Tag Archives: Amy Adams

Ela

ELA

Theodore vive no futuro, um futuro do presente. Um tempo inexato, mas muito próximo do nosso, onde não há naves espaciais, não há andróides, mas há sistemas operacionais inteligentes, como os de hoje, mas um pouco mais sofisticados. O personagem principal de Ela ganha a vida escrevendo cartas de amor para pessoas que nunca escreveram cartas de amor. É um solitário, que não consegue se libertar um casamento acabado. Mora num mundo onde a ficção-científica é possível e o relacionamento interpessoal cada vez mais raro. Nesse ambiente, apenas um passo adiante do que já vivemos hoje, Spike Jonze pergunta: como vai ser o amor?

A forma como as pessoas se relacionam tem sofrido mais transformações nos últimos anos do que qualquer outro aspecto da vida. A máquina virou intermediária para a construção dos relacionamentos: elas dão voz para quem nunca teria a oportunidade de se conhecer, organiza nossa vida em linhas do tempo, nos apresenta amores, amantes, amigos. Jonze, um entusiasta das novas possibilidades, quer saber o que pode acontecer quando a máquina deixar de ser o intermediário e passar a ser o fim. O cineasta radicaliza a discussão sobre o amor nos tempos virtuais ao mostrar seu protagonista apaixonado pela voz de comando de seu computador.

Havia muitos riscos envolvidos, mas Jonze dribla todos eles. Evita sistemas totalitários ou simplesmente caóticos que pudessem movimentar a trama ou justificar acontecimentos. As condições que o personagem encontra são quase as mesmas que temos hoje. Por outro lado, seria muito fácil duvidar da possibilidade de uma relação assim, mas o cineasta nunca questiona a natureza ou a validade do encontro entre Theodore e Samantha. Para eles, os percalços que aparecem para o casal não são muito diferentes do que encontramos hoje em dia. Por sinal, o relacionamento entre os dois é recíproco. As cenas em que o casal sai as ruas para se divertir estão entre as mais belas do ano. E Scarlett Johansson está inspirada.

Spike Jonze também encontrou em Joaquin Phoenix um ator perfeito para materializar a sensibilidade do personagem. Ele ressalta a melancolia sincera do filme e valoriza cada caminhada solitária de Theodore por uma Shangai “do futuro”, que abriga o conceito da cidade grande que engole os homens. E os homens aqui são engolidos não por construções físicas, impérios sangrentos, guerras com máquinas, mas pelo próprio processo de isolamento a que a sociedade tecnológica os sujeita. E é nesse mundo em que se estabelecem novas conexões, que é construído a cada dia, que o personagem principal de Ela, experimenta, descobre, se põe à prova. Sem regras definidas, o futuro se oferece e cabe a cada um tentar domá-lo e compreendê-lo.

Ela  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Her, Spike Jonze, 2013]

6 Comments

Filed under Resenha

Trapaça

Trapaça

A Mostra de Cinema do ano passado exibiu, em cópia restaurada, O Grande Golpe, um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick, realizado antes de o cineasta entrar em sua fase mais celebrada, quando esteve à frente de projetos mais autorais. Enquanto filme noir, enquanto peça da indústria do entretenimento, o longa de Kubrick atende completamente às expectativas em torno dele. Descreve demoradamente o processo de criação do golpe do título brasileiro, desenha com riqueza de detalhes cada personagem, inclusive os periféricos, e imprime um visual e um ritmo que respeitam e revitalizam o gênero em que se insere. Essa rápida digressão serve para comparar o que Kubrick conseguiu fazer com aquele filme pequeno com o que David O. Russell realizou em Trapaça, indicado a dez Oscars, merecedor de uma ou duas indicações.

Trapaça, como O Grande Golpe, é um filme que emula um gênero, que revisita um tipo de cinema, mas, ao contrário do filme de Kubrick, que não parte de expectativas, o longa de David O. Russell promete muito, mas não cumpre quase nada. Temos um bom elenco em interpretações que são boas, mas nunca oferecem realmente um diferencial. Temos uma trama cuja primeira referência – ou pelo menos a mais óbvia – é o cinema de Martin Scorsese dos anos 70 e 80, mas que, sob o pretexto da leveza, de ser uma “comédia”, não sabe muito bem como se aprofundar nos detalhes da história ou no desenho dos personagens. Temos uma direção que não sabe encontrar um tom certo, o que resulta num filme que é um pouco de tudo e não é muita coisa também. No entanto, há uma excelente reconstituição de época, que recria a era disco sobretudo em figurinos e penteados belíssimos que  deixam o prato mais colorido e perfumado. Não necessariamente saboroso.

O. Russell é um cineasta que transita em gêneros diferentes. Três Reis tinha o ritmo acelerado das deturpações do cinema pós-Quentin Tarantino, Huckabees plagiava a melancolia de um Wes Anderson, mas sem muito talento, O Vencedor, seu melhor filme, retomava um melodrama sério que fazia/faz falta no cinema americano. A história nos apresentou muitos bons diretores que pularam de gênero em gênero (Stanley Kubrick, George Stevens, Robert Wise), mas todos eles, os bons diretores, tinham uma espécie de marca em seu cinema, quando não uma assinatura. Trapaça parece sofrer justamente da falta de coesão do cinema de O. Russell. Este novo longa não dialoga com o que o diretor fez antes. E, sem encontrar uma unidade com sua obra, o filme segue desgovernado, mirando em coisas diferentes, sem desenvolver nenhuma delas, se escondendo na quantidade e não na qualidade de seus atores.

Tudo é muito simpático no filme e seu grande mérito é evocar uma época e um universo fascinantes. A embalagem visual e sonora tenta laçar o espectador, mas falta substância a esse passeio que O. Russell propõe. Christian Bale e Amy Adams são os melhores no filme, mas não há grande cenas para que eles encorpem seus personagens, enquanto Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, ela melhor do que ele, reprisam maneirismos de suas interpretações anteriores. Ambos estavam bem muito bem no trabalho anterior do cineasta, O Lado Bom da Vida, única interpretação decente de Cooper. Já Jeremy Renner vai de lá pra cá e fica na coluna do meio mesmo. E a grande questão dos atores parece ser a grande questão do filme: Trapaça tinha chance de acertar em todos os aspectos, se lança inicialmente de maneira interessante para todos os lados, mas não realiza nada. A superficialidade incomoda mesmo num filme sem grandes intenções.

Trapaça EstrelinhaEstrelinha
[American Hustle, David O. Russell, 2013]

27 Comments

Filed under Resenha

Trailer: American Hustle

Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

Leave a Comment

Filed under Trailer, Vídeos

Trailer: Her

1 Comment

Filed under Trailer, Vídeos

O Homem de Aço

O Homem de Aço

Christopher Nolan, herói ou vilão? Herói por ter reconstruído a franquia do Batman nos cinemas, provado que os filmes de super-heróis podem fazer muito dinheiro e alimentado a possibilidade de renascer outros personagens da DC Comics nas telas, inclusive juntos. Vilão por ter estabelecido um padrão questionável para os próximos longas baseados em heróis da editora: no universo de Nolan, tudo precisa ser grandioso, desde as perseguições de rua até os dramas morais, tudo tem que acontecer em larga escala.

O Homem de Aço, que ninguém se engane, é um filme de Christopher Nolan. É ele o autor do argumento ao lado de David Goyer – que assinou o roteiro deste longa e de todos os Batmans que o cineasta dirigiu. Foi Nolan quem produziu o filme e provavelmente quem estabeleceu a escala intergalática em que o filme mora. A grandiosidade convive com a necessidade a tentativa de transformar o Superman num personagem possível, de trazê-lo para o mundo real, o que é bastante louvável.

A natureza e os poderes sobre-humanos do herói sempre foram obstáculos para transformá-lo num protagonista realista e o passado de Kal-El no cinema, embora haja muitos acertos nos filmes de Richard Donner e Richard Lester, ajudaram a afastar o personagem do ser humano comum, tanto com seu tom fabular quanto com sua inocência. A grande questão em O Homem de Aço é justamente essa: fazer do herói um herói “de verdade”, no qual a plateia de hoje, acostumada a filmes de ação mais críveis, efeitos especiais mais sóbrios e menos espetaculares e a personagens menos unilaterais – o que o Superman de Christopher Reeve sempre foi – possa acreditar.

O grande senão do filme de Nolan – aliás, de Zack Snyder, respeitando os princípios estabelecidos por Nolan – é que o tom sempre é de excesso, seja de seriedade, seja de magnitude. Existe um esforço reconhecido para aumentar a complexidade do herói, ressaltando suas particularidades, apostando em sua condição de pária. Esse conceito, que vem sendo alimentado nos quadrinhos há quase duas décadas, ajuda a credibilizar o personagem, mas a solução dos autores para dar substância a esse drama é transformar o herói no protagonista de uma tragédia grega, desde sua relação com Zod até os grandes dramas que vive com sua família terráquea.

O Homem de Aço

Michael Shannon se utiliza dessa base do excesso para desfilar todos seus trejeitos e afetações com Zod. E impressionantemente funciona (na mesma medida que o anabolizado Krypton medieval-futurista funciona). Aliás, o elenco todo encontra seu caminho, com destaque principal para Kevin Costner, quase sempre excelente e dono de uma das cenas mais emocionantes (e que atende ao apelo trágico do filme) como Jonathan Kent. Diane Lane está correta, embora pareça envelhecida demais pela maquiagem, e Laurence Fishburne, apesar de estar bem, parece ter sido escalado apenas para que o filme tivesse um efeito Nick Fury como nos longas da Marvel.

Seguindo a lógica do excesso, Amy Adams, que parece realmente ter se inspirado em Margot Kidder, aparece em quase todas as cenas desde que sua Lois Lane surge nas telas. Em alguns momentos, o filme faz às vezaes de versão longa de um episódio de Lois & Clark. Amy, sempre boa atriz, não faz feio, mas também não chama atenção. O Jor-El de Russell Crowe também é onipresente. É interessante como Snyder e Nolan tentaram se afastar dos Supermans de Donner e Lester, mas, por outras vias, terminaram reciclando várias ideias lançadas nos filmes deles.

No meio disso tudo, Henry Cavill é uma grata surpresa. O ator britânico de testa franzida quase que todo o tempo segura o personagem num misto de força e fragilidade, que retrata o herói pretendido pelos autores com precisão. Cavill não é um intérprete excelente, mas veste o Superman com tons mais realistas, se afasta da imagem inocente de Christopher Reeve e se coloca a serviço do filme. O problema é que, mesmo que o longa prepare o terreno para esse Superman humano, a necessidade de explodir a tela em efeitos visuais e criar cenas grandiosas resulta numa interminável e enfadonha sequência de destruição que evoca tanto os filmes do Batman de Nolan quanto os longas de Michael Bay.

O pecado de Nolan é mais uma vez, o excesso. As histórias dos heróis de quadrinhos são reconstruídas de tempos em tempos. É a dinâmica do meio. Para se atualizar para novas gerações e para reaproveitar aspectos de antigas aventuras, suas origens são constantemente reescritas, seus poderes, inimigos e vida civil adaptados para os novos tempos. Fazer isso com heróis com o Batman, um herói da vida real, é mais fácil. Basta colocá-lo em confronto com terroristas, os supervilões de nossa sociedade atual, para inseri-lo no mundo contemporâneo. Com um personagem como o Superman, as coisas se complicam porque, apesar de todo o bom mocismo, primeira associação que se faz ao herói, o kryptoniano é muito mais complexo do que qualquer outro: um semideus que carrega nos ombros, como o Atlas da mitologia grega espelhada em O Homem de Aço, o peso do mundo. Ou de dois mundos. Peso que está presente neste filme, mas por pouco não o esmaga com suas pretensões.

O Homem de Aço EstrelinhaEstrelinha½
[Man of Steel, Zack Snyder, 2013]

14 Comments

Filed under Resenha

Oscar 2013: atriz coadjuvante

Atriz coadjuvante

Amy Adams, O Mestre
Anne Hathaway, Os Miseráveis
Helen Hunt, As Sessões
Jacki Weaver, O Lado Bom da Vida
Sally Field, Lincoln

A uma altura dessas da corrida pelo Oscar, pouca gente duvida de que Anne Hathaway não seja a vencedora entre as atrizes coadjuvantes por sua performance em Os Miseráveis. A seu favor, a atriz tem o fato de sua participação, embora não passe muito mais do que 20 minutos, é marcante no filme de Tom Hooper. Fantine não apenas move a trama do musical como oferece os melhores momentos do filme e apresenta sua canção mais conhecida. Anne Hathaway é uma atriz jovem e respeitada, um perfil que a Academia gosta bastante de celebrar. Foi indicada ao Oscar de protagonista quatro anos atrás e está entre as intérpretes mais disputadas dos últimos anos. Anne está na moda. Além disso, vem com todos os grandes prêmios na bagagem: Globo de Ouro, BAFTA, SAG e Critics Choice. Mas talvez o que mais indique sua vitória seja o fato de que ela parece ser a única chance concreta de um prêmio importante para um filme “grande”.

No entanto, acho que a força de Sally Field não pode ser desconsiderada por sua performance em Lincoln. O duelo da atriz com Daniel Day-Lewis na cena em que o presidente e primeira-dama falam do luto pelo filho morto é a cena mais forte do filme. Sally é uma atriz respeitada, ganhou dois Oscars, mas não era sequer indicada desde 1985. O conjunto da obra, somado à interpretação de um personagem real fundamental à história americana, deve conquistar os eleitores mais velhos e pode ajudar a garantir uma surpresa numa categoria em que muitas surpresas acontecem. Quem diria que Marcia Gay Harden ganharia o Oscar por Pollock?

Lindo seria ver a surpresa sendo o nome de Helen Hunt, por As Sessões. Embora num filme bem tradicional, a atriz desdobra sua personagem numa interpretação corajosa – libertária talvez seja uma palavra mais apropriada. Mas suas chances são quase nulas principalmente porque o filme, cotado para algumas categorias, fracassou em todo o resto. Amy Adams está ótima em O Mestre, mas de todas suas indicações está é a mais discreta e aquela cujo papel é menos destacado dentro da trama. A recepção ao filme também não ajudou. Jacki Weaver, que estava excelente em Reino Animal, aqui se beneficiou do efeito “voto no conjunto do elenco”. Aparece pouco, está correta, mas não anima muito. Pouca gente deve se lembrar dela na hora de votar.

O duelo então deve se concentrar entre a candidata mais jovem e a candidata mais velha. Renovação versus tradição. No caso deste ano, a tradição talvez esteja em celebrar os jovens talentos.

Quem deve ganhar: Anne Hathaway, Os Miseráveis
Quem ameaça: Sally Field, Lincoln
Quem merece: Helen Hunt, As Sessões
Quem faltou na lista: Jessica Chastain, Os Infratores

Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

4 Comments

Filed under Prêmios

O Mestre

O Mestre

Joaquin Phoenix é um rebelde de Hollywood. Ninguém melhor do que um rebelde de Hollywood para interpretar um homem que não consegue se encaixar em lugar nenhum. Nem nas Forças Armadas, nem na vida de casado, nem numa seita que mistura misticismo e ficção-científica. Uma seita bem parecida com aquela que conquistou adeptos justamente em Hollywood. Em seu sexto filme, Paul Thomas Anderson investiga o poder de persuasão dos profetas do nosso tempo e os limites de um homem que tenta, mas não consegue se enquadrar.

O personagem de Joaquin Phoenix é tão ou mais interessante do que a história aliterada da Cientologia, cerne de O Mestre. O espectador é apresentado a um mundo de angústia em que Freddie Quell, um ex-combatente da Segunda Guerra, que não encontra mais seu lugar no mundo. Um homem aprisionado por não saber ser quem ele não é. Seu drama é estar sufocado por sua completa espontaneidade. Ele é um homem movido por seus impulsos primários e necessidades animalescas, condenado a viver para sempre à margem de qualquer grupo organizado.

A violência é sua força-motriz e também o que lhe legitima, mas é no encontro casual com Lancaster Dodd, o líder de uma espécie de nova religião, que Quell encontra a possibilidade de se transformar e de, desta forma, diminuir sua inconstância e seu sofrimento. A cena do “interrogatório”, em que Quell e Dodd se confrontam pela primeira vez é exemplar. Um homem cuja pureza está na maneira crua com que trata o que o cerca face a face com o homem que acredita que em seu poder de missionário, um domador de almas.

Ao mesmo tempo em que analisa os abusos e oportunismos das religiões contemporâneas, Paul Thomas Anderson parece contemporizar discutindo a disponibilidade da coopção. O enfrentamento entre Quell e Dodd, que se estende ao longo de todo o filme, revela as grandes interpretações de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman, ambos brilhantes e completamente entregues a seus personagens. Se Phoenix adota uma performance física, passando o filme quase todo curvado, segurando  a coluna, Hoffman traduz o talento hipnótico de seu personagem.

O embate duro cria uma espécie de laço invisível entre os dois, em que, de um lado um tenta renegar sua natureza e se dispõe à conversão e o outro enxerga no primeiro um desafio e um oposto complementar. A relação de amor e ódio entre os personagens abrilhanta e afasta O Mestre de muitos lugares comuns. O filme foge da sina de denuncismo que acomete obras que se propõem a discutir fé e amplia seu alcance, humanizando os protagonistas, que se revezam nas condições de herói e vilão. A personagem de Amy Adams entra nesse contexto com uma primeira-dama de uma força discreta e elegante.

Ao rejeitar as facilidades, O Mestre pode parecer afetado, distante, etéreo. Mas é exatamente esta ambientação que liberta o filme da obviedade e o elege como um poderoso drama sobre os limites do homem.

O Mestre EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Master, Paul Thomas Anderson, 2012]

10 Comments

Filed under Resenha

Trailer: Superman, o Homem de Aço

Superman – O Homem de Aço só estreia em 2013, mas os primeiros teaser já indicam o tom do filme. São dois, que foram vistos pela primeira vez, neste mês, na Comic Con. Este aqui é narrado por Kevin Costner, que viverá Jonathan Kent, o pai de Clark na Terra. A direção é de Zack Snyder.

O filme está programado para estrear no Brasil no dia 14 de junho. O elenco trará ainda Henry Cavill (Superman), Amy Adams (Lois Lane), Russell Crowe (Jor-El), Diane Lane (Martha Kent), Michael Shannon (General Zod), Christopher Meloni (Colonel Hardy), Laurence Fishburne (Perry White), Jadin Gould (Lana Lang) e Ayelet Zurer (Lara Lor-Van).

2 Comments

Filed under Trailer, Vídeos

Na Estrada

Sam Riley, Kirsten Dunst, Krisetn Dunst, Garrett Hedlund, Krisetn Stewart, Viggo Mortensen

A culpa pelo resultado morno e pouco interessante de Na Estrada talvez nem seja da formalidade de Walter Salles. As qualidades do livro de Jack Kerouac estavam muito mais em seu poder de representar uma geração do que no valor de seu texto. “On the Road” foi o livro que traduziu o jovem americano da virada da primeira metade do século vinte e virou símbolo de seus ideais libertários, que passavam diretamente por sexo e drogas e arte.

Setenta anos depois, a herança dos beatniks não está numa linha ou numa corrente, mas costurada a nossa cultura, ao nosso imaginário. Qualquer adaptação do livro de Kerouac já sofreria pela falta do impacto transformador do original. Nas mãos de Walter Salles, isso se acentua, mas não porque o diretor não tenha se esforçado. O máximo de “revolução” que o brasileiro consegue nos oferecer é justamente o que se vê na tela em Na Estrada.

Para os padrões de Salles, o filme é bastante ousado, com drogas e sexo protagonizando várias cenas. Mas não há como se transformar um perfil da noite pro dia e, mesmo quando tenta ousar, o diretor exala sua formação conservadora. Para uma história “suja”, com personagens na condição de espíritos livres, soltos pelo mundo, o filme é estilizado demais. E esse verniz dá um peso que torna o longa reverente à obra e cansativo.

O elenco é uniforme, mas não existem grandes méritos particulares. Garrett Hedlund é o melhor em cena, conseguindo traduzir o encantamento que seu Dean Moriarty provoca em todos que cruzam seu caminho, mas, na cena final, quando o personagem pede um comportamento diferente, o ator não sabe como dar conta da mudança de tom. Sam Riley é um protagonista generoso, já que passa o comando das cenas para qualquer um que contracene com ele. Kristen Stewart está bem.

Incomoda bastante o desperdício de bons atores em papéis menores. As escalações parecem ter muito mais a função de chamar atenção pro filme do que qualquer outra coisa. Viggo Mortensen e, sobretudo, Amy Adams, na caracterização mais grosseira do longa, são os que mais sofrem. Seus personagens, que deveriam ter uma função oracular para os protagonistas, são retratados com malucos imundos. Steve Buscemi surge numa seqüência curtinha que aparentemente deveria demonstrar o ápice da ousadia de Salles. Até porque se a produção fosse americana – os créditos finais deixam bem claro que só França e Brasil respondem pelo filme – a cena seria, pelo menos, suavizada.

Salles tenta, mas a verdade é que nenhum aspecto do filme funciona plenamente. A fotografia tem seus momentos de beleza na composição, mas no geral se mantém numa zona de conforto que se estende por todo o longa. Quando tenta fugir do lugar comum, vem aquela cena da dança no bordel mexicano, filmada com uma câmera frenética como se os personagens participassem de uma sessão num terreiro de candomblé. A trilha cumpre seu papel, mas nunca empolga realmente.

Na Estrada sofre de um misto de reverência e falta de intimidade com o material. O filme pedia um diretor mais porra louca para comandar essa história de libertação. E não alguém cujo maior atrevimento foi justamente ter escolhido este livro para adaptar.

Na Estrada EstrelinhaEstrelinha½
[On the Road, Walter Salles, 2012]

5 Comments

Filed under Resenha

O Vencedor

Christian Bale, Mark Wahlberg, Melissa Leo

O Vencedor é um filme tão quadrado que até agora eu tento entender porque gostei tanto dele. O longa mais convencional de David O. Russell é uma mistura de trama de superação e filme de boxe cuja história reproduz os maiores lugares comuns destes, digamos, gêneros. Parece ser um eco de tudo o que já foi feito antes. E o mais esquisito nesse processo inteiro é que seu diretor sempre foi chegado a experimentações visuais e estruturais que somem completamente nesse novo trabalho.

Seria amadurecimento ou adequação a um modelo clássico de contar histórias? Acho que um pouco dos dois, mas o mais importante é que O. Russell parece ter encontrado o segredo da fórmula. Primeiro, sua história cheia clichês, que ainda responde ao perigoso “baseado em fatos reais”, ganha contornos e densidade no roteiro que assume sua linha documental, onde o doc da HBO que o filme mostra vira auto-referência, e procura trabalhar com o drama no modo reserva para evitar espetacularizar vício e pobreza.

É exatamente o contrário de filmes como Preciosa, que carregam seus personagens com as dores e os males do mundo, e perdem o foco. O Vencedor insere seus protagonistas num contexto de decadência do norte-americano médio e consegue fazer de sua pequena história um retrato de um universo de estupidez e ensimesmamento que reflete o miolo do país. A cena em que o casal de namorados vai ao cinema ver um filme espanhol sintetiza bem isso. Nem mesmo uma vitória no ringue serve para que as coisas mudem de verdade.

E O. Russell aos poucos revela que seu filme não é tão simples assim. Na sequência da grande luta, o filme assume camaleonicamente o formato de uma transmissão esportiva de TV. Uma narrativa que faz concessões mínimas aos momentos de ficção para não desdramatizar completamente a história. Mas o mérito deste filme não está exclusivamente no roteiro e na direção, mas mora muito no elenco impecável, do qual Mark Wahlberg – muito bem, embora seu personagem bobão confunda a avaliação sobre sua interpretação – é o protagonista.

Amy Adams, Melissa Leo e Christian Bale acrescentam tantas camadas a seus personagens que a mocinha altiva, a mãe manipuladora e a promessa que não deu certo se tornam descrições simplórias e genéricas que não conseguem abocanhar nem um décimo suas performances poderosas. E sobre Bale, eu, que sempre falei mal dele e de suas limitações, bato na boca. É a interpretação menos óbvia, mais complexa e surpreendente do ano. A cena em que ele entra no carro e canta “I Started a Joke” esfaqueia corações. Ao contrário de outros filmes sobre voltas por cima, cheios de esperança, O Vencedor parece mais disposto a acreditar no conformismo e na desilusão.

O Vencedor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Fighter, David O. Russell, 2010]

6 Comments

Filed under Resenha