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T2 Trainspotting

T2 Trainspotting

Quanta saudade cabe num verso, num refrão, num take? A arte, qualquer uma delas, parece ser moldada pela nostalgia. Aprisionar momentos, fantasmas e sentimentos num instante ou num discurso é um dos desejos básicos do artista. Olhar para trás é ao mesmo tempo buscar referência, fundamento e repertório. A nostalgia pode ser bem saudável se administrada com parcimônia. O simples fato de partir de algo pré-existente não indica saudosismo e o saudosismo, esse palavrão no dicionário das regras da arte contemporânea, não precisa ser maniqueísta, oportunista, nem fácil.

Danny Boyle comete um pecado em T2 Trainspotting. Em várias das cenas em que se refere ao filme de 1996, ele reprisa cenas desse longa que o revelou há 21 anos. Não era necessário. O primeiro Trainspotting é uma daquelas obras que se amarraram com tanta força ao imaginário popular que o simples fato de se anunciar uma continuação tardia deste filme faria com que as pessoas voltassem à obra original. Voltaram saudosos e vão assistir este novo longa igualmente saudosos, mas curiosamente vão reclamar do uso da nostalgia como mola propulsora deste trabalho mais recente. Justamente, aquela que os fez rever o primeiro para assistir ao segundo. Curioso, já que este segundo filme é baseado num segundo livro até porque Trainspotting tinha uma fonte na literatura. E até então não se havia reclamado disso. Não muito, pelo menos.

T2 é sobre voltar para casa. E faz isso de cabeça erguida, tanto seguindo seu protagonista, um Renton completamente fiel ao que conhecemos há 21 anos: que procura seu lugar no mundo porque perdeu a mulher, o trabalho, o dinheiro. Renton não volta pra casa com a nostalgia que poderíamos esperar. Ele volta porque é o jeito. Encontra os amigos que ele passou pra trás porque é o jeito. É o que sobrou. Danny Boyle, por sua vez, não precisaria ter acompanhado esse retorno. Nesse meio tempo, ele ganhou trabalho, dinheiro e até um Oscar, cujo merecimento a gente deixa para outra discussão.

Boyle observa essa volta de Renton como se deve, reapresentando os amigos dele e as esquinas da cidade, tirando sarro dos ícones que criou, seja um vaso sanitário sujo ou uma edição de cortes rápidos. Não se livrou do discursinho sobre as escolhas, que tem que ser lido bem rapidinho para agradar aos adolescentes. Nem poderia. Só faria sentido voltar se fosse assim. Mas Boyle pode – e tem – um olhar meio duro para com o passado. A montagem, ainda que emule os anos 90, parece mais madura. Simon não é mais Sick Boy e quando ele diz que “não está sentindo nada ali”, é como se Boyle zoasse o que estava começando a ficar sério, banal e simplório, é como se zoasse a própria feitura desse filme. E, cá entre nós, faz muito sentido com o tipo de humor que ele e Irvine Welsh estabeleceram no primeiro filme.

A nostalgia de T2 é bem consciente e bem crítica. Begbie está caricato, o final é pulp, a fórmula é a mesma? Choose life, amigo, a fórmula é para ser a mesma. E este filme ainda te oferece algo mais.

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[T2 Trainspotting, Danny Boyle, 2016]

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127 Horas

127 Horas

Passei a maior parte da sessão de 127 Horas pensando em outro filme, Enterrado Vivo. Os dois partem de premissas parecidas: de uma hora para outra, seus protagonistas se vêem presos, isolados, reféns de situações de angústia física e mental. As semelhanças param por aqui. Enquanto o filme de Rodrigo Cortés tem um roteiro completamente ficcional, a trama do último longa de Danny Boyle é baseada numa história real. E as diferenças não estão apenas na sinopse, mas nas opções, ou mesmo no estilo de cinema que seus diretores escolheram.

Enterrado Vivo, diante de sua invenção, poderia facilmente recorrer a elementos extra-cenário para dar mobilidade a sua trama complicada de se filmar: um homem acorda dentro de um caixão. Mas o roteiro é radical: nunca, em hipótese alguma, abandona sua espremida locação, e, dessa forma, convence na composição da claustrofobia imposta ao protagonista que nunca existiu. 127 Horas, por sua vez, parece nunca acreditar suficientemente na força de sua história verdadeira e usa todos os subterfúgios possíveis para ilustrar a situação extrema pela qual passa seu personagem real.

Dicotomia pura.

A lógica da montagem é a da TV aberta: ilustrar ao máximo cada situação. E Danny Boyle, vocês sabem, ilustra que é uma beleza. Um exemplo simples: se James Franco está com sede aparece um clipe com velocidade acelerada e overdose de filtros com imagens de água, refrigerantes, cervejas e banhos em geral. Resultado: o filme ganha agilidade e não reforça o drama do personagem. Faltam momentos de vazio, largando o som ambiente e o ator à própria sorte. Faltou alimentar essa angústia.

As alucinações materializadas e os flashbacks familiares, aos quilos, parecem alienações que só fazem o foco sair do que realmente interessa. E, convenhamos, a história já é forte o bastante para atrair o espectador. Pior ainda é quando os escapismos são gratuitos, como a câmera subjetiva até o carro (em fast, claro) ou primeira saída da fenda. Essa última é um golpe dos mais baixos, revoltante, uma sequência completamente desnecessária que, inclusive, deixa dúvidas sobre a cena anterior.

Eu deveria dizer que a culpa de 127 Horas não ser uma catástrofe completa é de James Franco, que, nos intervalos comerciais, consegue dar corpo ao desespero de seu personagem numa interpretação cheia de belos momentos, como na cena do talk show (a única em que as artimanhas do diretor realmente funcionam). Mas Boyle resolve bem algumas cenas angustiantes, como a sequência em que Aaron põe fim a seu drama. São cenas que fazem o filme valer. Mesmo assim, Enterrado Vivo ainda é bem melhor. Ficção supera realidade? Nesse caso, sim.

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[127 Hours, Danny Boyle, 2010]

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Extermínio 2

Extermínio 2

A primeira seqüência de Extermínio 2 é uma das melhores cenas do ano, um exemplo para filmes que tentam dar credibilidade ao horror não apenas como gênero, mas como manipulador dos sentidos. O susto, instrumento para a manifestação do horror, lida com a perda, ainda que momentânea, dos parâmetros que definem a normalidade do humano. Mesmo muito simples, o susto é algo não tão fácil de se provocar.

O que o gênero de filmes de zumbi, criado e perpetuado por George A. Romero, faz é trazer este instrumento para o questionamento das prioridades do homem. Longe dos padrões que nos enquadram nas regras de civilidade e convívio social, ou mais dramaticamente, longe dos preceitos de certo-e-errado e bom-e-mau, ao ser humano resta a animalesca luta pela perpetuação.

Em 2003, Danny Boyle retomava estas reflexões com seu Extermínio, filme que, além voltar a discutir os limites do homem, era bastante eficiente numa capacidade que deveria ser inerente a todo e qualquer cinema: mover fisicamente o espectador. O conjunto imagem-edição-cenografia-música do longa sabia estabelecer o desespero e a falta de padrões como pilares de um ambiente fascinante e assustador.

A idéia de uma continuação parecia bastante desagradável e desnecessária. Como retomar um ciclo que parecia tão bem fechado no material original, ainda mais sem os cabeças da equipe criativa? Missão complicada, mas que Extermínio 2 resolve com certa destreza. A já citada seqüência de abertura abre um flashback, com eventos paralelos aos do primeiro filme, criados com igual eficiência. E, mesmo que o filme não ofereça depois dela nada tão impresionante, o roteiro caminha bem por terreno seguro.

Entendo o porquê do Ian não ter gostado (embora eu goste muito do que vi da Rose Byrne até agora) na mesma medida em que percebo as razões desta moça ter amado tanto.

A reintrodução da doença surge com uma boa idéia e os acenos para uma eventual cura abre novas possibilidades. A exploração de um conflito familiar, que poderia ter sido mais bem aproveitado, traz outra esfera para a discussão maior, a perda dos padrões da relação amor-afeto-carinho: a perpetuação não está mais na reprodução, mas na sobrevivência a qualquer custo.

A formação de um novo grupo ganha contornos de missão e para quem, como eu, adora HQs de heróis, os interesse cresce bastante. A jornada adquire um objetivo maior e, mesmo em meio a uma bela sucessão de lugares comuns, dos sacrifícios ao militarismo incômodo, o filme trabalha com certos conceitos fora de moda como altruísmo e doação. Conceitos meios ingênuos que nem ganham tratamento especial no longa, mas de que eu gosto de ser lembrado de vez em quando.

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[28 Weeks Later, Juan Carlos Fresnadillo, 2007]

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Extermínio

Cillian Murphy
Danny Boyle é uma figura importante para o cinema nos anos 90 Seu segundo longa-metragem, Trainspotting (96), perde apenas para Pulp Fiction (94) em termos de influência para a década passada, estabelecendo um padrão de cinema jovem que viria a ser copiado à exaustão. Na obra de Boyle, a temática não é uma, são muitas. Depois de uma deliciosa comédia com personagens maluquinhos (Por Uma Vida Menos Ordinária, 97) e um filme cabeça sem muito a dizer (A Praia, 00), o cineasta britânico bebe da fonte dos filmes B sobre um futuro caótico em Extermínio, um dos maiores achados dos últimos tempos.

Extermínio começa com um grupo de ativistas tentando libertar chimpanzés de um laboratório de pesquisas. Os animais são cobaias num tratamento contra a raiva. Eles desenvolvem a doença em níveis elevadíssimos. Os bichos saem da jaula e a doença também. Devasta a Inglaterra, criando um cenário de destruição e abandono. As pessoas são mortas pelas outras ou transformadas numa espécie de zumbis assassinos. A civilização rui. As poucas pessoas que ficam incólumes sobrevivem escondidas, fugindo como podem.

Danny Boyle conduz sua história com convicção. Fez uma quase ficção-científica com um pé nos filmes B e sabe disso. Assume sua obra assim. Utiliza as possibilidades da câmera digital para criar uma fotografia mais crua, que possa transmitir a atmosfera que quer passar para o filme. A edição, rápida e sem padrões, parece a de programa ao vivo de TV. Há momentos de trilha sonora salvadora, messiânica, mas o que mais se escuta no filme são justamente seus silêncios. O clima reforça o universo caótico retratado na tela e faz imaginar como seria perder nossos padrões.

O espectador submerge numa caçada por suas prioridades, redefine o que é mais importante: sobreviver ou ficar bem. Tal qual fazem os personagens. Boyle é cruel com o mundo que retrata. Mostra como as pessoas podem abandonar tudo que já lhes foi importante para correr em busca de si mesmas. Para se manterem vivas. Há duas maneiras para gostar de Extermínio: como filme B que faz pensar ou como diversão pura. Os dois caminhos são válidos.

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[28 Days Later, Danny Boyle, 2002]

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