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Gonzaga – De Pai pra Filho

Apesar de meus textos serem extremamente subjetivos, eu evito escrever em primeira pessoa. Acho que a opinião já está suficientemente embutida em minhas frases, na maneira como eu estruturo minha interpretação dos filmes. Imagino que minha “assinatura” esteja bem clara no que eu escrevo. São textos opinativos – a ideia de um blogue é essa, não é mesmo? -, mas me conforta colocá-los em um molde “jornalístico”, talvez para que eles pareçam sérios, mesmo que eu tente deixá-los simples e diretos. Mas resolvi que a resenha sobre Gonzaga – De Pai pra Filho deveria ser assumida como o que ela é: o relato de uma experiência.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro o que a música de Luiz Gonzaga significa para mim. Eu nasci em Alagoas e morei até 2001 no Nordeste. E a trilha sonora da vida de uma criança desta região, especialmente uma que viveu entre os anos 70 e 80 de uma cidade para outra, passava diretamente pelo forró e por seus gêneros-irmãos que faziam parte de um mesmo pacote de música nordestina. Essa trilha estava presente nos domingos musicais da minha casa, embalava as viagens no carro do meu pai e foi quase onipresente nos quatro anos em que minha família morou no interior de Pernambuco, já bem perto do Sertão. Foi quando eu convivi com uma infinidade de pessoas simples para as quais a música que existia era aquela.

Como a maioria dos adolescentes, eu cresci revoltado. O forró era tudo o que eu não precisava naquela época. Descobri a Bizz, descobri o rock e, no meio de tudo isso, cresceu um sentimento forte de rejeição à música da região onde eu nasci. As canções de Luiz Gonzaga remetiam a uma realidade que eu não queria para mim, à restrição cultural, comportamental. Por mais que algumas daquelas melodias tivessem embalado momentos tão bonitos da minha vida, da minha convivência com meus pais e meus irmãos, eu confesso que deixei aquilo tudo para trás, num canto escondido da memória. Alimentei os Smiths, o Cure, o U2.

Pra vocês verem como as coisas mudam. Em 2001, ano em que eu fui morar em São Paulo, eu, pela primeira vez na vida, me vi longe da minha família. Embora tenha encontrado pessoas que me acolheram rapidamente, a saudade, essa coisa que só tem nome em português, fez um buraco em mim. Sentia falta das “minhas” pessoas, do “meu” sotaque, do conforto. Estava distante e os telefonemas não eram suficientes para dar conta desse vazio. Foi nessa época dolorosa que quem me deu colo foi Luiz Gonzaga. Comprei discos, busquei músicas e voltei para um tempo que parecia sem volta. Um tempo que eu tinha rejeitado. Um tempo que me devolveu a casa. Fiz as pazes, que duram até hoje.

Essa imensa introdução é para falar de como foi emocionante assistir a Gonzaga – De Pai pra Filho em Maceió. E de como foi mais emocionante ainda assistir ao novo filme de Breno Silveira ao lado da minha mãe, que me encheu de felicidade quando aceitou o convite para voltar ao cinema depois de tantos anos. Se eu não estou enganado, fazia pelo menos uns 20 anos que nós não assistíamos a um filme juntos, no cinema. Só a presença dela ali já muda qualquer perspectiva desta sessão. Minha mãe, ao meu lado, toda arrumada – linda, linda – para ver um filme comigo já me baqueou. Eu estava pronto para me entregar àquele momento. E foi exatamente isso o que aconteceu.

Cada música que entrava na trama – e a costura das canções à história é um dos trunfos do longa – me remetia a minha infância, a meu passado, a um quantidade de coisas que provavelmente eu nunca vou conseguir descrever em toda sua intensidade aqui. O valor simbólico de cada uma daquelas melodias me deixa inapto a fazer uma resenha não emocionada do filme. Mas espero que isso possa parecer com um demérito porque o longa de Breno Silveira faz um retrato bastante fiel do sertanejo e de todo o universo que o cerca, inclusive das relações familiares, que tantos cineastas sudestinos pintam das maneiras mais “artísticas”. A rudeza e a simplicidade são de verdade.

Comparar muitas vezes é injusto e, em muitas outras, necessário. O diretor segue à risca a mesma fórmula de 2 Filhos de Francisco, cinebiografia de Zezé di Camargo e Luciano, que, se não é um grande filme, se assume honestamente como um trabalho de encomenda, que alivia ou evita conflitos, mas que retrata com a trajetória de dois artistas populares com a mesma simplicidade de suas letras. Em Gonzaga, o cineasta vai além. Ao centrar a história na relação complexa entre pai e filho, tema recorrente em seus filmes, Silveira abre mão de muitos capítulos importantes na vida de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, mas cria uma unidade que fortalece o filme.

Todos os vícios, reducionismos e simplificações estão lá, mas bastava olhar para minha mãe, encantada, segurar na mão dela, para entender que o objetivo de se fazer este filme era outro. Breno Silveira quis fazer um filme para o povo. Como na cena em que Gonzagão resolve fazer um show em cima da sacada de um cinema – onde aconteceria a apresentação de verdade – só para cantar “para o povo”, o diretor deste filme pede licença a Humberto Teixeira, que mal aparece, ignora a esperteza do velho Gonzaga, que só gravava músicas se assinasse a coautoria, e se enche de atores globais para fazer um cinema verdadeiramente popular. E deu certo. A sala estava cheia de pessoas que participavam ativamente do filme, que conversavam com o filme. Gente que, provavelmente, não ia ao cinema havia bastante tempo.

Eu, do meu lado, segurando a mão da minha mãe, entendi toda a magia que o filme provocou. Entendi como as pessoas que estavam ali, naquela mesma sessão, se identificavam, viam sua história na tela do cinema. E eu, de uma maneira diferente, mas que no fim acaba tendo o mesmo efeito, também me vi retratado ali. As pazes que pai e filho fazem no final do filme eram as pazes que eu fiz com minha origem anos atrás. Eu fui ao cinema com minha mãe, mas meu pai, meu irmão, minha irmã, meu Nordeste também tinham ido comigo. E eu fiquei muito mais feliz do que eu imaginava com este filme, esta sessão, esta experiência.

Gonzaga – De Pai pra Filho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Gonzaga - De Pai pra Filho, Breno Silveira, 2012]

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2 Filhos de Francisco

2 Filhos de Francisco

A pequena história de uma família, um pequeno retrato do Brasil. A cinebiografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano é exatamente isso: um filme pequeno. Isso não necessariamente ruim já que, na maioria das vezes, as histórias pequenas são mais interessantes do que as histórias grandes. Mas a pequena história dos irmãos resolveu virar filme numa sala de um executivo (ou algo parecido com isso) da indústria fonográfica nacional, que rende alguns milhões de reais para a dupla há uns bons anos. Então, a dimensão da história já não é mais tão pequena assim.

Ora, se Zezé di Camargo e Luciano venderam vinte milhões de cópias (e o filme adora falar em milhões), o que credencia a dupla um quê de imensamente popular, há muitos outros milhões de brasileiros que não compraram dos discos dos irmãos goianos. Muitos porque provavelmente não têm condição de ficar comprando discos. Mas muitos outros porque simplesmente não gostam muito daquela música, que é ruim mesmo. Então, o filme tinha muita gente a conquistar. O caminho foi apostar na identificação.

2 Filhos de Francisco é exatamente o que dizem: a luta de um pai sonhador em dar um futuro para seus filhos. Mas o diretor Breno Silveira, que estréia com disposição na direção de um longa-metragem, trabalhou então com um modelo de trajetória bem sucedida, de modelo a seguir. Primeiro ponto. O segundo é embalar com propriedade este modelo (fotografia bem cuidada, direção de arte bonita, som de qualidade, música – sertaneja – de raiz para não ferir ouvidos mais eruditos). E mais: um elenco bom o suficiente para dar consistência ao roteiro, que, mesmo com muito apreço a um certo maniqueísmo, é, sim, bem escrito e, sim, consegue momentos emocionantes sem necessariamente recorrer a sentimentalismo barato.

O problema é que é só isso: 2 Filhos de Francisco é um filme correto e só. Aliás, um filme bonzinho. Por sinal, o grande mérito é justamente não ser ruim, o que todo mundo esperava que acontecesse por causa da contestada qualidade da obra de seus retratados. Mas não ser ruim tem tanto mérito assim? Porque, a certo momento, aquela história comprida demais, todo mundo é bonzinho demais, o filme começa a ficar pasteurizado demais, produto demais. Ser produto não é ruim, ainda mais quando isso faz parte da essência do objetivo do filme: vender-se. Os Bradescos e afins da vida não me incomodaram tanto quanto o final, onde os idealizadores-retratados não resistiram a uma “participação especial”. Onde a auto-louvação surge redentora, mesmo que pareça sincera, justificada e merecida. Onde o esforço para dar mérito ao filme diminui. Onde o longa dá sua reviravolta: revela que foi feito para fãs. Onde o filme perdeu uma estrela.

2 Filhos de Francisco EstrelinhaEstrelinha½
[2 Filhos de Francisco - A História de Zezé di Camargo e Luciano, Breno Silveira, 2005]

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