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Jackie

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A música de Mica Levi, indicada ao Oscar neste ano, funciona perfeitamente para estabelecer a atmosfera de filmes estranhos como Sob a Pele. Se, isoladamente, o trabalho da compositora oferece um conjunto de experiências sensoriais para quem ouve, se transformando numa obra particular e cheia de complexidades estruturais e tonais, quando serve como trilha sonora para um filme a música da londrina esbarra nas intenções do projeto.

Em Jackie, Pablo Larraín acerta no recorte, mas, como de praxe, erra no tom. Ao mirar num curto e importante período da história da primeira-dama, evitando o problema da maioria das biografias no cinema: querer dar conta de toda uma história de vida. Assumir um certo retrato controverso da personagem também é um ponto a favor, já que até pelo status de ícone feminino, de moda, de comportamento, Jacqueline Kennedy sempre é vista através de um excesso de filtros positivos e quase nunca é devidamente problematizada.

O grande senão é meio comum a todos os filmes de Larraín, o tom, excessivamente solene, não necessariamente em relação a Jackie, mas à importância do filme, tom construído justamente em cima na trilha tensa de Mica Levi. Nesse momento, de autora original, indeoendente, ousada, Levi assume a condição de subordinada do diretor, ou ainda, de cúmplice num crime hediondo cada vez mais comum no cinema: querer que o filme seja maior do que realmente é. O trabalho continua muito bom, mas é usado de forma equivocada.

No entanto, a maneira como o diretor constrói a história e a maneira como o roteiro aposta num foco específico até justificariam o clima tenso que o chileno, estreando em Hollywood, costura. Ao lado de No, talvez seja um dos trabalhos mais diretos, pontuais e objetivos de Larraín. Mas a economia dramática e a obsessão documental não impediram Natalie Portman de recorrer a uma interpretação reverente, imitando sotaque, pontuações e pronúncias, de forma até irritante em alguns momentos, mas, mesmo assim, a atriz encontra o espaço para criar uma personagem um pouco mais complexa do que a história registrou.

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[Jackie, Pablo Larraín, 2016]

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Grey Gardens

Grey Gardens

Este documentário é um fruto do acaso. Os irmãos Maysles pretendiam rodar um filme sobre a irmã de Jacqueline Kennedy Onassis, quando conheceram a história da tia e da prima da ex-primeira dama. As duas, que já foram frequentadoras da alta sociedade nova-iorquina, moravam à época numa mansão caindo aos pedaços. Mãe e filha estavam falidas, isoladas e viviam de seu passado. Ou das cinzas dele. Esta história ganhou a catapulta de um escândalo: sem limpeza, o lugar começou a feder e incomodar os vizinhos. A prefeitura deu um ultimato para as duas: ou limpam ou saem. A imprensa fez festa e Jackie Kennedy ajudou a dar um tapa no lugar. É aí que entram os Maysles. Quando descobriram a história, desistiram do projeto anterior e embarcaram neste saborosíssimo mundo.

Os irmãos conquistaram a confiança de Big Edie e Little Edie e passaram dias e dias filmando o cotidiano das duas. À mesma medida em que mostravam a decadência da família, acompanharam a degradação psíquica de mãe e filha. O documentário adota uma política pouco intervencionista em relação a seu objeto. A equipe tenta ao máximo não interferir no dia-a-dia das duas e as informações sobre sua história, a não ser por uma breve sequência de recortes de jornais, saem das bocas perturbadas das retratadas. A opção tem duas consequências imediatas: por um lado, as entrevistadas ficam mais livres e tecem sua própria narrativa sobre os 50 anos em que viveram naquela casa e os desdobramentos de suas vidas.

Os Maysles estão entre os principais nomes do cinema direto o movimento que renovou o documentário americano nos anos 60, que prega o máximo de não-intervencionismo no retrato do objeto. As interações dos diretores com suas “atrizes” aparecem pouco no filme em si. As Bouvier Beale são convidadas a costurar sua própria história com suas memórias perturbadas. Contam o que querem contar e percebem claramente quando estão agradando, então, seu mundo paralelo entra em cena deixando completamente incertas as versões dos fatos. O grande diferencial deste filme é que, embora as informações sobre as personagens cheguem parceladas e o raio-x da vida de mãe e filha nunca pareça completo, o grau de intimidade que o espectador atinge com as duas é algo raramente visto num documentário. Aqui a história é menos importante do que a essência.

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[Grey Gardens, Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde, Muffie Meyer, 1975]

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