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Logan

Logan

As primeiras imagens de Logan poderiam estar em qualquer um daqueles filmes baratos em que postos de gasolina no meio do deserto estão entre os cenários preferidos. É a América profunda, aquela que esconde criaturas estranhas como as que povoam o primeiro longa de James Mangold, Paixão Muda, rodado há mais de vinte anos, e para a qual ele só volta bem acompanhado, seja por Johnny Cash, por personagens de um western antigo ou por Wolverine. Em suas primeiras cenas, a fotografia do filme, quase sem tratamento, busca ao mesmo tempo o tom rústico que Mangold impõe ao longa e o isolamento que o protagonista impõe a si mesmo e aos poucos que restam perto dele.

Um ponto de partida digno para um filme sobre os últimos passos de um homem como o personagem que ele carrega há quase duas décadas. Interpretando um herói finalmente vencido pelo tempo, com um décimo dos poderes e do vigor que o mantiveram vivo por muito mais do que qualquer um de seus pares, contaminado por sua própria condição, Wolverine vive recluso com um Professor Xavier nonagenário num mundo onde já não há mais mutantes, mas a perseguição continua. Mangold filma a decadência do personagem com um olhar duro e desesperançoso de uma balada country sobre um homem que está cansado do mundo e da solidão. Sobre seus ombros pesam as últimas responsabilidades, das quais ele não é capaz de abdicar. É o que ele enxerga como seu destino e sua punição.

O momento de introspecção do personagem foi a deixa perfeita para que Mangold se voltasse por completo para esse cenário que ele tanto examinou e para seu próprio arsenal de referências. Hugh Jackman ganhou certa liberdade para fazer sua despedida da série e chegou com a ideia de um filme que misturasse Os Imperdoáveis, O Lutador e Os Brutos Também Amam. Do primeiro, o diretor tirou um protagonista herdeiro dos personagens de Clint Eastwood, com um código moral rígido, mas moldado à base da violência; do segundo, um homem consciente de sua idade e de sua condição; do terceiro, citado literalmente, alguém que encontra um herdeiro, uma maneira de continuar.

É a entrada desta nova personagem em cena que transforma, aos poucos, o protagonista e o próprio filme. Mangold passa a permitir um maior cuidado com a estética das cenas à medida que Wolverine passa a se enxergar com uma nova missão. Hugh Jackman nunca esteve tão bem no papel e talvez em toda sua carreira como ator e sua interação com Patrick Stewart, que nunca foi tão intensa, e com a novata Dafne Keen, um achado, só ajudam reconhecer o talento do homem. Embora não esqueça o humor e a ironia, Mangold se concentra nas cenas dramáticas e em construir uma homenagem definitiva à mitologia do personagem, que embora seja canadense, é a reciclagem de muitos heróis americanos, de muitos Clint Eastwoods. Encontrar sua sensibilidade é para poucos e, em Logan, James Mangold só acertou no alvo.

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[Logan, James Mangold, 2017]

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Wolverine Imortal

Wolverine Imortal

A melhor notícia sobre Wolverine Imortal é que, diante da primeira aventura solo do x-man, esse novo longa não tinha como não ser melhor. Mas o filme vai além disso: James Mangold realmente consegue entregar um trabalho decente, que tenta reinventar o personagem enquanto lobo solitário, embora tenha tomado muitas liberdades em relação aos acontecimentos nas HQs. Os fãs de quadrinhos já devem estar vacinados para assimilar as transformações porque passam personagens e arcos de histórias nos cinemas e o novo longa do mutante canadense não poupa perfis, identidades e fatos da saga de Wolverine no Japão, em que o filme é baseado.

Mas quem deve mais sofrer com isso é o fã radical já que as novas amarrações do roteiro, assinado pelos ótimos Scott Frank e Christopher McQuarrie, são bastante sólidas e conseguem dar algum refresh no personagem, já desgastado em quatro filmes (cinco se contarmos com a ponta em X-Men: Primeira Classe). Mangold, que há alguns anos deu roupa nova a um western clássico em Os Indomáveis, também fez um trabalho correto aqui: se a história não é tão fiel às HQs, o espírito do personagem e a paleta de cores da série, mais sombria, se mantêm preservados, mesmo diante de uma vilã kitsch com Madame Hidra.

O filme, no entento, ainda é tímido no desenvolvimento do personagem. Ele aponta para o lado certo, mas fica na superfície boa parte do tempo. Mas ganha pontos por guardar espaço para cenas que homenageiam o cinema japonês, com ninjas, yakuzas e até robôs gigantes. Há várias sequências de luta, algumas deliciosas, onde os atores podem demonstrar como foram bem coreografados, com destaque para a Yukio, de Rila Fukushima, personagem completamente transfigurada pelo roteiro, o que diminuiu seu impacto, mas que encontrou uma reinterpretação interessante. A melhor cena de ação do longa, no entanto, é estrelada mesmo por Hugh Jackman no topo de um trem bala, cheia daquelas mentiras que todo mundo adora assistir.

Mangold não poupa Mariko Yoshida nem o Samurai de Prata em sua reinvenção da saga, mas ambas as mudanças oferecem novas perspectivas para os personagens e reforçam um olhar do diretor sobre o Japão. Wolverine Imortal não usa o país apenas como cenário, mas se aproveita da combinação única entre o novo e o antigo, o tecnológico e o tradicional, como ambiente para que os conflitos internos do personagem ganhem tradução. Funciona, mas sem mergulho. Com um pouco de boa vontade, dá até para perdoar o excesso de participações de Famke Janssen no filme. Jean Grey não é apenas um amor do qual Logan não consegue se livrar. Ela catalisa a mutação secundária pelo qual nosso herói precisa passar.

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[The Wolverine, James Mangold, 2013]

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Oscar 2013: as canções indicadas

Adele ganhou seu merecido Oscar de melhor canção, interpretando o tema de 007 – Operação Skyfall, e garantindo o melhor número musical de uma noite cheia deles, os números musicais, na maioria muito chatos. Norah Jones ganhou a chance de cantar na festa. Scarlett Johansson, não. Estas foram as candidatas a melhor canção nesta ano.

“Skyfall”, 007 – Operação Skyfall
Autores: Adele & Paul Epworth
Intérprete: Adele

“Before My Time”, Chasing Ice
Autores: J. Ralph
Intérprete: Scarlett Johansson & Joshua Bell

“Everybody’s Need a Friend”, Ted
Autores: Walter Murphy & Seth MacFarlane
Intérprete: Norah Jones

“Pi’s Lullaby”, As Aventuras de Pi
Autores: Mychael Danna & Bombay Jayashri
Intérprete: Bombay Jayashree

“Suddenly”, Os Miseráveis
Autores: Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer & Alain Boublil
Intérprete: Hugh Jackman

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Oscar 2013: ator

Atores

Bradley Cooper, O Lado Bom da Vida
Daniel Day-Lewis, Lincoln
Denzel Washington, O Voo
Hugh Jackman, Os Miseráveis
Joaquin Phoenix, O Mestre

Daniel Day-Lewis vai ganhar seu terceiro Oscar na noite de domingo. Sua belíssima performance em Lincoln parece blindada. O ator ganhou o Globo de Ouro, o SAG, o Critics Choice, o BAFTA, os prêmios dos críticos de Boston, Chicago, Nova York e da National Society of Film Critics. Além disso, interpreta um personagem real, um ícone americano e um dos atores mais respeitados do planeta em Hollywood. Day-Lewis também deve se beneficiar por causa do favoritismo de Argo. Se a Academia, como parece que vai, premiar mesmo o filme de Ben Affleck, a estatueta de ator pode se juntar ao pacote “nós gostamos muito de você, Spielberg” (que deve conter os prêmios de direção e talvez roteiro adaptado e ator coadjuvante).

O até então desacreditado Bradley Cooper conseguiu entrar na lista com o belo desempenho em O Lado Bom da Vida. Num ano sem ex-presidentes interpretados por grandes atores, ele poderia até ameaçar, mas provavelmente a Academia já deve considerar sua indicação como um prêmio e deixar as chances maiores para sua colega Jennifer Lawrence e para o roteiro adaptado. E Denzel Washington poderia ter mais sorte se já não tivesse dois Oscars no currículo. Sua boa performance em O Voo ganhou um certo relevo com a indicação do roteiro do filme, mas o ator não deve ir muito além.

Hugh Jackman esbanja simpatia junto à Academia, mas sua performance em Os Miseráveis não ganhou nenhum apoio de crítica que indique que ele possa surpreender. É sua primeira indicação, o que já é bastante para um ator com estigma de filmes de ação. Apesar de ter conseguido várias indicações, o filme chegou sem muito fôlego à reta final, o que não ajuda muito nas chances de Jackman, que não brilha tanto quanto sua colega Anne Hathaway. Esta sim, a favorita em sua categoria.

Joaquin Phoenix, e sua excelente interpretação em O Mestre, deveria ser o principal adversário de Day-Lewis, mas o filme, que começou a carreira em Veneza como um dos favoritos ao Oscar, ganhou cada vez mais o status de “filme alternativo”, perdendo inclusive uma vaga na categoria principal, que tem 9 indicados. O maior baque na candidatura do ator foi não ter sido indicado ao SAG, que preferiu John Hawkes em As Sessões. O fato de ser finalista ao Oscar, mais parece um prêmio para um ator que já foi indicado duas vezes e pelo qual a Academia tem um certo respeito.

Então, vai lá Daniel.

Quem ganha: Daniel Day-Lewis, Lincoln
Quem ameaça: ninguém.
Quem merece: Daniel Day-Lewis, Lincoln ou Joaquin Phoenix, O Mestre
Quem faltou na lista: Denis Lavant, Holy Motors

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Os Miseráveis

Os Miseráveis

Os grandes elogios à pequena participação de Anne Hathaway em Os Miseráveis são bem mais do que merecidos. A atriz aparece em cerca de 20 minutos do filme, os únicos momentos de respiro que o épico musical de Tom Hooper permite ao espectador. Embora a história de Fantine seja uma história triste e pesada, a performance de Anne – e não apenas seu talento vocal – areja o longa, graças, sobretudo, aos méritos e a luminosidade próprios da atriz. Mesmo que “I Dream a Dream”, seu principal número solo, seja uma música kitsch – não muito diferente do restante da trilha sonora original da obra -, na interpretação de Anne, a canção ganha um peso emocional genuíno.

Pena que Fantine precise sair de cena para que a história do clássico de Victor Hugo continue porque o filme perde muito sem a senhorita Hathaway. O longa é uma adaptação do musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, que transporta a obra original para os palcos. Os Miseráveis, o espetáculo, é um dos mais famosos do gênero, mas se Victor Hugo fez um trabalho universal sobre liberdade, a peça é destinada a agradar um público específico. Perfeito para quem tem disposição para este produto, que certamente tem um espectador fixo; torturante para quem não tem paciência para um musical pasteurizado, com um eterno e desinteressante tom épico.

No conjunto, as músicas do filme (e do espetáculo teatral) são enfadonhas. As canções, no entanto, traduzem fielmente o espírito do filme, que é como um enorme bolo massudo, de difícil digestão. E não se trata de gostar ou não de musicais, mas do tipo de material e do como esse material foi transporto para a tela. A direção de Tom Hooper não é exatamente ruim, mas o academicismo do cineasta o deixa aprisionado a uma fórmula desgastante. Os Miseráveis é quadrado e acomodado. Quando o diretor resolve ousar, ele erra. O que explica que um filme com uma preocupação realista tenha personagens e figurinos como os de Sacha Baron Cohen e Helena Bonham-Carter, ambos vestidos como num filme de Tim Burton? Mas nem dá pra reclamar muito já que eles cantam algumas das músicas mais interessantes do filme.

Hugh Jackman comprova que tem talento para cantar e sua performance no começo do filme é realmente bem boa, mas logo se rende ao clima instalado por Hooper e, assim como Russell Crowe, Amanda Seyfried, Eddie Reymane e “grande elenco”, cai na burocracia. E essa burocracia arrasta o filme até o final. O fato dos atores cantarem “ao vivo” se perde diante dos maneirismos desse filme massudo e interminável. Hooper não conseguiu fugir das armadilhas. Só a direção de arte impressiona. Em alguns momentos. Os Miseráveis sofre pela falta de leveza, pela incacidade de fluidez, pelo ranço. Mas, pesando bem, talvez esta seja a forma exata de se adaptar um material tão maçante como este.

Os Miseráveis EstrelinhaEstrelinha
[Les Misérables, Tom Hooper, 2012]

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X-Men: Primeira Classe

Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, January Jones, James McAvoy

A relação entre X-Men: Primeira Classe e o restante dos filmes sobre os mutantes da Marvel ainda é um mistério. Ao mesmo tempo em que parece criar uma nova linha temporal para a cronologia X nos cinemas, o filme faz referência aos outros longas, inclusive com duas participações especiais que podem indicar que a cronologia será a mesma. Independentemente de sua natureza, o filme é a melhor coisa que poderia ter acontecido à série depois de dois desastres.

O longa apresenta a origem do grupo de mutantes, tomando total liberdade em onde, como e com quem tudo começou nos quadrinhos. Mas todas as transformações, inclusive no perfil dos personagens, parecem bastante seguras e funcionais. O objetivo é nobre: revitalizar os X-Men no cinema, costurando sua história à própria história do mundo. Matthew Vaughn acertou no alvo mesmo com tantas máculas à database tão bem guardada na memória pelos fanboys.

Isso me remete ao 2000. Enquanto metade do planeta se desmanchava em elogios ao primeiro filme dos X-Men, eu só fazia reclamar. O longa de Bryan Singer era cinema de aventura bom, o texto estava acima da média e Hugh Jackman, Anna Paquin, Ian McKellen e Patrick Stewart defenderam muito bem seus personagens. Mas, putz, eu tinha esperado tanto tempo para ver as origens de meus heróis favoritos transformadas?

Pois bem, enquanto todo mundo amava X-Men, eu era um fã decepcionado.

As coisas mudaram radicalmente quando X-Men 2 estreou. Além de aumentar o leque de personagens, o filme, uma versão não-oficial da graphic novel Deus Ama, o Homem Mata, era impecável. O texto dava tratava de preconceito e aceitação com uma inteligência até então inédita num longa com super-heróis. O filme foi um dos meus favoritos me 2003. E, graças a ele, resolvi reconsiderar o que pensava sobre o primeiro.

Seria impossível estrear a série respeitando a cronologia. Eram quase 40 anos de HQs e, para ficar num só exemplo, como começar a história dos X-Men no cinema abrindo mão de Wolverine, um dos heróis mais populares de todos os tempos? Hoje, dois filmes ruins depois (O Confronto Final e Wolverine), X-Men: Primeira Classe vem refundar a franquia. Mudando tudo. Mas, desta vez, eu deixo.

Matthew Vaughn, que deveria ter dirigido o terceiro filme, mas desistiu por causa do pouco tempo que teria para entregá-lo, assumiu essa retomada da série e conseguiu entregar um longa que, mesmo com alguns tropeços, consegue revitalizar a história dos heróis com a consistência que faltou aos dois filmes anteriores. A reintrodução dos personagens fere a cronologia, mas funciona perfeitamente para a história. A costura com a Guerra Fria, muito bem resolvida, catapulta discussões.

O roteiro cria cenas belíssimas, como o primeiro encontro entre Charles Xavier e Mística, e acerta em cheio em toda a sequência da praia, que reafirma o dilema dos mutantes e serve de prólogo para uma nova série longeva, cheia de possibilidades. Há momentos tolos, como a conversa entre Mística e o Fera, antes da cena do soro, onde o texto didático carece do refinamento que vimos em X-Men 2, mas nada chega a comprometer a harmonia do filme.

O elenco é acertadíssimo. Michael Fassbender está excepcional como Magneto. Finalmente um grande papel para ele em Hollywood. James McAvoy está tão bom quanto como o Professor X, mas como faz o bonzinho vai sempre ficar à sombra. Jennifer Lawrence e Kevin Bacon também se destacam e a falta de expressão de January Jones, quem diria?, funciona perfeitamente para o papel de Emma Frost.

Agora resta esperar o próximo passo na história dos mutantes no cinema. Matthew Vaughn diz que aceitaria dirigir uma continuação. Eu, mesmo que este filme esteja longe de ser perfeito, voto nele.

X-Men: Primeira Classe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[X-Men: First Class, 2011, Matthew Vaughn]

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X-Men: O Confronto Final

X-Men: O Confronto Final

Há uma grande diferença entre boas idéias e boas idéias realizadas. O terceiro – e ao que tudo indica, último – filme dos X-Men para o cinema é repleto de idéias, muitas boas, outras nem tanto, mas tem uma grande dificuldade em concretizá-las. Gostaria muito de evitar o papel de viúva de Bryan Singer, mas sua saída da série foi penosa para os filmes dos mutantes. Seria muito melhor, como o próprio Singer sugeriu, esperar o fim de seus compromissos com Superman, o Retorno.

A questão é simples: Singer é um bom diretor; Brett Ratner, seu sucessor, tem boas intenções. Há um abismo entre a qualidade da direção dos dois primeiros filmes em relação a este. Se Singer se preocupava em desenvolver bem as personagens de seu filme, em Ratner sobra a vontade de mostrar um pouquinho de todos. O resultado é exatamente esse: você vê um pouquinho de todas as personagens que interessam ao roteiro na tela. O problema é que parece que quase ninguém interessa de verdade ao roteiro. E Ratner traduz o roteiro à risca.

X-Men: O Confronto Final parece com tudo o que já sabíamos sobre ele. Primeiro, é um filme feito às pressas. Isto está claro em cada cena; todas parecem durar metade do tempo que deveriam durar. Os conflitos (não apenas os físicos) se resolvem muito rapidamente. Segundo, anunciado como último filme da série para o cinema, parece que os produtores quiseram colocar tudo o que podiam na trama para impulsionar os tais filmes-solo das personagens. Então, o problema: tem personagens demais, tem sub-tramas demais.

A Saga da Fênix Negra, a obra-prima de Chris Claremont e John Byrne, o melhor momento dos mutantes nas HQs, é apenas pincelada na história do filme. Não há espaço para desenvolver a Fênix no meio de tantas resoluções. Há algum acerto na apresentação da Jean Grey possuída, mas não há um aproveitamento satisfatório das inúmeras possibilidades da personagem. A mistura da história com o arco da “cura dos mutantes” diluiu quase tudo, inclusive a participação do Ciclope. A sensação mesmo é de não saber muito bem que caminho adotar e seguir pela solução mais fácil.

Os novatos, como o Fera e o Anjo, ambos com soluções visuais bem boas, têm aparições reduzidas. Kelsey Grammer merecia mais espaço. Suas cenas indicam que poderia vira a ser um dos melhores intérpretes da série caso pudesse desenvolver seu Hank McCoy. Outras personagens, como Calisto, Homem-Múltiplo e Fanático, e mais que eles, as doutoras Kavita Rao e Moira McTaggart, são jogadas na tela, com pouquíssima ou nenhuma função.

Tempestade ganhou mais espaço e Halle Berry, mais feliz, conseguiu dar um upgrade na sua performance. Continua irritante a dependência que os filmes têm de Wolverine, mas Hugh Jackman, mais uma vez, está acertado. Mas não deu para entender o que o diretor quis dizer com a legenda “num futuro bem próximo” numa cena em que nós não estávamos num futuro bem próximo, nem no futuro. A propósito, a aparição de um Sentinela foi preguiçosa e acovardada. Melhor seria deixar para um eventual quarto filme. Ah, é… não vai ter um destes, não é?

O que talvez seja o maior problema de X-Men: O Confronto Final é como ele deixa margens, pontas, perspectivas que precisariam justamente de mais um filme coletivo dos mutantes. Há inúmeras coisas que não teriam como ser acertadas em longas individuais, como o futuro da escola ou as mortes de três – sim, três – X-Men. Aliás, quem mereceria longas individuais? Como se apresentaria personagens como Emma Frost, por exemplo, tão ligada ao todo? O terceiro filme dos meus heróis preferidos é frustrante, mas numa coisa ele acerta em cheio: finalmente valorizar uma personagem excepcional, Kitty Pryde, então, eu perdôo e me envolvo… pelo menos um pouquinho.

P.S.: não esqueça disso! Depois de todos os créditos do filme, tem uma cena final em que é revelado o destino de uma das personagens que mais sofrem no filme, portanto, se segure na cadeira se o cara do cinema quiser colocar você pra fora!

X-Men: o Contronto Final EstrelinhaEstrelinha
[X-Men: The Last Stand, Brett Ratner, 2006]

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X-Men 2

X-Men 2

Bryan Singer tem uma carreira curta no cinema. Depois de um filme que ninguém viu fez um que todo mundo assistiu, Os Suspeitos. Ganhou pontos sua obra seguinte, O Aprendiz, e em 2000 recebeu a missão de levar para o cinema o maior grupo de super-heróis da história dos quadrinhos, os X-Men. Seu filme foi rapidamente alçado a melhor adaptação de um personagem de HQ para as telas. Elogiado pelos fãs e pela crítica. Mas ainda faltava alguma coisa. Faltava ideal.

Os X-Men surgiram na década de sessenta, junto com os grandes personagens de Stan Lee para a editora Marvel Comics: Homem-Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico, entre muitos outros. O grupo de mutantes (pessoas especiais portadoras de um gene capaz de lhes garantir superpoderes desde crianças) lutava menos com seus inimigos e mais por sua aceitação entre os humanos comuns. Os X-Men se tornaram um marco nos quadrinhos. Eles eram a diferença. E a diferença sempre incomodou.

O universo dos mutantes foi absorvido imediatamente para o universo dos leitores, em sua maioria adolescentes, prontos para enfrentar o mundo que não os entende. Essa associação multiplicou várias vezes a fama e a mitificação dos heróis, que também aumentaram em quantidade. Mais de vinte deles participaram dos X-Men, além de outros tantos (com tantas histórias diferentes) que compunham equipes paralelas como o X-Force, os Novos Mutantes, o X-Factor e o Excalibur. Os X-Men se tornaram muito maiores do que Lee poderia imaginar.

Nas mãos da dupla Chris Claremont e John Byrne, os mutantes explodiram em sua popularidade, com histórias cada vez mais complexas e seus conflitos cada vez maiores. Transportar – ou melhor, recriar – personagens tão complexos como Wolverine, Magneto, Jean Grey e o Professor Xavier para as telas era arriscado e difícil. Mas no primeiro filme, Singer, que nunca tinha lido uma revista do grupo, soube apresentar os heróis, sobretudo pelo casting perfeito. Faltava falar de motivação.

É justamente ela, a motivação, que transforma X-Men 2, este sim, na melhor adaptação de personagens de quadrinhos para o cinema. A luta contra o preconceito para com os mutantes é a mola mestra do filme, que defende o ideal do professor e mostra na prática como os mutantes sofrem para ser aceitos. “Por que você não se disfarça o tempo todo?”, pergunta Noturno para a Mística. “Porque não deveríamos ter de fazer isso” é a resposta que ele consegue.

Metáforas à parte, o filme diz que todo mundo merece ser respeitado. Conseguir dizer isso em pleno cinema comercial norte-americano e com super-heróis que se teleportam, movem objetos, controlar o tempo ou soltam raios é muita coisa. É arte. Singer prova que a arte está em qualquer lugar. Basta ter talento pra chegar nela. O cineasta equilibra a tênue linha entre o idealista e o vilão em Magneto. Nenhum personagem é caricatural. Wolverine volta a excelência da interpretação do surpreendente Hugh Jackman e Alan Cumming recria o Noturno perfeito. Até Halle Berry, que tinha decepcionado no primeiro filme consegue fazer uma Tempestade digna (e finalmente com o cabelo no lugar).

Outro grande trunfo do filme é que o espírito dos X-Men corre ao lado da eficiência técnica. As cenas de combate ou de simples exibição de superpoderes são deliciosas. A transformação do Colossus, Kitty Pryde atravessando as paredes, as teletransportações do Noturno são feitas com perfeição. Nostalgia pura. É sonhar com o que ainda está por vir – e as ambições dos produtores incluem sagas alternativas, como o clássico Dias de um Futuro Esquecido, que se passa numa realidade alternativa. Assistir X-Men 2 no cinema é voltar aos tempos da adolescência e mergulhar num universo único onde as ideologias e caráteres ajudam a se formar. Testemunhar como tudo foi tão perfeitamente respeitado nesse filme é simplesmente delicioso e merece reverência. Surpreender-se com a possibilidade completamente real – vide a imagem final – do surgimento da Fênix no próximo filme é pertubador. Difícil conter os arrepios.

Que venha o Hulk.

X-Men 2 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[X2: X-Men United, Bryan Singer, 2003]

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