004]

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Gangues de Nova York

Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz, Leonardo Di Caprio

Sexta-feira desesperançada e uma pergunta: – vamos ver Gangues de Nova York? O Guilherme disse que sim. Fomos os dois ao Cinearte, no Conjunto Nacional, porque queríamos ver o filme numa tela grande – e aquela é enorme. Martin Scorsese é um cineasta de grande talento, mas – exceto por Taxi Driver - nunca me envolve como outros diretores. Fui assistir Gangues de Nova Yorkesperando ver um filme grandioso, bem dirigido e com perfeição técnica, mas estava enganado. Além disso tudo, o novo filme de Martin Scorsese é genial.

O cineasta aproveita-se do cenário da guerra civil norte-americana, onde a intolerância racial e social moviam um país em formação, para contar uma pequena história de vingança pessoal. Houve quem achasse que esse microcosmo era o que era o filme. Foi quem não soube olhar nas entrelinhas e nem nos olhos de Daniel Day-Lewis, a encarnação da América. Envolto na bandeira do país, o maior ator do ano confessa: – eu sou quem eu sou por causa do medo que eu provoco nas pessoas. Metáfora?

Martin Scorsese narra o surgimento de uma cidade, a construção de uma nação a partir do choque entre as pessoas que ali estavam. O cruzamento de genes que determina o povo norte-americano é resultado de suas origens diversas. Aqui o cineasta presta uma homenagem ao povo de seu país. Mas Scorsese também lança farpas contra seu próprio umbigo. Gangues de Nova York é um exercício de reflexão sobre o papel que os EUA ocupam no mundo e sobre o que é não suportar diferenças. Sobre começar guerras por causa delas. Aqui o cineasta consegue ser tão atual como jamais pensaria em ser.

O roteiro, inteligentíssimo, amarra tão bem essas duas premissas à história do órfão que volta para se vingar do assassino de seu pai que em momento algum Gangues de Nova York ganha ares de exaltação ao país ou de denúncia.

Apesar das quase três horas de projeção, Scorsese salta os clichês e mantém uma narrativa acelerada, mas completamente integrada ao filme, que alcança a perfeição técnica em quase todos os prismas. Na fotografia azulada de Michael Ballhaus, na edição agitada de Thelma Schoonmaker, na exuberante reconstituição de época de Dante Ferretti e Sandy Powell. Gangues de Nova York é um filme de época moderno. Um épico interior. Um épico sem heróis. Um épico que não épico. Um dos melhores filmes de seu diretor. Um dos maiores clássicos do cinema recente. Principalmente porque tem gente que não percebe isso.

Gangues de Nova York 
[Gangs of New York, Martin Scorsese, 2002]

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