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Logan

Logan

As primeiras imagens de Logan poderiam estar em qualquer um daqueles filmes baratos em que postos de gasolina no meio do deserto estão entre os cenários preferidos. É a América profunda, aquela que esconde criaturas estranhas como as que povoam o primeiro longa de James Mangold, Paixão Muda, rodado há mais de vinte anos, e para a qual ele só volta bem acompanhado, seja por Johnny Cash, por personagens de um western antigo ou por Wolverine. Em suas primeiras cenas, a fotografia do filme, quase sem tratamento, busca ao mesmo tempo o tom rústico que Mangold impõe ao longa e o isolamento que o protagonista impõe a si mesmo e aos poucos que restam perto dele.

Um ponto de partida digno para um filme sobre os últimos passos de um homem como o personagem que ele carrega há quase duas décadas. Interpretando um herói finalmente vencido pelo tempo, com um décimo dos poderes e do vigor que o mantiveram vivo por muito mais do que qualquer um de seus pares, contaminado por sua própria condição, Wolverine vive recluso com um Professor Xavier nonagenário num mundo onde já não há mais mutantes, mas a perseguição continua. Mangold filma a decadência do personagem com um olhar duro e desesperançoso de uma balada country sobre um homem que está cansado do mundo e da solidão. Sobre seus ombros pesam as últimas responsabilidades, das quais ele não é capaz de abdicar. É o que ele enxerga como seu destino e sua punição.

O momento de introspecção do personagem foi a deixa perfeita para que Mangold se voltasse por completo para esse cenário que ele tanto examinou e para seu próprio arsenal de referências. Hugh Jackman ganhou certa liberdade para fazer sua despedida da série e chegou com a ideia de um filme que misturasse Os Imperdoáveis, O Lutador e Os Brutos Também Amam. Do primeiro, o diretor tirou um protagonista herdeiro dos personagens de Clint Eastwood, com um código moral rígido, mas moldado à base da violência; do segundo, um homem consciente de sua idade e de sua condição; do terceiro, citado literalmente, alguém que encontra um herdeiro, uma maneira de continuar.

É a entrada desta nova personagem em cena que transforma, aos poucos, o protagonista e o próprio filme. Mangold passa a permitir um maior cuidado com a estética das cenas à medida que Wolverine passa a se enxergar com uma nova missão. Hugh Jackman nunca esteve tão bem no papel e talvez em toda sua carreira como ator e sua interação com Patrick Stewart, que nunca foi tão intensa, e com a novata Dafne Keen, um achado, só ajudam reconhecer o talento do homem. Embora não esqueça o humor e a ironia, Mangold se concentra nas cenas dramáticas e em construir uma homenagem definitiva à mitologia do personagem, que embora seja canadense, é a reciclagem de muitos heróis americanos, de muitos Clint Eastwoods. Encontrar sua sensibilidade é para poucos e, em Logan, James Mangold só acertou no alvo.

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[Logan, James Mangold, 2017]

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Wolverine Imortal

Wolverine Imortal

A melhor notícia sobre Wolverine Imortal é que, diante da primeira aventura solo do x-man, esse novo longa não tinha como não ser melhor. Mas o filme vai além disso: James Mangold realmente consegue entregar um trabalho decente, que tenta reinventar o personagem enquanto lobo solitário, embora tenha tomado muitas liberdades em relação aos acontecimentos nas HQs. Os fãs de quadrinhos já devem estar vacinados para assimilar as transformações porque passam personagens e arcos de histórias nos cinemas e o novo longa do mutante canadense não poupa perfis, identidades e fatos da saga de Wolverine no Japão, em que o filme é baseado.

Mas quem deve mais sofrer com isso é o fã radical já que as novas amarrações do roteiro, assinado pelos ótimos Scott Frank e Christopher McQuarrie, são bastante sólidas e conseguem dar algum refresh no personagem, já desgastado em quatro filmes (cinco se contarmos com a ponta em X-Men: Primeira Classe). Mangold, que há alguns anos deu roupa nova a um western clássico em Os Indomáveis, também fez um trabalho correto aqui: se a história não é tão fiel às HQs, o espírito do personagem e a paleta de cores da série, mais sombria, se mantêm preservados, mesmo diante de uma vilã kitsch com Madame Hidra.

O filme, no entento, ainda é tímido no desenvolvimento do personagem. Ele aponta para o lado certo, mas fica na superfície boa parte do tempo. Mas ganha pontos por guardar espaço para cenas que homenageiam o cinema japonês, com ninjas, yakuzas e até robôs gigantes. Há várias sequências de luta, algumas deliciosas, onde os atores podem demonstrar como foram bem coreografados, com destaque para a Yukio, de Rila Fukushima, personagem completamente transfigurada pelo roteiro, o que diminuiu seu impacto, mas que encontrou uma reinterpretação interessante. A melhor cena de ação do longa, no entanto, é estrelada mesmo por Hugh Jackman no topo de um trem bala, cheia daquelas mentiras que todo mundo adora assistir.

Mangold não poupa Mariko Yoshida nem o Samurai de Prata em sua reinvenção da saga, mas ambas as mudanças oferecem novas perspectivas para os personagens e reforçam um olhar do diretor sobre o Japão. Wolverine Imortal não usa o país apenas como cenário, mas se aproveita da combinação única entre o novo e o antigo, o tecnológico e o tradicional, como ambiente para que os conflitos internos do personagem ganhem tradução. Funciona, mas sem mergulho. Com um pouco de boa vontade, dá até para perdoar o excesso de participações de Famke Janssen no filme. Jean Grey não é apenas um amor do qual Logan não consegue se livrar. Ela catalisa a mutação secundária pelo qual nosso herói precisa passar.

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[The Wolverine, James Mangold, 2013]

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Johnny & June

Vamos dizer que eu esteja realmente cansado destas biografias de astros da música pop (e aqui entenda-se pop no sentido global) que, para parecerem francas e verdadeiras, se limitam a mostrar as tragédias particulares de seus protagonistas envolvendo drogas e escândalo. A música, justamente o que deveria ser o carro-chefe de um filme como Johnny & June tem função meramente ilustrativa. Como o meia-boca Ray, do qual é um primo-irmão, o filme de James Mangold é careta e extremamente burocrático.

Não digo que é de todo mal ver cenas com encontros de Cash com Jerry Lee Lewis, Waylon Jennings, Roy Orbison ou The Pelvis, mas o onde está Wally? para achar os cantores famosos não é suficiente para dar consistência ao longa, que delimita a trajetória de Cash pelo lado menos interessante, o do cotidiano familiar. O recorte na conquista romântica que levou anos foi um golpe para atingir um público que quer a “historinha”. Ele funciona apenas por méritos dos atores. As interpretações têm belos momentos, embora as molduras impostas pelo roteiro não permitam muito espaço para que a dupla crie. No entanto, Reese Whitterspoon está notável, sobretudo nas primeiras cenas. Já Joaquin Phoenix, embora sempre correto, só consegue estar pleno quando solta a voz. Por sinal, uma bela voz.

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[Walk the Line, James Mangold, 2005]

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