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Top 110: os melhores filmes LGBT de todos os tempos

Enquanto Alexandre Frota vai ao Ministério da Educação junto com integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo financiado por PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade, para discutir ideologia de gênero, o cinema amplia as discussões sobre todas as formas de sexualidade. Tempos atrás, depois de uma extensa pesquisa que tomou meses, assistindo filmes, entendendo contextos, medindo relevâncias, relacionando expressão artística aos movimentos da sociedade, elaborei uma lista com os que eu considerava ser os 40 melhores filmes de temática gay de todos os tempos. A palavra gay estava lá muito mais para indicar sexualidades diferentes do padrão heteronormativo. Na verdade, e agora eu corrijo no título, a ideia era englobar os melhores filmes de temáticas LGBT.

Alguns anos se passaram e chegou a hora de revisitar e reeditar esta lista. Nos últimos anos, obras importantes como Carol e Tangerine, para ficar em apenas dois exemplos, chegaram aos cinemas, ganharam prêmios, geraram discussão. Nos últimos anos também, tive mais acesso a outras obras de referência e a filmografias de cineastas realmente engajados politicamente com a causa LGBT, como Rainer Werner Fassbinder, Rosa von Praunheim e Derek Jarman. Revisar esta lista era, mais do que instigante, necessário, embora eu ache que todas as listas refletem uma época, um recorte, o pensamento de quem a elaborou e não me arrependa nada da minha primeira relação.

Cada filme que aparece, tanto na relação original quanto nesta nova versão, está por um motivo, seja pioneirismo, engajamento, representatividade, apuro estético, experimento de linguagem. As razões são diversas. Todas, a meu ver, importantes. Na minha revisão, a lista ganhou uma edição metabolizada. O Top 40 agora tem a companhia de mais 14 títulos, são 54, e ainda acrescento uma relação extra, sem ordem de preferência com outros 56 filmes bastante significativos para as questões LGBT, que podem e devem servir de referência para quem se interessa pelo assunto.

Primeiro, a lista complementar:

Adeus Minha Concubina
[Ba Wang Bie Ji, Chen Kaige, 1993]
Amigas de Colégio
[Fucking Åmål, Lukas Moodysson, 1998]
O Amor Não Tem Sexo
[Prick Up Your Ears, Stephen Frears,1987]
O Banquete de Casamento
[Xi Yan, Ang Lee, 1993]
Born in Flames
[Born in Flames, Lizzie Borden, 1983]
Cabaret
[Cabaret, Bob Fosse, 1972]
Café com Leite (assista)
[Café com Leite, Daniel Ribeiro, 2007]
Canções de Amor
[Le Chansons d'Amour, Christopher Honoré, 2007]
Um Canto de Amor
[Un Chant d'Amour, Jean Genet, 1950]
Contracorrente
[Contracorriente, Javier Fuentes-León, 2009]
Coronel Redl
[Oberst Redl, István Szabó, 1985]
Delicada Relação
[Yossi & Jagger, Eytan Fox, 2002]
Deuses e Monstros
[Gods and Monsters, Bill Condon, 1998]
Doce Amianto
[Doce Amianto, Guto Parente & Uirá dos Reis, 2013]
E a Vida Continua
[And the Band Played On, Roger Spottiswoode, 1993]
Eduardo II
[Edward II, Derek Jarman, 1991]
Eu Não Quero Dormir Sozinho
[Hei Yan Quan, Tsai Ming-Liang, 2006]
Eu Não Quero Voltar Sozinho (assista)
[Eu Não Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2010]
Filadélfia
[Philladelphia, Jonathan Demme, 1993]
Furyo, em Nome da Honra
[Merry Christmas Mr. Lawrence, Nagisa Ôshima, 1983]
A Gaiola das Loucas
[La Cage aux Folles, Édouard Molinaro, 1978]
Hairspray – Éramos Todos Jovens
[Hairspray, John Waters, 1988]
O Jovem Törless
[Der Junge Törless, Volker Schlöndorff, 1966]
Juventude Transviada
[Rebel Without a Cause, Nicholas Ray, 1955]
Madame Satã
[Madame Satã, Karim Aïnouz, 2002]
Maurice
[Maurice, James Ivory, 1987]
O Menino e o Vento
[O Menino e o Vento, Carlos Hugo Christensen, 1967]
Meninos Não Choram
[Boys Don't Cry, Kimberly Pierce, 1999]
Mikaël
[Mikaël, Carl Th. Dreyer, 1924]
Mistérios da Carne
[Mysterious Skin, Gregg Araki, 2007]
Morango e Chocolate
[Fresa y Chocolate, Tomás Gutiérrez Alea & Juan Carlos Tabío, 1993]
Onda Nova
[Onda Nova, José Antonio Garcia & Ícaro Martins, 1983]
Orlando, a Mulher Imortal
[Orlando, Sally Potter, 1992]
Otto; Or Up with Dead People
[Otto; Or Up with Dead People, Bruce LaBruce, 2008]
Pariah
[Pariah, Dee Rees, 1001]
Perdidos na Noite
[Midnight Cowboy, John Schlesinger, 1968]
Plata Quemada
[Plata Quemada, Marcelo Piñeyro, 2000]
Portrait of Jason
[Portrait of Jason, Shirley Clarke, 1967]
The Queen
[The Queen, Frank Simon, 1968]
Querelle
[Querelle, Rainer Werner Fassbinder, 1982]
A Rainha Diaba
[A Rainha Diaba, Antonio Carlos da Fontoura, 1974]
O Rio
[He Liu, Tsai Ming-liang, 1997]
The Rocky Horror Picture Show
[The Rocky Horror Picture Show, Jim Sharman, 1975]
São Paulo em Hi-Fi
[São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, 2013]
Sex in Chains
[Geschlecht in Fesseln, William Dieterle, 1928]
Shortbus
[Shortbus, John Cameron Mitchell, 2006]
Tabu
[Gohatto, Nagisa Ôshima, 1999]
Taxi para o Banheiro Masculino
[Taxi Zum Klo, Frank Ripploh, 1980]
O Tempo que Resta
[Le Temps qui Reste, François Ozon, 2005]
As Testemunhas
[Les Témoins, André Techiné, 2007]
Thelma & Louise
[Thelma & Louise, Ridley Scott, 1991]
Triângulo Feminino
[The Killing of Sister George, Robert Aldrich, 1968]
Tudo Sobre o Meu Pai
[Alt om Min Far, Even Benestad, 2002]
Velvet Goldmine
[Velvet Goldmine, Todd Haynes, 1997]
Veneno
[Poison, Todd Haynes, 1991]
Vitor ou Vitória
[Victor/Victoria, Blake Edwards, 1982]

Um breve histórico do cinema LGBT

Somente nas duas últimas décadas, o largo espectro das orientações e condições sexuais conseguiu encontrar um variado e substancioso conjunto de representações no cinema. Gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, drag queens, entre outros, podem ser encontrados, hoje, em larga escala, em filmes que ultrapassaram o gueto do cinema de classe e que assumem tanto as estruturas de gêneros clássicos, como dramas, comédias e filmes de suspense e de terror, como trazem a orientação sexual para um campo de normalidade que permite se ater a detalhes antes soterrados porque a questão maior já era a ousadia do tema em si.

Embora o cinema “gay” – e aqui gay engloba todas essas sexualidades diferente do padrão homem-mulher, tenha conseguido renegociar sua posição na produção de filmes, ao longo desses 120 anos de cinema, houve muitos projetos que foram pioneiros em explorar as questões ligadas ao comportamento e ao universo homossexual. Há críticos que insistem que um dos primeiros filmes, o curta-metragem The Dickson Experimental Sound Film, de William Dickson, um filme sonoro realizado mais de 30 anos antes do som chegar de fato ao cinema, teria personagens com um comportamento nitidamente homossexual. No filme, que você pode assistir abaixo, dois homens dançam ao som de um instrumento musical.

Há bastante controvérsia. Alguns estudiosos dizem que o registro da dança entre dois homens teria chocado plateias, enquanto outros afirmam que aquele comportamento seria comum entre homens na época. A época é, no caso, 1895, o ano da “invenção do cinema”. Forçação de barra ou não, outros exemplos de possíveis manifestações homossexuais no cinema podem ser conferidos – e geram polêmica – nos anos seguintes. Em 1907, Georges Méliès dirigiu O Eclipse: Ou a Corte do Sol à Lua, em que um astro-rei viril seduz uma lua efeminada. Alguns estudos dizem que sol e lua seriam do gênero masculino e que o momento do eclipe seria, de fato, uma relação homossexual. A primeira do cinema.

Nos anos seguintes, as comédias flertaram com os temas gays. Algie, The Miner, de Alice Guy-Blaché, mostra um homem efeminado que precisa se livrar do estigma de que “beija cowboys” para conseguir namorar a filha de um ricaço. Charles Chaplin usou roupas femininas em A Mulher e seduziu vários homens. E em A Florida Enchantment, de Sidney Drew, uma mulher engole uma semente mágica que a transforma em homem e seu noivo faz o mesmo e vira um homem “afetado”. Todos estes filmes são da primeira metade da década de 1910 e todos têm um quê de brincadeira. Mas pouco depois disso começaram na Europa as primeiras tentativas de se fazer filmes “sérios” sobre o assunto.

Na Suécia, Mauritz Stiller adaptou o romance Mikaël, de Herman Bang, sobre a relação entre um pintor aclamado e seu pupilo, abalada pela chegada de uma condessa que seduz o jovem, em The Wings, de 1916. O dinamarquês Carl Theodore Dreyer refilmou o livro em 1924 usando o título original, Mikaël. Pela primeira vez, se a história não engoliu algum pioneiro, temos personagens gays representados no cinema. Em 1919, numa Alemanha onde a Constituição considerava a prática homoafetiva como crime, Richard Oswald se une ao físico e sexólogo Magnus Hirschfeld para rodar Diferente dos Outros, que também conta a história de um artista, um músico, e um homem mais jovem. A chantagem contra os homossexuais, algo que era comum no país na época, é um dos temas centrais do filme.

Nas décadas seguintes, nos mais diversos cantos do planeta, censurados ou não, usando subtextos ou sendo mais explícitos, muitos diretores, alguns bastante conceituados, no auge de suas carreiras e heterossexuais, resolveram contar histórias de homoafetividade. De simples romances ao retrato de comportamento de guetos, de cidadãos “comuns” a estereótipos, muitos deles foram bastante felizes em dar sua contribuição para o gênero no cinema. Basta clicar no link abaixo para acessar minha lista com os melhores filmes com temática LGBT de todos os tempos.

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Café com Leite

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[Café com Leite, Daniel Ribeiro, 2007]

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Eu Não Quero Voltar Sozinho

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[Eu Não Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2010]

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São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi é um filme de super-heróis. Seus muitos protagonistas, que aparecem ou simplesmente estão representados na tela, passaram as três décadas registradas no longa-metragem de Lufe Steffen enfrentando vilões cruéis, como a Ditadura Militar, a Aids e, aquele que talvez seja o mais perigoso de todos eles, o preconceito. O documentário mapeia a história da noite gay paulistana desde o surgimento das primeiras casas noturnas destinadas ao público homossexual, nos anos 60, até o final da década de 80, quando o surgimento do HIV transformou a relação do ser humano com o sexo e fez muitas baixas na comunidade.

O fio condutor que o diretor utiliza para contar essa história é o aparecimento de boates e clubes gays na cidade, o que tem três funções bem importantes. A primeira é relacionar aquele a trajetória daquele universo com o próprio movimento histórico do Brasil e do mundo, exibir o contexto em que tudo aquilo aconteceu, alfinetando o Regime Militar. A segunda é devassar os costumes desse pessoal, explicando as estratégias dos homossexuais de São Paulo para driblar a Ditadura, seja em casas noturnas ou em locais de pegação. Por fim, a geografia narrativa de São Paulo em Hi-Fi apresenta ao espectador seus personagens. E é aí que o filme acerta em cheio.

Como documentário, São Paulo em Hi-Fi é um registro até bastante clássico, com depoimentos, fotos e vídeos da época sendo intercalados numa estrutura que obedece a uma cronologia de acontecimentos. Sua força maior está na maneira como ele trata e retrata seus personagens. Travestis, escritores, jornalistas, empresários, entre outros, falam abertamente sobre todos os aspectos da vida LGBT nessas três décadas, desnudando da militância ao sexo. O filme os apresenta como heróis da resistência que ajudaram a construir um universo paralelo, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade comum, que foi essencial para sua própria sobrevivência.

Os depoimentos não se furtam em invadir tabus como o sexo fácil ou os cinemas de pegação, mas o filme não trata os temas com descaso ou vergonha, nem como meros detalhes, mas como elementos essenciais para o exercício do desejo e a formação de uma consciência de classe. Os relatos de aventuras e as histórias dos bastidores da noite são apresentados como pequenas vitórias pessoais de personagens que pareciam relegados a uma vida escondida. O filme captura bem esse sentimento de libertação, que ganha força, por exemplo, em todas as declarações de Kaká di Polly, cuja língua ferina e o despudor trazem detalhes da cena gay para uma espécie de mainstream universal.

Esse talvez seja o grande trunfo do filme: Lude Steffen é muito mais carinhoso do que militante. Seu filme é muito mais histórico do que panfletário. Ele não só entende e defende seus personagens, mas com dialoga com todos. Por isso, é bem estranho que o documentário ainda tenha demorado três anos para encontrar espaço no circuito comercial brasileiro, sendo que, neste mesmo período, filmes com temática homossexual, como Hoje eu Quero Voltar Sozinho e Tatuagem, encheram cinemas semanas a fio. Um registro tão sério e um filme de memórias tão memorável merece uma plateia mais ampla, cheia de todos os tipos de super-heróis.

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[São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, 2013]

entrevista com o cineasta Lufe Steffen

Por que “São Paulo em Hi-Fi”, que foi exibido em 2013 no Mix Brasil, só agora conseguiu entrar em circuito? Houve preconceito em relação ao tema do filme?

Não, nunca houve preconceito, pelo contrário, o filme era sempre muito pedido, requisitado, solicitado. Mas na época eu finalizei o filme de forma mais underground, sem recursos, sem o acabamento técnico necessário, sem a arte-final que eu desejava. Somente no final de 2014, quando o filme recebeu um apoio através de um edital, é que pude finalizar a obra devidamente, cuidar da trilha sonora definitiva, fazer enfim, o “director’s cut” rs… E é essa versão repaginada que estreia agora.

A versão que chega ao Cinesesc é a mesma que vimos nos festivais? Quais as chances do filme ser exibido em outros cinemas/cidades?

Como respondi na anterior, não, a versão que estreia é um tanto diferente da versão que passou em festivais em 2013 e 2014. As chances são boas, estamos montando uma espécie de “turnê” do filme em capitais e cidades brasileiras. Inclusive vale dizer que quem quiser ajudar a levar o filme para sua cidade, basta entrar em contato com a nossa página do Facebook pra ver essa possibilidade.

A sessão no Mix Brasil foi histórica, com uma plateia que se reconhecia na tela, às vezes literalmente. Para quem você acha que é o filme? Qual o público que você pretendia atingir? Aliás, você pensou nisso?

Acho que o filme é para todos, mesmo. Quando eu estava fazendo, acreditava que o interesse principal seria para o público LGBT com mais de 40 anos. Mas conforme as sessões foram ocorrendo, me surpreendi com a quantidade de gente jovem que se apaixona pelo filme, que vem me dizer que amou, que gostaria de ter vivido nessa época e tal. Também aparecem muitas senhoras casadas com seus maridos que vêm elogiar, dizer que adoravam essa época, mesmo não tendo frequentado a noite gay. Outro dia tivemos uma sessão com um público todo de galera entre 20 e 30 anos, a maioria não gay e também foi muito bem recebido. E o público gay com mais de 40, 50, 60, 70 anos, sempre vem comentar o quanto se emocionou, o quanto se envolveu com o filme. Mesmo esse público me surpreende porque eu não imaginava que as pessoas iam se emocionar tanto. Então tem sido surpreendente. Minha conclusão é que o filme é para todos.

É seu segundo documentário sobre a noite gay paulistana. O que te fascina sobre o assunto?

Boa pergunta! A noite sempre me fascinou, sempre gostei de sair de noite nas festas e noitadas, e vivenciei a vida noturna com muito empenho e bastante inquietação. Tentei registrar, imortalizar a noite gay de São Paulo nos dois longas que fiz, na tentativa de capturar a essência dessas noites. Como se assim eu conseguisse dominar esse universo. Claro que não consegui! Acho que tem a ver com minha dificuldade em lidar com o lado efêmero da vida, e a noite é uma síntese disso: uma noite passa, e pronto. Como a vida.

Imagino que deva ter sido uma jornada para encontrar vídeos, fotos e depoimentos que retratassem as mais de três décadas pelas quais o filme atravessa. Como foi essa pesquisa?

Foi difícil, porque quase não havia (não há) registro do assunto. A noite LGBT de São Paulo só passa a ser bastante documentada a partir dos anos 90. Então foi uma batalha mesmo. A pesquisa englobou arquivos de revistas e jornais, acervos pessoais de amigos e entrevistados do filme, coleções particulares.

Não sei se você concorda, mas o cinema gay parece finalmente sair de um gueto nos últimos anos, especialmente o brasileiro. Como você vê esse momento?

Eu concordo. Parece que está mesmo acontecendo um momento de avanço. Eu, que comecei a fazer curtas de temas gays em 1997 – de lá para cá foram 9 curtas de ficção, todos ligados ao universo LGBT -, acompanhei esse processo bem de perto mesmo. Acho importante dizer que é um processo que já vem de muito antes. Um dos cineastas brasileiros que mais admiro, o Djalma Limongi Batista, fez seu primeiro curta gay já em 1968, Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora. Em 66, o Carlos Hugo Christensen – outro cineasta que adoro – já havia feito o longa O Menino e o Vento. Então no final dos 60, e durante toda a década de 70 e a de 80, vejo que muitos filmes se aproximaram da questão gay, de uma maneira ou de outra.

Na maior parte de seu tempo, “São Paulo em Hi-Fi” relata fatos acontecidos durante a Ditadura. E, nos últimos anos, o Brasil caminha para um cenário cada vez mais conservador. É justamente no meio desse processo que seu filme estreia. O que você espera dele?

Pois é, curiosamente o filme estreia nesse momento ambíguo do país, assim como foi ambígua a época da ditadura. Naquele momento, apesar da repressão e da homofobia que já existia, é claro, o universo gay conseguia encontrar brechas (ainda que no underground, na noite e nunca no dia) para se manifestar, e o filme mostra essa atitude. Hoje, vivemos um momento contraditório: ao mesmo tempo em que os direitos LGBT e a visibilidade gay aumentaram sensivelmente, enfrentamos a reação dos conservadores, reacionários, homofóbicos, manipulados e manipuladores, e hipócritas em geral. Não sei como serão os próximos anos, mas espero que o filme (assim como outras iniciativas culturais desbravadoras que tem acontecido, no cinema, no teatro, na literatura, nas artes enfim) contribua para avançarmos ainda mais, impondo mesmo o direito de liberdade, o direito de você ser quem você quiser ser. Acredito que nada é por acaso, e se o filme estreia justamente agora, é porque tem algo a dizer sobre tudo isso.

Por fim, você consegue listar 5 filmes essenciais de temática LGBT, sejam brasileiros ou não?

Vou citar só brasileiros:
O Menino e o Vento, de Carlos Hugo Christensen (1966)
Asa Branca, um Sonho Brasileiro, de Djalma Limongi Batista (1980)
Onda Nova, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins (1984)
Anjos da Noite, de Wilson Barros (1987)
Meu Amigo Claudia, de Dacio Pinheiro (2009)

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Top 40: os melhores filmes gays de todos os tempos

Somente nas duas últimas décadas, o largo espectro de temas homossexuais conseguiu encontrar um variado e substancioso conjunto de representações no cinema. Gays, lésbicas, bissexuais, drag queens, travestis, entre outros, podem ser encontrados, hoje, em larga escala, em filmes que ultrapassaram o gueto do cinema de classe e que assumem tanto as estruturas de gêneros clássicos, como dramas, comédias e filmes de suspense e de terror, como trazem a orientação sexual para um campo de normalidade que permite se ater a detalhes antes soterrados porque a questão maior já era a ousadia do tema em si.

Embora o cinema gay tenha conseguido renegociar sua posição na produção de filmes, ao longo desses 120 anos de cinema, houve muitos projetos que foram pioneiros em explorar as questões ligadas ao comportamento e ao universo homossexual. Há críticos que insistem que um dos primeiros filmes, o curta-metragem The Dickson Experimental Sound Film, de William Dickson, um filme sonoro realizado mais de 30 anos antes do som chegar de fato ao cinema, teria personagens com um comportamento nitidamente homossexual. No filme, que você pode assistir abaixo, dois homens dançam ao som de um instrumento musical.

Há bastante controvérsia. Alguns estudiosos dizem que o registro da dança entre dois homens teria chocado plateias, enquanto outros afirmam que aquele comportamento seria comum entre homens na época. A época é, no caso, 1895, o ano da “invenção do cinema”. Forçação de barra ou não, outros exemplos de possíveis manifestações homossexuais no cinema podem ser conferidos – e geram polêmica – nos anos seguintes. Em 1907, Georges Méliès dirigiu O Eclipse: Ou a Corte do Sol à Lua, em que um astro-rei viril seduz uma lua efeminada. Alguns estudos dizem que sol e lua seriam do gênero masculino e que o momento do eclipe seria, de fato, uma relação homossexual. A primeira do cinema.

Nos anos seguintes, as comédias flertaram com os temas gays. Algie, The Miner, de Alice Guy-Blaché, mostra um homem efeminado que precisa se livrar do estigma de que “beija cowboys” para conseguir namorar a filha de um ricaço. Charles Chaplin usou roupas femininas em A Mulher e seduziu vários homens. E em A Florida Enchantment, de Sidney Drew, uma mulher engole uma semente mágica que a transforma em homem e seu noivo faz o mesmo e vira um homem “afetado”. Todos estes filmes são da primeira metade da década de 1910 e todos têm um quê de brincadeira. Mas pouco depois disso começaram na Europa as primeiras tentativas de se fazer filmes “sérios” sobre o assunto.

Na Suécia, Mauritz Stiller adaptou o romance Mikaël, de Herman Bang, sobre a relação entre um pintor aclamado e seu pupilo, abalada pela chegada de uma condessa que seduz o jovem, em The Wings, de 1916. O dinamarquês Carl Theodore Dreyer refilmou o livro em 1924 usando o título original, Mikaël. Pela primeira vez, se a história não engoliu algum pioneiro, temos personagens gays representados no cinema. Em 1919, numa Alemanha onde a Constituição considerava a prática homoafetiva como crime, Richard Oswald se une ao físico e sexólogo Magnus Hirschfeld para rodar Diferente dos Outros, que também conta a história de um artista, um músico, e um homem mais jovem. A chantagem contra os homossexuais, algo que era comum no país na época, é um dos temas centrais do filme.

Nas décadas seguintes, censurados ou não, usando subtextos ou sendo mais explícitos, muitos diretores, alguns bastante conceituados, no auge de suas carreiras e heterossexuais, resolveram contar histórias de homoafetividade. De simples romances ao retrato de comportamento de guetos, de cidadãos “comuns” a estereótipos, muitos deles foram bastante felizes em dar sua contribuição para o gênero no cinema. A lista que você acompanha a partir de agora abre uma série de Top 40s que eu devo publicar até o fim de 2014, quando eu completo 40 anos, que vão tentar vasculhar os mais variados aspectos do cinema, juntando meus filmes preferidos e aqueles que escreveram a história da sétima arte.

Basta clicar no link abaixo para acessar minha lista com os 40 melhores filmes com temática homossexual de todos os tempos.

Aqui tem a versão da lista com 100 títulos, mas sem comentários.

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Praia do Futuro

Praia do Futuro

Todos os filmes de Karim Aïnouz – à exceção talvez do primeiro, Madame Satã – trabalham com aspectos de uma mesma questão: o desenraizamento, a sensação de não pertencer mais a um determinado lugar ou estilo de vida. Em maior ou menor grau, os protagonistas dos quatros longas que o cineasta cearense dirigiu desde então lidam com o conflito de desconhecer seus próximos passos. Esse sentimento pode ser fruto de uma vida errante pelas estradas do interior do país, como também pode surgir das mais variadas situações, como o fim de um casamento ou uma volta forçada para a terra natal.

Com esta última premissa, Aïnouz nos entregou aquela que talvez seja sua obra-prima, O Céu de Suely, um filme sobre uma mulher que não suporta a ideia de que mais uma vez está aprisionada no lugar e na vida que havia abandonado tempo atrás. Uma história com um poder simbólico tão forte que ecoa sobre praticamente tudo o que o diretor assinou nos últimos oito anos – e que sempre será motivo para comparação com cada nova obra do cineasta. Há ecos deste filme inclusive em Praia do Futuro, o mais recente trabalho de Aïnouz, um projeto que está em gestação há quase tanto tempo quanto seu filme mais celebrado tem de idade.

Aqui, o motivo para partir é muito semelhante: como Hermila, Donato não acha mais espaço para uma vida plena em Fortaleza. Ele é um salva-vidas. Resgata banhistas que se afogam, um trabalho essencialmente masculino que o transforma num herói e num modelo para o irmão. O encontro com Konrad, um alemão em visita ao Brasil, abre não apenas a possibilidade do exercício de sua sexualidade reprimida, mas representa a chance de reconstruir toda sua relação com o mundo a partir do anonimato. Anonimato onde os protagonistas de O Céu de Suely, O Abismo Prateado e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo também se refugiam.

Karim Aïnouz filma essa busca desesperada do protagonista por uma nova vida alternando cortes brutos (de cenas viris de sexo gay, que pouco mostram, sempre aprisionadas em closes tensos, mas muito revelam sobre o tom que o cineasta pretende para seu filme) com cenas longas (prolongadas até as imagens ganharem outro sentido, como se o filme quisesse assim transformar as coisas e anestesiar as dores do personagem). Essa concepção imagética é o que Praia do Futuro tem de melhor, herança direta do mais bem resolvido filme do cineasta. Mas Aïnouz prefere deixar os personagens sempre distantes, o que não facilita nosso relacionamento com eles, muito menos quando o filme sofre uma ruptura drástica, espacial e narrativa.

A passagem de tempo interrompe tanto a costura da relação entre os irmãos quanto a da relação entre os amantes, nenhuma totalmente desenvolvida, assim como passa por cima de aspectos importantes do próprio desenho do personagem. Wagner Moura, que parece cheio de vida quando seu personagem ainda está preso às convenções, definha, desaparece quando Donato teoricamente deveria estar pleno. Já Jesuíta Barbosa, que só surge no terceiro e último capítulo da história, aparece cheio de vigor para defender um personagem que precisava ter sido melhor definido lá atrás. Essa dicotomia talvez seja a melhor maneira para classificar uma fuga frustrada, que sacrificou tantos carinhos, carinhos que o espectador foi privado de ver, que pouco ou nada foram insinuados. Mas talvez essa seja a única maneira que o cineasta encontrou para manifestar a vida de privações do personagem: a gelidez germânica e as memórias que guarda para si podem ser o esconderijo mais adequado pra que Donato possa se proteger.

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[Praia do Futuro, Karim Aïnouz, 2014]

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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

A homossexualidade parece finalmente ter encontrado caminhos de representação no cinema. Nos últimos anos, os filmes gays deixaram o peso da militância em prol de uma pluralidade de discursos e análises que tentam traduzir uma incrível variedade de personas e comportamentos. Da aspereza de Um Estranho no Lago ao realismo ostensivo de Azul é a Cor Mais Quente, passando pela libertinagem poética de Tatuagem, muitos trabalhos, de cineastas experientes ou diretores estreantes, gays ou não, transformaram a maneira como o audiovisual representa o homossexual. Não estamos mais numa época em que o cinema gay pertence exclusivamente à causa gay. O cinema gay, hoje, pertence ao cinema.

Embora as questões permaneçam as mesmas, é possível identificar um avanço na abordagem. Um Estranho no Lago é, em sua essência, um filme sobre desejo sexual e não um filme sobre pegação gay. Azul é a Cor Mais Quente devassa não uma relação lésbica, mas uma relação de amor. E Tatuagem é sobre liberdade num sentido muito mais amplo do que a liberdade de escolher um parceiro do mesmo sexo. Desta forma, seguindo uma lógica muito parecida, outro filme brasileiro chega aos cinemas relatando a descoberta do primeiro amor – e não necessariamente a primeira vez em que um menino se apaixona por outro menino. Um obra que tenta conversar com um público mais amplo, aquele que se emociona com um romance simples e delicado.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não faz nenhuma estripulia, não traz grandes novidades. Estamos diante da história do encontro entre Leo e Gabriel. Um é um adolescente cego, que vive as aventuras e desventuras comuns à vida colegial. O outro é um jovem recém-chegado à cidade grande. Ambos tentam descobrir o mundo, quando, de repente, acham um ao outro. Há maneirismos, lugares comuns, cenas que não se desenvolvem completamente, momentos truncados, mas se sobrepõe a isso uma visão que parece inocente, mas que diz muito sobre o que pretende o cinema de temática gay hoje em dia: este é um filme sobre diferenças, mas a homossexualidade é apenas um detalhe. Ela faz parte de um pacote. As diferenças são ressaltadas o tempo inteiro, mas o próprio protagonista brinca com elas.

O longa de Daniel Ribeiro é uma versão estendida de um curta dirigido pelo cineasta há quatro anos. Eu Não Quero Voltar Sozinho ganha em comparação com seu descendente: é um filme melhor que, em 17 minutos, desenvolve os personagens de maneira singela e resolve a trama com delicadeza e soluções simples. A versão em longa-metragem traz os mesmo trio de protagonistas, Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim, que interpreta a única amiga de Leo, Giovana, mas apresenta novos personagens e situações. Algumas cenas parecem espichadas do curta e outras, que mudam algumas das resoluções originais, deixam a desejar no desenvolvimento da trama.

A virtude do longa está mais no conjunto do que em momentos específicos, mas algumas cenas novas não apenas amenizam o reaproveitamento de ideias, como são extremamente representativas do recado que o diretor quer passar. Daniel Ribeiro não procura aceitação para seus personagens, mas quer que eles sejam amados pelas pessoas que são. Uma cena simples e bonita que diz muito do filme é aquela em que o pai, vivido por Eucir de Souza, ensina o filho a se barbear, ao mesmo tempo em que questiona o filho sobre o motivo dele querer fazer intercâmbio fora do país. O recado está implícito. Sem alarde. Há alguns momentos bem delicados na meia hora final do longa que fazem crescer tanto o filme quanto seus personagens. A catarse da cena que encerra a trama, a única em que o filme sai do armário, mais do que um panfleto é uma bela maneira de resolver uma história de amor.

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[Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2014]

Assista ao curta que deu origem ao filme:

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Entrevista: Hilton Lacerda

O nome do pernambucano Hilton Lacerda ajudou a construir um certo cinema jovem brasileiro, que se desenha desde a segunda metade da década de 90. São deles os roteiros de filmes importantes como Baile Perfumado, Amarelo Manga e A Festa da Menina Morta. Parceiro de longa data de Cláudio Assis, Lacerda assinou os roteiros de todos os seus longas. A estreia na direção aconteceu com o documentário Cartola – Música para os Olhos, onde dividiu as rédeas com outro colaborador, Lírio Ferreira. O belíssimo Tatuagem, vencedor do Festival de Gramado, libelo libertário sobre um grupo de teatro dos anos 70, no Recife, é sua primeira ficção como diretor. Para falar do processo de criação do filme, bati um papo com Hilton, que vocês acompanham aqui.

Hilton Lacerda

Você tem uma longa experiência como roteirista. Como surgiu a vontade de virar diretor?

A idéia de ser diretor sempre esteve presente em meu horizonte. Já havia dirigido dois curtas (Simião Matiniano - O Camelô do Cinema e A Visita), além da experiência narrativa com Lírio Ferreira no Cartola, Música Para Os Olhos. Mas o roteiro terminou se tornando mais urgente, mais pontual – principalmente nas parcerias/cumplicidades que comecei a fazer, com Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Kiko Goifman, Matheus Nachtergaele… De certa maneira essa cumplicidade era uma contribuição muito intima nas minhas convicções narrativas. Mas existem alguns projetos que você elege como muito, mas muito, pessoais. E Tatuagem se insere aí: a necessidade de colocar em prática conceitos pessoais com relação ao modo e ao sentimento de determinada condução. E pode parecer um tanto estranho, mas adoro set de filmagem – não raro os roteiristas declaram aos cantos a repulsa estar presente a execução de seus roteiros. Vai ver que trabalhar com quem você se afina muda esse eixo. Vai ver que é isso.

Você demonstra muita segurança nesta ‘nova’ função. Filma cenas fortes com muita elegância e fluidez, mas sem perder um quê popular. Teve algo – ou alguém – que te inspirou?

O cinema nacional, principalmente o segundo momento do Cinema Novo e do cinema marginal, sempre me inspirou do ponto de vista de construir uma linguagem específica. Me incomoda o distanciamento que estamos tomando de nossa cinematografia. Claro que isso não é geral, mas é interessante como a cartilha universal, em muitos aspectos, tem direcionado uma conduta bastante espelhada em modelos aceitos, comprovados, aplaudidos – esteja isso no universo do cinema convencional, esteja isso dialogando com o cinema mais inventivo. Às vezes, acredito que estamos nos acostumando a dar conta ao olhar do outro. A cartilha pode ser muito útil e confortável, mas não me satisfaz. E acredito que deveríamos estar mais preocupados em corromper que em concordar.

E nesse processo muitos filmes foram importantes. Mas A Lira do Delírio (Walter Lima Jr) e Sem Essa Aranha (Rogério Sganzela), durante minhas buscas, foram fundamentais. Mas claro que (Tsai) Ming-Liang, Apichatpong (Weerasethakul), João Pedro Rodrigues, Carlos Reichenbach, (Pier Paolo) Pasolini, (Luis) Buñuel e todos aqueles que fizeram e fazem parte de minha educação sentimental estão, de certa forma, ali presentes. Acredito que apreender uma narrativa é manipular conhecimento em busca de um caminho próprio.

Tatuagem mantém um certo espírito “anarquista” que aparece mais violentamente nos filmes que você escreveu para Cláudio Assis. Mas no seu filme, essa anarquia tem outro tom, mais empático. Qual a diferença principal entre escrever um filme que o Cláudio dirigiria e um totalmente seu?

Os roteiros que escrevi para Cláudio Assis fazem parte de uma parceria bastante estimulante. Primeiro pela liberdade que tenho ao escrever e mudar eixos e explorar possibilidades. Esses projetos têm muito de pessoal. Mas existe um olhar também muito pessoal de Cláudio, uma forma bastante original de dirigir e colocar suas ideias. Coisas que coloco podem ganhar cores diferentes pelas mãos de Cláudio, e outras são aquelas que coloco certo grau de virulência, pois quando estamos trabalhando em parceria estamos trocando confianças e conhecer o outro faz parte desse processo. Assim, digamos que usamos de armas diferentes quando propomos nosso olhar.

O roteiro de Tatuagem apresenta o cu como o instrumento revolucionário máximo. Como surgiu essa idéia?

A idéia do cu faz parte dessa estratégia de transformar o próprio corpo em instrumento de mudança e de provocação. Mas tinha, desde o início, uma intuição em procurar por onde minhas idéias podiam ganhar uma dimensão banal e unificante. O cu não é uma sacada tão original, mas bastante interessante no âmbito específico do filme. Além de achar bastante curioso como o cu foi elevado a uma dimensão depravada no Brasil. Em Portugal o cu está em todo parte; o cu americano é quase um ente querido; na Rússia, tem cu que quer ter dentes; na França, ele tem valor intrínseco. No Brasil, ele é relevado. Elegê-lo como símbolo de resistência tem sua graça. E sua eficiência.

É impossível sair do cinema sem cantarolar “Polka do Cu”. Como surgiu a letra?

As letras e as idéias das letras estão sugeridas no roteiro. Quando chamei DJ Dolores para participar da composição do filme conversamos bastante sobre o que estava ali, enquanto palavra, e o que eu pretendia. A partir de nossas conversas, e com total liberdade de Dolores – somada a um talento bastante provocador – ele construiu essa polka. A única coisa que eu queria, e ele concordava – e até radicalizava – é que a composição precisava ter um apelo teatral popular, que fosse ouvida e logo depois ficasse colada na imaginação. Outra coisa que pedi era para não perder a brincadeira – bastante pobre – de aproximar o “tem cu” com o “thank you”.

Tatuagem tem um fortíssimo lado musical. Você escreveu as músicas? Quais as composições feitas para o filme?

Desde o início, quando estava mais ou menos fechado o argumento do Tatuagem, a idéia de uma musical rondava o projeto. Comecei a sugerir as composições, mas estava claro para mim que a trilha pertencia ao DJ Dolores, com quem tenho uma parceria bastante longa. As músicas dos espetáculos foram realizadas para o filme – mesmo aquelas de cunho popular foram revisitadas por Dolores e pelo grupo Chão de Estrelas. E precisávamos aprontá-las anteriormente, pois a maioria das músicas são cantadas ao vivo. As músicas dubladas são apenas as que fazem parte de espetáculo de dublagem. No caso a composição “Álcool”, que é do DJ Dolores, e no filme é dublada pelo ator Diego Salvador.

Outras composições foram feitas ou emprestadas ao filme a partir das escolhas de Dolores, como “Valete” (de Lirinha, e interpretada por Ângela Rô Rô, Otto e o próprio Lirinha), “Volta” (de Johnny Hooker, interpretada ao vivo por ele e seu guitarrista) e “Eu Vou Tirar Você da Cara” (do Feiticeiro Julião).

As músicas mais tradicionais, como “Esse Cara”, de Caetano Veloso (interpretada ao vivo por Irandhir Santos e acompanhada por Yuri Queiroga), “A Noite de Meu Bem”, de Dolores Duran, e “Bandeira Branca”, de Almir Rouche, na clássica versão de Dalva de Oliveira, estavam indicadas. Mas tudo fazia parte da construção musical, que procurava mergulhar numa visão bastante contemporânea de determinado tempo, revisitando standards e experiências (a última composição do filme, antes de “Bandeira Branca”, é uma homenagem a o músico Edgar Varèse.)

Seu filme oferece uma nova direção para o cinema com temática gay no Brasil. É um filme do qual se gosta facilmente talvez porque seja libertário e não panfletário. Você teve alguma preocupação em fazer um filme não agressivo para um público, digamos, convencional?

A questão da relação homoafetiva no filme faz parte da própria estrutura em que o momento que pretendia debater se insere. Claro que minha própria vivência no universo gay me estimula a um outro olhar, não menos excessivo, mas contornado de afetividade. E como o filme está mais para a bandeira libertária e da reflexão, me interessa não abrir exceção. Interessa, sim, corromper o eixo do olhar em relação a questões da sexualidade, do pós-gênero.

O Estado brasileiro, que preferiu uma aproximação conservadora para garantir apoio e governabilidade, tem se colocado muito distante de questões que realmente norteiam questões que devem ser confrontadas e não largadas ao balanço de uma democracia sem representação. Interessa saber quem tem o olhar constrangido. E duvido muito que um público “convencional” não ache o próprio mundo agressivo. Não consigo vislumbrar esse público – me parece uma questão bastante abstrata. Mas o próprio cinema – talvez a vida – está se mostrando bastante convencional para promover o conflito que nos leva a questões bastante importantes, como a construção da civilidade.

O cinema pernambucano tem produzido alguns dos filmes mais interessantes dos últimos tempos. Tanto filmes que renovam temas quanto renovam linguagem. A que você atribui esse momento criativo?

Creio que Pernambuco teve a felicidade de, em determinado momento, somar uma onda criativa, principalmente na música e no cinema, e chamar a atenção para uma produção que há muito está sendo alimentada. Não é algo novo, mas que tem, paulatinamente, se colocado em relação a novas possibilidades de construir narrativas e estimular conteúdos na cinematografia contemporânea. Mas claro que não é apenas de criatividade que nos alimentamos. A conquista de editais e leis, a partir da pressão de classe, talvez seja a força motriz para manter esse cinema atuante e livre.

Essa é uma junção fundamental e que termina por retroalimentar a produção. E, talvez o mais importante, acredito que Pernambuco, por necessidade, conseguiu “inventar” uma forma de produzir seus filmes, onde as possibilidades da estrutura conversa muito diretamente com a capacidade de criação. Nossas deficiências procuram soluções inventivas. Creio que esses três tópicos dêem pistas sobre a força do cinema realizado em nosso Estado.

Você pode apontar seus dez filmes favoritos?

Sempre acho difícil realizar um lista de dez filmes (fossem 100 teria a mesma dificuldade). Mas vou listar aquilo, que no momento, rodam aqui em volta da cabeça:

O Leopardo [Luchino Visconti, 1963]

Crepúsculo dos Deuses [Billy Wilder, 1950]

Rio 40 Graus [Nelson Pereira dos Santos, 1955]

O Anjo Exterminador [Luis Buñuel, 1962]

As Mil e Uma Noites [Pier Paolo Pasolini, 1974]

Anjos do Arrabalde [Carlos Reichenbach, 1987]

Mal dos Trópicos [Apichatpong Weerasethakul, 2004]

Ivan, O Terrível [Sergei Eisestein, 1944]

Terra em Transe [Glauber Rocha, 1967]

Memórias do Subdesenvolvimento [Tomás Gutierrez Alea, 1968]

Já comecei a engordar a lista, mas vou deixar de lado meu sentimentalismo. Afinal, toda a lista é feita para alimentar culpas.

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Tatuagem

Tatuagem

Onde Hilton Lacerda estava escondido nos últimos dez anos? Bastou o roteirista sair da sombra de Cláudio Assis, de quem escreveu todos os longas, para se revelar um provocador romântico com uma extrema consciência do mundo em que vive, mas com uma leveza para dar fluxo a suas ideias e uma sofisticação sem par para materializar as cenas que imagina. Tatuagem, sua primeira ficção, é um assombro. Seja pelo extremo cuidado com as imagens, a trilha e som; seja por causa do requinte do texto, atento ao Brasil de 1978, mas sem ranço sindicalista.

A sutileza, esse talento incomum que o diretor revela para movimentar sua história, deveria esbarrar na militância de Assis, para quem a provocação nunca foi suficiente. Era preciso ir para a guerra. Sem ter que dividir responsabilidades e méritos com o amigo, Lacerda fez um manifesto político apaixonado que, sem grandes eventos morais, acha numa pequena história sobre encontros e desencontros, o espaço ideal para dar voz ao autor. Ele veste as fantasias dos atores do grupo de teatro cuja trajetória acompanha para acomodar seu discurso libertário.

Várias vezes ao longo do filme, na boca de seu protagonista Clécio – Irandhir Santos, talvez o melhor ator brasileiro desta década -, o cineasta explica sua revolução. As apresentações e os números musicais que concebe em riqueza de detalhes para o filme são transgressão pura e simples. O mais radical deles é uma “ode ao cu”, reverenciado como instrumento revolucionário máximo. A cena, brilhantemente fotografada, assim como todo filme, é mais forte do que qualquer arroubo de Cláudio Assis. Lacerda contrapõe militares e artistas, mas são esses que se assumem como soldados. Soldados da mudança.

A cena de sexo entre Clécio e Fininha, personagem do novato – e ótimo – Jesuíta Barbosa, é belíssima: longa, coreografada como um balé, sensual e quase explícita. De uma ousadia que deixa qualquer Sergio Bianchi no chinelo. O momento, explosivo como quase tudo em Tatuagem, também é de uma delicadeza extrema como na cena em que o casal dança ao som de A Noite do Meu Bem. Mesmo quando recicla ideias e símbolos desgastados, como esta canção, Lacerda encontra o tom para encaixá-los na linha da vida de seu filme. História e trangressão caminham lado a lado. E de mãos dadas.

Da direção de fotografia ao desenho de som, da trilha sonora ao texto, das interpretações à montagem. Tudo é lindo e tudo é vivo em Tatuagem. Não existe escândalo na aproximação entre o diretor do grupo de teatro e o soldado. Não existe estranhamento no fato de um homossexual assumido ter tido um filho com uma mulher bem resolvida. Não existe tratamento diferente para as afetações e os trejeitos de personagens como Paulete. A viadagem também era a vida em 1978, diz Lacerda. Cabe ao mundo, atrasado, acompanhar.

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[Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013]

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Festival do Rio 2013: Tatuagem e mais três filmes gays

A sexualidade cada vez mais encontra maneiras sofisticadas e diferentes de ser retratada no cinema. Na edição 2013 do Festival do Rio, grandes filmes como Um Estranho no Lago, já resenhado em outro post, e Tatuagem abordam questões gays de forma transgressora. O filme de Hilton Lacerda, que ganhou o Festival de Gramado, está entre os melhores longas nacionais dos últimos 20 anos. O Filmes do Chico lista aqui uma série de filmes que dão perspectivas diferentes para aspectos da homossexualidade.

Tatuagem

Onde Hilton Lacerda estava escondido nos últimos dez anos? Bastou o roteirista sair da sombra de Cláudio Assis, de quem escreveu todos os longas, para se revelar um provocador romântico com uma extrema consciência do mundo em que vive, mas com uma leveza para dar fluxo a suas ideias e uma sofisticação sem par para materializar as cenas que imagina. Tatuagem, sua primeira ficção, é um assombro. Seja pelo extremo cuidado com as imagens, a trilha e som; seja por causa do requinte do texto, atento ao Brasil de 1978, mas sem ranço sindicalista.

A sutileza, esse talento incomum que o diretor revela para movimentar sua história, deveria esbarrar na militância de Assis, para quem a provocação nunca foi suficiente. Era preciso ir para a guerra. Sem ter que dividir responsabilidades e méritos com o amigo, Lacerda fez um manifesto político apaixonado que, sem grandes eventos morais, acha numa pequena história sobre encontros e desencontros, o espaço ideal para dar voz ao autor. Ele veste as fantasias dos atores do grupo de teatro cuja trajetória acompanha para acomodar seu discurso libertário.

Várias vezes ao longo do filme, na boca de seu protagonista Clécio – Irandhir Santos, talvez o melhor ator brasileiro desta década -, o cineasta explica sua revolução. As apresentações e os números musicais que concebe em riqueza de detalhes para o filme são transgressão pura e simples. O mais radical deles é uma “ode ao cu”, reverenciado como instrumento revolucionário máximo. A cena, brilhantemente fotografada, assim como todo filme, é mais forte do que qualquer arroubo de Cláudio Assis. Lacerda contrapõe militares e artistas, mas são esses que se assumem como soldados. Soldados da mudança.

A cena de sexo entre Clécio e Fininha, personagem do novato – e ótimo – Jesuíta Barbosa, é belíssima: longa, coreografada como um balé, sensual e quase explícita. De uma ousadia que deixa qualquer Sergio Bianchi no chinelo. O momento, explosivo como quase tudo em Tatuagem, também é de uma delicadeza extrema como na cena em que o casal dança ao som de A Noite do Meu Bem. Mesmo quando recicla ideias e símbolos desgastados, como esta canção, Lacerda encontra o tom para encaixá-los na linha da vida de seu filme. História e trangressão caminham lado a lado. E de mãos dadas.

Da direção de fotografia ao desenho de som, da trilha sonora ao texto, das interpretações à montagem. Tudo é lindo e tudo é vivo em Tatuagem. Não existe escândalo na aproximação entre o diretor do grupo de teatro e o soldado. Não existe estranhamento no fato de um homossexual assumido ter tido um filho com uma mulher bem resolvida. Não existe tratamento diferente para as afetações e os trejeitos de personagens como Paulete. A viadagem também era a vida em 1978, diz Lacerda. Cabe ao mundo, atrasado, acompanhar.

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[Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013]

Um Dia Desses

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[Any Day Now, Travis Fine, 2012]

A alcunha de “baseado em fatos reais” parece ser motivo suficiente para que um filme tente se impor como obra importante. A trama de Um Dia Desses é simpática e cheia de boas intenções – um casal gay tenta adotar uma criança com síndrome de down nos anos 70 -, mas a realização do filme deixa bastante a desejar. O maior problema talvez seja que o diretor nunca consegue reunir elementos necessários para que o espectador acredite no casal. O lado musical do personagem de Alan Cummings, que parece agora se dedicar a filmes segmentados, nunca encontra um espaço correto para se inserir na trama. Garret Dillahunt não acerta o tom, exceto no seu discurso final no tribunal. O Marco de Isaac Leyva é adorável, mas isso não faz de um filme um filme bom.

Eu Sou Divine

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[I Am Divine, Jeffrey Schwarz, 2013]

De Baltimore para o mundo, este documentário convencional sobre um protagonista espetacular tenta traduzir Divine, a drag queen que protagonizou os filmes de John Waters e se tornou ícone pop em meados dos anos 70. O trabalho de pesquisa é excelente e revela um personagem complexo, diferente das informações que tínhamos dele. Jeffrey Schwarz reuniu um material invejável para construir essa trajetória, incluindo entrevistas com Waters, a mãe de Divine e vários de seus amigos e parceiros de trabalho. Além dos longa estrelados pela drag queen, há muitos vídeos de suas apresentações em casas do shows.  O trabalho de arte valoriza e multiplica as  imagens, ajudando a seduzir quem assiste ao filme com Divine seduzia quem estava em volta dela.

Hawaii

Hawaii EstrelinhaEstrelinha
[Hawaii, Marco Berger, 2013]

Terceiro filme com temática gay do argentino Marco Berger, Hawaii sofre pela falta de um conjunto dramático mais substancial. A proposta do longa parece herança das minúsculas tramas do cinema pornô, cheia de coincidências absurdas e deixando ganchos para que a ação siga em frente, o que deveria, mas não acontece muito bem. O jogo de sedução entre os dois protagonistas não obedece a timing algum, parece oco, fora de lugar e principalmente esticado. Se fosse um curta de 20 minutos, talvez fosse mais feliz. O resultado é que os dois atores têm que lidar com um imenso vazio. A sequência final, que explica o título do filme e soluciona a questão, é o único momento em que a trama avança.

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