Tag Archives: A Criança

O Garoto de Bicicleta

Cécile de France, Jerémie Rennier

As marcas que costumamos reconhecer no cinema dos irmãos Dardenne aparecem fartamente em O Garoto de Bicicleta: a câmera naturalista, as interpretações econômicas, os personagens amargos e solitários estão presentes no novo filme da dupla, que narra a história de um garoto abandonado pelo pai. A natureza da trama é semelhante às temáticas duras que vimos em filmes como O Filho e A Criança.

Como nesses filmes, a paternidade está no centro da discussão. No entanto, o longa indica uma mudança drástica no tom do cinema dos irmãos belgas. Os protagonistas continuam cercados por um mundo cru e cruel, que em seus outros longas ultrapassa os limites do realismo e namora com um certo fatalismo. Desta vez, embora os diretores não nos poupem de cenas angustiantes, O Garoto de Bicicleta não aposta em personagens frios, enclausurados por planos rigorosos.

A palavra seria alívio. Pela primeira vez, os Dardenne parecem oferecer uma chance para seus espectadores. A chance de torcer pelos protagonistas. A própria escolha da ensolarada Cécile de France para um dos papéis principais pode ser um reflexo disso. Desde as primeiras cenas, o filme deixa espaço para uma possibilidade de transformação – e até redenção. A vida continua dura para os personagens, o ambiente ainda é hostil, mas, apesar de uns sustos pelo meio do caminho, já é possível fazer planos para amanhã.

O Garoto de Bicicleta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Le Gamin au Velo, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2011]

Compartilhe!

1 Comment

Filed under Resenha

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

Anamaria Marinca, Vlad Ivanov

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias poderia, muito bem, ser a terceira Palma de Ouro em Cannes dos irmãos Dardenne. A narrativa e a concepção visual do filme são parentes de primeira geração do cinema feito pela dupla belga de Rosetta A Criança, um cinema de investigação do humano, que sempre busca transbordar os instintos mais primários dos personagens.

O curioso sobre o longa de Cristian Mungiu é que, ao mesmo tempo em que trabalha nesse patamar interior, ele sempre se aproxima de uma espécie de lição do moral sobre o tema. O filme se equilibra nesse dueto inusitado desde que a situação central se estabelece – por sinal, quem chegar ao cinema sem ter muita informação sobre o filme vai aproveitá-lo bem mais – e isso só acontece depois de uns belos 40 minutos de filme.

Como crônica social, crítica de costumes e investigação de psiquês, o filme é quase uma experiência de terror, com cenas trabalhadas para incomodar – a imagem fixa no banheiro é dolorida – e deixar o espectador tenso – a saga que se segue à imagem. A questão é que, por outro lado, esse tratamento pode ser encarado como um panfleto bem arquitetado como arma contra as práticas das protagonistas. Nessa indefinição, o filme acaba e lança muitas perguntas. No fim, isso deve ser bom. Ou não?

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Cristian Mungiu, 2007]

Leave a Comment

Filed under Resenha