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Paraíso

Paraíso

A carreira de Andrei Konchalovskiy é bem curiosa. O diretor trafega com naturalidade entre o cinema de autor e o cinema comercial, com passagens por um cinema algo autoral, algo comercial, que mira em prêmios internacionais, caso deste Paraíso, que ganhou o Leão de Prata de melhor diretor no Festival de Veneza. Dois anos depois do interessantíssimo As Noites Brancas do Carteiro, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, mas infelizmente inédito em circuito, Konchalovsky entra num terreno seguro para atrair comoção internacional, o das histórias da Segunda Guerra Mundial. O roteiro original, escrito pelo próprio cineasta com Elena Kiseleva (com quem também fez dupla no filme anterior), mistura uma certa ousadia questionável com muita burocracia e didatismo. O filme acompanha três histórias que se cruzam durante a guerra e coloca os personagens lembrando de suas vidas numa espécie de mesa de interrogatório que chama a atenção depois que entendemos em que contexto aquilo acontece. A fórmula tenta quebrar a burocracia da narrativa principal, que replica dezenas de filmes feitos sobre o tema, mas parece uma alternativa didática para reforçar tudo o que está acontecendo, pra não deixar dúvidas da “mensagem” que se quer passar.

Paraíso ★½
[Ray, Andrei Konchalovsky, 2016]

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Mostra SP 2014: post catorze

As Noites Brancas do Carteiro

As Noites Brancas do Carteiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Belye Nochi Pochtalona Alekseya Tryapitsyna, Andrei Konchalovsky, 2014]

A câmera de Andrei Konchalovsky segue o carteiro de uma vila no norte da Rússia, onde boa parte dos moradores sobrevive de pensões por terem sido militares. O diretor, mais uma vez, usa atores amadores para interpretar a si mesmos num roteiro ficcional, mas inspirado em suas próprias vidas. O resultado dá cor à melancolia das personagens, que parecem bem à vontade ao encenar suas rotinas. Cada cena é filmada num longo take único em que a câmera tenta ficar o mais invisível possível para que o “elenco” evolua com naturalidade. Konchalovsky mistura as imagens documentais que captura do interior das casas dos protagonistas com as cenas “roteirizadas”, costurando uma narrativa brejeira que faz o espectador mergulhar numa Rússia que sobrevive dos cacos do passado ao mesmo tempo em que é condenada por este mesmo passado. A curva é sutil e transforma As Noites Brancas do Carteiro num programa duplo dos mais provocadores com Leviatã, de Andrei Zvyagintsev.

Nabat

Nabat EstrelinhaEstrelinha½
[Nabat, Elchin Musaoglu, 2014]

Anos 90, Azerbaidjão. A vila em cujos arredores Nabat mora com o marido doente está no meio de um conflito territorial. O casal já perdeu o filho na guerra e a rotina da mulher, de caminhar sozinha até a cidade para vender o leite que sua única vaca produz, é interrompida quando ela percebe que a população abandonou o lugar. De repente, a protagonista vaga por aquelas ruas de pedra sem os encontros que enchem seu dia-a-dia e faz o que pode para manter acesa o que lhe resta de esperança. Desse ritual cíclico de solidão, o cineasta Elchin Musaoglu consegue extrair uma boa dose de lirismo com a ajuda de sua atriz principal, Fatemeh Motamed Arya, que cria uma personagem talhada pela brutalidade da vida. Mas a tristeza genuína de Nabat ganha um maniqueísmo incômodo depois que sua nova rotina fica clara para o espectador. Musaoglu acerta na construção da relação de Nabat com a loba, mas a trilha sonora e a imagem final da protagonista parecem exigir do espectador lágrimas que ele já pode até ter entregado de graça.

O Medo

O Medo Estrelinha½
[La Por, Jordi Cadena, 2014]

A construção que Jordi Cadena impõe para seu filme, um suspense psicológico que guarda sempre seu vilão sob uma névoa sufocante, é interessante para apresentar os protagonistas, mas tem uns pecados que me parecem imperdoáveis. O fatalismo do filme não dá qualquer chance para entendermos o personagem do pai e suas motivações. O tom, sempre acima, nos incita a ter pena do restante do elenco apenas com a insinuação do que acontece dentro daquela casa. O uso do silêncio para construir a narrativa é um ponto forte, mas esse mesmo silêncio vira um maneirismo para que o diretor modele suas intenções. A metáfora gratuita na cena da aula de ciências parece pura preguiça do roteiro, assim como as cenas no cemitério. Por fim, o desfecho de O Medo, com direito a uma fala irônica de muito mau gosto, parece apenas guardar o choque final para cooptar quem está do outro lado da tela.

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