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X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Uma das melhores seqüências de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é estrelada por um Mercúrio um tanto desfigurado em relação à persona sisuda criada nos quadrinhos. A cena é, em todos os bons sentidos, exibicionista. Em sua estreia no universo dos pupilos de Charles Xavier nos cinemas, o personagem vivido por um abobalhado Evan Peters funciona, inclusive, como um alívio cômico para a trama, e, como o aproveitamento do velocista na história é leve, rápido e eficiente, Bryan Singer parece mandar um recado implícito para fãs radicais: mudar as coisas de lugar pode não ser tão ruim assim. O novo filme dos filhos do átomo nasceu como seus heróis, mutado, mutante, diferente de seu original.

Dias de um Futuro Esquecido, a história original das HQs, é uma das melhores aventuras dos X-Men e uma das mais bonitas tramas sobre viagens no tempo e futuros alternativos. Mas, como era de se esperar, dos quadrinhos, sobrou apenas o conceito do argumento, mudando protagonismos, contextos e se adaptando a – e tentando fazer convergir – uma cronologia mutante que já se estende por seis filmes. O novo longa, embora encontre seus fundamentos num dos momentos mais clássicos e inspirados do grupo, é primordialmente uma seqüência direta de X-Men: Primeira Classe, cujas estrelas são, mais uma vez, Charles Xavier, Magneto e Mística, em novas e belas interpretações de James McAvoy, Michael Fassbender e Jennifer Lawrence, com um espaço mais farto para o Fera e também para Wolverine.

É o herói das garras de adamantium que rouba de Kitty Pryde, ponta de luxo de Ellen Page, o protagonismo da viagem no tempo. Ele sai de um futuro distópico, que dizimou boa parte dos mutantes, onde os poucos X-Men que sobraram são perseguidos por sentinelas, para impedir um fato do passado que desencadearia o ódio aos portadores do gene x. Esse passado é o início da década de 70, pouco tempo depois dos fatos narrados em Primeira Classe. E o fato que precisa ser evitado não é mais o assassinato do senador Robert Kelly pela mutante Sina, mas a morte de Bolívar Trask, ponta de luxo de Peter Dinklage, pelas mãos de Mística.

O roteiro de Simon Kinberg, que trabalha sobre um argumento coescrito pelo diretor do filme anterior, Matthew Vaughn, faz o possível e o impossível para adequar as premissas dos quadrinhos ao universo instalado nos cinemas, possibilitando não apenas a continuidade da franquia, como seu diálogo com a trilogia original, da qual dois terços foram comandados por Singer. Este, por sinal, volta como diretor à série 11 anos depois de entregar X-Men 2, que ainda permanece como o melhor filme dos mutantes, igualmente mutado de uma trama específica dos quadrinhos, Deus Ama, O Homem Mata. Nem Singer, nem Kinberg deixaram de cobrir todos os buracos, mas X-Men: Dias de um Futuro Esquecido empolga mesmo assim.

Cientes de era preciso transformar ideias, os criadores resolveram não ter pudores em mudar alguns cânones e ainda acharam espaço para introduzir personagens clássicos dos quadrinhos no cinema. Blink, que aparece no grupo de mutantes do futuro, talvez seja a que melhor teve seus poderes retratados no filme, estrelando uma cena de ação empolgante, em contraste com seus poucos diálogos. O excesso de personagens continua sendo um problema porque há pouco espaço para todos, mas o golpe de Singer, de resgatar os mutantes dos filmes originais, captura o espectador num laço emocional em que a própria natureza do longa, de mostrar a ação em tempos paralelos, trata de justificar o pouco tempo em cena.

Halle Berry, Shawn Ashmore e, sobretudo, Ian McKellen e Patrick Stewart, retomam seus papéis no que é ao mesmo tempo uma maneira de resolver seus personagens e uma homenagem a esses intérpretes. E, por mais que este filme se volte para seu parente mais imediato, a vontade de dialogar com os primeiros longas atravessa toda a história. A viagem no tempo não está apenas no centro da trama de Dias de um Futuro Esquecido, mas em todas as entrelinhas, em todas as pontas de luxo, em todas as motivações. O melhor é que mesmo transfigurando a essência da HQ clássica, Singer encontrou equivalências e para oferecer novos horizontes para os mutantes no cinema numa história sólida.

No fim das contas, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido tem tanto a função de passagem de cetro, como revela a cena em que James McAvoy e Patrick Stewart dividem a tela, como a de memorial, como nos afirma a primeira – e imensamente emocional – das duas cenas escondidas nos créditos. Se a ideia era reorganizar a cronologia dos heróis no cinema, o filme cumpre sua premissa com honestidade e sem vergonha. Sem vergonha de se utilizar de um recurso que as HQs usam há décadas. Sem vergonha de ter chamado atores da primeira trilogia por pouco tempo para lembrar ao leitor que ele está num lugar seguro. Sem vergonha de puxar pelo emocional.

Afinal, os X-Men têm todos aqueles poderes, estrelam histórias complexas, são metáforas para tantas coisas, mas a gente gosta deles mesmo porque eles são nossos amigos, né? Então, se umas lagrimazinhas chatas insistirem em se formar nos seus olhos quando uma certa cena lembrar da época em que você entrou para uma certa escola e mostrar que dá pra mudar tudo sem se preocupar se a ciência confirma isso, tenha certeza de que você não está só nessa. Acreditar na fantasia está no sangue de qualquer mutante que se preze.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[X-Men: Days of Future Past, Bryan Singer, 2014]

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Trapaça

Trapaça

A Mostra de Cinema do ano passado exibiu, em cópia restaurada, O Grande Golpe, um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick, realizado antes de o cineasta entrar em sua fase mais celebrada, quando esteve à frente de projetos mais autorais. Enquanto filme noir, enquanto peça da indústria do entretenimento, o longa de Kubrick atende completamente às expectativas em torno dele. Descreve demoradamente o processo de criação do golpe do título brasileiro, desenha com riqueza de detalhes cada personagem, inclusive os periféricos, e imprime um visual e um ritmo que respeitam e revitalizam o gênero em que se insere. Essa rápida digressão serve para comparar o que Kubrick conseguiu fazer com aquele filme pequeno com o que David O. Russell realizou em Trapaça, indicado a dez Oscars, merecedor de uma ou duas indicações.

Trapaça, como O Grande Golpe, é um filme que emula um gênero, que revisita um tipo de cinema, mas, ao contrário do filme de Kubrick, que não parte de expectativas, o longa de David O. Russell promete muito, mas não cumpre quase nada. Temos um bom elenco em interpretações que são boas, mas nunca oferecem realmente um diferencial. Temos uma trama cuja primeira referência – ou pelo menos a mais óbvia – é o cinema de Martin Scorsese dos anos 70 e 80, mas que, sob o pretexto da leveza, de ser uma “comédia”, não sabe muito bem como se aprofundar nos detalhes da história ou no desenho dos personagens. Temos uma direção que não sabe encontrar um tom certo, o que resulta num filme que é um pouco de tudo e não é muita coisa também. No entanto, há uma excelente reconstituição de época, que recria a era disco sobretudo em figurinos e penteados belíssimos que  deixam o prato mais colorido e perfumado. Não necessariamente saboroso.

O. Russell é um cineasta que transita em gêneros diferentes. Três Reis tinha o ritmo acelerado das deturpações do cinema pós-Quentin Tarantino, Huckabees plagiava a melancolia de um Wes Anderson, mas sem muito talento, O Vencedor, seu melhor filme, retomava um melodrama sério que fazia/faz falta no cinema americano. A história nos apresentou muitos bons diretores que pularam de gênero em gênero (Stanley Kubrick, George Stevens, Robert Wise), mas todos eles, os bons diretores, tinham uma espécie de marca em seu cinema, quando não uma assinatura. Trapaça parece sofrer justamente da falta de coesão do cinema de O. Russell. Este novo longa não dialoga com o que o diretor fez antes. E, sem encontrar uma unidade com sua obra, o filme segue desgovernado, mirando em coisas diferentes, sem desenvolver nenhuma delas, se escondendo na quantidade e não na qualidade de seus atores.

Tudo é muito simpático no filme e seu grande mérito é evocar uma época e um universo fascinantes. A embalagem visual e sonora tenta laçar o espectador, mas falta substância a esse passeio que O. Russell propõe. Christian Bale e Amy Adams são os melhores no filme, mas não há grande cenas para que eles encorpem seus personagens, enquanto Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, ela melhor do que ele, reprisam maneirismos de suas interpretações anteriores. Ambos estavam bem muito bem no trabalho anterior do cineasta, O Lado Bom da Vida, única interpretação decente de Cooper. Já Jeremy Renner vai de lá pra cá e fica na coluna do meio mesmo. E a grande questão dos atores parece ser a grande questão do filme: Trapaça tinha chance de acertar em todos os aspectos, se lança inicialmente de maneira interessante para todos os lados, mas não realiza nada. A superficialidade incomoda mesmo num filme sem grandes intenções.

Trapaça EstrelinhaEstrelinha
[American Hustle, David O. Russell, 2013]

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Jogos Vorazes: Em Chamas

Jogos Vorazes: Em Chamas

Trocar de comando é sempre arriscado, seja no mundo dos negócios, seja no cinema – lembrando que, muitas vezes, esses dois campos são sinônimos. Ainda mais quando se está falando de uma franquia direcionada ao público adolescente, baseada numa coleção de best-sellers e cujo primeiro capítulo de sua versão cinematográfica fez um inesperado sucesso. Mesmo com tantos prós, Gary Ross não retornou à cadeira de diretor em Jogos Vorazes: Em Chamas. E por decisão dele mesmo. Os motivos que o fizeram declinar do convite pouco importam. O fato é que seu substituto, Francis Lawrence, fez muito melhor.

Na visão do novo diretor, o filme anterior cumpriu seu papel de introduzir o espectador àquele universo e isso é o suficiente. Em Chamas não tem nenhuma preocupação em contextualizar os personagens para quem não assistiu ao primeiro capítulo desta história, é um filme que se assume como sequência do começo ao fim. A decisão tem algo de surpreendente porque os grandes estúdios têm mania de tratar os espectadores com fraldas e chupetas, o que gera sequências desnecessárias e repetitivas e infla os filmes. Lawrence, sem qualquer pudor, faz a história correr e, em outra opção arriscada, coloca a ação em segundo plano.

Em sua essência, este novo longa é um filme político. Lawrence descreve com detalhes a transformação de Katniss Everdeen depois da vitória nos jogos. Gasta sequências inteiras para mostrar como a protagonista se acomodou em sua natureza inquieta, como ela parece disposta a aceitar o papel que lhe é imposto e como passa a perceber que não está sozinha. Jennifer Lawrence, pós-Oscar, ganha mais espaço para desenvolver a personagem e suas relações com o namorado Gale e o parceiro Peeta. O foco do diretor é nos bastidores e mecanismos da sociedade distópica em que a história acontece. Katniss é jogada nas engrenagens do sistema e colocada à prova.

Os novos jogos só entram em cena depois de uma hora e meia de filme. E, numa terceira decisão polêmica, Francis Lawrence não se interessa muito em mostrar as mortes dos participantes, o que o primeiro filme tinha de sobra e que costuma atender às expectativas de um público adolescente ávido por ação. Embora esta opção sacrifique alguns personagens – como Mags, que poderia ganhar mais tempo de filme e ser melhor desenvolvida – parece atender aos planos do diretor que se dedica a traduzir o crescente clima de insurreição em Panem.

De forma discreta, o filme ganha um tom épico que não esquece sua natureza de espetáculo, mas procura dar credibilidade a sua discussão sobre os excessos do poder. Ciente de suas obrigações para com os dois lados, Lawrence nos entrega um delicioso filme pop com 134 minutos de pouca ação e muita insinuação que fizeram uma sala de cinema vibrar em pleno início de feriadão. Poucas vezes, nos últimos tempos, Hollywood traduziu tão bem o “pão e circo”. E sem concessões.

Jogos Vorazes: Em Chamas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Hunger Games: Catching Fire, Francis Lawrence, 2013]

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Trailer: American Hustle

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Trailer: Jogos Vorazes – Em Chamas

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Oscar 2013: a Academia dá a cara a tapa

Oscar 2013

A vitória de Argo encerrou um ano nunca visto na história daquela Academia. Foi a primeira vez que um filme chegou à reta final da temporada de prêmios de cinema na condição de favorito absoluto sem ter o diretor indicado. Muito se fala em Conduzindo Miss Daisy, mas aquela foi uma vitória surpresa. Essa foi bem fácil de prever. O filme de Ben Affleck ganhou todos os prêmios que poderia na estrada de tijolos amarelos que leva ao palco do – agora – Dolby Theater. Venceu o Globo de Ouro, o Critics Choice, os prêmios dos sindicatos de Atores, Diretores, Roteiristas, Produtores e Montadores e o BAFTA. Foi difícil para a Academia ignorar tanta unanimidade. A escolha de Argo foi uma rendição ao filme que a temporada elegeu como o melhor, o que mostra que a Academia está mais generosa – ou menos arrogante – em relação ao mercado de cinema. Por mercado, entenda-se indústria mais mídia.

Não entro no mérito de merecimento. Argo é um bom filme, muito bom talvez, mas talvez não fosse o melhor do ano. Por sinal, embora na disputa houvesse bons filmes, muito bons talvez, alguns dos melhores do ano ficaram de fora da lista de indicados, como o ótimo O Mestre, de Paul Thomas Anderson. O que estava em questão era coerência. O Oscar é um prêmio da indústria de cinema. Caso premiasse outro filme, a Academia assinaria um atestado de desconexão com o mundo que ela representa. Se o Oscar tivesse uma história de independência em relação aos eleitos dos sindicatos e aos prêmios do críticos, escolher Lincoln, As Aventuras de Pi ou O Lado Bom da Vida seria uma decisão mais simples, mas a trajetória da Academia, sobretudo nos últimos 50 anos, é de de, em grande parte das vezes, reprodução dos resultados divulgados antes do Oscar e que, curiosamente, surgiram por causa do Oscar. O Oscar inspirou a criação de prêmios para copiá-los.

Natural. Enquanto os críticos ganham para ver filmes, apontar tendências, reconhecer talentos, quem vota na Academia é pago para fazer filmes. Não precisa ir ao cinema, nem ser cinéfilo, e talvez só assista um filme quando for levar os filhos para ver a última animação da Pixar – o que explica a vitória de Valente? – ou o blockbuster da vez. Quem vota no Oscar prefere atores mais famosos porque tem preguiça de descobrir outros talentos. Quem vota no Oscar precisa de ajuda para fechar uma cédula e apontar cinco grandes atores coadjuvantes ou cinco grandes edições de som. Essa ajuda vem dos prêmios dos críticos, que por sua vez influenciam os prêmios dos sindicatos, e dessa simbiose nascem os favoritos. Se essa relação é tão íntima, por que a Academia deveria ignorar seus “fornecedores”? A antecipação da votação e do anúncio dos indicados, de certa forma, deu uma independência inédita ao Oscar, mas os membros da academia provaram que não se viram muito bem sozinhos.

E assim a Academia escolheu Argo, um filme com tema relevante, baseado numa história real extremamente hollywoodiana, bem dirigido, escrito, interpretado, competente em todos os aspectos técnicos. Um filme que a Academia supostamente já premiaria mesmo que fosse apenas julgar seus méritos. Então, por que diabos não indicaram Ben Affleck? Não existe explicação. Há quem acredite que muita gente achou que o cineasta já seria indicado e resolveu escolher outros nomes, mas talvez seja mais justo apostar que eles se atrapalharam mesmo. Argo foi o primeiro favorito. Ignorá-lo numa categoria tão importante foi muito estranho. O transtorno causado pela esnobada ao diretor foi desnecessário porque seu perfil já tornava o filme extremamente premiável, mas, sem Affleck na disputa, a Academia teve que dar um volta para explicar que o escolheria de qualquer maneira. E chegamos à situação incômoda de que o melhor filme do ano não tem seu principal responsável ao menos indicado.

Os membros da Academia ficaram numa sinuca: ou assumiam que “erraram” e votavam em Argo para melhor filme do mesmo jeito ou criavam num novo favorito, o que era complicado porque Lincoln, a aposta mais imediata não tinha ganho um só grande prêmio neste ano. E, como sabemos, a Academia sempre teve uma certa resistência a Steven Spielberg, somente cedendo a seus encantos quando não teve jeito (A Lista de Schindler) e evitando uma segunda vitória de um filme seu. O filme de Affleck ganhou e, talvez para dar estofo a sua escolha, também foi eleito como melhor roteiro adaptado e melhor montagem, este bastante merecido. Por conta desta necessidade de consolidar Argo, Lincoln talvez tenha perdido a força e, desta forma, o Oscar de roteiro, em que dividia o favoritismo. Mas o mais impressionante – e a maior surpresa desta edição do Oscar – foi a Academia sacrificar Steven Spielberg na direção, uma escolha quase certa, em prol de Ang Lee e seus As Aventuras de Pi.

Embora Lee tenha sido o único diretor a ser indicado ao Globo de Ouro, Critics Choice, DGA e Oscar, não tinha prêmios que embasavam sua candidatura. Sua vitória parece uma combinação de três coisas: é um filme consolidado, indicado em 11 categorias; é um filme popular, fácil de ser gostado, e cheio de méritos técnicos; e não deixaria Lincoln crescer ao ponto de ameaçar tirar o Oscar de Argo. Parece maluco, mas eu acho que Ang Lee só ganhou seu segundo Oscar por causa do filme de Ben Affleck. Pela lógica da Academia, Ben deveria ser o melhor diretor, mas como ele não concorria, a Academia rejeitou a ideia de laurear seu principal adversário na categoria de direção e a vitória em melhor filme se tornou mais confortável. O filme de Lee ganhou nos quesitos em que era favorito (trilha, fotografia e efeitos visuais), o que também ajuda a justificar sua vitória como diretor. O filme de Spielberg, que era meu preferido, ficou com surpreendente prêmio pelo desenho de produção e com a óbvia – e merecida – estatueta de melhor ator para Daniel Day-Lewis.

A vitória de Jennifer Lawrence por O Lado Bom da Vida me lembrou muito da de Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado. Não porque ela tirou o Oscar de Emmanuelle Riva por Amor, melhor filme estrangeiro, como Gwyneth tinha tirado o de Fernanda Montenegro por Central do Brasil, até porque eu acho que Jennifer era a melhor atriz do ano mesmo, enquanto Gwyneth, que é uma boa atriz, se beneficiou unicamente da campanha dos Weinstein. Mas mais por causa das indignações que esse prêmio causou. Anne Hathaway, cumprindo os prognósticos, ganhou como atriz coadjuvante por Os Miseráveis (também escolhido em mixagem de som e maquiagem), um Oscar que celebra uma estrela em ascensão, mas que encontraria uma vencedora mais merecedora em pelos menos três candidatas, sobretudo Helen Hunt em As Sessões. Embora tivesse ganho o Globo de Ouro e o BAFTA, a vitória de um emocionado Christoph Waltz por Django Livre foi surpreendente para mim. Ganhou dois Oscars fazendo um alemão um filme do mesmo diretor, com apenas 4 anos de diferença. Ajudou a celebrar o filme de Quentin Tarantino, que ainda ganhou como roteiro original (discurso melhor do que o roteiro, por sinal), e reconheceu uma ótima interpretação, apesar de eu preferir Tommy Lee Jones e Philip Seymour Hoffman.

Searching for Sugar Man foi o melhor documentário numa das melhores notícias da noite. Os figurinos de Anna Karenina ganharam um merecido reconhecimento, mas o belo filme de Joe Wright merecia muito mais. A Hora Mais Escura, que ganhou prêmios importantes no começo da corrida ao Oscar, se viu eclipsado pela polêmica da tortura e da conivência de Barack Obama num possível vazamento de informações, e ficou apenas com o prêmio de edição de som, além de protagonizar um dos episódios mais surpreendentes desta edição: um empate com 007 – Operação Skyfall. Se eu não estou enganado, um empate não acontecia desde 1969, quando Barbra Streisand, que cantou no In Memoriam, e Katharine Hepburn dividiram o Oscar de melhor atriz. O filme ganhou ainda pela belíssima “Skyfall”, escrita e interpretada por Adele, e os 50 anos de James Bond receberam uma homenagem especial, com Shirley Bassey cantando “Goldfinger”. Foi um dos poucos bons momentos musicais da noite. E eles foram tantos… Num ano em que o Oscar resolveu celebrar a música no cinema, duas das candidatas a melhor canção ganharam clipes em vez de performances ao vivo. E uma delas é cantada por Scarlett Johansson!

Os produtores da festa, produtores também de Chicago, acharam adequado homenagear os dez anos da vitória de seu filme no Oscar. Ou seja, se auto-homenagearam. Precisava desta masturbação? Que filme foi lembrado no Oscar dez anos depois? Junto com um número inteiro retirado do filme, vieram outras homenagens, ao fraquíssimo Dreamgirls e, numa das escolhas mais esdrúxulas da noite, a Os Miseráveis, um dos candidatos desta edição. O filme de Tom Hooper ganhou um pout-pourri com vários de seus momentos musicais cantados por todo o elenco – Helena Bonham-Carter em especial bem pouco à vontade -, ajudando a deixar a festa com o espírito do filme: longa, chata e burocrática. Seth Macfarlane, embora tivesse seus momentos (como a introdução de Meryl Streep, a brincadeira com Sally Field ou a aparição do ursinho Ted), foi um apresentador bem sem graça. Fez uma piada a la Rafinha Bastos sobre Abraham Lincoln e deve ter fechado algumas portas em Hollywood. Duvido que volte ao Oscar. A festa cansativa – alguém me explica Michelle Obama? – só não foi pior porque o pedido de desculpas a Ben Affleck ajudou a deixar a espera mais interessante e a mostrar que a Academia não quer confusão com ninguém – a não ser que seu nome seja Steven Spielberg.

Os vencedores

Filme – Argo, Ben Affleck
Direção – Ang Lee, As Aventuras de Pi
Ator – Daniel Day-Lewis, Lincoln
Atriz – Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Ator coadjuvante – Christoph Waltz, Django Livre
Atriz coadjuvante – Anne Hathaway, Os Miseráveis
Roteiro original – Django Livre, Quentin Tarantino
Roteiro adaptado – Argo, Chris Terrio
Filme estrangeiro – Amor (Áustria), Michael Haneke
Filme de animação – Valente, Mark Andrews & Brenda Chapman
Fotografia – As Aventuras de Pi, Claudio Miranda
Montagem – Argo, William Goldenberg
Direção de arte – Lincoln, Rick Carter; Jim Erickson, Peter T. Frank
Figurinos – Anna Karenina, Jacqueline Durran
Maquiagem – Os Miseráveis
Trilha sonora – As Aventuras de Pi, Mychael Danna
Canção – “Skyfall” (Adele & Paul Epworth), 007 – Operação Skyfall
Mixagem de som – Os Miseráveis, Andy Nelson, Mark Paterson & Simon Hayes
Edição de som – 007 – Operação Skyfall, Per Hallberg & Karen Baker Landers, e A Hora Mais Escura, Paul N.J. Ottosson
Efeitos visuais – As Aventuras de Pi, Bill Westenhofer, Guillaume Rocheron, Erik-Jan De Boer & Donald R. Elliott
Documentário – Searching for Sugar Man, Malik Bendjelloul
Curta Documentário – Inocente, Sean Fine & Andrea Nix Fine
Curta de Ação – Curfew, Shawn Christensen
Curta de Animação – Paperman, John Kahrs

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Oscar 2013: atriz

Atrizes

Emmanuelle Riva, Amor
Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Jessica Chastain, A Hora Mais Escura
Naomi Watts, O Impossível
Quvenzhané Wallis, Indomável Sonhadora

Emmanuelle Riva completa 86 anos no dia da entrega do Oscar. É a mais velha candidata a melhor atriz na história do prêmio. Sua personagem em Amor, de Michael Haneke, comove com apenas um olhar. A atriz foi a protagonista de Hiroshima, Meu Amor, clássico de Alain Resnais, o que garante a sua candidatura um peso extra nessa disputa. A Academia pode ver numa premiação a Emmanuelle, além do mérito por sua interpretação, um prêmio também pelo conjunto da obra, o que aconteceu muitas vezes na história do Oscar. Contra a atriz, o fato de estrelar um filme em francês. Ela seria apenas a terceira na categoria a ganhar o Oscar sem falar inglês. Emmanuelle ganhou o BAFTA, mas não foi indicada nem para o Globo de Ouro, nem pro SAG. Mas será que isso é páreo para uma velhinha tão encantadora?

Se a Academia achar que a homenagem a Emmanuelle Riva fica na indicação, é bem provável que Jennifer Lawrence ganhe o Oscar por O Lado Bom da Vida. Ela já tem um Globo de Ouro de melhor atriz em comédia e o SAG, além de ser uma atriz em ascenção, um dos talentos mais sob os holofotes em Hollywood. Seria, além de um reconhecimento por um belo trabalho, um prêmio para a indústria de hoje (combinaria bem com uma vitória de Argo em melhor filme, por exemplo). Jennifer já teve uma indicação ao Oscar, o que garante uma “trajetória” e pode deixar os votantes que a consideram jovem demais numa posição mais confortável para premiá-la. Além de tudo, seu filme recebeu muitos elogios, deverá ser um dos lembrados na noite de domingo.

Jessica Chastain, embora tenha ganho o Globo de Ouro de atriz dramática, mais “nobre” na corrida pelo Oscar, deve se prejudicar com a polêmica em relação a A Hora Mais Escura, que provavelmente foi a responsável pela não-indicação da diretora Kathryn Bigelow e limitou as chances do filme em outras categorias. Caso contrário, Jessica, uma atriz jovem com cara de madura, candidata à nova Meryl Streep, já indicada ao Oscar e presente em um punhado de filmes marcantes, seria a favorita. Mas o resultado do SAG também já indica que os atores não acham que sua performance têm vida própria além-filme nesta temporada de prêmios. Ela ainda vai ganhar um Oscar, mas não deverá ser desta vez.

Quvenzhané Wallis é mais um capítulo na tradição da Academia de celebrar pequenos prodígios (Justin Henry, Keisha Castle-Hughes, Mary Badham), mas a história já provou que eles quase nunca passam da indicação (Anna Paquin, Tatum O’Neal). Ainda mais na categoria de protagonista. O belo trabalho da menina em Indomável Sonhadora deve pavimentar uma futura carreira para ela, mas teria que haver um cataclisma para ela ganhar o Oscar. Já Naomi Watts, atriz madura, respeitada e já indicada, embora assuma um papel bem nos padrões oscarizáveis tem tão poucas chances quanto Quvenzhané. Além de O Impossível ser um filme de produção espanhola, ele não emplacou nas bilheterias americanas – injustamente – e sua performance não tem grande apoio de prêmios anteriores.

Parece que neste ano, a disputa mesmo será entre a veterana estrangeira e a nova queridinha de Hollywood.

Quem ganha: Emmanuelle Riva, Amor
Quem ameaça: Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Quem merece: Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Quem faltou na lista: Michelle Williams, Entre o Amor e a Paixão

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O Lado Bom da Vida

O Lado Bom da Vida

O trabalho em O Vencedor promoveu uma guinada na trajetória de David O. Russell. O filme sobre um lutador de boxe que tenta recuperar sua carreira levou o diretor para um modelo de cinema mais tradicional, bem diferente de seus primeiros longas, que apostavam em variações de fórmulas e vícios indie. O resultado excepcional remete a alguns dos grandes melodramas americanos. Em O Lado Bom da Vida, o cineasta tenta algo parecido. A estrutura e o desfecho do filme são de comédia romântica, outro gênero estabelecido, com regras próprias, mas que, nas mãos de O. Russell, desta vez se transforma, com personagens mentalmente desequilibrados sempre no modo bomba relógio.

Boa parte do mérito do filme, baseado no livro de Matthew Quick, se deve aos desempenhos do casal principal. Bradley Cooper, astro de Se Beber Não Case e de um punhado de filmes de riso fácil, revela um talento inesperado. Nos primeiros 20 ou 30 minutos de longa, Cooper estrela uma série de cenas em que a instabilidade emocional do personagem trafega da confusão à loucura até chegar num momento de violência física fortíssimo em que o ator impressiona pela segurança e naturalidade, monopolizando as atenções mesmo contracenando com o veterano Robert De Niro, num papel que devia há tempos. O protagonista de O Lado Bom da Vida é um homem quimicamente incapaz de se controlar.

Essa “abertura prolongada” do filme já informa ao espectador que os personagens do filme são bem mais complexos do que em outras comédias românticas.

A estrela de Cooper só empresta o brilho quando Jennifer Lawrence entra em cena. O filme literalmente muda de dono. Jennifer domina cada segundo em que aparece na tela, com sua perfomance agressiva para uma mulher com tendências ninfomaníacas que perdeu o marido de maneira abrupta. A mulher engole cada cena. O choque entre os dois é inevitável e das faíscas entre os personagens surge uma química poderosa entre os atores. Como nas melhores comédias românticas, o espectador torce pelo casal. Um casal falho, problemático, improvável. O. Russell segue as regras do gênero de maneira tortuosa, mas nunca se afasta dos elementos fundamentais deste tipo de filme.

A verborragia do longa ajuda a ilustrar o caos em que vivem os personagens. Caos que une e faz com que eles se identifiquem, se apaixonem, enxerguem um no outro uma possibilidade de sossego. O diretor acompanha essa jornada com um roteiro que usa o humor na medida exata para um filme com um tema delicado. O Lado Bom da Vida trafega com naturalidade por esse terreno, retrabalhando estereótipos, remodelando fórmulas, oferecendo um algo mais que faz com que uma discussão na porta do cinema ou chegar ao fim de um livro ganhem contornos tão incertos quanto as perspectivas de alguém que resolveu recomeçar a vida.

O Lado Bom da Vida EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Silver Linings Playbook, David O. Russell, 2012]

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X-Men: Primeira Classe

Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, January Jones, James McAvoy

A relação entre X-Men: Primeira Classe e o restante dos filmes sobre os mutantes da Marvel ainda é um mistério. Ao mesmo tempo em que parece criar uma nova linha temporal para a cronologia X nos cinemas, o filme faz referência aos outros longas, inclusive com duas participações especiais que podem indicar que a cronologia será a mesma. Independentemente de sua natureza, o filme é a melhor coisa que poderia ter acontecido à série depois de dois desastres.

O longa apresenta a origem do grupo de mutantes, tomando total liberdade em onde, como e com quem tudo começou nos quadrinhos. Mas todas as transformações, inclusive no perfil dos personagens, parecem bastante seguras e funcionais. O objetivo é nobre: revitalizar os X-Men no cinema, costurando sua história à própria história do mundo. Matthew Vaughn acertou no alvo mesmo com tantas máculas à database tão bem guardada na memória pelos fanboys.

Isso me remete ao 2000. Enquanto metade do planeta se desmanchava em elogios ao primeiro filme dos X-Men, eu só fazia reclamar. O longa de Bryan Singer era cinema de aventura bom, o texto estava acima da média e Hugh Jackman, Anna Paquin, Ian McKellen e Patrick Stewart defenderam muito bem seus personagens. Mas, putz, eu tinha esperado tanto tempo para ver as origens de meus heróis favoritos transformadas?

Pois bem, enquanto todo mundo amava X-Men, eu era um fã decepcionado.

As coisas mudaram radicalmente quando X-Men 2 estreou. Além de aumentar o leque de personagens, o filme, uma versão não-oficial da graphic novel Deus Ama, o Homem Mata, era impecável. O texto dava tratava de preconceito e aceitação com uma inteligência até então inédita num longa com super-heróis. O filme foi um dos meus favoritos me 2003. E, graças a ele, resolvi reconsiderar o que pensava sobre o primeiro.

Seria impossível estrear a série respeitando a cronologia. Eram quase 40 anos de HQs e, para ficar num só exemplo, como começar a história dos X-Men no cinema abrindo mão de Wolverine, um dos heróis mais populares de todos os tempos? Hoje, dois filmes ruins depois (O Confronto Final e Wolverine), X-Men: Primeira Classe vem refundar a franquia. Mudando tudo. Mas, desta vez, eu deixo.

Matthew Vaughn, que deveria ter dirigido o terceiro filme, mas desistiu por causa do pouco tempo que teria para entregá-lo, assumiu essa retomada da série e conseguiu entregar um longa que, mesmo com alguns tropeços, consegue revitalizar a história dos heróis com a consistência que faltou aos dois filmes anteriores. A reintrodução dos personagens fere a cronologia, mas funciona perfeitamente para a história. A costura com a Guerra Fria, muito bem resolvida, catapulta discussões.

O roteiro cria cenas belíssimas, como o primeiro encontro entre Charles Xavier e Mística, e acerta em cheio em toda a sequência da praia, que reafirma o dilema dos mutantes e serve de prólogo para uma nova série longeva, cheia de possibilidades. Há momentos tolos, como a conversa entre Mística e o Fera, antes da cena do soro, onde o texto didático carece do refinamento que vimos em X-Men 2, mas nada chega a comprometer a harmonia do filme.

O elenco é acertadíssimo. Michael Fassbender está excepcional como Magneto. Finalmente um grande papel para ele em Hollywood. James McAvoy está tão bom quanto como o Professor X, mas como faz o bonzinho vai sempre ficar à sombra. Jennifer Lawrence e Kevin Bacon também se destacam e a falta de expressão de January Jones, quem diria?, funciona perfeitamente para o papel de Emma Frost.

Agora resta esperar o próximo passo na história dos mutantes no cinema. Matthew Vaughn diz que aceitaria dirigir uma continuação. Eu, mesmo que este filme esteja longe de ser perfeito, voto nele.

X-Men: Primeira Classe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[X-Men: First Class, 2011, Matthew Vaughn]

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Inverno da Alma

Inverno da Alma

Num ano em que boa parte dos filmes de destaque levam seus protagonistas para descidas sem escalas ao inferno, Inverno da Alma é aquele que se dá melhor. Debra Granik faz uma investigação dos acordos escusos que existem no coração da América e termina traçando um perfil da maldade presente no homem comum. Algumas vezes, a história do filme ganha semelhanças com as daquelas seitas secretas que promovem rituais macabros. A diretora faz questão de impregnar seu longa com esse clima de filme de terror. Passa do ponto em alguns momentos, como na sequência do barco, mas no geral consegue retratar bem o isolamento, as regras próprias e as conivências de comunidades fechadas. A quase estreante Jennifer Lawrence, no entanto, é seu maior acerto. A interpretação da garota impressiona por sua pouca experiência e pela complexidade de sua personagem. Ela sabe domar a tendência natural de seu papel ao overacting e humanizá-lo sem perder seu impacto. Talvez seja a melhor atriz na disputa do Oscar neste ano.

Inverno da Alma EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Winter's Bone, Debra Granik, 2010]

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