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Heli

Heli

O cinema mexicano cada vez mais tenta se afastar dos melodramas que fizeram sua época de ouro e dos conhecidos excessos de sua teledramaturgia. A solução seguida pela maioria dos diretores da nova geração é apostar na aridez e no explícito para criar um cinema, se não original, pelo menos uníssono. Heli, de Amat Escalante, que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes, investe exatamente numa narrativa áspera para apresentar seus protagonistas, todos condenados à uma vida de miséria.

Escalante não quer que tenhamos pena de seus personagens. Parece mais genuíno para ele, assim como para seus colegas cineastas, que a própria natureza do México interiorano, arcaico, quase primitivo, comova os espectadores. Os atores são dirigidos para que economizem em suas interpretações, assim como o próprio diretor economiza em sua dramaturgia. O personagem-título e sua família entram numa sucessão de pequenas tragédias, filmadas com a crueza do deserto que os cerca, que ajudam a ilustrar como Escalante enxerga seu país.

Se renega os excessos dramáticos em favor de um cinema mais “direto”, Escalante comete outros excessos. As cenas de tortura são filmadas com brutalidade, muita brutalidade. A intenção pode ser chocar, denunciar a violência da situação específica e da situação social, mas o impacto desses excessos causam, como sempre, a impressão de que o cineasta quis fazer de seu filme, um filme importante, sincero, sem firulas, que vai direto ao ponto. Esse artifício denuncista incomoda, embora o filme pareça ter mais a dizer do que obras como Depois de Lucia, Ano Bissexto ou Batalha no Ceú. Todos mexicanos; todos com cenas chocantes.

Este último, por sinal, é assinado por Carlos Reygadas, que produz o filme de Escalante. O que Heli tem de diferente em relação a esses títulos é a importância que dá aos personagens principais, todos desenhados com certa profundidade. É curioso como o diretor empresta ao protagonista uma integridade quase inocente que não tem para onde crescer diante do cenário em que ele se encontra e que o torna maior do que o próprio filme. Heli é um rapaz que tenta viver sua vida da maneira que ele acha correta, mesmo que o México e o filme que leva seu nome pareçam torcer contra ele.

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[Heli, Amat Escalante, 2013]

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Gravidade

Gravidade

Provavelmente nenhum texto será capaz de dar conta da complexidade do trabalho de Alfonso Cuarón em Gravidade. Em seu novo filme, o cineasta mexicano atinge algo bem próximo à maestria em diversos níveis. Não se trata apenas uma ficção-científica ou de filme-espetáculo, o longa é também um exemplo de domínio técnico irrestrito, de manipulação de timing, de administração da tensão, muitas vezes física, de confecção de dramaturgia, que dá um peso extra às cenas de ação, e de direção de atores, especificamente de uma atriz.

Os talentos de Cuarón vêm sendo revelados ao longo dos anos, mas nunca estiveram tão concentrados num filme só. Gravidade é uma obra para iniciados, mas com linguagem universal. É um deleite para fãs do cinema e não apenas de um gênero. E, mais do que tudo, é um filme que preza pelo conjunto. O roteiro, que o diretor assina com o filho Jonás, é de uma sofisticação dramatúrgica raramente vista nos confins do espaço, onde a preocupação com engenhocas tecnológicas e invasões alienígenas geralmente é bem maior do que com dar textura para os personagens.

O espaço para Cuarón é a extensão de nosso planeta, por isso o cineasta faça questão de manter um tratamento realista para tudo o que acontece na tela. Embora seja completamente virtual, Gravidade é um filme perfeitamente possível. A ousadia na escolha do cenário – ao mesmo tempo amplo, mas completamente limitado quando se tem em conta que os personagens estão flutuando sobre a Terra – o diretor resolve com sua multiplicação. O roteiro costura a introdução de cada novo set, cujo revezamento acompanha a dinâmica do próprio longa.

A concepção visual é sem precendentes. Cuarón supera qualquer trabalho anterior em relação a efeitos visuais e adaptação para 3D. As cenas “externas” são verdadeiros balés, com atores e a “câmera” realizando acrobacias ininterruptas na nossa frente. A fotografia do grande Emmanuel Lubezcki, além de escandalosamente bonita, tem preocupação em tornar tudo extremamente crível. O filme inteiro é delicioso e aterrorizante de se ver. A montagem tem culpa neste terror porque sempre funciona em favor da tensão, sem recorrer a truques. O espectador acompanha tudo em tempo real e na intensidade original.

Durante seus 90 minutos, o filme é uma sucessão de longos momentos de tensão, que não dão respiro para o espectador, muito menos para a protagonista. Sandra Bullock tem aqui o melhor momento de sua carreira, não apenas por aparecer em todas as cenas do filme, mas por oferecer uma interpretação surpreendente para alguém conhecida por xaropes melodramáticos e comédias abobalhadas. Está séria, econômica, contida, sem exageros, funciona perfeitamente por si mesma e de acordo com a engrenagem do filme. Merece muito mais o Oscar do que quando ganhou, há três anos. Para Cuarón, a luta de sua personagem pela sobrevivência é uma maneira de refletir sobre solidão, destino e responsabilidades. E, mais do que isso, sobre os limites – físicos ou não – de cada um.

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[Gravity, Alfonso Cuarón, 2013]

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Festival do Rio 2013: Serra Pelada

Serra Pelada

Serra Pelada, o novo filme de Heitor Dhalia, tenta esconder suas simplificações atrás da fotografia “realista”. Realista porque, de uns tempos para cá, as imagens trêmulas viraram arma dos cineastas mundo afora para dar credibilidade às tramas de seus filmes e aos dramas de seus personagens. Basta chacoalhar a câmera para se chegar à verdade, imaginam muitos diretores, empurrando para debaixo do tapete qualquer tentativa de se aprofundar nos temas tratados. E o El Dorado brasileiro seria um tema de primeira, caso caísse nas mãos de alguém que tentasse traduzir aquele universo riquíssimo – literalmente ou não – e não apenas usá-lo como cenário para uma história qualquer.

O problema maior talvez nem seja se aproveitar da Serra Pelada para ambientar uma ficção, mas, dentro de um suposto passeio cronológico pelo lugar, ignorar fatos importantes na história do principal garimpo brasileiro, como a intervenção do governo, citada rapidamente, e passar ao largo de personagens que, em maior ou menor escala, influenciariam tudo o que acontece na tela. Por isso, antes de ver a ficção de Heitor Dhalia seria interessante assistir ao documentário que Victor Lopes passou anos para concluir. Serra Pelada: A Lenda da Montanha de Ouro é bem mais detalhista em relação às informações que este longa apresenta didaticamente no voice over de Júlio Andrade.

Esse didatismo acompanha todo o filme, que utiliza trechos de matérias do Jornal Nacional já em seus créditos. O roteiro de Serra Pelada se concentra em acompanhar a história dos dois amigos que tentam a fortuna no garimpo, mas, incapaz de dramatizar a trajetória desse garimpo, que mostra desde o começo, resolve cuspir informações sobre ele numa narração em off e não atrapalhar o fluxo da trama. Tudo é bastante sintetizado, mastigado, para não dar muito trabalho ao espectador. O primeiro plano do longa é um close up do rosto de Juliano Cazarré, que já anuncia que a história que virá não terá um final muito feliz. Ele e Andrade estão muito bem em cena, mas suas interpretações empacam na falta de profundidade do filme. As transformações do personagem de Cazarré, assim como todas as informações importantes do filme, são anunciadas pelo voice over.

A direção de arte é mais competente na recriação do universo de Serra Pelada, embora pareça servir ao mesmo propósito de didatismo que se espalha pelo filme e a preocupação é muito mais embelezar do que traduzir a época. Tanto é que, a certa altura, o espectador prefere as cenas fora do garimpo, nas cidades criadas para abrigar bares e prostitutas porque, além de serem visualmente mais estimulantes, elas concentram mais história. Os figurinos, no entanto, funcionam muito bem, sobretudo os de Sophie Charlotte, escolha estranha para o papel, mas que não chega a incomodar. Do elenco, enquanto Matheus Nachtergaele se repete, quem se destaca mesmo é Wagner Moura, que faz picadinho do texto e entrega sua melhor performance em anos. O ator devora tudo a seu redor. É muito melhor do que todos em cena; é muito maior do que o filme como um todo.

Filme que só surpreende na caracterização das Marias, as bichas garimpeiras, furiosas e agressivas, comandadas por Lyu Arrisson, o travesti de Ó Paí, Ó e Jesuíta Barbosa, a revelação do ótimo Tatuagem. O roteiro não se acanha em transformá-las em vilãs, apesar de dedicar poucas cenas para elas, sem medo de infringir as regras do politicamente correto. A ousadia de Serra Pelada morre aqui. De resto, o filme prefere trafegar pelo seguro, pelo pedagógico, mesmo sem ser muito fiel à história do garimpo, e por tudo que é plástico. E, de belas imagens, a montanha de ouro e o inferno estão cheios.

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[Serra Pelada, Heitor Dhalia, 2013]

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Festival do Rio 2013: 6 filmes europeus

Bastardos

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[Les Salauds, Claire Denis, 2013]

A trilha sonora de Bastardos, assim como a de alguns outros filmes de Claire Denis, é esmagadora. Ela parece sufocar os personagens e o espectador, mas neste novo filme a música toma proporções que assustam. É usada para reforçar o terreno em que o protagonista está pisando. A diretora preparou um carrossel de tragédias para Marco, vivido por Vincent Lindon, uma odisseia de desesperança que não encontra muitos pares no cinema atual. Denis destila seu pessimismo numa sucessão de eventos e descobertas, que ganham a forma de um thriller obscuro, prejudicado pela montagem confusa e por um certo desleixo do roteiro com alguns personagens importantes para arredondar a trama. O ponto forte do filme é mesmo sua ambiência. A cineasta cria um clima opressivo, de desconfiança, reforçado pela fotografia em tons escuros e pela citada música. Enquanto elas massacram quem assiste ao filme, Denis se perde em tentar amarrar as histórias paralelas.

Um Episódio na Vida de um Catador de Lixo

Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza, Danis Tanovic, 2013]

A fórmula é aquela consagrada pelos vizinhos romenos: atores não profissionais, câmera documental e uma vontade imensa de registrar a verdade. Numa mudança de tom, o bósnio Danis Tanovic adere ao docudrama para conseguir capturar o cotidiano dos personagens, uma família cigana, simples, que vive à sombra e das sobras da ex-Cortina de Ferro. Nazif Mujic, que ganhou o prêmio de melhor ator em Berlim, é colocado numa sinuca quando sua mulher sofre um aborto espontâneo e ele, sem dinheiro, precisa enfrentar o sucateado sistema de saúde de seu país. Mesmo que o título, Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho, particularize a situação, o longa é muito mais uma observação sobre o fracasso do socialismo na Europa Oriental e do impacto deste fracasso sobre os habitantes dos países que encontram na sucata não apenas o sustento, mas uma metáfora para sua própria condição.

Michael Kohlhaas

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[Michael Kohlhaas, Arnaud des Pallières, 2013]

Michael Kohlhaas (1881), o livro favorito de Franz Kafka, se baseou na história real de um homem que decidiu enfrentar a tirania dos nobres que o enganaram em busca de justiça. Depois de esgotar todas as possibilidades para resolver a questão, o personagem real, assim com o do livro, criou uma horda composta por criminosos e espalhou o terror pela região onde vivia, no melhor estilo Robin Hood. A novela influenciou a literatura e a política da época e este peso histórico parece ter contaminado o longa de Arnaud des Pallières. Embora plasticamente o filme pareça ser naturalista, Michael Kohlhaas, o filme, é refém do tom solene imposto pelo diretor, da primeira à cena final. O cineasta entende a grandiosidade do tema como material para um “blockbuster de autor”, como definiu o Le Monde. Essa moldura barroca, que vai desde a luz natural até a interpretação dos atores, empresta uma sisudez que parece estar um tom acima do filme, mas que combina o terreno rochoso em que vivem os personagens.

Nós Somos os Melhores!

Nós Somos os Melhores! EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Vi Är Bäst!, Lukas Moodysson, 2013]

Faz tempo que Lukas Moodysson estava em débito. Desde o solar Bem-Vindos, no distante ano de 2000, o diretor sueco não assina um filme minimamente interessante. Nós Somos os Melhores! vem suprir esta lacuna, com a história de três meninas – Bobo, Kiara e Hedvig – que, no improviso, resolvem criar uma banda de rock. A época é o início dos anos 80 e as protagonistas são, cada uma seu modo, fora dos padrões. Duas não aceitam que o punk já passou e a terceira é uma nerd que toca música clássica nos recitais da escola. O encontro das três resulta num rock meio grotesco em que elas liberam sua fúria juvenil, principalmente na música “Odeio Esportes”, uma resposta ao professor de educação física. Mesmo que trate de dilemas adolescentes, bullying e conflitos familiares, o cineasta – adaptado uma graphic novel escrita por sua mulher, Coco – dá agilidade e fluidez à trama, construindo as personagens com delicadeza, aprofundando seus dramas, mas sem vitimá-las. As meninas estão ótimas e sabem aproveitar o tom leve para cair na brincadeira.

Quando a Noite Cai em Bucareste

Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Când se Lasa Seara Peste Bucuresti sau Metabolism, Corneliu Porumboiu, 2013]

O novo filme de Corneliu Porumboiu é um exercício de metalinguagem. O diretor do ótimo Polícia, Adjetivo recicla a estética de seus trabalhos anteriores com uma câmera fixa que emoldura longos diálogos na história sobre a relação entre um diretor de cinema e a protagonista de seu filme – e sua amante. Observador da rotina, o cineasta mais uma vez utiliza a repetição para costurar sua linguagem, reprisando aqui especialmente o ensaio de uma das cenas do longa que os personagem rodam. A primeira conversa remete a Dez, de Abbas Kiarostami, com os dois protagonista percorrendo a cidade de carro. A câmera é colocada nas costas deles enquanto os dois divagam sobre o futuro do cinema, romeno ou não. Pela boca de um deles, Porumboiu fala sobre as vantagens do cinema digital enquanto afirma que foi formado pelas limitações da película, como se tentasse justificar algum tropeço, mas no fim o diretor parece elogiar a longevidade da arte que resolveu abraçar.

Sonar

Sonar
[Echolot, Athanasios Karanikolas, 2013]

Um grupo de amigos se reúne para homenagear um companheiro morto. O ponto de partida é o mesmo de diversos longas, mas o diretor Athanasios Karanikolas evita refilmar O Reencontro pela enésima vez. No entanto, para trazer seu diferencial para a questão, ele apela para devaneios estéticos que se alternam com minimonólogos em que cada personagem conta um pouco de sua relação com o amigo morto. A combinação destas duas propostas não funciona muito bem. A festa, em que a turma celebra a vida e se despede do colega, tem muitas cenas sem diálogos, filmadas muito bem, em que o movimento dos corpos sem muita explicação termina anestesiando a necessidade de um roteiro, mas esses delírios plásticos são interrompidos pelas “entrevistas” e o resultado fica bagunçado de novo.

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Festival do Rio 2013: A Garota de Lugar Nenhum

A Garota de Lugar Nenhum

Michel Deviliers vive sozinho num apartamento enorme há 29 anos, desde que a esposa morreu. Nesse tempo, aprendeu a conviver com a solidão, discutir a arte e a questionar a fé. Homem cético, ele escreve um livro sobre os mitos presentes em todas as religiões, vive sua crença da descrença. Sua clausura física e espiritual é quebrada com a chegada de Dora, uma jovem que ele resgata das escadarias de seu prédio, enquanto ela era espancada por um namorado. A presença de mulher mais de 40 anos mais nova em sua casa instiga Deviliers, tanto pelo debate intelectual com a hóspede quanto pela beleza da jovem.

Em A Garota de Lugar Nenhum, Jean-Claude Brisseau se afasta do erotismo que sempre esteve intimamente costurado à confecção de seu cinema. Lá pelo meio do filme, um personagem secundário cita Platão ao afirmar que a idade traz serenidade para compensar a falta do desejo carnal. E o diretor parece mais sereno mesmo. O jogo de sedução existe, mas é muito maior do que apenas sexo (ou amor, como se queira). O embate de gerações, os discursos complementares, o “casamento” de almas levam o protagonista a enxergar na visitante uma alimento para sua essência, uma resposta para suas angústias, uma herdeira para seus questionamentos.

Deviliers investe das mais variadas formas sobre Dora, enquanto ela se mantém distante, resguardada. Seu mistério se torna irresistível para o protagonista. Mas não apenas isso. O professor, outrora resistente a qualquer religiosidade, enxerga Dora como seu instrumento de salvação. A chegada da jovem, que afirma ter visões e prever o futuro, coincide com o surgimento de sons estranhos e a aparição de fantasmas no apartamento. Esse ambiente metafísico parece convencer o protagonista da iminência da morte, mas é um cenário para que o cineasta filosofe sobre cumplicidade e liberdade.

Afinal, o que pode ser mais libertário do que conversar com fantasmas na sala do apartamento. Essa liberdade com que Brisseau conduz a narrativa é semelhante á liberdade que o professor procura em Dora. É a liberdade de se sentir vivo, na arte ou no amor.

A Garota de Lugar Nenhum EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[La Fille de Nulle Part, Jean-Claude Brisseau, 2013]

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Festival do Rio 2013: Apenas Deus Perdoa

Apenas Deus Perdoa

A personagem de Kristin Scott-Thomas em Apenas Deus Perdoa bem que merecia uma vaga no elenco de Drive, filme anterior do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn. O casamento seria mais fiel tanto à qualidade do longa do motorista solitário quanto à força da performance da atriz. A mãe do crime que a inglesa interpreta parece sempre estar à margem da história deste novo trabalho, basicamente um filme de samurais ultraviolento, estilizado e rodado na Tailândia, é mais um caso em que intenções nem sempre se transformam num bom produto final.

Apenas Deus Perdoa não é um filme ruim, mas parece refém de seu projeto estético, que é um projeto estético que Refn vem desenvolvendo há anos. O diretor segue uma espécie de jornada em busca do filme mais cromático possível, embalando as aventuras de seus personagens numa fotografia que abusa – abusa mesmo – de filtros e angulações e de uma direção de arte limpa, mas que quer parecer suja. A fotografia cria belíssimos quadros – muito valeriam ótimos posts exibicionistas nas redes sociais -, mas o filme nunca tem o mesmo impacto dos outros trabalhos do cineasta. É a cobra que morde o próprio rabo.

Refn até tenta: Ryan Gosling, em sua segunda parceria com o diretor, reprisa os cacoetes de seu protagonista em Drive, vivendo Julian o dono de uma academia de artes marciais em Bangcoc que se vê envolvido numa trama policial quando seu irmão é assassinado depois de ter cometido um estupro. A chegada da personagem de Scott-Thomas, insinua uma relação especial entre mãe e filhos, que parece tentar por uma espécie de Complexo de Édipo explicar alguns comportamentos, também insinuados, de Julian.

No entanto, Julian não parece ser o protagonista do filme. Vithaya Pansringarm, que faz o policial responsável por investigar o assassinato e que multiplica a violência do longa, é um samurai moderno, que, na composição de Refn, vive entre as ameaças e o karaokê. É ele que conduz a narrativa, é ele quem movimenta os outros personagens, é ele quem tem as cenas mais fortes da trama. Mas é ele também que tem sua função esvaziada pela preocupação excessiva com a estética. É ele que some entre as cores com que Refn emoldura Ryan Gosling e que fazem de Apenas Deus Perdoa somente um filme correto, um pecado para um diretor que já foi bem além.

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[Only God Forgives, Nicolas Winding Refn, 2013]

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Festival do Rio 2013: 5 novos filmes de diretores famosos

Novos nomes aparecem aos montes nas listas de grandes festivais, mas muitos diretores experientes também dão o ar da graça. No Festival do Rio 2013, cineastas com 50 anos de carreira como Andrzej Wajda apresentam seus novos filmes ao lado do francês François Ozon, do americano Gus Van Sant, do inglês Terry Gilliam e do japonês Takeshi Kitano. Nomes que sempre atraem, mas que nem sempre acertam.

François Ozon

Jovem e Bela EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Jeune & Jolie, François Ozon, 2013]

A estrutura de Jovem e Bela, divido nas quatro estações de um ano em que a protagonista decide se prostituir, pouco acrescenta a essa investigação sobre a sexualidade juvenil, embora este seja o melhor filme que François Ozon dirigiu nos últimos oito anos. Se o parisiense parece não ter encontrado a moldura adequada para contar sua história – o corte em capítulos é lugar comum, inclusive -, sua reflexão sobre os dilemas de uma garota que descobre as possibilidades de seu próprio corpo ganha ares existencialistas. O espectador acompanha a personagem durante um ano, conhecendo suas dúvidas e curiosidades. Ozon nunca impõe uma verdade para Isabelle. Parece estar descobrindo, junto com, ela, o que a motiva e quais são seus desejos. Não existe questão social ou econômica envolvida, o que torna a trilha seguida pela protagonista mais sedutora. Tanto quanto a própria. A modelo Marina Vacht, estreante, impressiona pela beleza e por conseguir traduzir tanto a frigidez quanto a fragilidade da personagem. A embalagem de suspense psicológico ajuda a manter uma tensão constante.

Outrage: Beyond

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[Autoreiji: Biyondo, Takeshi Kitano, 2012]

O Ultraje fez tanto sucesso no Japão, além de ter participado de festivais internacionais, que Takeshi Kitano resolveu mergulhar mais uma vez no universo da Yakuza com os mesmos personagens do filme de 2009. Todos eles voltam nesta sequência, disputando ainda mais acirradamente o poder dentro da máfia japonesa. O filme parte da libertação de Otomo, vivido pelo próprio Kitano, que todos julgavam morto, mas havia sido preso depois de ser traído por seu ex-assecla Ishihara, Ryo Kase em estado de graça. A partir daí, o cineasta amarra uma trama clássica de filmes sobre a Yakuza, centrada em jogos de poder, que desta vez mostram até o envolvimento de políticos. O fator Kitano entra em ação para temperar o negócio com violência excessiva e humor negro numa embalagem pop, como na ótima cena do assassinato com bolas de beisebol.

Terra Prometida

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[Promised Land, Gus Van Sant, 2012]

Gus Van Sant costuma alternar seus filmes mais ousados, como Gerry e Elefante, com obras mais convencionais, que nem por isso são desinteressantes. Terra Prometida é um filme de bom moço do diretor. A história sobre um funcionário de uma grande corporação que tenta convencer os moradores de uma cidade no interior dos Estados Unidos a autorizar a exploração de gás natural na região é cheia de idealizações, mas tem seus méritos. John Krasinski e Matt Damon, ambos atores do filme, escreveram o roteiro, que foge do denuncismo ecossocial para construir personagens e capturar o clima rural americano com delicadeza. A trilha e a fotografia, que sempre utiliza planos abertos para dar a dimensão do lugar, ajudam a tornar o filme mais “caseiro”. Nenhum ator está especialmente bem, mas todos parecem estar nos papeis certos.

Walesa

Walesa, o Homem da Esperança EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Walesa, Andrzej Wajda, 2013]

Biografar um líder sindical que se tornou presidente de um país da antiga Cortina de Ferro sem cair em maniqueísmo e reverência parecia missão impossível, mas o veterano Andrzej Wajda, embora não fuja do didatismo em relação ao personagem, fez um trabalho admirável. Já na primeira cena, o cineasta mostra que não vai ser (muito) condescendente com o amigo Lech Walesa: “ele mora num apartamento cedido pelas pessoas que ele combate?”, pergunta a jornalista italiana, abrindo espaço para as idiossincrasias do polonês. Wajda filma com muita competência, alternando filtros e movimentos de câmeras, como na cena do interrogatório de Walesa, em que a tensão é basicamente construída pela confusão. A trilha sonora, basicamente o punk rock que era a música de protesto da época no país, ajuda a dar uma textura diferente para o filme. Robert Wieckiewicz incorpora a energia do personagem numa interpretação vigorosa. Embora seja um filme com uma função clara – homenagear um “herói” -, Walesa, o Homem da Esperança é menos oficial do que possa parecer.

The Zero Theorem

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[The Zero Theorem, Terry Gilliam, 2013]

A verdade é que as pirações de Terry Gilliam faziam mais sentido – ou funcionavam melhor – uma, duas décadas atrás. O cineasta de Brazil, o Filme e Os Doze Macacos retorna à ficção-científica num filme que tem um plot promissor: uma espécie de megahacker prestes a descobrir a razão da existência do homem é interrompido pelo sistema sempre que se aproxima da verdade. A ideia fascinante morre na proposta. Gilliam não acerta a mão no humor e as questões sérias viram piadas multicoloridas (por sinal, a direção de arte, sempre um trunfo no cinema do homem, é insuportável). Nem a brincadeira com Matrix, nem a ponta de luxo de Matt Damon ajudam a dar alguma substância para o filme. Christoph Waltz tenta encontrar o tom, mas é levado pro buraco negro das boas intenções.

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Festival do Rio 2013: Tatuagem e mais três filmes gays

A sexualidade cada vez mais encontra maneiras sofisticadas e diferentes de ser retratada no cinema. Na edição 2013 do Festival do Rio, grandes filmes como Um Estranho no Lago, já resenhado em outro post, e Tatuagem abordam questões gays de forma transgressora. O filme de Hilton Lacerda, que ganhou o Festival de Gramado, está entre os melhores longas nacionais dos últimos 20 anos. O Filmes do Chico lista aqui uma série de filmes que dão perspectivas diferentes para aspectos da homossexualidade.

Tatuagem

Onde Hilton Lacerda estava escondido nos últimos dez anos? Bastou o roteirista sair da sombra de Cláudio Assis, de quem escreveu todos os longas, para se revelar um provocador romântico com uma extrema consciência do mundo em que vive, mas com uma leveza para dar fluxo a suas ideias e uma sofisticação sem par para materializar as cenas que imagina. Tatuagem, sua primeira ficção, é um assombro. Seja pelo extremo cuidado com as imagens, a trilha e som; seja por causa do requinte do texto, atento ao Brasil de 1978, mas sem ranço sindicalista.

A sutileza, esse talento incomum que o diretor revela para movimentar sua história, deveria esbarrar na militância de Assis, para quem a provocação nunca foi suficiente. Era preciso ir para a guerra. Sem ter que dividir responsabilidades e méritos com o amigo, Lacerda fez um manifesto político apaixonado que, sem grandes eventos morais, acha numa pequena história sobre encontros e desencontros, o espaço ideal para dar voz ao autor. Ele veste as fantasias dos atores do grupo de teatro cuja trajetória acompanha para acomodar seu discurso libertário.

Várias vezes ao longo do filme, na boca de seu protagonista Clécio – Irandhir Santos, talvez o melhor ator brasileiro desta década -, o cineasta explica sua revolução. As apresentações e os números musicais que concebe em riqueza de detalhes para o filme são transgressão pura e simples. O mais radical deles é uma “ode ao cu”, reverenciado como instrumento revolucionário máximo. A cena, brilhantemente fotografada, assim como todo filme, é mais forte do que qualquer arroubo de Cláudio Assis. Lacerda contrapõe militares e artistas, mas são esses que se assumem como soldados. Soldados da mudança.

A cena de sexo entre Clécio e Fininha, personagem do novato – e ótimo – Jesuíta Barbosa, é belíssima: longa, coreografada como um balé, sensual e quase explícita. De uma ousadia que deixa qualquer Sergio Bianchi no chinelo. O momento, explosivo como quase tudo em Tatuagem, também é de uma delicadeza extrema como na cena em que o casal dança ao som de A Noite do Meu Bem. Mesmo quando recicla ideias e símbolos desgastados, como esta canção, Lacerda encontra o tom para encaixá-los na linha da vida de seu filme. História e trangressão caminham lado a lado. E de mãos dadas.

Da direção de fotografia ao desenho de som, da trilha sonora ao texto, das interpretações à montagem. Tudo é lindo e tudo é vivo em Tatuagem. Não existe escândalo na aproximação entre o diretor do grupo de teatro e o soldado. Não existe estranhamento no fato de um homossexual assumido ter tido um filho com uma mulher bem resolvida. Não existe tratamento diferente para as afetações e os trejeitos de personagens como Paulete. A viadagem também era a vida em 1978, diz Lacerda. Cabe ao mundo, atrasado, acompanhar.

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[Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013]

Um Dia Desses

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[Any Day Now, Travis Fine, 2012]

A alcunha de “baseado em fatos reais” parece ser motivo suficiente para que um filme tente se impor como obra importante. A trama de Um Dia Desses é simpática e cheia de boas intenções – um casal gay tenta adotar uma criança com síndrome de down nos anos 70 -, mas a realização do filme deixa bastante a desejar. O maior problema talvez seja que o diretor nunca consegue reunir elementos necessários para que o espectador acredite no casal. O lado musical do personagem de Alan Cummings, que parece agora se dedicar a filmes segmentados, nunca encontra um espaço correto para se inserir na trama. Garret Dillahunt não acerta o tom, exceto no seu discurso final no tribunal. O Marco de Isaac Leyva é adorável, mas isso não faz de um filme um filme bom.

Eu Sou Divine

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[I Am Divine, Jeffrey Schwarz, 2013]

De Baltimore para o mundo, este documentário convencional sobre um protagonista espetacular tenta traduzir Divine, a drag queen que protagonizou os filmes de John Waters e se tornou ícone pop em meados dos anos 70. O trabalho de pesquisa é excelente e revela um personagem complexo, diferente das informações que tínhamos dele. Jeffrey Schwarz reuniu um material invejável para construir essa trajetória, incluindo entrevistas com Waters, a mãe de Divine e vários de seus amigos e parceiros de trabalho. Além dos longa estrelados pela drag queen, há muitos vídeos de suas apresentações em casas do shows.  O trabalho de arte valoriza e multiplica as  imagens, ajudando a seduzir quem assiste ao filme com Divine seduzia quem estava em volta dela.

Hawaii

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[Hawaii, Marco Berger, 2013]

Terceiro filme com temática gay do argentino Marco Berger, Hawaii sofre pela falta de um conjunto dramático mais substancial. A proposta do longa parece herança das minúsculas tramas do cinema pornô, cheia de coincidências absurdas e deixando ganchos para que a ação siga em frente, o que deveria, mas não acontece muito bem. O jogo de sedução entre os dois protagonistas não obedece a timing algum, parece oco, fora de lugar e principalmente esticado. Se fosse um curta de 20 minutos, talvez fosse mais feliz. O resultado é que os dois atores têm que lidar com um imenso vazio. A sequência final, que explica o título do filme e soluciona a questão, é o único momento em que a trama avança.

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Festival do Rio 2013: 5 filmes polêmicos

Filmes com temas polêmicos ou imagens chocantes não faltam no line up do Festival do Rio. Além do ótimo O Ato de Matar, documentário sobre o massacre na Indonésia, o evento traz filmes como cenas de tortura, sexo explícito, adolescentes usando drogas, atores pornôs e estrelas em momentos de escatologia. Veja cinco exemplos:

The Canyons

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[The Canyons, Paul Schrader, 2013]

Paul Schrader tenta convencer o espectador de que a história que ele está contando é importante. Para os papeis principais, ele escala uma atriz decadente, que, entre uma temporada e outra na prisão, tenta reerguer o que sobrou de sua carreira, e um ator pornô. Mas a simples presença de Lindsay Lohan, de cujo comportamento o próprio cineasta afirmou ter se tornado “refém”, não garante a substância que o filme pretende ter. A escolha de uma protagonista decadente não significa que o cineasta desvendou a decadência dos bastidores do mundo do cinema em Hollywood.

Um Estranho no Lago

Um Estranho no Lago EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[L'Inconnu du Lac, Alain Guiraudie, 2013]

Este filme já apareceu antes por aqui. A cada dia que passa, Um Estranho no Lago cresce na memória. A cena final do filme é espetacular, radicalizando a discussão que Alain Guiraudie faz sobre até onde vai o desejo (e talvez o amor). O diretor propõe uma operação curiosa: passa boa parte do filme sendo explícito, há nus frontais e de sexo oral, em cenas que dissecam um ambiente de pegação gay, e repetitivo, causando a banalização das imagens e, desta forma, invadindo os desejos do protagonista. Guiraudie filma o fluxo dos personagens sem romantismo, mas parece apaixonado pelo movimento circular daqueles homens em busca de saciedade. Econômico, o longa é todo rodado em cenário único, às margens de um lago, utilizado como ponto de pegação por homossexuais de todas as idades. que serve para estudar o comportamento gay. As cenas noturnas são as mais bem filmadas, com o mínimo de luz insinuando os personagens.

Heli

Heli EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Heli, Amat Escalante, 2013]

Se renega os excessos dramáticos em favor de um cinema mais “direto”, Amat Escalante, em Heli, comete outros excessos. As cenas de tortura são filmadas com brutalidade, muita brutalidade, e com imagens explícitas de espancamento e até queimadura de órgãos genitais. A intenção pode ser chocar, denunciar a violência da situação específica e da situação social, mas o impacto desses excessos causam, como sempre, a impressão de que o cineasta quis fazer de seu filme, um filme importante, sincero, sem firulas, que vai direto ao ponto.

Obsessão

Obsessão Estrelinha
[The Paperboy, Lee Daniels, 2012]

O conceito da personagem de Nicole Kidman é interessante: uma mulher que não consegue represar sua sexualidade, o que termina agravando seu estado mental, já bem frágil. A insistência de Lee Daniels em invadir o terreno do ridículo é ousada, mas o diretor fraco não consegue dar conta do projeto e o ridículo, em vez de tentativa de linguagem, vira ruim mesmo. Kidman é bastante prejudicada por isso. Pega um papel medíocre e devolve com uma interpretação meia-boca. A cena em que ela urina no personagem de Zac Efron, que não está ruim, além de não ter o mínimo impacto, é completamente gratuita. Onde foi parar aquela grande atriz?

Spring Breakers

Spring Breakers: Garotas Perigosas Estrelinha½
[Spring Breakers, Harmony Korine, 2013]

Se fosse só um filme alienado e amoral que retratasse o comportamento alienado e amoral do jovem americano, Spring Breakers seria muito mais interessante, mas esse negócio de querer fazer poesia com câmera lenta e “reflexão” sobre a perdição da juventude não leva Harmony Korine muito longe de um Kids, que ele mesmo escreveu, com garotas de biquini e machine guns. O diretor acompanha suas quatro protagonistas na versão americana para a Semana do Saco Cheio, a “pausa da primavera” do título, em que os estudantes ganham folga antes de voltar ao batente. Nesse intervalo em que vale tudo, as moças vão parar na Flórida, onde se envolvem com álcool, drogas, sexo e um assalto, um cardápio perfeito para Korine divagar sobre o futuro de uma geração.

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Festival do Rio 2013: 5 documentários

O Festival do Rio geralmente apresenta uma fartura de documentários de temas variados. A edição 2013 está especial para quem gosta do gênero, com filmes que retratam desde o movimento punk até a drag queen Divine. O Filmes do Chico seleciona aqui cinco longas cujas temáticas e cujos realizadores já os deixam entre os imperdíveis do festival.

O Ato de Matar

O Ato de Matar, Joshua Oppenheimer

O filme de terror mais assustador do ano é O Ato de Matar, uma obra que prova que o verdadeiro mal está muito mais perto do que se imagina. O terror desta coprodução entre Noruegua e Dinamarca não vem de fantasmas, criaturas mitológicas ou eventos sobrenaturais. Seus parentes mais próximos são os filmes de psicopatas e os longas de tortura que foram redescobertos na década passada. Mas ao contrário destas obras de ficção, o que assusta neste filme é o quanto ele é real. Em lato sensu e stricto sensu.

O Conhecido Desconhecido

O Conhecido Desconhecido: a Era Donald Rumsfeld, Errol Morris

Documentarista de mão cheia, sempre interessado em personagens da política americana, Errol Morris escolhe o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, como objeto. Mais do que contar a vida deste homem, ele tenta traduzi-lo. A entrevista tenta explicar sua visão de mundo e como esse ex-congressista foi um dos principais idealizadores da Guerra do Iraque e da paranoia americana contra o terror.

Em Berkeley

Em Berkeley, Frederick Wiseman

Aos 83 anos, Frederick Wiseman se revela um maratonista. É preciso disposição para encarar os 244 minutos de Em Berkeley, novo trabalho de um dos maiores documentaristas do mundo. Ao contrário da tendência natural do cinema de não-ficção dos dias de hoje, que pressupõe intervenções do diretor em relação ao objeto, Wiseman passeia com sua câmera pelo campus da universidade americana que batiza o filme para mostrar o detalhes de seu dia-a-dia, revelar seus personagens e compreender os desafios de comandar uma instituição como essa.

O Espírito de 45

O Espírito de 45, Ken Loach

Conhecido por suas ficções que retratam fatos históricos, como Ventos da Liberdade, ou que decifram o britânico comum, caso de Meu Nome é Joe, Ken Loach dirige um documentário sobre um ano-chave para o mundo atual, 1945, o ano em que acabou a Segunda Guerra Mundial. O cineasta político usa uma vasta pesquisa de imagens para capturar o clima de reconstrução da época, que ajudou a estabelecer preceitos que a Grã-Bretanha mantém até hoje.

A Imagem que Falta

A Imagem que Falta, Rithy Panh

Possivelmente um dos filmes mais interessantes do Festival do Rio. O cambojano Rithy Pahn, sobrevivente do massacre que o Khmer Vermelho praticou em seu país e dizimou sua família, tema principal de seus filmes, passou anos em buscas de imagens que retratassem sua dor e a de seu povo. Como o material não é dos mais fartos, Pahn resolveu criar novas imagens – as imagens que faltavam – e produziu um documentário com técnicas barrocas de animação, recriando a barbárie da história de seu país.

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