Tag Archives: Ang Lee

Oscar 2013: a Academia dá a cara a tapa

Oscar 2013

A vitória de Argo encerrou um ano nunca visto na história daquela Academia. Foi a primeira vez que um filme chegou à reta final da temporada de prêmios de cinema na condição de favorito absoluto sem ter o diretor indicado. Muito se fala em Conduzindo Miss Daisy, mas aquela foi uma vitória surpresa. Essa foi bem fácil de prever. O filme de Ben Affleck ganhou todos os prêmios que poderia na estrada de tijolos amarelos que leva ao palco do – agora – Dolby Theater. Venceu o Globo de Ouro, o Critics Choice, os prêmios dos sindicatos de Atores, Diretores, Roteiristas, Produtores e Montadores e o BAFTA. Foi difícil para a Academia ignorar tanta unanimidade. A escolha de Argo foi uma rendição ao filme que a temporada elegeu como o melhor, o que mostra que a Academia está mais generosa – ou menos arrogante – em relação ao mercado de cinema. Por mercado, entenda-se indústria mais mídia.

Não entro no mérito de merecimento. Argo é um bom filme, muito bom talvez, mas talvez não fosse o melhor do ano. Por sinal, embora na disputa houvesse bons filmes, muito bons talvez, alguns dos melhores do ano ficaram de fora da lista de indicados, como o ótimo O Mestre, de Paul Thomas Anderson. O que estava em questão era coerência. O Oscar é um prêmio da indústria de cinema. Caso premiasse outro filme, a Academia assinaria um atestado de desconexão com o mundo que ela representa. Se o Oscar tivesse uma história de independência em relação aos eleitos dos sindicatos e aos prêmios do críticos, escolher Lincoln, As Aventuras de Pi ou O Lado Bom da Vida seria uma decisão mais simples, mas a trajetória da Academia, sobretudo nos últimos 50 anos, é de de, em grande parte das vezes, reprodução dos resultados divulgados antes do Oscar e que, curiosamente, surgiram por causa do Oscar. O Oscar inspirou a criação de prêmios para copiá-los.

Natural. Enquanto os críticos ganham para ver filmes, apontar tendências, reconhecer talentos, quem vota na Academia é pago para fazer filmes. Não precisa ir ao cinema, nem ser cinéfilo, e talvez só assista um filme quando for levar os filhos para ver a última animação da Pixar – o que explica a vitória de Valente? – ou o blockbuster da vez. Quem vota no Oscar prefere atores mais famosos porque tem preguiça de descobrir outros talentos. Quem vota no Oscar precisa de ajuda para fechar uma cédula e apontar cinco grandes atores coadjuvantes ou cinco grandes edições de som. Essa ajuda vem dos prêmios dos críticos, que por sua vez influenciam os prêmios dos sindicatos, e dessa simbiose nascem os favoritos. Se essa relação é tão íntima, por que a Academia deveria ignorar seus “fornecedores”? A antecipação da votação e do anúncio dos indicados, de certa forma, deu uma independência inédita ao Oscar, mas os membros da academia provaram que não se viram muito bem sozinhos.

E assim a Academia escolheu Argo, um filme com tema relevante, baseado numa história real extremamente hollywoodiana, bem dirigido, escrito, interpretado, competente em todos os aspectos técnicos. Um filme que a Academia supostamente já premiaria mesmo que fosse apenas julgar seus méritos. Então, por que diabos não indicaram Ben Affleck? Não existe explicação. Há quem acredite que muita gente achou que o cineasta já seria indicado e resolveu escolher outros nomes, mas talvez seja mais justo apostar que eles se atrapalharam mesmo. Argo foi o primeiro favorito. Ignorá-lo numa categoria tão importante foi muito estranho. O transtorno causado pela esnobada ao diretor foi desnecessário porque seu perfil já tornava o filme extremamente premiável, mas, sem Affleck na disputa, a Academia teve que dar um volta para explicar que o escolheria de qualquer maneira. E chegamos à situação incômoda de que o melhor filme do ano não tem seu principal responsável ao menos indicado.

Os membros da Academia ficaram numa sinuca: ou assumiam que “erraram” e votavam em Argo para melhor filme do mesmo jeito ou criavam num novo favorito, o que era complicado porque Lincoln, a aposta mais imediata não tinha ganho um só grande prêmio neste ano. E, como sabemos, a Academia sempre teve uma certa resistência a Steven Spielberg, somente cedendo a seus encantos quando não teve jeito (A Lista de Schindler) e evitando uma segunda vitória de um filme seu. O filme de Affleck ganhou e, talvez para dar estofo a sua escolha, também foi eleito como melhor roteiro adaptado e melhor montagem, este bastante merecido. Por conta desta necessidade de consolidar Argo, Lincoln talvez tenha perdido a força e, desta forma, o Oscar de roteiro, em que dividia o favoritismo. Mas o mais impressionante – e a maior surpresa desta edição do Oscar – foi a Academia sacrificar Steven Spielberg na direção, uma escolha quase certa, em prol de Ang Lee e seus As Aventuras de Pi.

Embora Lee tenha sido o único diretor a ser indicado ao Globo de Ouro, Critics Choice, DGA e Oscar, não tinha prêmios que embasavam sua candidatura. Sua vitória parece uma combinação de três coisas: é um filme consolidado, indicado em 11 categorias; é um filme popular, fácil de ser gostado, e cheio de méritos técnicos; e não deixaria Lincoln crescer ao ponto de ameaçar tirar o Oscar de Argo. Parece maluco, mas eu acho que Ang Lee só ganhou seu segundo Oscar por causa do filme de Ben Affleck. Pela lógica da Academia, Ben deveria ser o melhor diretor, mas como ele não concorria, a Academia rejeitou a ideia de laurear seu principal adversário na categoria de direção e a vitória em melhor filme se tornou mais confortável. O filme de Lee ganhou nos quesitos em que era favorito (trilha, fotografia e efeitos visuais), o que também ajuda a justificar sua vitória como diretor. O filme de Spielberg, que era meu preferido, ficou com surpreendente prêmio pelo desenho de produção e com a óbvia – e merecida – estatueta de melhor ator para Daniel Day-Lewis.

A vitória de Jennifer Lawrence por O Lado Bom da Vida me lembrou muito da de Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado. Não porque ela tirou o Oscar de Emmanuelle Riva por Amor, melhor filme estrangeiro, como Gwyneth tinha tirado o de Fernanda Montenegro por Central do Brasil, até porque eu acho que Jennifer era a melhor atriz do ano mesmo, enquanto Gwyneth, que é uma boa atriz, se beneficiou unicamente da campanha dos Weinstein. Mas mais por causa das indignações que esse prêmio causou. Anne Hathaway, cumprindo os prognósticos, ganhou como atriz coadjuvante por Os Miseráveis (também escolhido em mixagem de som e maquiagem), um Oscar que celebra uma estrela em ascensão, mas que encontraria uma vencedora mais merecedora em pelos menos três candidatas, sobretudo Helen Hunt em As Sessões. Embora tivesse ganho o Globo de Ouro e o BAFTA, a vitória de um emocionado Christoph Waltz por Django Livre foi surpreendente para mim. Ganhou dois Oscars fazendo um alemão um filme do mesmo diretor, com apenas 4 anos de diferença. Ajudou a celebrar o filme de Quentin Tarantino, que ainda ganhou como roteiro original (discurso melhor do que o roteiro, por sinal), e reconheceu uma ótima interpretação, apesar de eu preferir Tommy Lee Jones e Philip Seymour Hoffman.

Searching for Sugar Man foi o melhor documentário numa das melhores notícias da noite. Os figurinos de Anna Karenina ganharam um merecido reconhecimento, mas o belo filme de Joe Wright merecia muito mais. A Hora Mais Escura, que ganhou prêmios importantes no começo da corrida ao Oscar, se viu eclipsado pela polêmica da tortura e da conivência de Barack Obama num possível vazamento de informações, e ficou apenas com o prêmio de edição de som, além de protagonizar um dos episódios mais surpreendentes desta edição: um empate com 007 – Operação Skyfall. Se eu não estou enganado, um empate não acontecia desde 1969, quando Barbra Streisand, que cantou no In Memoriam, e Katharine Hepburn dividiram o Oscar de melhor atriz. O filme ganhou ainda pela belíssima “Skyfall”, escrita e interpretada por Adele, e os 50 anos de James Bond receberam uma homenagem especial, com Shirley Bassey cantando “Goldfinger”. Foi um dos poucos bons momentos musicais da noite. E eles foram tantos… Num ano em que o Oscar resolveu celebrar a música no cinema, duas das candidatas a melhor canção ganharam clipes em vez de performances ao vivo. E uma delas é cantada por Scarlett Johansson!

Os produtores da festa, produtores também de Chicago, acharam adequado homenagear os dez anos da vitória de seu filme no Oscar. Ou seja, se auto-homenagearam. Precisava desta masturbação? Que filme foi lembrado no Oscar dez anos depois? Junto com um número inteiro retirado do filme, vieram outras homenagens, ao fraquíssimo Dreamgirls e, numa das escolhas mais esdrúxulas da noite, a Os Miseráveis, um dos candidatos desta edição. O filme de Tom Hooper ganhou um pout-pourri com vários de seus momentos musicais cantados por todo o elenco – Helena Bonham-Carter em especial bem pouco à vontade -, ajudando a deixar a festa com o espírito do filme: longa, chata e burocrática. Seth Macfarlane, embora tivesse seus momentos (como a introdução de Meryl Streep, a brincadeira com Sally Field ou a aparição do ursinho Ted), foi um apresentador bem sem graça. Fez uma piada a la Rafinha Bastos sobre Abraham Lincoln e deve ter fechado algumas portas em Hollywood. Duvido que volte ao Oscar. A festa cansativa – alguém me explica Michelle Obama? – só não foi pior porque o pedido de desculpas a Ben Affleck ajudou a deixar a espera mais interessante e a mostrar que a Academia não quer confusão com ninguém – a não ser que seu nome seja Steven Spielberg.

Os vencedores

Filme – Argo, Ben Affleck
Direção – Ang Lee, As Aventuras de Pi
Ator – Daniel Day-Lewis, Lincoln
Atriz – Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Ator coadjuvante – Christoph Waltz, Django Livre
Atriz coadjuvante – Anne Hathaway, Os Miseráveis
Roteiro original – Django Livre, Quentin Tarantino
Roteiro adaptado – Argo, Chris Terrio
Filme estrangeiro – Amor (Áustria), Michael Haneke
Filme de animação – Valente, Mark Andrews & Brenda Chapman
Fotografia – As Aventuras de Pi, Claudio Miranda
Montagem – Argo, William Goldenberg
Direção de arte – Lincoln, Rick Carter; Jim Erickson, Peter T. Frank
Figurinos – Anna Karenina, Jacqueline Durran
Maquiagem – Os Miseráveis
Trilha sonora – As Aventuras de Pi, Mychael Danna
Canção – “Skyfall” (Adele & Paul Epworth), 007 – Operação Skyfall
Mixagem de som – Os Miseráveis, Andy Nelson, Mark Paterson & Simon Hayes
Edição de som – 007 – Operação Skyfall, Per Hallberg & Karen Baker Landers, e A Hora Mais Escura, Paul N.J. Ottosson
Efeitos visuais – As Aventuras de Pi, Bill Westenhofer, Guillaume Rocheron, Erik-Jan De Boer & Donald R. Elliott
Documentário – Searching for Sugar Man, Malik Bendjelloul
Curta Documentário – Inocente, Sean Fine & Andrea Nix Fine
Curta de Ação – Curfew, Shawn Christensen
Curta de Animação – Paperman, John Kahrs

Compartilhe!

16 Comments

Filed under Prêmios

Oscar 2013: direção

Diretor

Ang Lee, As Aventuras de Pi
Benh Zeitlin, Indomável Sonhadora
David O. Russell, O Lado Bom da Vida
Michael Haneke, Amor
Steven Spielberg, Lincoln

Existe uma ala anti-Spielberg que parece numerosa na Academia. Foi ela que não o indicou por Tubarão e A Cor Púrpura, ambos finalistas a melhor filme. Foi ela que rapidamente desistiu de O Resgate do Soldado Ryan, que era favorito, quando o marketing apresentou outro candidato. Eu não tenho muitas dúvidas de que se Ben Affleck tivesse sido indicado ao Oscar de de direção, Spielberg não teria muitas chances de vitória. Mas nem ele, nem Kathryn Bigelow, numa situação esquisita para a Academia, aparecem entre os finalistas deste ano, provavelmente fruto da antecipação do anúncio dos indicados. Resultado: Spielberg ficou sem adversários. Virou franco-favorito. Mas ele não deve ganhar só por isso. Seu filme já rendeu quase US$ 180 milhões e é um belíssimo trabalho. Spielberg se arriscou, saindo de sua zona de conforto, assumindo a teatralidade do roteiro de Tony Kushner, dando espaço para interpretações incríveis.

As chances de um resultado diferente são pequenas, mas moram principalmente nas mãos de Ang Lee. Ele foi o único diretor indicado ao Globo de Ouro, ao DGA, ao Critics Choice e ao Oscar e As Aventuras de Pi é o segundo com o maior número de indicações no ano. Caso a Academia resolva se revoltar contra Spielberg, o que parece bem improvável, eleger Lee parece ser o mais possível. David O. Russell tem chances mínimas. O Lado Bom da Vida foi bastante elogiado, concorre em oito categorias, inclusive nas quatro de elenco, o que lhe dá um respaldo bem razoável, mas provavelmente insuficiente para incomodar o favorito. A indicação de Benh Zeitlin por Indomável Sonhadora foi a surpresa do ano. Não deve passar muito disso. Michael Haneke é um azarão. Amor teve cinco indicações, algo raríssimo para um filme falado em língua estrangeira, mas isto ainda deve ser um grande empecilho para sua candidatura. Pode acontecer se Spielberg tiver poucos votos, mas é bem improvável.

Quem ganha: Steven Spielberg, Lincoln
Quem ameaça: Ang Lee, As Aventuras de Pi
Quem merece: Steven Spielberg, Lincoln
Quem faltou na lista: Paul Thomas Anderson, O Mestre

Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

Leave a Comment

Filed under Prêmios

As Aventuras de Pi

As Aventuras de Pi

Ang Lee não pode ser acusado de comodismo. Cada filme seu segue por um caminho completamento oposto ao anterior. Depois de um wu xia – um daqueles filmes de ação com chineses voadores -, fez um longa de super-heróis, um melodrama gay, um noir oriental, um filme hippie e agora resolveu se arriscar numa espécie de realismo fantástico. As Aventuras de Pi é um de seus trabalhos mais arriscados: um filme rodado basicamente num cenário virtual, onde o diretor abusa da fotografia e dos efeitos visuais, que passam ao primeiro plano e ajudam a ambientar a fantasia da história.

O longa, baseado num livro de Yann Martel, acusado de plágio de uma obra de Moacyr Scliar, se dispõe a arrebatar corações sensíveis: um garoto indiano, cuja família buscava um futuro na América, é o único sobrevivente de um naufrágio, mas precisa dividir espaço um tigre num barco salva-vidas. A jornada mar adentro, além de luta pela sobrevivência, assume o formato de viagem em busca do eu interior. Pi, o protagonista Piscine, vivido pelo bom Suraj Sharma, tira de sua experiência uma “lição de vida”. A natureza piegas do material só se transforma nas mãos de Ang Lee.

Tudo o que acontece na história antes do naufrágio é uma sucessão de iscas afetivas emolduradas num visual envernizado; formulazinha básica para encantar que ganha direção com o trabalho do cineasta.

Lee usa cores vivas, toneladas de truques fotográficos e mergulha o filme num turbilhão de efeitos especiais que conseguem lançar As Aventuras de Pi no plano mágico imaginado por Martel. A opção arriscada de Lee, assumir o artificial, faz com que a história encontre o formato mais adequado. Talvez por isso mesmo a passagem em que o protagonista, já adulto, “explica” suas aventuras pareça tão desnecessária. É como se o cineasta não confiasse na fórmula que adotou e não quisesse deixar dúvidas. Uma bobagem para alguém que embarcou na fantasia sem limites.

As Aventuras de Pi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Life of Pi, Ang Lee, 2012]

O Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

2 Comments

Filed under Resenha

Oscar 2013: trailers de 12 filmes cotados

A bolsa de apostas para o Oscar 2013 segue apontando os filmes que têm mais chances de disputar o prêmio. Os títulos a seguir, em maior ou menor escala, são citados por sites e blogues especializados em analisar a temporada de prêmios de cinema como frontrunners na corrida. Abaixo os trailers (alguns sem legenda) dos filmes que parecem ter mais chance de aparecer na festa de fevereiro de 2013.

Amour, Michael Haneke

Anna Karenina, Joe Wright

Argo, Ben Affleck

Django Unchained, Quentin Tarantino

O Hobbit: Uma Viagem Inesperada, Peter Jackson

O Impossível, Juan Antonio Bayona

Indomável Senhora, de Benh Zeitlin

Life of Pi, Ang Lee

Lincoln, Steven Spielberg

The Master, Paul Thomas Anderson

http://www.youtube.com/watch?v=eQrSX8dhWw0

Les Misérables, Tom Hooper

Promised Land, Gus Van Sant

The Silver Lining Playbook, David O. Russell

http://www.youtube.com/watch?v=ibUk5BdZ-XM

Leave a Comment

Filed under Prêmios, Trailer, Vídeos

Aconteceu em Woodstock

Imelda Staunton, Demetri Martin, Emile Hirsch

Se Ang Lee pode ser acusado de alguma coisa é de ser um cineasta universal. Trouxe atores de sua Taiwan natal para os Estados Unidos não para fazer filmes sobre a adaptação de estrangeiros a um novo país, mas para protagonizar dramas pessoais e familiares. Adaptou Jane Austen, fez um western e levou a primeira versão do Hulk aos cinemas. Mas nunca abandonou suas origens, tanto num longa de espionagem quanto numa aventura de artes marciais.

Curiosamente, o filme mais universal de Lee é o mais simples. O Segredo de Brokeback Mountain é uma clássica história de amor probido, sem qualquer afetação, concessão, adaptação, filmada como uma melodia interrompida, muitas vezes seca, áspera. O que diferencia o filme é que a história de amor que ele nos apresenta é a de dois homens. Nada mais universal.

Aconteceu em Woodstock, o novo longa de Ang Lee, guarda muitas das características de seu cinema. É imenso sem fazer alarde. O diretor apresenta os momentos imediatamentes anteriores ao maior evento da história da contracultura, o Festival de Woodstock, como uma outra época qualquer. O cineasta recria com uma discrição improvável e um respeito na medida certa um período histórico fadado a ser retratado com festa, culto, reverência.

Para protagonizar seu filme, Lee escolheu um ator de TV, com um currículo mínimo no cinema. Demetri Martin materializa a maneira como o cineasta lida com o tema – interpreta com leveza o jovem que sacrifica sua vida na metrópole para ajudar aos pais a salvar o negócio da família no interior. Martin é a alma do filme. Um ator menos esforçado poderia facilmente passar desapercebido ou carregar nas tintas do personagem. Mas ele empresta sua fluidez para Aconteceu em Woodstock.

O elenco de apoio é outro grande acerto de Lee. O casal formado por Henry Goodman e Imelda Staunton – ele, admirável; ela, escandalosa – oferece um contraponto ora cômico, ora dramático para o protagonista a cada cena em que aparecem. Os dois personagens são muito bem eleborados pelo roteiro de James Schamus, que sabe equilibrar suas simpatia e verossimilhança. Emile Hirsch, que parecia ser um coadjuvante de luxo, se revela numa cena especial, e o grande Liev Schreiber confere a sua Vilma múltiplas dimensões.

Mas o elenco ou a trilha de Danny Elfman ou a montagem, herdada de Hulk, são apenas suportes para que Ang Lee nos ofereça mais duas horas de sua delicadeza habitual. O cineasta trata sua história com tanto carinho que mesmo quando o filme segue caminhos mais óbvios, como a conversão do protagonista ao espírito do evento, a honestidade com que o diretor lida com seu material nunca fica em segundo plano. E, como grande cineasta que é, Ang Lee nos presenteia com um golpe final. A bela – e simples – cena em que pai e filho acertam as contas.

Aconteceu em Woodstock EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Taking Woodstock, Ang Lee, 2009]

8 Comments

Filed under Resenha

Desejo e Perigo

Tony Leung Chi-Wai, Tang Wei

Ang Lee nunca foi um cineasta necessariamente ousado, mas, a partir de O Segredo de Brokeback Mountain (2005), seu cinema parece ter sido tomado pelo academicismo. Essa tendência era um suporte essencial para aquele filme, já que o formato de melodrama clássico dava uma nova dimensão, universal, para uma história de amor entre dois homens. Em Desejo e Perigo, que apesar do Leão de Ouro no Festival de Veneza, demorou dois anos para chegar ao circuito comercial brasileiro, essa opção pelo acadêmico é reprisada, mas, apesar do filme ser um belo drama de espionagem, o formato funciona menos e o longa muitas vezes fica arrastado, apesar de nunca desinteressante.

Lee dirige o filme como se estivesse na Hollywood dos anos 40 ou 50, mas acerta mais a mão nas cenas de mais ação, que são poucas, sobretudo, no ápice, quando o protagonista sai da joalheria, excelente. Até lá a trama de espionagem tem altos e baixos, mas não consegue manter uma unidade de timing. O veterano Tony Leung Chi-Wai, no entanto, é um acerto: um dos atores que mais conseguem manter o equilíbrio em suas performances nos últimos 15 anos. Sua parceira de cena, a novata Tang Wei, surpreende com maturidade e sutileza num papel complexo, repleto de nuances e pequenos detalhes.

Apesar de se escorar em sua estética, Desejo e Perigo não tem os deslumbre que se podia esperavar. É um filme bonito plasticamente, mas não passa muito disso. Seu conjunto visual é que funciona, mas nem a direção de arte nem a fotografia são espetaculares, inclusive nas cenas de sexo, que causaram certo escândalo por serem supostamente explícitas, o que eu duvido muito, embora sejam bonitas. A busca pela beleza parece prejudicar o ritmo do filme, onde o que é mais perene é a música, assinada por Alexandre Desplat que comete, mais uma vez, uma linda melodia.

Desejo e Perigo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Se, Jie, Ang Lee, 2007]

7 Comments

Filed under Resenha

Top 40: melhores filmes de 2006

Para não ficar de fora das discussões sobre os melhores filmes que foram lançados em circuito em 2006, já que o Frankie, dois posts abaixo, considera apenas o que eu vi no cinema no ano, publico aqui minha lista de favoritos entre os filmes que tiveram estréias oficiais em solo brasileiro. Os cinco primeiros serão meus cinco indicados para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos, cuja votação começa no dia 21. Pela primeira vez, um filme brasileiro encabeça minha lista.

No oscarBUZZ, ressucitado, as repercussões dos indicados dos guilds e minhas expectativas para a corrida ao Oscar.

1 O Céu de Suely, de Karim Aïnouz
2 O Novo Mundo, de Terrence Malick
3 A Dama na Água, de M. Night Shyamalan
4 Caché, de Michael Haneke
5 O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

6 O Plano Perfeito, de Spike Lee
7 2046, de Wong Kar-Wai
8 O Crocodilo, de Nanni Moretti
9 Os Infiltrados, de Martin Scorsese
10 Amantes Constantes, de Philippe Garrel

11 Miami Vice, de Michael Mann
12 Munique, de Steven Spielberg
13 Impulsividade, de Mike Mills
14 A Casa do Lago, de Alejandro Agresti
15 Orgulho e Preconceito, de Joe Wright

16 Amor em 5 Tempos, de François Ozon
17 Ponto Final, de Woody Allen
18 A Última Noite, de Robert Altman
19 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach
20 O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro

21 Vôo United 93, de Paul Greengrass
22 O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hambuger
23 007 – Cassino Royale, de Martin Campbell
24 As Chaves de Casa, de Gianni Amelio
25 Dália Negra, de Brian De Palma

26 Estamira, de Marcos Prado
27 Superman – O Retorno, de Bryan Singer
28 Abismo do Medo, de Neil Marshall
29 Viagem Maldita, de Alexandre Aja
30 O Tempo que Resta, de François Ozon

31 O Diabo Veste Prada, de Scott Frankel
32 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira
33 Boa Noite, e Boa Sorte., de George Clooney
34 Árido Movie, de Lírio Ferreira
35 A Criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

36 A Concepção, de José Eduardo Belmonte
37 Eleição – Submundo do Poder, de Johnnie To
38 Eu me Lembro, de Edgard Navarro
39 O Homem-Urso, de Werner Herzog
40 Volver, de Pedro Almodóvar

12 Comments

Filed under Listas

O Segredo de Brokeback Mountain

Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Michelle Williams

A trilha sonora de O Segredo de Brokeback Mountain é um metáfora perfeita do filme. A melodia criada por Gustavo Santaolalla é interrompida sempre que alcança seus momentos mais bonitos. Os cortes são abruptos, secos, como se fosse proibido continuar a fruir a música. O acerto na música é apenas um pequeno ponto a se destacar quando a intenção é descrever o feito de Ang Lee com a história de amor entre os dois caubóis. Porque ele não é um filme sobre a história de amor sobre dois caubóis. É a história de um amor proibido, condenado ao segredo, ao microverso, à miniatura. Amor de verdade, tenha a forma que for, demanda exposição. Retratar um relacionamento escondido por vinte anos poderia facilmente cair no banal, no desfile de exibições de preconceito.

Ang Lee foi para outro lado. O preconceito do mundo aparece menor do que o próprio preconceito interior. O Segredo de Brokeback Mountain parece ser mais uma luta íntima contra as próprias limitações (e driblar limitações interiores não é nada fácil) do que uma batalha contra fronteiras impostas pelos outros. Nesse sentido, é muito inteligente a contraposição das personagens, que mesmo diferentes (e é essa diferença que justifica todo o filme) não se encaixam nas figuras estereotipadas tão caras a histórias afins.

O roteiro, que poderia facilmente nos deixar mais simpáticos a Jack Twist, o mais bem resolvido da dupla em relação a seus sentimentos e desejos, equilibra com propriedade a defesa das duas personagens. O embate final, no último encontro do dois, é exemplar neste sentido, onde os imensos sacrifícios de cada um são expostos e onde, mais que conformismo, surge entendimento. Se o mérito de Ang Lee e do roteiro na arquitetura desta história é completo, há de se bater palmas para Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ambos bem em cena (com óbvio destaque para Heath, que tem a personagem mais difícil). Aceitar os papéis foi algo extremamente corajoso para uma dupla com uma carreira de imenso apelo jovem.

O filme não é exatamente o que se poderia chamar de filme engajado. Ele não está lá para defender nada, se exime de qualquer julgamento de valor. Ang Lee está um passo – ou dois – além dessa discussão tola, velha. O que ele quer é mostrar uma história de amor. O Segredo de Brokeback Mountain é um filme triste, mas que não se estrutura sobre a melancolia. É um filme que não abre espaço para a afetação, mas para o melodrama. O corte é seco, o texto é duro, a fotografia é elegante, enxuta, clássica. Tudo o que um filme macho pede.

O Segredo de Brokeback Mountain EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Brokeback Mountain, Ang Lee, 2005]

18 Comments

Filed under Resenha

Mostra SP 2005: Top 20

Viggo Mortensen, Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Emmanuelle Devos, Zhang Ziyi, Tao Zhao

melhores filmes:

O Mundo, de Jia Zhang-ke.
Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin.
Marcas da Violência, de David Cronenberg.
Os Atores do Teatro Queimado, de Rithy Panh.
Caché, de Michael Haneke.
Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes.
2046, de Wong Kar Wai.
O Inferno, de Danis Tanovic.
Good Night, and Good Luck, de George Clooney.
10 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach.
11 Brokeback Mountain, de Ang Lee.
12 Flores Partidas, de Jim Jarmusch.
13 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira.
14 Café da Manhã em Plutão, de Neil Jordan.
15 Por um Mundo Menos Pior, de Alejandro Agresti.
16 Impulsividade, de Mike Mills.
17 Trilogia – O Vale dos Lamentos, de Theo Angelopoulos.
18 Seven Swords, de Tsui Hark.
19 Eleição, de Johnny To.
20 Noiva e Preconceito, de Gurinder Chadha.

outros destaques:
Por Dentro da Garganta Profunda, de Fenton Bailey e Randy Barbato; Além do Azul Selvagem, de Werner Herzog; Cidade Baixa, de Sérgio Machado; Estrela Solitária, de Wim Wenders; Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso.

melhor direção:
Jia Zhang-ke, por O Mundo

melhor ator:
Mathieu Almaric, por Reis e Rainha

melhor atriz:
Emmanuelle Béart, por O Inferno

melhor ator coadjuvante:
Vincent D’Onofrio, por Impulsividade

melhor atriz coadjuvante:
Maria Bello, por Marcas da Violência,

melhor roteiro:
Reis e Rainha

melhor fotografia:
O Mundo

melhor montagem:
Reis e Rainha

melhor direção de arte:
2046

melhor música:
Eleição

melhor som:
Seven Swords

piores filmes:
Palindromes, de Todd Solondz.
Carreiras, de Domingos Oliveira.
Batalha no Céu, de Carlos Reygadas.
Be Movies: programa 2, de Khavn.
Nuvens Carregadas, de Tsai Ming-Liang.

melhor episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Bilu e João, de Katia Lund.

pior episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Os de John Woo, Stefano Veneruso, Mehdi Charef e Jordan & Ridley Scott, empatados.

Leave a Comment

Filed under Mostras

Hulk

Eric Bana, Nick Nolte, Jennifer Connelly

Existem dois tipos de pessoas: as que liam quadrinhos quando eram crianças e hoje são adultos legais e as que não liam e hoje não são tão legais quanto poderiam ser. Ang Lee é um cineasta com um grande talento, indicado quatro vezes ao Oscar e vencedor de uma estatueta pelo épico O Tigre e o Dragão. Ang Lee tem apenas um problema: ele não lia quadrinhos quando era criança e por isso não é tão legal como poderia ser.

Lee foi o escolhido para dirigir a versão para o cinema de um dos mais complexos personagens da Marvel Comics, o Hulk. A enorme criatura verde é uma versão raivosa do cientista Bruce Banner, que foi atingido por radiação gama num acidente. O Hulk é um monstro. Um ser completamente dominado pela fúria e sem controle das próprias emoções. Um ser solitário que vaga pelo mundo que tem medo dele e que, como sempre acontece com as diferenças, não sabe como absorvê-lo.

Ang Lee queria mostrar tudo isso em seu filme e não reproduzir a visão mais primária de que o personagem é apenas uma máquina de destruição. Justifica sua estratégia modificando a origem do Hulk, o que seria entendível se o modo como essa transformação ocorreu fosse abalizada pelo roteiro. Mas o escritor James Schamus, que adora mergulhar na alma humana (e que já fez isso muito bem), também não tem intimidade com os quadrinhos. A tentativa de deixar a história séria, repleta de implicações psicológicas, com pesadelos e visões explicativas, não consegue cumprir seu papel e beira a infantilização. Sabe quando se tenta explicar demais para o espectador entender? É assim…

Somente quem lê quadrinhos sabe das infinitas possibilidades deste universo. Consegue enxergar e trazer da memória as nuances múltiplas dos personagens. Consegue entender que, muito mais que superpoderes ou batalhas fantásticas, o que conquista os leitores são as histórias dos heróis. São os homens comuns por trás das máscaras ou das faces transformadas. A estética e a linguagem das HQs revolucionaram a literatura e a arte no último século. Transpor essa revolução para outro campo é difícil.

Apesar de cenas patéticas como a dos cães mutantes (quase tão medonhos quanto o visual grunge do Nick Nolte), existe uma boa intenção, mas Hulk, o filme, é ingênuo. Cineasta e roteiristas tratam ingenuamente o tema, a história, os personagens. Tudo por falta de tato com os quadrinhos. A edição de Tim Squyres, que tenta homenagear o tempo inteiro as HQs, é boa, mas cai no exagero muitas vezes. A trilha de Danny Elfman começa sombria, mas descamba para temas africanos inexplicáveis.

Jennifer Connelly é, de longe, a melhor atriz do filme, comprovando que ator bom faz filme cult, faz papa-Oscar e faz Hulk também. E a criatura verde? A tão falada criatura verde, a maior polêmica do filme por sua excessiva virtualidade (apesar de apresentar expressões e movimentos impressionantes)? Surpreendentemente o Hulk digital é o que menos incomoda. Parece bem menos ingênuo que seus criadores.

Hulk EstrelinhaEstrelinha½
[The Hulk, Ang Lee, 2003]

4 Comments

Filed under Resenha