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Drácula de Bram Stoker

Drácula de Bram Stoker

Há dezenas de imagens em Drácula de Bram Stoker que não duram mais de dois ou três segundos. Essas imagens tão curtas, por pouco não subliminares, estão espalhadas ao longo do filme, entrecortando cenas que poderiam existir sem elas mas que, com elas, ganham novos sentidos e significados extras. Algumas servem para ilustrar diálogos – reafirmando uma das premissas do projeto, nunca esconder uma imagem – enquanto outras introduzem informações que ajudam o espectador a compreender novos detalhes do filme mais complexo de Francis Ford Coppola, uma das mais bonitas, dolorosas e espetaculares histórias de amor que o cinema já viu.

Ao mesmo tempo que assume o cinema como o exercício do truque, utilizando, numa proporção megalomaníaca, fusões, sobreposições, recortes, chroma keys e truncagens das mais variadas, o diretor também não tem limites dramatúrgicos e cênicos para remodelar a história criada por Bram Stoker, sempre trabalhando no limite do excesso, o que deixa o filme num estado de perpétua agonia, como se materializasse a urgência de Drácula em encontrar Mina. Gary Oldman, na melhor interpretação de sua vida, incorpora esse espírito e devora absolutamente todas as cenas. Está gigantesco e violentamente sexual, justamente como Coppola planejou.

Sexo, por sinal, é uma das forças motoras do filme. O vampirismo, afirma o diretor, nada mais é do que o exercício de um ato sexual – voraz, imediato. A luxúria movimenta as personagens, aparece escancarada na ostentação da direção de arte e nos figurinos luxuosos; está representada numa fotografia de cores fortes e imagens falsas que invadem deliberadamente outras imagens; na montagem que, combinada à música, nos oferece sequências suculentas de cenas. De um lado, a Lucy de Sadie Frost exerce o sexo como arma de vida e é punida por isso, sem deixar de ser uma mocinha em apuros. Do outro, as noivas de Drácula, Monica Bellucci incluída, têm a fome de sexo controlada pelo vampiro.

Coppola usa um arsenal de referências ao cinema de terror que estranhamente funciona apesar do tom a mais, enquanto cria uma impecável reconstituição de época, saudando o cinema e a tecnologia. Para o cineasta, ciência e magia explicam e justificam esta história na mesma medida. Ele não tem qualquer pudor em misturá-las como forma de traduzir uma época de transformação profunda da Europa, que entrava na Revolução Industrial. É reverente e ao mesmo tempo em que é cínico, principalmente no discurso do Van Helsing de Anthony Hopkins, colossal, que ora respeita e alimenta, ora desmonta o lado místico da trama.

O que nunca muda é o tom onírico que o diretor impõe ao conjunto, onde Winona Ryder, no auge de seu talento, é a princesa prometida, seduzida por um herói vilão. São muitos conceitos em um só. É amor bruto e cinema sofisticado. Bram Stoker que nos perdoe, mas este filme deveria se chamar Drácula de Francis Ford Coppola.

Drácula de Bram Stoker EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Bram Stoker's Dracula, Francis Ford Coppola, 1992]

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Trailer: Robocop

O primeiro trailer da nova versão de Robocop, dirigida pelo brasileiro José Padilha, indica que vem por aí um filme interessante, mas, na real, nada muito diferente do que a gente poderia imaginar. O visual é de uma ficção-científica bem próxima dos dias de hoje e o uniforme negro parece sumir nas cenas escuras. O filme tem Abby Cornish, o que é bom. O filme tem Samuel L. Jackson e Gary Oldman, dois ótimos atores, que viraram arroz de festa.

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Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Christian Bale, Tom Hardy

A tela é enorme. Mesmo assim, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge mal cabe nela. O filme que supostamente encerra a trilogia dirigida por Christopher Nolan sobre o herói mascarado metaboliza a grandiosidade do capítulo anterior da saga. Tudo o que já era grande no longa de 2008 agora parece imenso. Um gigantismo que se estende pelo trabalho de câmera, segue pelos cenários e efeitos visuais e do qual não escapa nem a barulhenta trilha sonora ou a edição de som. Tudo milimetricamente planejado para criar o filme mais importante de todos os tempos.

Nolan sabe que Batman é um personagem trágico e se utiliza dessa natureza para narrar sua história em tom operístico. Nada tão monumental quanto uma ópera para dar conta de toda a violência visual de uma jornada como a de Bruce Wayne. O novo filme se passa oito anos depois dos eventos do filme anterior, mas rouba dele o tom hiperbólico e a fórmula utilizada para iniciar os trabalhos: o grande vilão da vez se revela ao final de uma longa e imponente seqüência de abertura, realizada com uma competência do tamanho de sua megalomania visual.

Impacto inicial garantido, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge vai resolver sua vida, reapresentando personagens em novas situações e introduzindo novos rostos à história, que rapidamente toma forma, colocando Bane como o principal oponente do herói. O vilão, que aparece reduzido a um brutamontes em Batman & Robin, de Joel Schumacher, retoma o caráter filosófico dos quadrinhos, embora tenha sua origem bastante transformada como enxerto para a espinha dorsal do filme. Tom Hardy, mesmo sem revelar o rosto por trás de uma máscara, está excelente. E com o corpo transfigurado. O trabalho de câmera o transforma num gigante.

Assim como Hardy, Marion Cotillard e Joseph Gordon-Levitt são acréscimos valorosos ao elenco. Ambos vieram de A Origem, mutação secundária de filme de super-heróis que Nolan dirigiu entre os dois Batmans, e entregam personagens discretos, mas com participações fundamentais à trama, que muitas vezes se assume como novelão com direito a reviravoltas e revelações tratadas com a mesma intensidade que Nolan aplica do resto do filme. Contrariando os prognósticos, quem se sai melhor é Anne Hathaway, que administra com proeza o caráter dúbio de Selina Kyle, nunca nomeada de Mulher-Gato no filme, e que ganha do roteiro um tratamento privilegiado.

E Christian Bale, quem diria?, cresceu como ator. A experiência em O Vencedor, seu melhor papel, fez a canastrice dar lugar a um intérprete correto, que agora já não faz feio ao lado de Gary Oldman, Morgan Freeman ou Michael Caine, cujo Alfred perde um pouco pela necessidade do roteiro de criar cenas sentimentais o envolvendo, ao contrário da delicadeza e discrição que envolviam o personagens nos dois primeiros filmes da série.

Há pelo menos dois momentos muito incômodos no roteiro: a cena em que o vilão revela seus planos e consegue adeptos, um clássico das HQs que poderia ter sido preterido aqui em prol da verossimilhança que Nolan tanto busca, e toda a seqüência da prisão, que apesar de servir à história do filme, parte de um pressuposto tão mal-amanhado e que dá ao herói uma “lição” tão ingênua quanto seu didatismo. Com direito a fantasminha e tudo. No entanto, o filme mais acerta do que erra. O exagero que vem em doses cavalares e domina o conjunto ganha uma execução mais do que satisfatória.

A seqüência da tomada de Gotham City, que começa com a impressionante cena de explosão já revelada no trailer e instala o caos na cidade, é exemplar, ripando boas ideias de filmes B sobre futuros pós-apocalípticos. O filme amarra as pontas da história do Batman, faz as pazes com os fãs que sentiam falta de alguns personagens, cria um desfecho que, para o bem ou para o mal, resolve a vida de todo mundo, deixando pontas que podem ou não ser aproveitadas em eventuais novos capítulos. A saga termina coerente. E Christopher Nolan pode ficar certo de que fez o filme mais importante de todos os tempos. Pelo menos na quantidade de barulho que ele deve causar.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Dark Knight Rises, Christopher Nolan, 2012]

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A Garota da Capa Vermelha

A Garota da Capa Vermelha

Catherine Hardwicke não deve ter se recuperado por não ter dirigido outros filmes da saga Crepúsculo além do primeiro porque este seu novo longa é praticamente uma cópia da plástica e do estilo que a série consagrou. A primeira semelhança está no visual de A Garota da Capa Vermelha, que radicaliza a opção pelo fake, com cenários de estúdio e muito cromaqui, efeitos visuais de segunda linha e excesso de câmera lenta.

Hardwicke já foi uma diretora melhor, mas aqui parece ter se escondido por trás de uma fórmula para atrair adolescentes interessados em ação e tensão sexual. Ambas existem de sobra no filme, mas da forma mais pasteurizada possível. O triângulo amoroso de Crepúsculo ganha uma reprise frágil. Para se ter uma ideia, o longa de estreia da saga era bem melhor. Essa nova versão de Chapeuzinho Vermelho reproduz as tentativas de transformar ficção em realidade, como Rei Arthur e Robin Hood. Como nos dois casos, não dá muito certo.

Bons atores como Gary Oldman e Julie Christie servem para chamar atenção, mas eles são conduzidos ao exagero e suas partipações, que deveriam ser um bônus, viram muito um mico. Chegar até o final deste filme foi complicado.

A Garota da Capa Vermelha Estrelinha
[Red Riding Hood, Catherine Hardwicke, 2011]

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Batman – O Cavaleiro das Trevas, um mês depois

Heath Ledger, Aaron Eckhart, Christian Bale

E, então, depois da expectativa das pré-estréias e do furor dos primeiros dias de exibição, eu fui ao cinema para rever Batman – O Cavaleiro das Trevas. Mas antes de relatar como foi minha reavaliação do filme, gostaria de lançar alguns pensamentos sobre algumas questões instaladas nos últimos dias.

Primeiro, acho formidável o êxito do filme. Até hoje, quinta, dia 7, às 22h, ele já é a sétima maior bilheteria da história em números absolutos e daqui a pouco entra nas 50 mais nos números relativos, com os valores corrigidos pela inflação. Aplaudo mesmo. É admirável porque abre espaço para uma investida mais massiva da DC Comics no cinema, porque sedimenta o próprio gênero do filme de super-herói, porque leva mais gente ao cinema. Não há nada que conte contra esse sucesso.

No entanto, é meio assustadora a devoção que esse filme gerou – e isso, antes mesmo de ter sido lançado. Um mês antes da estréia, todos já pareciam prontos para esperar uma das maiores obras-primas da história do cinema. Talvez a maior. E não se tratava apenas de fãs fervorosos do personagem ou leitores vorazes de HQs. Era todo mundo mesmo. E, com os primeiros comentários muito elogiosos, achar algo diferente disso seria pecado. Mortal. Algo como comportamento de infiel perante uma igreja intolerante. O novo filme do Batman deveria ser louvado, reverenciado, idolatrado.

Rapidamente, surgiram textos comparando o trabalho de Christopher Nolan ao de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Michael Mann, Orson Welles. No maior site de cinema do mundo, o IMDB, o filme rapidamente se tornou o melhor da História, segundo a opinião dos leitores. No fim do primeiro dia de exibição, ele já tinha a maior média de todas e 80% dos votos eram uma “nota dez”.

Esse fenômeno me parece uma conjunção de fatores: um filme de um dos heróis mais amados do planeta; um filme do herói mais respeitado e complexo do planeta; um tom sério que credibiliza as eventuais “coisas de criança” que super-heróis trazem consigo; uma embalagem grandiosa que vai desde uma seleção forte de atores até a cenas filmadas com gigantismo, o que sempre causa a impressão de “porra, que filme do caralho”; e, por fim, o réquiem de um ícone jovem, consagrado e celebrado, sex symbol e grande ator, no papel de um vilão psicótico.

Como recusar esse prato sem ser despeitado, enjoado, metido a alternativo?

Então, há exatamente um mês, eu fui ver a tal obra-prima pela primeira vez. E saí achando que havia muita coisa que me agradava no filme, mas existiam outras que não me pareciam tão legais assim. Escrevi o que achei, que o filme ficava num meio termo. Que era retórico demais em alguns momentos, que exagerava no blockbuster em outros. Choveram pedras, cuspes e canivetes. Tentei sair o mais ileso possível e terminei adiando por um bom tempo o dia de minha reavaliação. Nesta semana, num fim de tarde, eu revi o filme.

Por pontos, então:

1) o assalto, a seqüência de abertura, é muito bem filmado. Tem corpo, inteligência e um quê vintage que parece querer dominar o longa inteiro;

2) a interpretação de Heath Ledger é uma obra-prima. Cada entonação, respiro, linguinha pra fora funcionam com perfeição. É realmente uma perfomance superior, mesmo em cenas difíceis como a da enfermeira, que poderia facilmente cair no ridículo;

3) todo o conceito do personagem, o Coringa, é acertadíssimo. O psicótico, além do grande ator que ganhou, foi desenhado pelo roteiro com absoluta coerência. É um dos vilões mais bem definidos que eu já vi;

4) a série de aparições do jornalista vivido por Anthony Michael Hall, de Clube dos Cinco, que não havia me chamado atenção antes, amarra bem a história inteira, desde sua entrevista com o prefeito até seu resgate, funcionando, de certa forma, como a espinha do filme;

5) Aaron Eckhart sabe fazer a virada de seu personagem com elegância e sutileza, mesmo a mudança exigindo grande dose de violência;

6) a cena em que Alfred (Michael Caine, muito bem) decide o destino do bilhete deixado por Rachel Dawes é bem bonita, filmada de maneira simples, sem excessos sentimentais;

7) tudo funciona com o personagem de Gary Oldman, talvez a escolha mais improvável do elenco, mas que subverte tudo o que esperaríamos de uma boa interpretação de Gary Oldman. É um de seus melhores papéis;

8) o roteiro administra bem várias situações, com destaque para o atentado e a visita à casa dos Gordon, o seqüestro que termina em morte e até mesmo a canastrice de Eric Roberts como o líder mafioso. O irmão de Julia funciona direitinho;

Mas nem tudo são flores mesmo. Rever o filme só me fez ter certeza de como ele não me deslumbra nem um pouco e, às vezes, até chega a irritar:

9) a grande seqüência de perseguição é longa, cansativa e barulhenta – parece existir apenas para que o já citado “porra, que filme do caralho” pudesse ser usado sem medo de errar, mas, além de ser inflada demais, não parece fazer parte do universo do Batman, muito menos espetacular do que o de outros heróis;

10) o momento Hong Kong do filme é o supra-sumo do exagero. Pra quê aquilo? Desnecessário, tenta aproximar o herói de James Bond ou afins e é filmado como se Nolan estivesse dirigindo um carrinho bate-bate no parque de diversões;

11) a cereja mofada nesta história é mesmo Christian Bale. Tudo relacionado a ele é ruim e sem talento. Bale continua um ator medíocre inventando que é grande, como no grotesco O Operário ou no “quero ganhar uma grana fingindo que sou sério” Psicopata Americano. Caricato, careteiro, limitado. No dia em que franzir a testa for sinônimo de interpretar bem, eu fundo um fã-clube dele;

12) e a voz, hein? Me poupem;

13) até agora não entendi como não conseguiram pensar em alguma coisa melhor para explicar a evolução do traje do Batman do que a seqüência dos bat-clones com a participação do Espantalho. É simplesmente gordura. Eu cortava fácil na ilha de edição. Conseguiram deixar o uniforme do herói tão tosco quanto os de seus fãs, sob o pretexto de ele deveria ser mudado;

14) esta cena parece ter um segundo e maior motivo, que é o de questionar a influência do herói sobre o público. O que deveria ser uma grande questão moral para Bruce Wayne é tratado de forma relaxada e não convence;

15) por sinal, incomoda bastante esta tentativa de multiplicar o lado “importante” do filme. Não que eu ache que tudo é uma grande festa e que o filme é de diversão. Não mesmo. Eu levo super-heróis bem a sério, mas precisava aquele papo furado sobre heróis de verdade durante o filme inteiro? Precisava ficar explicando tão repetidamente e de forma tão didática que o Batman não é um medalhista olímpico, mas um vigilante sombrio? Praticamente todos os personagens principais do longa tem algo a dizer sobre o assunto.

Por fim, minha revisão me fez chegar à seguinte conclusão: o maior problema do filme é como ele nos implora para significar algo mais. “Why so serious?”, hein?

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Batman – O Cavaleiro das Trevas

Christian Bale, Gary Oldman, Heath Ledger

O tipo de filme que mais me incomoda é aquele sobre o qual eu não consigo dar uma palavra final. Não um decreto para ninguém, mas uma decisão para mim mesmo. “Este filme é bom” ou “deste filme, eu não gosto”. O tempo ou uma revisão geralmente faz as coisas pesarem para um lado ou para outro, mas Batman – O Cavaleiro das Trevas tem a maior cara de que vai me torturar por anos a fio. Quem lê esse blogue sabe que eu sou fã de quadrinhos desde criança, especialmente Marvel e DC, especialmente especialmente DC Comics, e que nem sempre eu sei separar meu amor pelos personagens das minhas impressões sobre o filme (nem sei se isso é realmente necessário ou se faz parte do jogo), mas eu gostaria mesmo é de gostar deste longa pelo que ele é e não pelo que ele envolve.

Mas a sensação maior depois de assistir ao novo trabalho de Christopher Nolan é incômoda, como se dois filmes convivessem dentro de um. E eles não são muito amigos. O primeiro é aquele que todos imaginavam, uma seqüência imediata do amado/odiado Batman Begins, o filme sóbrio sobre o personagem, fugindo do fantasioso mundo de Tim Burton ou dos carros alegóricos de Joel Schumacher. O cenário abre as portas para a aguardada performance de Heath Ledger como o Coringa, muito menos descontrolada ou anárquica do que se podia esperar, mas não menos genial, composta com cuidados milimétricos, uma caracterização impecável, onde o filme aposta todo o texto bom, com destaque para a cena do interrogatório.

Neste primeiro filme, estão os atores que se esforçam para que o pacote saia íntegro, como Michael Caine, que mesmo num papel resumido mostra porque está entre os melhores, Gary Oldman, que segue negando os tiques que pontuaram sua carreira, desta vez com destaque maior dentro da trama, e o grande Aaron Eckhart, que poderia ter sido facilmente engolido pela interpretação de Ledger, mas se revela o ator mais equilibrado do filme, muito bem da primeira à última vez em que dá a(s) caras. Por sinal, eu que costumo ser relutante a novas versões sobre as origens dos personagens, acho que as soluções encontradas para Harvey Dent deram muito certo.

O segundo filme que mora dentro de O Cavaleiro das Trevas é um monstrengo grandalhão, que me fez imaginar se não teriam deixado as cenas de ação sob o comando de Michael Bay. Juro. Há (muitas) seqüências tão interessadas em demonstrar o quanto podem ser barulhentas e destruidoras que eu pensei que aquilo só poderia fazer sentido para Bay ou para os fãs de Duro de Matar. Conseguiram deixar o batmóvel ainda mais feio, parecendo um modelo inacabado de tanque de guerra. Sei que era essa a idéia, mas o filme não justifica essa visão de Gotham City com a cidade dominada pelos criminosos dos quadrinhos. E, olha, não tenho nada contra filmes de ação pela ação, mas não acho que certas coisas coexistam pacificamente com outros elementos do filme.

O que combina direitinho com essa massa bruta meio disforme é a interpretação de Christian Bale – ô atorzinho tosco! – que não tem a menor idéia do que fazer com sua canastrice, ainda mais com tanta gente boa em sua volta. É até covardia comparar os embates verbais entre o protagonista e Ledger ou Eckhart, mas ele apanha até nas conversinhas mais românticas com Maggie Gyleenhaal – eficiente, assumindo o papel de Rachel Dawes. E não há ninguém que possa me convencer que não foi um sabotador que inventou aquela voz mecânica pro Batman. Sinceramente. É uma escolha estúpida, que desmoraliza qualquer diálogo.

Por sinal, quando eu disse que reservaram o melhor do texto para Ledger, não quis dizer que somente Bale perdeu com isso. Assim como no longa anterior, O Cavaleiro das Trevas também peca por ser muito didático. Existe uma idéia que percorre todo o filme que é a de diferenciar o Batman dos heróis tradicionais ou mesmo de um herói. É uma idéia meio ingênua porque qualquer pessoa com o mínimo de informação, que não precisa ter lido uma HQ na vida, sabe que o Batman não é o Superman ou Capitão América. No entanto, o roteiro de Christopher e seu irmão Jonathan Nolan tem umas idéias interessantes, como o debate ético entre Bale e Morgan Freeman sobre a criação de um sistema espião, que lembra o Irmão Olho das HQs. É quando percebemos a moral discutível do vigilante.

É dessas diferenças que se constrói o filme. Há um espaço farto para que os bons atores entrem em cena, um cuidado para arrendorar personagens, uma decisão corajosa de deixar alguns personagens para trás e um certo esforço para que a investigação central do filme tenha alguns elementos detetivescos, mas também há muita preocupação em atrair platéias com piadas (quando elas vêem de Michael Caine ou Heath Ledger até as ruins ficam boas) e, sobretudo, com as explosões, perseguições e resgates que transformam um filme num blockbuster. Não consigo saber o que pesa mais. Não quero ser condolescente nem injusto, por isso, por enquanto, por agora, eu prefiro mesmo o meio termo.

Batman – O Cavaleiro das Trevas EstrelinhaEstrelinha½
[The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008]

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Harry Potter e a Ordem da Fênix

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Eu comecei a ler quadrinhos com uma revista que mostrava uma aventura dos Novos Titãs, o grupo de sidekicks (os parceiros adolescentes) dos heróis mais famosos da DC Comics. Os Titãs eram diferentes de todos os heróis que eu conhecia. Suas histórias mostravam muito mais seu cotidiano do que lutas espetaculares ou grandes sagas. Elas existiam, claro, mas eram minoria. Asa Noturna, Moça Maravilha, Kid Flash, Ravena, Mutano, Cyborg e Estelar eram adolescentes que começavam a ensaiar seus primeiros passos solo, encarando o mundo.

Assistir a Harry Potter e a Ordem da Fênix me fez lembrar muito dos Titãs. No quinto filme da série, Hogwarts é cenário de uma revolta juvenil. O motivo em questão tem menos a ver com hormônios e mais com responsabilidades. Os meninos da escola de mágicos se unem porque somente assim têm chances frente a um mal tão desconhecido quanto assustador. Mal que pode fazer com que eles, meninos, morram, deixem de existir, percam seus queridos, percam o mundo como conhecem.

O novo longa impõe ao grupo o peso de uma idade adulta precoce contra o que está errado e contra a ditadura. Desta vez não apenas Harry está na contramão. Ele e seus fiéis Ronnie e Hermione ganharam aliados, que ainda não sabem muito bem como administrar seus dons, mas que foram um grupo de verdade, como os Titãs, aprendendo juntos como passar para a próxima página. O texto de J.K. Rowling, traduzido para o cinema por Michael Godenberg com mesma precisão que Marv Wolfman fazia nos quadrinhos que eu lia é emocionante.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Diante de um material mais rico, o diretor estreante na série, David Yates, vindo de séries da TV britânica, conseguiu resultados impressionantes. Primeiro, trabalha sem excessos. Na mesma medida em que o filme tem momentos mais dramáticos, em que ressalta laços familiares e, sobretudo, laços de amizade, não há cenas chorosas, muito menos pieguice. A delicadeza é a escolha certeira, como nas flores que emolduram o primeiro beijo de Harry ou nos encontros com a família Weasley.

Yates também é seguramente o melhor diretor de atores de todos os filmes. Além de revitalizar as interpretações de Rupert Grint e Alan Rickman, escanteados em tempo e espaço no longa anterior, aproveita melhor tanto Daniel Radcliffe quanto Emma Watson, ambos muito bem, deixa Gary Oldman num tom certíssimo e nos apresenta duas novas e excelentes aquisições: a primeira é a estreante Evanna Lynch, dona de um olhar incômodo e de algumas das melhores cenas sem ação ao lado de Harry. A segunda é Imelda Staunton, uma vilã genial, neurótica e nervosa. Candidata séria a melhor atriz coadjuvante do ano.

Eu falei de ação, não é? Pois é, assim como nas HQs dos Titãs, ela quase inexiste no filme, que só fica mais ‘animadinho’ na meia hora final. Mas a falta de cenas de ação é recompensada com a excelência e a unidade da direção de Yates, que fez o mais bem decupado dos filmes. Apesar disso, o cineasta sabe dar textura dramática às cenas em que se precisa de esforço físico. A primeira cena é filmada de maneira inédita na série, com sua câmera trêmula. O duelo na sala das profecias também é exemplar nesse sentido.

À medida em que o tempo passava, meu amor pelo filme só fazia aumentar. Gostava de tudo, de todos. Saí de Harry Potter e a Ordem da Fênix exatamente como quando terminava de ler uma revista dos Titãs. Morrendo de vontade de chegar a continuação.

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[Harry Potter and the Order of the Phoenix, David Yates, 2007]

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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Há um certo preconceito intelectual com o universo de Harry Potter, a criação milionária da inglesa J. K. Rowling. A pequena massa culta estranha um personagem popular surgido em meio a uma realidade fantástica, que gera livros em série e mais games, filmes, camisetas, bonés e bonequinhos. O bruxinho criado por Rowling é visto mais como produto com fins lucrativos que como obra. Potter, numa visão simplificada da questão, é raso, fácil e com um forte poder de abstração do que realmente conta. O primeiro problema talvez seja estabelecer o que realmente conta. O segundo, e talvez mais grave, é desconhecer a obra em si por preconceito – e falar mal dela mesmo assim.

Harry Potter, no entanto, não é apenas o maior fenômeno da literatura infantil dos últimos vinte ou trinta anos. É a maior criação literária destinada a este perfil de público leitor neste mesmo período de tempo. Uma elaborada criação literária, é verdade, que incorpora mitologias, lendas e fábulas para contar uma história sobre um menino que começa a virar homem. Bobinho, não é? Ingênuo. Mas Potter é exatamente isso. Um menino crescendo. Um garoto que descobre a cada dia, com cada situação, que o tempo passa e provoca mudanças nele e em seus amigos. Transformações no corpo e na mente. E realmente não há nada de fantástico nisso. Qualquer um que está lendo este texto enfrentou essas transformações, mudou com estas mudanças.

O melhor de Harry Potter é como sua autora consegue criar um ambiente de fascínio e identificação sugerido pela palavra. Rowling é uma escritora extremamente popular e muito talentosa. Um talento talvez bem limitado de acordo com visões mais exigentes, mas é inegável sua capacidade de envolver o leitor através de um universo que estava em desuso, num lento processo de decadência e de esquecimento. Bruxos, criaturas míticas, seres malvados deixam mais carinhosa a relação de quem lê com o que está no papel. Harry Potter exalta o lúdico e a criança. Talvez seja por isso que as duas primeiras investidas do bruxo no cinema sejam dois filmes para a criança. Dois filmes bons, mas dois filmes feitos para o público infantil.

O diretor Chris Columbus assumiu o compromisso de dirigir uma aventura para meninos e meninas. E fez isso duas vezes. A Pedra Filosofal (01) e A Câmara Secreta (02) são belos trabalhos para um público específico. A terceira incursão do personagem no cinema reverte tudo isso. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban evolui significativamente em relação aos filmes anteriores: é uma história sobre meninos crescendo. O melhor é que o longa não se estrutura sobre as obviedades da concepção de responsabilidade ou o amadurecimento em troca da infância. O filme é sobre olhar para o mundo de uma maneira nova.

Harry, Hermione e Ron dominam filme. Tudo gira em torno deles, o que até prejudica um pouco a participação dos adultos veteranos do elenco. Maggie Smith, por exemplo, tem uma pequena cena. Mas em compensação a opção do novo diretor Alfonso Cuarón (do belo A Princesinha, 95) por priorizar o trio permite as mudanças de tom do filme. O Prisioneiro de Azkaban é o Potter mais sombrio dos que já chegaram às telas. Como o humor de um adolescente. O mundo não é mais tão colorido e o esplendor visual pode vir da figura macabra de um dementador, a nova criatura mágica criada por Rowling. A magia, por sinal, é a grande novidade deste terceiro capítulo da série. No filme, os garotos finalmente se mostram bruxos. Os feitiços são mais visíveis e o universo místico está espalhado por todas as cenas, sobretudo as que revelam mais um pouco do passado do protagonista e acenam para seu destino.

O diretor recém-chegado foi feliz na escolha dos novos integrantes do elenco: Gary Oldman e David Thewlis, ambos perfeitos, e Timothy Spall, em ritmo acelerado. Emma Thompson é que não escapa do exagero na caracterização da nova professora. Michael Gambon é um grande ator, mas seu Dumbledore dá bastante saudade de Richard Harris. No entanto, o grande destaque do novo elenco é o hipogrifo criado pelas maravilhas da tecnologia que permitiram uma cena de absoluto deslumbre visual.

A chegada de Cuarón e de suas intenções de investigar os adolescentes em formação ganhou uma ajuda inusitada: o crescimento dos três pequenos protagonistas. É o melhor desempenho de Daniel Radcliffe na série. Nos dois filmes anteriores, Harry estava à sombra de personagens mais ricos em nuanças como Hermione e Ron, os contrapontos cômicos para o bom menino. Agora, com mais espaço, Radcliffe está seguro, com presença mais marcada. Melhor ator mesmo (embora Emma Watson ainda tenha a grande performance do filme – no primeiro, era até covardia compará-los). É curioso perceber que ao deixar Harry, Hermione e Ron no comando, Cuarón foi responsável por uma quase-dicotomia: O Prisioneiro de Azkaban é o mais adolescente dos três filmes. E também é o longa mais adulto. Mistérios de quem está crescendo.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, Alfonso Cuarón, 2004]

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