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Dois Dias, Uma Noite

Dois Dias, Uma Noite

A crise econômica da Europa tem rendido alguns filmes bem interessantes, mas o novo trabalho dos irmãos Dardenne é um dos melhores. E também o melhor longa da dupla em mais de uma década. Embora guarde todos os elementos de seus filmes mais célebres, como a câmera orgânica, as interpretações naturalistas e o tempo contínuo, Dois Dias, Uma Noite talvez indique uma virada de Jean-Pierre e Luc Dardenne em direção a um público mais amplo. Salvo engano, é a primeira vez que eles recorrem a um intérprete que não nasceu na Bélgica como protagonista de um filme. Marion Cotillard mudou seu sotaque e se revelou uma escolha acertada para viver a mulher que, para recuperar seu emprego, tenta convencer seus colegas a votarem contra um bônus que só será concedido se ela for demitida.

No espaço de pouco mais de um dia, ela persegue, casa a casa, seu objetivo. Cada encontro joga sua personagem, Sandra, num contexto diferente, muitas vezes doloroso, promovendo uma versatilidade emocional rara no cinema da dupla, que além de arejar a narrativa do longa, testa os limites da personagem, sempre à beira de um ataque de nervos, e da atriz, aqui num de suas melhores interpretações. Os Dardenne continuam sua sina de analistas da Europa contemporânea, cotidiana, desprovida de beleza, incômoda, desta vez discutindo bem especificamente a crise financeira do continente e o impacto na vida do cidadão comum. Os interesses individuais são confrontados com os interesses do mercado numa luta desigual pela sobrevivência.

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[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, 2014]

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Mostra SP 2014: post dois

À procura

À Procura Estrelinha
[The Captive, Atom Egoyan, 2014]

Onde foi exatamente que Atom Egoyan se perdeu? Porque O Doce Amanhã e Exótica são belos filmes, mas este À Procura é um policial rocambolesco com um roteiro que persegue um tom poético, mas que só encontra o risível em várias situações, desde a relação estabelecida entre sequestrador e sequestrada até a maneira “macabra” que Egoyan impõe para denunciar um maquiavélico esquema de pedofilia. O grandalhão Kevin Durand tem uma personagem patética, tentando emular psicopatas débeis. É possivelmente o pior casting do ano. A trilha sonora ofensiva insiste em divulgar um suspense cansado e a discussão central parece ficar sempre num plano flutuante, sem nunca ter muito compromisso com algo mais palpável. Rosario Dawson se prejudica com o desenvolvimento de sua personagem, quando o roteiro resolve “explicar” suas motivações. Ryan Reynolds é que está bem, mas a cereja do bolo é uma homenagem involuntária a Elvira, a Rainha das Trevas.

Dois Dias, Uma Noite

Dois Dias, Uma Noite EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, 2014]

Embora guarde todos os elementos de seus filmes mais célebres, como a câmera orgânica, as interpretações naturalistas e o tempo contínuo, Dois Dias, Uma Noite talvez indique uma virada dos irmãos Dardenne em direção a um público mais amplo. Salvo engano, é a primeira vez que eles recorrem a um intérprete que não nasceu na Bélgica como protagonista de um filme. Marion Cotillard mudou seu acento e se revelou uma escolha acertada para viver a mulher que, para recuperar seu emprego, tenta convencer seus colegas a votarem contra um bônus que só será concedido se ela for demitida. No espaço de pouco mais de um dia, ela persegue, casa a casa, seu objetivo. Cada encontro joga Sandra num contexto diferente, muitas vezes doloroso, promovendo uma versatilidade emocional rara no cinema da dupla, que além de arejar a narrativa do longa, testa os limites da personagem, sempre à beira de um ataque de nervos, e da atriz. Aqui, os Dardenne continuam sua sina de analistas da Europa contemporânea, desta vez discutindo bem especificamente a crise financeira do continente e o impacto na vida do cidadão comum. Os interesses individuais são confrontados com os interesses do mercado numa luta desigual pela sobrevivência.

Rhino Season

Rhino Season EstrelinhaEstrelinha½
[Rhino Season, Bahman Ghobadi, 2013]

A presença de Monica Bellucci indica que o cinema de Bahman Ghobadi está mais internacional do que nunca, mas, embora a obra do iraniano guarde muitas delicadezas e alguns posicionamentos de protesto, raramente seus filmes “de festival” assumiram uma postura política tão direta contra o governo de seu país. Rhino Season é muito mais prático e convencional em relação aos filmes anteriores do diretor, que abusam de uma espécie de exotismo mágico que às vezes funciona, mas em outras parece pura perfumaria. A história é a do poeta curdo que é libertado depois de trinta anos de prisão e descobre que sua esposa acha que ele está morto. Enquanto evoca o thriller político, mais documental, mesmo em sua bagunça cronológica, a “temporada de rinocerontes” segue mais interessante do que quando Ghobadi tenta aplicar cores mais pessoais e liberdades poéticas, que destoam do conjunto. Um trabalho válido que pisa em falso aqui e ali.

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Top 10 Sight & Sound: votos dos diretores

Aqui seguem algumas das listas individuais dos cineastas para a enquete dos melhores filmes de todos os tempos, organizada pela revista inglesa Sight & Sound. Os títulos dos filmes estão em inglês.

Woody Allen

“Bicycle Thieves” (1948, dir. Vittorio De Sica)
“The Seventh Seal” (1957, dir. Ingmar Bergman)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles
“Amarcord” (1973, dir. Federico Fellini
“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)
“The 400 Blows” (1959, dir. Francois Truffaut)
“Rashomon” (1950, dir. Akira Kurosawa)
“La Grande Illusion” (1937, dir. Jean Renoir)
“The Discreet Charm Of The Bourgeoisie” (1972, dir. Luis Bunuel)
“Paths Of Glory” (1957, dir. Stanley Kubrick)

Richard Ayoade

“Persona” (1966, dir. Ingmar Bergman)
“Le Mépris” (1963, dir. Jean-Luc Godard)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Ordet” (1955, dir. Carl Theodor Dreyer)
“Barry Lyndon” (1975, dir. Stanley Kubrick)
“Crimes And Misdemeanors” (1989, dir. Woody Allen)
“The Apartment” (1960, dir. Billy Wilder)
“Tokyo Story” (1953, dir. Yasujiro Ozu)
“Make Way For Tomorrow” (1937, dir. Leo McCarey)
“Badlands” (1973, dir. Terrence Malick)

Bong Joon-Ho

“A City Of Sadness” (1989, dir. Hou Hsiao-hsien)
“Cure” (1997, dir. Kiyoshi Kurosawa)
“The Housemaid” (1960, dir. Kim Ki-young)
“Fargo” (1996, dir. The Coen Brothers)
“Psycho” (1960, dir. Alfred Hitchcock)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Touch Of Evil” (1958, dir. Orson Welles)
“Vengeance Is Mine” (1973, dir. Shohei Imamura)
“The Wages Of Fear” (1953, dir. Henri-Georges Clouzot)
“Zodiac” (2007, dir. David Fincher)

Francis Ford Coppola

“Ashes And Diamonds” (1958, dir. Andrzej Wajda)
“The Best Years Of Our Lives” (1946, dir William Wyler)
“I Vitteloni” (1953, dir. Federico Fellini)
“The Bad Sleep Well (1960, dir. Akira Kurosawa)
“Yojimbo” (1961, dir. Akira Kurosawa)
“Singin’ In The Rain (1952, dir. Stanley Donen & Gene Kelly)
“The King Of Comedy” (1983, dir Martin Scorsese)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“The Apartment” (1960s, dir. Billy Wilder)
“Sunrise” (1927, dir. F.W. Murnau)

Jean-Pierre & Luc Dardenne

“Accatone” (1961, dir. Pier Paolo Pasolini)
“The Big Heat” (1953, dir. Fritz Lang)
“Dodes’ka-den” (1970, dir. Akira Kurosawa)
“Germany Year Zero” (1948, dir. Roberto Rossellini)
“Loulou” (1980, dir. Maurice Pialat)
“Modern Times” (1936, dir. Charlie Chaplin)
“The Searchers” (1956, dir. John Ford)
“Shoah” (1985, dir. Claude Lanzmann)
“Street Of Shame” (1956, dir. Kenji Mizoguchi)
“Sunrise” (1927, dir. F.W. Murnau)

Guillermo Del Toro

“Frankenstein” (1931, dir. James Whale)
“Freaks” (1932, dir. Todd Browning)
“Shadow Of A Doubt” (1943, dir. Alfred Hitchcock)
“Greed” (1925, dir. Erich Von Stroheim)
“Modern Times” (1936, dir. Charlie Chaplin)
“La Belle Et La Bete” (1946, dir. Jean Cocteau)
“Goodfellas” (1990, dir. Martin Scorsese)
“Los Olvidados” (1950, dir. Luis Bunuel)
“Nosferatu” (1922, dir. F.W. Murnau)
“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)

Sean Durkin

“The Shining” (1980, dir. Stanley Kubrick)
“Rosemary’s Baby” (1968, dir. Roman Polanski)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“3 Women” (1977, dir. Robert Altman)
“The Birds” (1963, dir. Alfred Hitchcock)
“The Goonies” (1985, dir. Richard Donner)
“The Piano Teacher” (2001, dir. Michael Haneke)
“Persona” (1966, dir. Ingmar Bergman)
“The Panic In Needle Park” (1971, dir. Jerry Schatzberg)
“The Conformist” (1970, dir. Bernardo Bertolucci)

Michel Hazavanicius

“City Girl” (1930, dir. F.W. Murnau)
“City Lights” (1931, dir. Charlie Chaplin)
“To Be Or Not To Be” (1942, dir. Ernst Lubitsch)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“The Apartment” (1960, dir. Billy Wilder)
“The Shining” (1980, dir. Stanley Kubrick)
“North By Northwest” (1959, dir. Alfred Hitchcock)
“The Third Man” (1949, dir. Carol Reed)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Snow White And The Seven Dwarfs” (1937, dir. Walt Disney)

Miranda July

“Blind” (1987, dir. Frederick Wiseman)
“Smooth Talk” (1985, dir. Joyce Chopra)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)
“After Life” (1998, dir. Hirokazu Koreeda)
“Somewhere In Time” (1980, dir. Jeannot Szwarc)
“Cheese” (2007, dir. Mika Rottenberg)
“Punch Drunk Love” (2002, dir. Paul Thomas Anderson)
“The Red Balloon” (1956, dir. Albert Lamorisse)
“A Room With A View” (1985, dir. James Ivory)
“Fish Tank” (2009, dir. Andrea Arnold)

Michael Mann

“Apocalypse Now” (1979, dir. Francis Ford Coppola)
“Battleship Potemkin” (1925, dir. Sergei Eisenstein)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“Avatar” (2009, dir. James Cameron)
“Dr. Strangelove” (1964, dir. Stanley Kubrick)
“Biutiful” (2010, dir. Alejandro Gonzalez Inarritu)
“My Darling Clementine” (1946, dir. John Ford)
“The Passion Of Joan Of Arc” (1928, dir. Carl Theodor Dreyer)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“The Wild Bunch” (1969, dir. Sam Peckinpah)

Steve McQueen

“The Battle Of Algiers” (1966, dir. Gillo Pontecorvo)
“Zero de Conduite” (1933, dir. Jean Vigo)
“La Regle du Jeu” (1939, dir. Jean Renoir)
“Tokyo Story” (1953, dir. Yasujiro Ozu)
“Couch” (1964, dir. Andy Warhol)
“Le Mépris” (1963, dir. Jean-Luc Godard)
“Beau Travail” (1998, dir. Claire Denis)
“Once Upon A Time In America” (1984, dir. Sergio Leone)
“The Wages Of Fear” (1953, dir. Henri-Georges Clouzot)
“Do The Right Thing” (1989, dir. Spike Lee)

Jeff Nichols

“Cool Hand Luke” (1967, dir. Stuart Rosenberg)
“Badlands” (1973, dir. Terrence Malick)
“Hud” (1963, dir. Martin Ritt)
“The Hustler” (1961, dir. Robert Rossen)
“Lawrence Of Arabia” (1962, dir. David Lean)
“Butch Cassidy And The Sundance Kid” (1969, dir. George Roy Hill)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“North By Northwest” (1959, dir. Alfred Hitchcock)
“Stagecoach” (1939, dir. John Ford)
“Fletch” (1985, dir. Michael Ritchie)

David O. Russell

“It’s A Wonderful Life” (1946, dir. Frank Capra)
“Chinatown” (1974, dir. Roman Polanski)
“Goodfellas” (1990, dir. Martin Scorsese)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)
“Pulp Fiction” (1994, dir. Quentin Tarantino)
“Raging Bull” (1980, dir. Martin Scorsese)
“Young Frankenstein” (1974, dir. Mel Brooks)
“The Discreet Charm Of The Bourgeoisie” (1972, dir. Luis Bunuel)
“The Godfather” (1972, dir. Francis Ford Coppola)
“Blue Velvet” (1986, dir. David Lynch)
“Groundhog Day” (1993, dir. Harold Ramis)

Martin Scorsese

“8 1/2″ (1963, dir. Federico Fellini)
“2001: A Space Odyssey” (1968, dir. Stanley Kubrick)
“Ashes And Diamonds” (1958, dir. Andrzej Wajda)
“Citizen Kane” (1941, dir. Orson Welles)
“The Leopard” (1963, dir. Luchino Visconti)
“Palsa” (1946, dir. Roberto Rossellini)
“The Red Shoes” (1948, dir. Michael Powell & Emeric Pressburger)
“The River” (1951, dir. Jean Renoir)
“Salvatore Giuliano” (1962, dir. Francesco Rosi)
“The Searchers” (1956, dir. John Ford)
“Ugetsu Monogatari” (1953, dir. Kenji Mizoguchi)
“Vertigo” (1958, dir. Alfred Hitchcock)

Quentin Tarantino

“The Good, The Bad & The Ugly” (1966, dir. Sergio Leone)
“Apocalypse Now” (1979, dir. Francis Ford Coppola)
“The Bad News Bears” (1976, dir. Michael Ritchie)
“Carrie” (1976, dir. Brian DePalma)
“Dazed And Confused” (1993, dir. Richard Linklater)
“The Great Escape” (1963, dir. John Sturges)
“His Girl Friday” (1940, dir. Howard Hawks)
“Jaws” (1975, dir. Steven Spielberg)
“Pretty Maids All In A Row (1971, dir. Roger Vadim)
“Rolling Thunder” (1977, dir. John Flynn)
“Sorcerer” (1977, dir. William Friedkin)
“Taxi Driver” (1976, dir. Martin Scorsese)

Edgar Wright

“2001: A Space Odyssey” (1968, dir. Stanley Kubrick)
“An American Werewolf In London” (1981, dir. John Landis)
“Carrie” (1976, dir. Brian DePalma)
“Dames” (1934, dir. Ray Enright & Busby Berkeley)
“Don’t Look Now” (1973, dir. Nicolas Roeg)
“Duck Soup” (1933, dir. Leo McCarey)
“Psycho” (1960, dir. Alfred Hitchcock)
“Raising Arizona” (1987, dir. The Coen Brothers)
“Taxi Driver” (1976, dir. Martin Scorsese)
“The Wild Bunch” (1969, dir. Sam Peckinpah)

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O Garoto de Bicicleta

Cécile de France, Jerémie Rennier

As marcas que costumamos reconhecer no cinema dos irmãos Dardenne aparecem fartamente em O Garoto de Bicicleta: a câmera naturalista, as interpretações econômicas, os personagens amargos e solitários estão presentes no novo filme da dupla, que narra a história de um garoto abandonado pelo pai. A natureza da trama é semelhante às temáticas duras que vimos em filmes como O Filho e A Criança.

Como nesses filmes, a paternidade está no centro da discussão. No entanto, o longa indica uma mudança drástica no tom do cinema dos irmãos belgas. Os protagonistas continuam cercados por um mundo cru e cruel, que em seus outros longas ultrapassa os limites do realismo e namora com um certo fatalismo. Desta vez, embora os diretores não nos poupem de cenas angustiantes, O Garoto de Bicicleta não aposta em personagens frios, enclausurados por planos rigorosos.

A palavra seria alívio. Pela primeira vez, os Dardenne parecem oferecer uma chance para seus espectadores. A chance de torcer pelos protagonistas. A própria escolha da ensolarada Cécile de France para um dos papéis principais pode ser um reflexo disso. Desde as primeiras cenas, o filme deixa espaço para uma possibilidade de transformação – e até redenção. A vida continua dura para os personagens, o ambiente ainda é hostil, mas, apesar de uns sustos pelo meio do caminho, já é possível fazer planos para amanhã.

O Garoto de Bicicleta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Le Gamin au Velo, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2011]

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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

Anamaria Marinca, Vlad Ivanov

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias poderia, muito bem, ser a terceira Palma de Ouro em Cannes dos irmãos Dardenne. A narrativa e a concepção visual do filme são parentes de primeira geração do cinema feito pela dupla belga de Rosetta A Criança, um cinema de investigação do humano, que sempre busca transbordar os instintos mais primários dos personagens.

O curioso sobre o longa de Cristian Mungiu é que, ao mesmo tempo em que trabalha nesse patamar interior, ele sempre se aproxima de uma espécie de lição do moral sobre o tema. O filme se equilibra nesse dueto inusitado desde que a situação central se estabelece – por sinal, quem chegar ao cinema sem ter muita informação sobre o filme vai aproveitá-lo bem mais – e isso só acontece depois de uns belos 40 minutos de filme.

Como crônica social, crítica de costumes e investigação de psiquês, o filme é quase uma experiência de terror, com cenas trabalhadas para incomodar – a imagem fixa no banheiro é dolorida – e deixar o espectador tenso – a saga que se segue à imagem. A questão é que, por outro lado, esse tratamento pode ser encarado como um panfleto bem arquitetado como arma contra as práticas das protagonistas. Nessa indefinição, o filme acaba e lança muitas perguntas. No fim, isso deve ser bom. Ou não?

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Cristian Mungiu, 2007]

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A Promessa

No Panorama do Cinema Mundial, que terminou na semana passada, em Salvador, aconteceu uma retrospectiva da obra dos irmãos Dardenne. Bem completa, por sinal. Os horários não foram muito dóceis comigo então só pude assistir a dois dos trabalhos da dupla; dois dos mais famosos. Um foi Rosetta. O outro, A Promessa, de 1996, mostra a temática dos irmãos ainda engatinhando. No filme, o embate com o inevitável se dá quando o jovem resolve se rebelar contra os métodos do pai, com os quais ele nunca concordou muito, mas que nunca haviam o incomodado tanto.

A partir daí, a história sobre imigração ilegal se transforma numa pequena batalha de ideais, onde o homem puro tenta fugir do homem corrupto. Fugir e desfazer os atos do outro. A condução, por vezes, tropeça em algumas fórmulas e na limitação do jovem ator, mas os Dardenne conseguem resolver o filme muito bem, com uma mudança completa de prisma, onde a africana clandestina decide que sua “missão” importa muito mais do que seu futuro. O espectador não vai ver, mas é ali que começa a guerra pela justiça.

A Promessa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Promesse, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, 1996]

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Rosetta

Émilie Dunquenne

O cinema dos irmãos Dardenne parece ser o cinema sobre o embate entre o homem e o inevitável. Em O Filho (2002), o inevitável surgia na impossível relação desenhada entre o homem, o habitué Olivier Gourmet, e o garoto. O desfecho daquele filme, mesmo que a história queira nos propor o acaso, parecia cristalizar um certo conformismo com conceitos como “destino”. O que não é, o que não é para ser. Parecia, inclusive – e eu peguei algumas brigas por dizer isso -, uma solução de certa forma vingativa. Um desfecho-punição que não apenas impossibiliza uma relação fadada ao fracasso como surge como alento para a dor do protagonista.

Já Rosetta, filme de 1999, obra mais conhecida dos irmãos, Palma de Ouro em Cannes, é um círculo. A personagem-título é a conformista, por natureza. Sua vida, seu dia-a-dia, seus problemas são tudo o que ela tem. Quando se vê sem eles, Rosetta perde seus parâmetros, seu conforto, é obrigada a transformar sua rotina, seu passo-a-passo. Aos poucos começa a reconstruir sua vida e a adotar novos hábitos, um novo cotidiano. Os Dardenne filmam num esquema de ultra-realismo, onde a câmera que nunca pára funciona muito melhor do que nos filmes do Dogma, mas com uma função completamente diferente: lá ela era reformista, aqui serve para humanizar as personagens.

Os irmãos são meio impiedosos com sua personagem. Rosetta não tem escrúpulos quando o assunto é resgatar o conforto. Impiedosa, faz o que pode para reestabelecer seu posto no mundo. Rosetta quer muito existir, mas não exatamente significar. Tanto que, quando surge a primeira oportunidade de voltar a sua condição inicial, a moça não pensa duas vezes. Rosetta são os Dardenne reiterando sua crença no inevitável, na pessoa que é para o que nasce. Mas nunca o conformismo foi tão bonito, tão triste, tão de verdade. Um filme muito revelador.

Rosetta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Rosetta, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, 1999]

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