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Conflito Mortal

Andy Lau, Maggie Cheung

O domingo não prometia nada. A ida à locadora, que há tempos não fazia parte da minha vida, foi para tentar reassistir o melhor filme do ano passado, O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006), mas as poucas cópias já haviam sido locadas. Foi então que uma olhada rápida nas prateleiras de lançamentos me levou para um tal de Conflito Mortal, filme estrelado por Andy Lau e Maggie Cheung. Como tem um monte de coisas orientais interessantes chegando em DVD, peguei o filme e vi que se tratava do primeiro longa de Wong Kar-Wai, As Tear Goes By, em mais um caso de tradutor que merece a forca.

O filme, de 1988, tem uma estrutura conflituosa, entre o filme de ação, com cenas bastante violentas e montagem com todos os maneirismos do gênero, muita câmera lenta e som alto nas perseguições, e o drama, com o protagonista dividido entre o destino e o amor. Desse confronto temático, surge um ensaio do cinema de um dos diretores mais interessantes surgidos nos últimos tempos. Em certa medida, o filme antecipa tanto a narrativa urbana de filmes como Amores Expressos e Anjos Caídos quanto os que formam a trilogia encerrada com 2046.

Dos primeiros, há a grande cidade e os personagens que sobrevivem – e que são reféns – daquele ambiente urbano. Dos seguintes, o filme antecipa uma série de características do cinema de Kar-Wai, como os protagonistas tentando reformular suas vidas, a consciência da solidão e a busca por um papel no mundo. O filme, que já anuncia o namoro do diretor com os enquadramentos menos tradicionais – o que se consolidaria logo depois com o começo de sua pareceria com Christopher Doyle – também é a matriz para estabelecer a relação de Kar-Wai com a música.

Numa seqüência longa, caminhando a centímetros do kitsch, o cineasta usa de um ícone da música pop, “Take My Breath Away”, do Berlin, numa versão, acredite, em chinês, para emoldurar o reencontro dos personagens, filmado como um clipe romântico dos anos 80. O resultado é sublime. Tanto no envolvimento que a cena provoca, transformando a dupla em seres comuns, populares, da esquina, quanto na maneira como Kar-Wai se apropria da linguagem para ilustrar aquele trecho da história.

Conflito Mortal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Wong Gok ka Moon/As Tear Goes By, Wong Kar-Wai, 1988]

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Top 40: melhores filmes de 2006

Para não ficar de fora das discussões sobre os melhores filmes que foram lançados em circuito em 2006, já que o Frankie, dois posts abaixo, considera apenas o que eu vi no cinema no ano, publico aqui minha lista de favoritos entre os filmes que tiveram estréias oficiais em solo brasileiro. Os cinco primeiros serão meus cinco indicados para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos, cuja votação começa no dia 21. Pela primeira vez, um filme brasileiro encabeça minha lista.

No oscarBUZZ, ressucitado, as repercussões dos indicados dos guilds e minhas expectativas para a corrida ao Oscar.

1 O Céu de Suely, de Karim Aïnouz
2 O Novo Mundo, de Terrence Malick
3 A Dama na Água, de M. Night Shyamalan
4 Caché, de Michael Haneke
5 O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

6 O Plano Perfeito, de Spike Lee
7 2046, de Wong Kar-Wai
8 O Crocodilo, de Nanni Moretti
9 Os Infiltrados, de Martin Scorsese
10 Amantes Constantes, de Philippe Garrel

11 Miami Vice, de Michael Mann
12 Munique, de Steven Spielberg
13 Impulsividade, de Mike Mills
14 A Casa do Lago, de Alejandro Agresti
15 Orgulho e Preconceito, de Joe Wright

16 Amor em 5 Tempos, de François Ozon
17 Ponto Final, de Woody Allen
18 A Última Noite, de Robert Altman
19 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach
20 O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro

21 Vôo United 93, de Paul Greengrass
22 O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hambuger
23 007 – Cassino Royale, de Martin Campbell
24 As Chaves de Casa, de Gianni Amelio
25 Dália Negra, de Brian De Palma

26 Estamira, de Marcos Prado
27 Superman – O Retorno, de Bryan Singer
28 Abismo do Medo, de Neil Marshall
29 Viagem Maldita, de Alexandre Aja
30 O Tempo que Resta, de François Ozon

31 O Diabo Veste Prada, de Scott Frankel
32 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira
33 Boa Noite, e Boa Sorte., de George Clooney
34 Árido Movie, de Lírio Ferreira
35 A Criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

36 A Concepção, de José Eduardo Belmonte
37 Eleição – Submundo do Poder, de Johnnie To
38 Eu me Lembro, de Edgard Navarro
39 O Homem-Urso, de Werner Herzog
40 Volver, de Pedro Almodóvar

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2046

2046

Uma das principais características do cinema de Wong Kar-Wai é sua capacidade de contar uma história com um grande suporte visual. O último episódio de Eros, filme dividido em três, tem a assinatura do cineasta. É justamente ele quem salva o longa de um fracasso completo já que as duas primeiras partes seguem caminhos bem estranhos. A delicadeza, de apuro imagético e de cuidado com a temática, de A Mão é irmã do que ele faz nos últimos trabalhos. Cada imagem está lá por um motivo.

Há muitos momentos de obra-prima neste engenhosíssimo novo filme, que retoma a personagem de Tony Leung Chi-Wai em Amor à Flor da Pele (2000), o escritor que se hospeda em frente ao quarto 2046. À medida em que somos apresentados, uma a uma, a cada uma das mulheres que vão passar pela vida do protagonista, a trama se desdobra e conhecemos também a história de ficção-científica paralela que ele escreve. Para apresentá-la, Kar-Wai se esforça para criar um belíssimo conjunto de camadas de tempo e espaço em que a ação se mistura e literatura e história se confundem.

A grande sacada é como o diretor utiliza essa estrutura em favor da própria narrativa. Nada soa gratuito. O resultado poderia ficar a um passo do equívoco, da predileção integral pela literatura, mas isso não acontece porque o cineasta é um amante da forma e consegue fazer não apenas uma fotografia belísissima em cores, filtros e enquadramentos, mas torná-la essencial para a concepção geral do filme. É ela que traduz a beleza das mulheres, a inquietação do protagonista, que dita o ambiente quase onírico imposto à ação, mas que também sabe se tornar realista quando o filme assim necessita. Fotografia que consegue ser mais bonita do que a do filme anterior. Que, por mais calculada que seja, consegue captar uma certa inocência das personagens.

2046 – Os Segredos do Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[2046, Wong Kar-Wai, 2004]

 

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Mostra SP 2005: Top 20

Viggo Mortensen, Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Emmanuelle Devos, Zhang Ziyi, Tao Zhao

melhores filmes:

O Mundo, de Jia Zhang-ke.
Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin.
Marcas da Violência, de David Cronenberg.
Os Atores do Teatro Queimado, de Rithy Panh.
Caché, de Michael Haneke.
Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes.
2046, de Wong Kar Wai.
O Inferno, de Danis Tanovic.
Good Night, and Good Luck, de George Clooney.
10 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach.
11 Brokeback Mountain, de Ang Lee.
12 Flores Partidas, de Jim Jarmusch.
13 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira.
14 Café da Manhã em Plutão, de Neil Jordan.
15 Por um Mundo Menos Pior, de Alejandro Agresti.
16 Impulsividade, de Mike Mills.
17 Trilogia – O Vale dos Lamentos, de Theo Angelopoulos.
18 Seven Swords, de Tsui Hark.
19 Eleição, de Johnny To.
20 Noiva e Preconceito, de Gurinder Chadha.

outros destaques:
Por Dentro da Garganta Profunda, de Fenton Bailey e Randy Barbato; Além do Azul Selvagem, de Werner Herzog; Cidade Baixa, de Sérgio Machado; Estrela Solitária, de Wim Wenders; Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso.

melhor direção:
Jia Zhang-ke, por O Mundo

melhor ator:
Mathieu Almaric, por Reis e Rainha

melhor atriz:
Emmanuelle Béart, por O Inferno

melhor ator coadjuvante:
Vincent D’Onofrio, por Impulsividade

melhor atriz coadjuvante:
Maria Bello, por Marcas da Violência,

melhor roteiro:
Reis e Rainha

melhor fotografia:
O Mundo

melhor montagem:
Reis e Rainha

melhor direção de arte:
2046

melhor música:
Eleição

melhor som:
Seven Swords

piores filmes:
Palindromes, de Todd Solondz.
Carreiras, de Domingos Oliveira.
Batalha no Céu, de Carlos Reygadas.
Be Movies: programa 2, de Khavn.
Nuvens Carregadas, de Tsai Ming-Liang.

melhor episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Bilu e João, de Katia Lund.

pior episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Os de John Woo, Stefano Veneruso, Mehdi Charef e Jordan & Ridley Scott, empatados.

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