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Martírio

Martírio

Parecia muito provável e muito lamentável que Martírio nunca fosse lançado no circuito comercial. Provável porque o documentário indigenista de Vincent Carelli é um filme grande (cerca de duas horas e quarenta minutos de registros de massacres de tribos no Mato Grosso) e, principalmente, porque é um filme imenso, muito além de méritos estritamente cinematográficos. Mas o filme finalmente conseguiu a chance de estrear em todo o país pela Sessão Vitrine. Em sua investigação histórico-social do tratamento dispensado aos Guarani-Kaiowás pelos fazendeiros, políticos e autoridades brasileiras nos últimos 40 anos, Carelli monta um panorama vasto, detalhado e complexo para mostrar como o preconceito e a caça aos índios são movidos por interesses econômicos seculares e já estão completamente introjetados na sociedade brasileira.

Como Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho, filme-mosaico da programação televisiva do país, Carelli utiliza muitas imagens de TV, registros de encontros, palestras e manifestações públicas e ataca frontalmente políticos e líderes nacionais, como a ex-ministra Kátia Abreu, a partir de seus próprios discursos. Um dos pontos mais grotescos capturados pela montagem do documentário é o depoimento do governador de Mato Grosso no Congresso, onde ele classifica os índios como assassinos selvagens que querem impedir que o homem branco, trabalhador, trabalhe.

No filme que resume sua vida, seu trabalho junto à causa indígena, Carelli remonta a historiografia do massacre do primeiro brasileiro, seu choro, sua luta. Há muitos momentos emocionantes no filme, mas dois são particularmente especiais: um é quando a câmera do diretor encontra o rosto de uma velhinha guarani-kaiowá que não consegue parar de chorar. Por um ou alguns minutos, é possível experimentar um pouco da dor daquele povo, expulso de sua própria terra, através das lágrimas daquela mulher.

O segundo momento é uma cena que faz desmoronar um dos pensamentos mais comuns e oportunistas contra o direito do índio, o de que a população indígena já está suficientemente mesclada à sociedade do homem branco, a de que o índio já está aculturado, perdeu sua pureza e com ela seu direito. Um entendimento que, por pouco não foi parar na Constituição, quando foi proposto que índios “aculturados” não deveriam estar aptos a ter terras demarcadas, por exemplo, como se tivessem atingido seu ápice civilizatório sendo brasileiros. A imagem que desmonta esse discurso é a de um índio, de terno e gravata, no microfone da Câmara Federal, explicando sua origem, enquanto pinta seu rosto de preto. Uma imagem para nunca esquecer.

Se tivesse apenas estas duas imagens, Martírio já seria grande, mas a obra de Vincent Carelli vai muito além do cinema. Seus méritos são muito mais humanistas do que necessariamente cinematográficos. Pelo filme único e inimitável que é, pelo fato de que nunca se poderá copiá-lo ou refazê-lo, Martírio é um marco histórico não apenas no documentário nacional ou no cinema brasileiro, mas na história do humanismo.

Martírio ★★★★½
[Vincent Carelli, 2016]

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São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi é um filme de super-heróis. Seus muitos protagonistas, que aparecem ou simplesmente estão representados na tela, passaram as três décadas registradas no longa-metragem de Lufe Steffen enfrentando vilões cruéis, como a Ditadura Militar, a Aids e, aquele que talvez seja o mais perigoso de todos eles, o preconceito. O documentário mapeia a história da noite gay paulistana desde o surgimento das primeiras casas noturnas destinadas ao público homossexual, nos anos 60, até o final da década de 80, quando o surgimento do HIV transformou a relação do ser humano com o sexo e fez muitas baixas na comunidade.

O fio condutor que o diretor utiliza para contar essa história é o aparecimento de boates e clubes gays na cidade, o que tem três funções bem importantes. A primeira é relacionar aquele a trajetória daquele universo com o próprio movimento histórico do Brasil e do mundo, exibir o contexto em que tudo aquilo aconteceu, alfinetando o Regime Militar. A segunda é devassar os costumes desse pessoal, explicando as estratégias dos homossexuais de São Paulo para driblar a Ditadura, seja em casas noturnas ou em locais de pegação. Por fim, a geografia narrativa de São Paulo em Hi-Fi apresenta ao espectador seus personagens. E é aí que o filme acerta em cheio.

Como documentário, São Paulo em Hi-Fi é um registro até bastante clássico, com depoimentos, fotos e vídeos da época sendo intercalados numa estrutura que obedece a uma cronologia de acontecimentos. Sua força maior está na maneira como ele trata e retrata seus personagens. Travestis, escritores, jornalistas, empresários, entre outros, falam abertamente sobre todos os aspectos da vida LGBT nessas três décadas, desnudando da militância ao sexo. O filme os apresenta como heróis da resistência que ajudaram a construir um universo paralelo, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade comum, que foi essencial para sua própria sobrevivência.

Os depoimentos não se furtam em invadir tabus como o sexo fácil ou os cinemas de pegação, mas o filme não trata os temas com descaso ou vergonha, nem como meros detalhes, mas como elementos essenciais para o exercício do desejo e a formação de uma consciência de classe. Os relatos de aventuras e as histórias dos bastidores da noite são apresentados como pequenas vitórias pessoais de personagens que pareciam relegados a uma vida escondida. O filme captura bem esse sentimento de libertação, que ganha força, por exemplo, em todas as declarações de Kaká di Polly, cuja língua ferina e o despudor trazem detalhes da cena gay para uma espécie de mainstream universal.

Esse talvez seja o grande trunfo do filme: Lude Steffen é muito mais carinhoso do que militante. Seu filme é muito mais histórico do que panfletário. Ele não só entende e defende seus personagens, mas com dialoga com todos. Por isso, é bem estranho que o documentário ainda tenha demorado três anos para encontrar espaço no circuito comercial brasileiro, sendo que, neste mesmo período, filmes com temática homossexual, como Hoje eu Quero Voltar Sozinho e Tatuagem, encheram cinemas semanas a fio. Um registro tão sério e um filme de memórias tão memorável merece uma plateia mais ampla, cheia de todos os tipos de super-heróis.

São Paulo em Hi-Fi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, 2013]

entrevista com o cineasta Lufe Steffen

Por que “São Paulo em Hi-Fi”, que foi exibido em 2013 no Mix Brasil, só agora conseguiu entrar em circuito? Houve preconceito em relação ao tema do filme?

Não, nunca houve preconceito, pelo contrário, o filme era sempre muito pedido, requisitado, solicitado. Mas na época eu finalizei o filme de forma mais underground, sem recursos, sem o acabamento técnico necessário, sem a arte-final que eu desejava. Somente no final de 2014, quando o filme recebeu um apoio através de um edital, é que pude finalizar a obra devidamente, cuidar da trilha sonora definitiva, fazer enfim, o “director’s cut” rs… E é essa versão repaginada que estreia agora.

A versão que chega ao Cinesesc é a mesma que vimos nos festivais? Quais as chances do filme ser exibido em outros cinemas/cidades?

Como respondi na anterior, não, a versão que estreia é um tanto diferente da versão que passou em festivais em 2013 e 2014. As chances são boas, estamos montando uma espécie de “turnê” do filme em capitais e cidades brasileiras. Inclusive vale dizer que quem quiser ajudar a levar o filme para sua cidade, basta entrar em contato com a nossa página do Facebook pra ver essa possibilidade.

A sessão no Mix Brasil foi histórica, com uma plateia que se reconhecia na tela, às vezes literalmente. Para quem você acha que é o filme? Qual o público que você pretendia atingir? Aliás, você pensou nisso?

Acho que o filme é para todos, mesmo. Quando eu estava fazendo, acreditava que o interesse principal seria para o público LGBT com mais de 40 anos. Mas conforme as sessões foram ocorrendo, me surpreendi com a quantidade de gente jovem que se apaixona pelo filme, que vem me dizer que amou, que gostaria de ter vivido nessa época e tal. Também aparecem muitas senhoras casadas com seus maridos que vêm elogiar, dizer que adoravam essa época, mesmo não tendo frequentado a noite gay. Outro dia tivemos uma sessão com um público todo de galera entre 20 e 30 anos, a maioria não gay e também foi muito bem recebido. E o público gay com mais de 40, 50, 60, 70 anos, sempre vem comentar o quanto se emocionou, o quanto se envolveu com o filme. Mesmo esse público me surpreende porque eu não imaginava que as pessoas iam se emocionar tanto. Então tem sido surpreendente. Minha conclusão é que o filme é para todos.

É seu segundo documentário sobre a noite gay paulistana. O que te fascina sobre o assunto?

Boa pergunta! A noite sempre me fascinou, sempre gostei de sair de noite nas festas e noitadas, e vivenciei a vida noturna com muito empenho e bastante inquietação. Tentei registrar, imortalizar a noite gay de São Paulo nos dois longas que fiz, na tentativa de capturar a essência dessas noites. Como se assim eu conseguisse dominar esse universo. Claro que não consegui! Acho que tem a ver com minha dificuldade em lidar com o lado efêmero da vida, e a noite é uma síntese disso: uma noite passa, e pronto. Como a vida.

Imagino que deva ter sido uma jornada para encontrar vídeos, fotos e depoimentos que retratassem as mais de três décadas pelas quais o filme atravessa. Como foi essa pesquisa?

Foi difícil, porque quase não havia (não há) registro do assunto. A noite LGBT de São Paulo só passa a ser bastante documentada a partir dos anos 90. Então foi uma batalha mesmo. A pesquisa englobou arquivos de revistas e jornais, acervos pessoais de amigos e entrevistados do filme, coleções particulares.

Não sei se você concorda, mas o cinema gay parece finalmente sair de um gueto nos últimos anos, especialmente o brasileiro. Como você vê esse momento?

Eu concordo. Parece que está mesmo acontecendo um momento de avanço. Eu, que comecei a fazer curtas de temas gays em 1997 – de lá para cá foram 9 curtas de ficção, todos ligados ao universo LGBT -, acompanhei esse processo bem de perto mesmo. Acho importante dizer que é um processo que já vem de muito antes. Um dos cineastas brasileiros que mais admiro, o Djalma Limongi Batista, fez seu primeiro curta gay já em 1968, Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora. Em 66, o Carlos Hugo Christensen – outro cineasta que adoro – já havia feito o longa O Menino e o Vento. Então no final dos 60, e durante toda a década de 70 e a de 80, vejo que muitos filmes se aproximaram da questão gay, de uma maneira ou de outra.

Na maior parte de seu tempo, “São Paulo em Hi-Fi” relata fatos acontecidos durante a Ditadura. E, nos últimos anos, o Brasil caminha para um cenário cada vez mais conservador. É justamente no meio desse processo que seu filme estreia. O que você espera dele?

Pois é, curiosamente o filme estreia nesse momento ambíguo do país, assim como foi ambígua a época da ditadura. Naquele momento, apesar da repressão e da homofobia que já existia, é claro, o universo gay conseguia encontrar brechas (ainda que no underground, na noite e nunca no dia) para se manifestar, e o filme mostra essa atitude. Hoje, vivemos um momento contraditório: ao mesmo tempo em que os direitos LGBT e a visibilidade gay aumentaram sensivelmente, enfrentamos a reação dos conservadores, reacionários, homofóbicos, manipulados e manipuladores, e hipócritas em geral. Não sei como serão os próximos anos, mas espero que o filme (assim como outras iniciativas culturais desbravadoras que tem acontecido, no cinema, no teatro, na literatura, nas artes enfim) contribua para avançarmos ainda mais, impondo mesmo o direito de liberdade, o direito de você ser quem você quiser ser. Acredito que nada é por acaso, e se o filme estreia justamente agora, é porque tem algo a dizer sobre tudo isso.

Por fim, você consegue listar 5 filmes essenciais de temática LGBT, sejam brasileiros ou não?

Vou citar só brasileiros:
O Menino e o Vento, de Carlos Hugo Christensen (1966)
Asa Branca, um Sonho Brasileiro, de Djalma Limongi Batista (1980)
Onda Nova, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins (1984)
Anjos da Noite, de Wilson Barros (1987)
Meu Amigo Claudia, de Dacio Pinheiro (2009)

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Coração de Cachorro

Coração de Cachorro

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[Heart of a Dog, Laurie Anderson, 2015]

Depois de uma década sem incursões no mundo do audiovisual, a multi-artista Laurie Anderson surpreende, aos 68 anos, com um documentário-soneto sobre o mundo, a vida, a morte e uma cadelinha chamada Lollabelle. Uma costura difícil, mas que a compositora de O Superman, conduz com bastante graça, anotando observações sobre tudo o que está a sua volta. O documentário em primeira pessoa tem ecos do trabalho de Jonas Mekas, talvez sem o mesmo tom pitoresco, mas divaga igualmente para os assuntos mais abstratos e mais distantes do que vinha imediatamente antes na linha temporal do filme, que dialoga na mesma medida com a vídeo-arte que Laurie experimentou nos anos 80 e 90. Animações, colagens, texturas mostram uma preocupação em fazer um trabalho sofisticado que poderia fazer sentido apenas para Laurie, mas que terminam criando uma fartura de pontos de identificação com o espectador. Embora utilize essa espécie de diário para abrir o coração para falar de sua intimidade muitas vezes, incluindo sua relação distante com a mãe, a diretora nunca se aproveita da imagem de seu companheiro de muito tempo, Lou Reed, que morreu há dois anos e que dividiu a vida com Laurie até os últimos dias.

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Amy

Amy

Durante boa parte da exibição de Amy, fica a dúvida de se estamos diante de um trabalho riquíssimo em detalhes sobre um dos maiores nomes da música nos últimos anos ou se o filme é uma versão potencializada de uma cobertura de fofocas sobre uma celebridade polêmica.

Asif Kapadia, o mesmo diretor de Senna, realiza um poderoso inside job com esse documentário, coletando depoimentos de amigos, parentes e pessoas que trabalharam diretamente com a cantora. Todos com um grau de intimidade que nos aproxima da personagem. Todas as entrevistas, sem exceção (a não ser quando ela não foi feita diretamente para o filme) são com voice over, sobrepostas por imagens igualmente íntimas e pessoais.

Um trabalho de pesquisa e coleta tão impressionante quanto o material coletado em si (vídeos que mostram Amy Winehouse em casa, no hotel em que se internou para um rehab, entre amigos, entre parentes). Por outro lado, Kapadia abusa de uma postura invasiva, quase emulando o arsenal de vídeos e fotos de paparazzi, que tenta, na mesma medida, criticar. O diretor também reproduz comentários de jornalistas e apresentadores de TV, que terminam, para o bem e para o mal, emprestando para seu filme um juízo de valor sobre Amy Winehouse.

A conclusão é que Amy, que provavelmente é o trabalho mais rico de imagens exclusivas e depoimentos sobre a cantora que se poderia fazer, também captura a dimensão que sua estrela alcançou, um tamanho enorme para que a cantora e o filme pudessem escapar de uma mídia interessada em devassar sua vida. Por mais contraditório que criticar esse excesso possa parecer quando se reprisa esse padrão. “Amy” talvez não revele o ser humano, mas, com certeza, dá uma boa ideia sobre o tamanho do monstro.

Amy ★★★
[Amy, Asif Kapadia, 2015]

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Cássia

Cássia

É engraçado como um filme bate de maneira diferente para cada pessoa. A subjetividade vem da memória, das experiências. É impossível ter exatamente a mesma impressão que outra pessoa depois de uma sessão de cinema. Louco é quando um mesmo filme bate de maneiras diferentes para a mesma pessoa. Cássia, documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre a vida de Cássia Eller, não é exatamente um grande filme. Por sinal, como filme, é excessivamente bem tradicional, até quadrado, que parece um pouco menor do que sua protagonista, uma mulher que sempre pareceu disposta a expandir os horizontes. Ainda mais quando a gente sabe que o diretor fez o excelente Loki, sobre o mutante Arnaldo Baptista, e numa época em que o conceito de documentário é tão complexo, com filmes como Girimunho, Jogo de Cena e Santiago, colocando velhos padrões em cheque. Mas curiosamente esse longa convencional, exatamente ele, deixa a impressão de que sua protagonista é uma gigante. Cássia é um filme bastante emocional e não por causa de sua excelente pesquisa de imagens, dos sobe sons da intimidade da cantora e dos depoimentos, mas porque assisti-lo faz crer que seu diretor se envolveu tão profundamente com o projeto que lhe foi impossível encontrar pontos de corte num filme que claramente tem um excesso de material. O foco numa Cássia Eller por trás do microfone cria uma identificação grande do espectador com o longa. A viúva de Cássia Eller, por sinal, pediu que o filme abordasse drogas e romances extraconjugais. Faz pensar muito sobre o que é importante. Sobre o que nós construímos. Sobre quem amamos. Sobre família e amigos, quem realmente importa. Não achar Cássia um grande filme não inviabiliza dizer que Fontenelle fez um trabalho especial. Vai entender o ser humano, né?

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[Cássia, Paulo Henrique Fontenelle, 2014]

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A Vida Privada de um Gato

Alexander Hammid (ou Alexander Hackenschmied) foi um diretor nascido em 1907, no então Império Austro-Húngaro, que em mais de três décadas assinou 18 filmes obscuros, entre curtas, documentários e apenas uma ficção em longa-metragem em Hollywood. A Vida Privada de um Gato é um filme experimental de 22 minutos, em que o cineasta registra silenciosamente o dia-a-dia de seus gatos.

A Vida Privada de um Gato EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Private Life of a Cat, Alexander Hammid, 1944]

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Grey Gardens

Grey Gardens

Este documentário é um fruto do acaso. Os irmãos Maysles pretendiam rodar um filme sobre a irmã de Jacqueline Kennedy Onassis, quando conheceram a história da tia e da prima da ex-primeira dama. As duas, que já foram frequentadoras da alta sociedade nova-iorquina, moravam à época numa mansão caindo aos pedaços. Mãe e filha estavam falidas, isoladas e viviam de seu passado. Ou das cinzas dele. Esta história ganhou a catapulta de um escândalo: sem limpeza, o lugar começou a feder e incomodar os vizinhos. A prefeitura deu um ultimato para as duas: ou limpam ou saem. A imprensa fez festa e Jackie Kennedy ajudou a dar um tapa no lugar. É aí que entram os Maysles. Quando descobriram a história, desistiram do projeto anterior e embarcaram neste saborosíssimo mundo.

Os irmãos conquistaram a confiança de Big Edie e Little Edie e passaram dias e dias filmando o cotidiano das duas. À mesma medida em que mostravam a decadência da família, acompanharam a degradação psíquica de mãe e filha. O documentário adota uma política pouco intervencionista em relação a seu objeto. A equipe tenta ao máximo não interferir no dia-a-dia das duas e as informações sobre sua história, a não ser por uma breve sequência de recortes de jornais, saem das bocas perturbadas das retratadas. A opção tem duas consequências imediatas: por um lado, as entrevistadas ficam mais livres e tecem sua própria narrativa sobre os 50 anos em que viveram naquela casa e os desdobramentos de suas vidas.

Os Maysles estão entre os principais nomes do cinema direto o movimento que renovou o documentário americano nos anos 60, que prega o máximo de não-intervencionismo no retrato do objeto. As interações dos diretores com suas “atrizes” aparecem pouco no filme em si. As Bouvier Beale são convidadas a costurar sua própria história com suas memórias perturbadas. Contam o que querem contar e percebem claramente quando estão agradando, então, seu mundo paralelo entra em cena deixando completamente incertas as versões dos fatos. O grande diferencial deste filme é que, embora as informações sobre as personagens cheguem parceladas e o raio-x da vida de mãe e filha nunca pareça completo, o grau de intimidade que o espectador atinge com as duas é algo raramente visto num documentário. Aqui a história é menos importante do que a essência.

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[Grey Gardens, Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde, Muffie Meyer, 1975]

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Oceanos

Documentários sobre a vida subaquática parecem todos iguais, mas sempre trazem algumas imagens novas que nos impressionam ou por sua beleza ou por suas particularidades. Este aqui obedece essas regras, reduzindo durante a maior parte de sua projeção a presença do narrador, o que deixa sua montagem mais inteligente. O que diferencia Oceanos, no entanto, é como seus diretores resolvem se utilizar do encantamento natural das imagens para montar um panfleto ecológico, o que de maneira alguma é demérito, mas que me fez pensar sobre a utilização de efeitos digitais em documentários.

Em muitos momentos (e eu não estou falando sobre as cenas de massacre), a beleza das imagens ganha uma ajuda considerável do CGI, muito além de melhorar a qualidade do material, colocando em cheque o que estamos vendo. Se um documentário sobre o fundo do mar deveria encantar pelo que existe no fundo do mar por que criar cenas fake apenas para ampliar o impacto dessas imagens, mesmo que os efeitos sejam bons?

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Oceans, Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, 2009

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Maradona by Kusturica

 

O sérvio Emir Kusturica talvez seja o diretor mais improvável para comandar um documentário sobre Diego Armando Maradona e exatamente por causa disso que seu filme seja tão particular. O cineasta enxerga Maradona como um personagem de seus filmes, com algo de folclórico, algo de mágico, e – embora force a barra em algumas comparações – o trata assim, como um personagem, evitando a comodidade conciliatória em que muitos documentários caem para com seu objeto.

Kusturica não que busca o conflito; seu filme é bastante pacífico, mas nunca está a serviço de seu homenageado. Há vários momentos deliciosos, como a sequência em que o jogador canta com as filhas no karaokê ou todas as aparições dos fiéis da Igreja Maradoniana. O diretor, cuja obra sempre teve uma conotação política, abre bastante espaço ainda para os “discursos” de Maradona sobre o futebol, a Argentina, os Estados Unidos e o mundo. É neles que dá pra perceber o quão o argentino é mais interessante do que o rei Pelé. Pelo menos fora do campo.

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[Maradona by Kusturica, Emir Kusturica, 2008]

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500 Almas

Belo filme de Joel Pizzini, que é extremamente carinhoso com a apresentação dos remanescentes da tribo Guató, que sobrevivem no Pantanal mato-grossense. O documentário é intercalado por aparições de Paulo José, que nas peles de generais, juízes e religiosos ajuda a compor o histórico do povo, que foi considerado extinto por quase uma década. Algo que eu pensei que não fosse funcionar, mas que se revela bem eficaz a cada nova intervenção. A fotografia, a cargo de Mário Carneiro, que assinou vários filmes do Cinema Novo, é um dos pontos altos do filme, que é bem cuidado tanto da montagem quanto na trilha, mas que peca apenas porque muitas das cenas onde há sobreposição de sons ficam incompreensíveis. No entanto, o diretor tem a sábia decisão de não se apoiar no belo conjunto de cenários e cair num formato de especial da National Geographic. Pelo contrário, o filme se afirma como um pequeno recorte dos efeitos da passagem do tempo numa cultura.

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[500 Almas, Joel Pizzini, 2004]

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