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Os Campos Voltarão

Os Campos Voltarão

Um soldado canta do alto de uma trincheira. Sua voz poderosa, que cruza os campos num raro momento de paz no front, ganha elogios de seus inimigos, que pedem mais uma. É assim, com este absurdo de guerra, que Ermanno Olmi inicia seu novo filme, que fala sobre o absurdo da guerra. Entre longas e curtas, este é o 84º título da carreira de um cineasta de 84 anos: são apenas 80 minutos que valem muito mais do que os últimos dez anos de filmes sobre conflitos mundiais. A guerra de Os Campos Voltarão é a primeira das grandes, mas que o diretor apresenta de dentro para fora. Praticamente todas as cenas do filme acontecem dentro do bunker em que a tropa italiana tenta resistir ao inimigo. A guerra em si se resume a explosões perto de onde estão os soldados e “fogos de artifício” no céu. Os diálogos são sobre a guerra, mas são mais ainda sobre a vida, o medo, a incerteza. O humano vem antes da política para Olmi, que desbota as cores do longa até bem perto do preto-e-branco e envolve seu filme numa trilha sonora improvável composta pelo jazzista Paolo Fresu. A paleta pálida e a música estranha ajudam a encenação algo teatral a transportar aquela história para uma espécie de dimensão diferente, reforçando o lado bizarro do conflito com uma poesia triste e dura, estranha e de beleza esquisita. A batalha dos soldados de Olmi acontece mais dentro deles do que do lado de fora. É uma batalha contra um inimigo invisível, um fantasmas onipresente e sem forma definida, o horror da guerra.

Os Campos Voltarão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Torneranno i Prati, Ermanno Olmi, 2014]

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Sinfonia da Necrópole

Sinfonia da Metrópole

O horror sempre foi material de trabalho para Juliana Rojas. Os elementos fantásticos e sobrenaturais estão presentes em praticamente todos seus curtas e em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa, codirigido pelo parceiro de sempre, Marco Dutra. O que ninguém imaginava é que em seu primeiro trabalho solo, Juliana fosse usar o terror apenas como ambientação para fazer um musical. Sinfonia da Necrópole é um filme único no cinema brasileiro recente, uma mistura de gêneros que, no olhar particular da diretora, encontrou um formato diferente e bem resolvido. Há um clara evolução na direção de atores, na montagem e no próprio fluxo do roteiro em relação ao longa anterior (assim como no primeiro trabalho solo de Dutra, Quando Eu Era Vivo). As músicas de ambos os filmes, por sinal, foram compostas pelos dois parceiros: melodias bonitas, autorais, de estruturas complexas, com letras cheias de ironia. Elas ajudam Juliana a contar a história do aprendiz de coveiro que é convocado para para fazer o recadastramento de túmulos abandonados no cemitério. À medida em que analisa e ironiza o crescimento urbano e homenageia, inclusive no título, Berlim, Sinfonia da Metrópole, Juliana Rojas encontra uma maneira completamente original de fazer cinema no Brasil.

Sinfonia da Necrópole EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas, 2014]

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 2

Dheepan

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[Dheepan, Jacques Audiard, 2015]

O mais interessante em Dheepan é a proposta de formar uma família com pessoas que não se conhecem. Homem, mulher e filha que nunca haviam se visto, mas que são forçados a fingir que são parentes para escapar de um Sri Lanka em guerra. O filme de Jacques Audiard realmente começa na França, para onde os três são levados depois da fuga e onde precisam manter a farsa para que suas identidades novas lhes ofereçam uma chance de reconstruir as vidas. Enquanto aponta a câmera para as dificuldades de adaptação do trio no novo país e um com o outro, o diretor cria um painel bem vivo de como a luta pela sobrevivência pode transformar as pessoas, mas quando amplia seu foco para fazer um “cinema social”, as coisas mudam. Dheepan pertence a um “gênero” de filmes que o cinema francês estabeleceu há algumas décadas e que produz aos montes: o filme de imigrantes. A ideia de comover o espectador com os percalços do três protagonistas diante de um país hostil a eles é antiga, mesmo que o tom utilizado seja mais realista do que melodramático. A França onde a família montada foi parar é uma França de gângsters, de pobreza e de violência. Audiard não faz muito esforço para encontrar uma personalidade para o filme, que se confunde com outros tantos, a não ser pela questionável sequência final, inspirada pelos “heróis da vida real” do cinema americano ou não, mas tão esquisita ao corpo do filme que pode até ser lida como um devaneio necessário para sobreviver. Quando mira no micro, Audiard é feliz. Quando passa para o macro, o cinema de gênero vira cinema genérico.

Aconteceu Naquela Noite

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[It Happened One Night, Frank Capra, 1934]

Em toda sua história, o cinema nos presenteou com casais inesquecíveis, mas poucos tiveram a mesma química que a de Clark Gable e Claudette Colbert em Aconteceu Naquela Noite. Frank Capra coloca os atores num duelo de egos que dura a maior parte do filme e permite cenas de incrível sarcasmo, como aquela em que os dois dormem sob o mesmo teto, separados por um lençol, “a Muralha de Jericó″, e outras de profunda doçura, como o momento sobre o feno. Gable não faz um herói romântico clássico, afinal ele é um jornalista e quer a história sobre a filha do milionário que fugiu para encontrar o amante, e a “mocinha rica e mimada” de Colbert desaba depois de algumas cenas, suficientes para que o conflito se estabeleça. Capra ambienta sua história de amor agridoce num país ainda falido depois da Queda da Bolsa, com golpes, trapaças e praticamente todos os coadjuvantes lembrando do caos financeiro em cenas que parecem menores, mas que ajudam a dar um tom mais realista ao filme. Há muitas cenas antológicas, como a que Gable aparece de peito nu, que, reza a lenda, teria levado a indústria de camisas de baixo à falência, ou a mais clássica, em que Colbert mostra a perna para conseguir uma carona. A sequência final é especialíssima porque nos últimos 10 ou 15 minutos do filme, os protagonistas não parecem juntos, mas nós sabemos exatamente o que aconteceu com os dois.

Nômade Celestial

Nômade Celestial EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sutak, Mirlan Abdykalykov, 2015]

Nômade Celestial é um filme sobre heranças e tradições. O diretor Mirlan Abdykalykov, em seu primeiro trabalho, parece perguntar até onde existe a responsabilidade de carregar o peso do passado e dar continuidade ao trabalho dos ancestrais. Shaiyr vive num vale encrustrado entre as montanhas do Quirguistão, um lugar tão isolado quanto incrivelmente bonito. Mora com os pais do marido morto há alguns anos e com a filha pequena. Seu filho mora e estuda na cidade mais próxima e visita a tenda onde vive a mãe, a irmã e os avós. A família nômade cria cavalos e o único vizinho é o “vagabundo”, segundo a sogra de Shaiyr que trabalha com previsão do tempo e que tem uma queda por ela. Sutak, título original de Nômade Celestial, é uma lenda que fala sobre uma mulher que mora com os sogros e é transformada em pássaro depois de ser vista ao lado de outro homem. O filme parece atualizar o mito, entregando a Shaiyr o papel da mulher pé no chão, aos sogros a função de alimentar as tradições e a pequena Umsunai, de 7 anos, a missão de flutuar sobre esses universos tão distantes. Abdykalykov costura com delicadeza e muita segurança na direção esta história tão parecida com tantas outras. Quando ele era uma criança, foi o protagonista de O Filho Adotivo, dirigido pelo pai dele e exibido, na edição de 1998 da Mostra de Cinema de São Paulo.

Lo Que se Lleva el Río

Lo Que se Lleva el Río EstrelinhaEstrelinha
[Dauna. Lo que lleva el Río, Mario Crespo, 2015]

Mario Crespo acerta algumas boas vezes em Lo Que Se Lleva el Río: cria um conto feminista sobre uma mulher que enfrenta as tradições de seu povo e da Igreja Católica para colocar sua sede de conhecimento em prática e dá voz aos warao, a tribo que vive em palafitas no delta do Rio Orinoco, o que garante um cenário exuberante e diferente. O grande problema é que Crespo é bem quadrado na maneira de contar esta história, um melodrama bem fiel aos padrões hollywoodianos de reviravoltas e idas e vindas no tempo. E os lugares comuns não param por aí: as cores esmaecidas indicam um presente mais “real” e o filme guarda uma dose de exotismo, simpática ao mercado internacional, dando vida a fábulas em forma de animações, bonitas, mas meio clichês e mal amarradas à trama. A encenação é funcional na maior parte do filme, mas a falta de experiência do elenco (e uma certa mão pesada do diretor) não ajuda(m) numa das cenas mais cruciais do filme, quando a protagonista, Dauna, briga com o marido. Curioso, mas limitado.

O Cidadão

O Cidadão EstrelinhaEstrelinha
[Obywatel, Jerzy Stuhr, 2014]

Jerzy Stuhr é um dos atores mais conhecidos da Polônia. Trabalhou com Kieslowski e Nanni Moretti e também se aventurou como cineasta um punhado de vezes. Em O Cidadão, assume as funções de protagonista, roteirista, produtor, além de dirigir o filme, uma espécie de “tragédia de um homem ridículo” que atravessa algumas décadas de história de seu país. Stuhr tenta dar a sua personagem ares de “Forrest Gump”, substituindo as coincidências pelo azar para colocá-los em momentos importantes da política polonesa, mas não consegue encontrar muito bem o tom para casar sua crônica com uma comédia de humor negro que não acerta muito bem no alvo. Para tentar dar agilidade ao filme, adota uma cronologia do acaso para voltar aos momentos cruciais da vida do protagonista, que coloca em mais situações absurdas do que uma história comum poderia conter. Exagera no tom, acerta na boa intenção. Sua reflexão fica pela metade.

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 13

À Tarde

À Tarde EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Na Ri Xia Wu, Tsai Ming-Liang, 2015]

Faz dois anos que Tsai Ming-Liang anunciou sua aposentadoria e, desde então, entre curtas, médias e longas, fez mais 5 filmes. Diante de tanta produção remanescente, é difícil lembrar que a proposta de À Tarde é um encontro de despedida entre o cineasta e seu parceiro de toda a vida, o ator Lee Kang-Sheng, estrela de todos os seus filmes. O registro desse evento é feito da maneira mais simples possível: os dois sentam em cadeiras colovcadas uma ao lado da outra numa casa em ruínas, com vista para uma floresta. E lá, durante mais de duas horas, esses dois homens apaixonados um pelo outro falam sobre seus caminhos, suas ambições e afeições. Os dois revelam detalhes de uma intimidade que ajuda a explicar a simbiose que vimos em filmes excepcionais como Vive L’Amour, O Buraco e Adeus Dragon Inn ao longo das duas últimas décadas. Kang-sheng começa visivelmente constrangido em se expor diante da câmera, curioso para um ator que despiu em tanto filmes de Ming-Liang, mas a nudez que ele evitava é a nudez do coração. O constrangimento do ator tem muito a ver com a também visível insistência do diretor em receber um declaração “de amor” como a que está fazendo. Esse embate é longo porque Kang-Sheng é resistente e, nos intervalos dessa discussão, entendemos uma grande história de amor.

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois

Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, Petrus Cariry, 2015]

A trilha sonora, pesada, solene, anuncia a tensão que rege todas as relações em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois. No novo filme de Petrus Cariry, Sabrina Greve é uma mulher que não está mais assombrada com os fantasmas do passado, mas guarda um enorme ressentimento em relação aos fatos que determinaram sua história. Numa interpretação rígida e dura, a atriz dá forma a uma personagem que não consegue mais se conter diante do peso da história e decide reencontrar o pai, que está velho, com a saúde bastante debilitada, para acertar as contas de um relacionamento frio e distante, marcado pelas mortes da mãe e do irmão da protagonista. Petrus Cariry, que já havia impressionado em seus trabalhos anteriores, O Grão e Mãe e Filha, aqui é ainda mais rígido na construção das imagens, com planos bem estudados que mostram tanto o isolamento do local (uma fazenda no interior do Ceará) quando o abismo entre as duas personagens principais. A fotografia tem cores fortes, mas prefere os tons escuros, quase que transcrevendo os sentimentos da protagonista. Cariry nunca se esquiva de mostrar o ressentimento que Clarisse carrega. Um sentimento que cresceu e ficou silenciosamente violento. Essa construção de personagem às vezes ganha tons excessivamente solenes, com a ajuda das imagens claustrofóbicas e da música tensa, quase que criando explicações didáticas demais sobre os sentimentos da protagonista. Mas como nunca trabalha numa intensidade diferente, o cineasta parece sempre coerente com seu projeto e com sua personagem, que só explode para o mundo através de um dos motores primais da vida, o sexo. É nessa belíssima e aterrorizante cena final que o sangue significa libertação.

A Colina Escarlate

A Colina Escarlate EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Crimson Peak, Guillermo del Toro, 2015]

Embora insinuar pareça mais nobre do que mostrar na história do cinema de terror, a qualidade dos efeitos visuais atingiu um nível tão alto que os diretores parecem concordar que não há mais nada que esconder. Se isso é um ponto a favor na ambientação do suspense, isso depende de cada obra, mas no geral transformar um fantasma numa figura clara e recorrente diminui um pouco de seu charme. Os fantasmas de A Colina Escarlate se revelam desde as primeiras cenas. Por sinal, estes primeiros momentos do filme de Guillermo del Toro garantem alguns calafrios ao espectador, mas, abraçados com os mortos, seguimos em frente numa história que promete mais do que oferece. Del Toro é muito fiel à ambientação do filme, que se passa no final do século XIX. Mais do que uma reconstituição de época, o filme empolga com a construção perfeccionista de uma atmosfera que evoca o das grandes novelas de terror. Tudo é exuberante e grandiloquente e isso funciona em muitas instâncias, mas não segura a trama até o fim. Mia Wasikowska e Tom Hiddleston estão excelentes, mas Jessica Chastain trabalha na caricatura o tempo inteiro e está sempre um tom acima de todo o resto.

Kiri - Profissão Assassino

Kiri: Profissão Assassino EstrelinhaEstrelinha
[Kiri: Shogugyô Koroshiya, Koichi Sakamoto, 2015]

Koichi Sakamoto tem uma extensa carreira como diretor de filmes para a TV estrelados pelos Power Rangers, pelos Kamen Riders e pelo Ultraman. Essa bagagem num produto de ação feito para crianças e adolescentes ajuda a entender qual é o público de Kiri – Profissão Assassino. A ideia é bem interessante: pessoas comuns são contratados através de um site para cometer assassinatos. Quem topar fazer o serviço pelo menor valor, leva. Sakamoto cria uma dinâmica interessante em mostrar quem são estas pessoas e o porquê delas fazerem esse tipo de trabalho. Há uma boa sequência de cenas de ação, bem exageradas, mas condizentes com o universo que o filme apresenta. O problema maior é quando Sakamoto tenta dar um peso dramático ao filme criando a figura de um assassino psicopata que aceita os serviços por um real. Tudo relacionado a essa personagem carrega demais nas tintas e cria um embate com a frivolidade do projeto.

Longe Deste Insensato Mundo

Longe Deste Insensato Mundo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Far From This Madding Crowd, Thomas Vintenberg, 2015]

Passam-se os anos e o melhor trabalho do dinamarquês Thomas Vintenberg ainda é o filme que o revelou, Festa de Família, marco zero do Dogma 95. Sempre interessado por temas polêmicos e conflitantes, como no recente A Caça, o cineasta resolveu agora mostrar uma nova faceta e adaptar um clássico da literatura inglesa, o maior sucesso da carreira de Thomas Hardy, Longe Deste Insensato Mundo. O livro, que já havia se transformado em filme algumas vezes anteriormente, sendo a mais célebre a versão de John Schlesinger de 1967, é um exemplo da literatura realista do fim do século XIX, que apostava numa visão mais fiel das personagens para que elas realmente representassem o comportamento da época. Vintenberg parece bem interessado nessa ideia e faz uma adaptação naturalista de Hardy, embalada por uma lindíssima trilha de Craig Armstrong e pelas belas imagens de Charlotte Bruus Christensen, que aproveita o cenário e a iluminação natural para compor a atmosfera para que a história se desenrole. Carey Mulligan encarna com propriedade sua Bathsheba Everdene, não muito diferentemente das jovens altivas que já interpretou, e o belga Matthias Schoenaerts, que trabalha cada vez mais em língua inglesa, consegue traduzir a sutileza de Gabriel Oak. Vintenberg acerta em escolher um tom solar para o filme, não se contaminando pelas muitas viradas dramáticas na história. O realismo de boa parte de seus longas encontrou nessa adaptação de um texto clássico um terreno mais fértil do que poderia se imaginar.

Micróbio e Gasolina

Micróbio e Gasolina EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Microbe et Gasoil, Michel Gondry, 2015]

Pouco a pouco, Michel Gondry vai encontrando sua personalidade no cinema. Pouco a pouco porque depois de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, sua parceria com Charlie Kaufman, lançada há 11 anos, o francês demorou a fazer um filme realmente especial. O que se ensaiava em seu longa anterior, A Espuma do Dias, uma busca por um cinema comercial com assinatura, se cristaliza em Micróbio e Gasolina, o filme infanto-juvenil mais delicioso dos últimos tempos. E isso se deve principalmente aos personagens altamente complexos e completamente adoráveis interpretados por Ange Dargent e Théophile Baquet. Os garotos excelentes dão vida a Daniel e Théo, o Micróbio e o Gasolina do título, dois adolescentes que não fogem ao clichê do “descobrindo a vida”, mas cujo roteiro escrito por Gondry os livra de dezenas de lugares comuns com um texto inteligente e discussões sobre a vida tão profundas quanto as que acontecem frequentemente em filmes franceses para “adultos”. Gondry respeita a idade das personagens, mas nunca as subestima. Seus protagonistas são crianças inteligentes e isso não significa ser afetadas. As obsessões visuais do diretor se resumem à casa-carro que os dois constroem para sair pelo mundo. Curiosamente, depois que eles deixam a cidade o filme perde um pouco do impacto inicial, mas até aí o espectador já está encantado com os dois meninos que olham para a vida com mais maturidade do que seus pais, mas que sabem bem respeitar suas idades.

No Andar de Baixo

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[Un Etaj Mai Jos, Radu Muntean, 2015]

No Andar de Baixo revela uma certa crise do cinema romeno e não porque o novo filme de Radu Muntean seja ruim. Pelo contrário, é uma história bem interessante e bem contada, mas que obedece a uma fórmula cada vez mais massificante entre os cineastas daquele país: estilo documental, fotografia limpa, sarcasmo tímido, estrutura sem grandes manobras e uma crítica à burocracia e ao comportamento médio da sociedade romena. Tudo isso funciona bem no filme de Muntean, mas mostra um comodismo quase constrangedor. Seu longa anterior, Terça, Depois do Natal, era bem mais cheio de nuances ao contar a história de um homem com duas famílias. Aqui, o protagonista descobre que a vizinha do andar de baixo foi morta, mas resolve não revelar que a viu discutindo com outro homem. O diretor se concentra em tentar entender e desdobrar essa decisão do protagonista, mas não oferece muito além de um motivo “escondido” que o espectador já conhece desde que a polícia bate em sua porta. Desta vez, embora o registro seja preciso e apurado, falta personalidade ao filme.

O Peso do Silêncio

O Peso do Silêncio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Look of Silence, Joshua Oppenheimer, 2014]

Em 2012, Joshua Oppenheimer entregou ao mundo O Ato de Matar, documentário em que convida paramilitares responsáveis pelo genocídio de um milhão de pessoas na Indonésia a reencenar os assassinatos que cometeram sob o pretexto de estar livrando o país dos comunistas. É o maior filme de terror da década e um dos registros documentais mais assustadores já feitos. O impacto do longa foi enorme e Oppenheimer resolveu fazer uma espécie de continuação ou ainda um filme complementar. Se o primeiro longa aposta no encontro com os assassinos, que defendem orgulhosamente os crimes que cometeram e se sentem verdadeiras celebridades ao reconstruir as cenas das mortes, O Peso do Silêncio elege Adi, o irmão de uma das vítimas, como interlocutor com os criminosos. Ele utiliza sua profissão, de oftalmologista, para se aproximar dos assassinos e colocá-los contra a parede. Embora os encontros sejam bastante fortes, há um certo nível de maniqueísmo na condução de boa parte das cenas, desde a expressão sempre consternada do protagonista até o constrangimento de parentes dos paramilitares. A postura do filme é corajosa porque o governo que ainda domina o país é o mesmo que ordenou a execução dos contrários ao regime. Além disso, há cenas bastante tensas, uma bela construção visual e o longa ajuda a levantar muitas questões como papel da religião no conflito, mas em vários momentos Oppenheimer parece querer ganhar mais uns tostões em cima do seu filme anterior, para o qual este perde em impacto, como registro e, sobretudo, na originalidade.

A Rua da Amargura

A Rua da Amargura EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[La Calle de la Amargura, Arturo Ripstein, 2015]

Há muitos cineastas que passam todas suas carreiras tentando falar a linguagem das ruas, documentar a decadência do homem e chegar às profundezas da sociedade e não raramente chegam a registros estereotipados e simulacros imprecisos que revelam suas visões rasas ou distantes desse universo paralelo. Bastam algumas cenas de A Rua da Amargura para notar que Arturo Ripstein parece saber bem do que está falando. O preto-e-branco da fotografia ajuda a criar um ambiente genuinamente sujo, in lato e strictu sensu. As personagens tem sua ética corrompida pela situação de completa miséria em que vivem e Ripstein consegue capturar a essência maculada das histórias escondidas nesses becos, que abrigam velhos homossexuais enrustidos, anões que são astros de luta livre e prostitutas da terceira idade. Estas, interpretadas pelas veteranas Patricia Reyes Spíndola e Nora Velázquez, que lideram um elenco que ajuda a dar esse tom autêntico ao filme. Silvia Pasquel e Alejandro Suárez também têm performances especialíssimas. O filme funciona em muitas formas, mas, enquanto documenta essa realidade, num misto de melodrama tipicamente mexicano e cinema noir de cunho social, Ripstein faz um trabalho impecável. As coisas só ficam mais banais quando um crime é inserido à história e o filme se concentra mais em seu desenrolar do que em suas personagens. Mas, até lá, o cineasta veterano já havia nos entregado um pequeno estudo da alma humana.

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 11

Os 33

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[Los 33, Patricia Riggen, 2015]

O maior problema de Os 33 não é a superficilidade com que a mexicana Patricia Riggen desenha suas personagens, associando cada um a um estereótipo para ficar mais fácil contar sua versão pasteurizada, mas funcional da operação de resgate dos 33 mineiros que ficaram soterrados no Chile alguns anos atrás. A grande questão é a lógica ultrapassada de que uma história desse porte precisa ser uma superprodução internacional, falada em inglês, e cheia de astros das mais variadas nacionalidades – menos chilenos. O cinema já passou dessa fase. Filmes assim tendem a funcionar cada vez menos. Seria muito mais digno rodar um filme em espanhol com um elenco conhecido, mais prioritariamente latino. As escolhas de Antonio Banderas (espanhol), Rodrigo Santoro (brasileiro) e Lou Diamond Phillips (americano nascido nas Filipinas) são entendíveis. Nomes relativamente conhecidos que vão agregar público, mas trazer Juliette Binoche, por melhor atriz que seja, para o papel de uma chilena queimada de sol é algo bizarro. Ela parece completamente deslocada como Maria – é o miscasting da década – e qual é a lógica de escalar Bob Gunton, um ator sem qualquer assinatura para fazer o presidente do Chile? No mais, Os 33 mostra alguma habilidade em criar cenas emocionais, principalmente nos reencontros, embora a história real já seja suficientemente lacrimosa. É um filme minimamente eficiente, mas poderia ser bom.

Anomalisa

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[Anomalisa, Charlie Kaufman, 2015]

Charlie Kaufman, que sempre procurou as estranhezas da vida, agora parece estar, se não com o coração mais calmo, pelo menos mais consciente com sua busca pelo mais simples. A mente perigosa por trás de Quero Ser John Malkovich e Adaptação assina sua primeira animação, o delicado Anomalisa, e transforma um dos exemplos máximos da nossa sociedade comandada pela burocracia, um consultor de RH, em protagonista. Mas não se trata de um consultor de RH qualquer. Michael Stone é uma celebridade do mundo corporativo: um homem que ajudou a implantar um sistema para padronizar serviços e agora se vê vítima de um mundo milimetricamente calculado. O anti-herói de Kaufman, em viagem para fazer uma palestra, passa a questionar suas escolhas na vida quando descobre uma mulher que tem uma voz pela qual se apaixona. Ela destoa do mundo como o próprio diretor se diferencia de seus colegas – mas até quando? Mais maduro do que em seus outros filmes, que procuram destacar a estranheza de suas ideias diante de um mundo onde elas não acham espaço, em Anomalisa, Kaufman desta vez parece olhar para si mesmo com mais cuidado do que admiração e percebe que muitas vezes não é o mundo que não te abre uma clareira, mas você mesmo que não quer se encaixar. E ter a consciência disso deixa as coisas bem mais tranquilas.

Les Chevaliers Blancs

Les Chevaliers Blancs EstrelinhaEstrelinha½
[Les Chevaliers Blancs, Joachim Lafosse, 2015]

Afeito a dramas familiares pesados como Propriedade Privada, Lições Particulares e Perder a Razão, todos tratando de relações controversas dos protagonistas para com aqueles que estão por perto, o belga Joachim Lafosse, desta vez, resolve ampliar suas discussões éticas viajando para a África. Vincent Lindon interpreta o presidente de uma ONG chamada Move for Kids, que, sob a égide de salvar órfãos da guerra civil no Chade, resolve montar uma grande operação para fugir do país com cerca de 300 crianças que já foram prometidas a famílias francesas que estão na fila de adoção. Lafosse acompanha os personagens com uma câmera quase documental, o que viria a se tornar um problema porque oficializa as escolhas morais do grupo como se elas fossem escolhas morais do filme. Embora consiga transformar o foco de seu registro, revelando aos poucos as atitudes limítrofes dos personagens, em especial do protagonista, como se desse pistas de que discorda dele(s), Lafosse nunca assume uma postura verdadeiramente crítica em relação a toda a ação. Na maior parte do filme, parece defendê-la, por sinal. O desfecho talvez indique uma tomada de posição, mas combina mais com a série de finais impactantes que o cineasta adorar deixar estourarem nas mãos do espectador.

Eu Sou Michael

Eu Sou Michael Estrelinha
[I Am Michael, Justin Kelly, 2015]

“Você deu aos anti-gay a história que eles precisavam”. Esta frase é dita por Nico, um dos muitos interesses amorosos do protagonista de Eu Sou Michael para ele, num momento que marca a virada da personagem, quando o ex-ativista gay acabara de revelar que não se identifica mais como homossexual. A história, por si só, é bastante interessante, mas a realização deste filme é um equívoco completo. O diretor Justin Kelly e o produtor Gus Van Sant são abertamente homossexuais, assim como o coprotagonista, Zachary Quinto, e o ator que faz o papel-título, James Franco, é provavelmente o mais gay friendly da história recente de Hollywood. Então por que diabos fazer um relato biográfico do homem que desistiu a homossexualidade que exerceu durante toda a vida, inclusive lutando ativamente contra o preconceito e pela igualdade, para se dedicar à religião e passar a condenar os gays em nome de Deus? Qual é a lógica de talvez para supostamente fazer as coisas com imparcialidade conduzir o filme com uma apatia quase condescendente para com o protagonista, como se estivessem abalizando suas atitudes? Eu Sou Michael é uma punhalada nas costas do movimento gay; um desserviço para jovens em crise por terem se descoberto homossexuais, como alguns retratados pelo filme; uma propaganda inusitada de igrejas fundamentalistas; uma heresia surgida no seio da própria comunidade. E se não esses não fossem motivos suficientes, é um filme raso (por buscar esse distanciamento) e chato para caramba.

As Fábulas Negras

As Fábulas Negras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[As Fábulas Negras, Rodrigo Aragão, Joel Caetano, José Mojica Marins e Petter Baiestorf, 2014]

Falta aquele acabamento nos roteiros, embora as três últimas histórias sejam muito bem estruturadas, mas a mera existência de um projeto como As Fábulas Negras é digno de nota. Combatente do cinema de horror brasileiro, Rodrigo Aragão comanda um filme em episódios baseados em personagens do folclore nacional – das lendas da floresta aos mitos urbanos. Tudo feito na unha, sem muitos recursos, mas transbordando criatividade e um amor forte pelo cinema de gênero. Os cinco episódios são costurados pela história dos quatro meninos que vão brincar na floresta e relatam, uma a uma, como surgiram as lendas do monstro do esgoto, do lobisomem, do saci e da loira do banheiro, nesta ordem, além da história de uma mulher que fez um pacto com o demônio, que encerra o filme. Embora a ideia seja bastante simpática, o tom de comédia das intervenções dos meninos, que como atores deixam muito a desejar, quebra um pouco a expectativa para com os contos de terror. O primeiro, dirigido por Aragão, é o menos impactante, mas abre espaço para o assinado por Petter Baiestorf, que embora tenha um elenco bem ruim, traz uma excelente cena de transformação do lobisomem. As coisas ficam bem melhores no episódio do mestre José Mojica Marins, uma crítica nada sutil ao fundamentalismo religioso, que embora tenha suas fragilidades entrega um roteiro mais redondo. O melhor bem a seguir, com a história da loira do banheiro, contada com muitos sustos por Joel Caetano. Ótimo trabalho de maquiagem também. A sacada final é boa, misturar os garotos da floresta com uma das histórias, também dirigida por Aragão, esta bem mais criativa, que ajuda a manter o nível acima da média.

Lúcifer

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[Lucifer, Gust Van den Berghe, 2014]

Lucifer é parte final de uma trilogia de filmes de temática religiosa do diretor belga Gust Van der Berghe e conta a história da passagem do anjo recém-caído por uma espécie de paraíso na Terra, uma vila mexicana, onde o tempo passa sem pressa e onde o então futuro “príncipe das Trevas” resolve brincar com a vida de uma das família que moram no local. Den Berghe cria um formato específico de projeção, o “tondoscope”, em que a cena inteira é vista dentro de uma esfera, como se enclausurasse as personagens na íris do espectador, o que dá uma particularidade visual ao filme, inspirado por pinturas dos séculos XV e XVI e vagamente adaptado de uma peça escrita já no século XVII. O formato curioso pode ser um pouco cansativo visualmente, mas serve bem para dar a ideia de que o paraíso não é um lugar para todos. O diretor acerta no tom, entre o farsesco e o místico, embalado por melodias da época, um tanto macabras, que acompanham a arquitetura do plano de Lucifer, ainda visto como um anjo pelas pessoas. O filme se transforma, então, num conto moral que faz uma reflexão sobre os abusos da religião e sobre a fé cega.

Paz e Amor

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[Love & Peace, Sion Sono, 2015]

Uma fantasia natalina ou uma homenagem ao cinema dos kaijus, os monstros gigantes japoneses? Um musical multicolorido ou uma alegoria crítica ao mercado fonográfico e ao culto à celebridade? Em mais um capítulo ousado de sua carreira, o japonês Sion Sono faz um filme limítrofe entre gêneros e tons, que mora naquele intervalo muito complexo para mente ocidental onde riso e choro se confundem e o exagero é forma de expressão. Paz e Amor é uma obra tão particular que dificilmente terá muita chance fora do Japão. Ou mesmo dentro deles. O diretor faz um esforço impressionante para criar uma fábula onde brinquedos ganham vida e animais podem falar, mas, num mundo cheio de cenas em CGI, os efeitos simples, que têm por base o movimento das marionetes, atrai mais gargalhadas do que olhares encantados. A maneira despudorada como Sono se permite namorar o ridículo é libertadora. E “Love & Peace”, a música, é uma das melhores do cinema neste ano.

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 8

Grandma

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[Grandma, Paul Weitz, 2015]

Paul Weitz tem uma trajetória interessante no cinema. Começou dirigindo uma comédia popular adolescente, passou por um pequeno drama, atualizou uma franquia de sucesso, iniciou outra fracassada e agora foi às raízes do cinema indie americano. Grandma é um filme bem clichê. Tem todos os lugares comuns dos dramas familiares sobre parentes que têm muitas diferenças a resolver. Tem todos os vícios dos filmes independentes americanos, quilos de trilha sonora melancólica, personagens fora da casinha e uma tentativa ingênua de querer quebrar todas as expectativas. O ponto forte do filme é, sem dúvida, sua protagonista. Lily Tomlin está muito à vontade como a vovó lésbica, intelectual e alternativa que é procurada pela neta que quer fazer um aborto. Tomlin almoça a personagem com farofa, está deliciosa e cheia de vitalidade em todas as cenas e dribla a mesmice do roteiro com muita propriedade.

Já Sinto Saudades

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[Miss You Already, Catherine Hardwicke, 2015]

Filme de doença alto astral virou uma espécie de gênero do cinema nos últimos tempos. De A Culpa é das Estrelas até Eu, Você e a Garota que Vai Morrer, muitos títulos se aventuram por esta missão. Já Sinto Saudade se encaixa perfeitamente nessa vertente: é um longa solar sobre uma mulher solar que descobre estar com câncer. E também é um filme sobre uma amizade de mais de décadas. Catherine Hardwicke passa por todas as etapas do processo da doença – descoberta, tratamento, despedida – com eficiência e sensibilidade, mas o filme nunca se mostra especial ou orginal. Escalar Toni Collette e Drew Barrymore é jogo baixo porque elas são provavelmente as atrizes mais legais do mundo e ninguém quer vê-las sofrer.

Ruth & Alex

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[5 Flights Up, Richard Loncraine, 2014]

Ruth & Alex parece um daqueles filmes para pagar as contas ou garantir a cota para produções estreladas/destinadas à terceira idade. Diane Keaton e Morgan Freeman mereciam bem mais do que um drama genérico sobre o valor que damos a nossa própria história e sobre a força do indivíduo diante do sistema. Ainda que seja simpático, o filme de Richard Loncraine – saudades de Ricardo III – entra num esquema de alternar humor e melodrama extremamente comum para este “gênero” de filme. Os flashbacks são completamente dispensáveis e só criam uma barriga desnecessária para algo que já estava bem engessado.

Short Skin

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[Short Skin, Duccio Chiarini, 2014]

Short Skin revela uma vontade enorme de fazer um típico filme indie americano em plena Itália. Do protagonista magrelo e tímido ao uso meio exagerado de uma trilha melancólica com canções de bandas independentes, o longa de Duccio Chiarini incorpora os trejeitos do gênero ao cotidiano de uma típica família italiana. O roteiro trata uma operação de fimose como uma esquisitice médica e segue empurrando o protagonista por situações simples que se tornam mais complexas apenas por causa dele, outra máxima do filme indie (a irmã espertíssima é mais uma). O filme é simpático, mas nunca se arrisca, numa mostra alguma assinatura e acredita demais na fofura de tudo aquilo.

Transtorno

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[Maryland, Alice Winocour, 2015]

O segundo longa da diretora Alice Winecour consegue traduzir bem o trauma de um ex-soldado que volta da guerra, mas acha que ela continua a sua volta. A história não é das mais originais, mas Winecour consegue retratar os problemas psicológicos do protagonista num filme claustróbico e angustiante. Principalmente porque não existe um inimigo à vista ou um motivo evidente. Matthias Schoenaerts defende bem a personagem que se transforma no segurança pessoal da esposa de um homem rico. A mansão onde acontecem a maior parte das cenas ajuda a dar a estabelecer o clima de terror e os delírios do protagonista ganham proporções ainda maiores nesse ambiente desolado. Embora não seja especialmente um grande filme, Transtorno dá conta do recado tanto na construção da ambiência quanto na tarefa de funcionar enquanto thriller.

Truman

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[Truman, Cesc Gay, 2015]

Assim como o filme de Hardwicke, Truman, do catalão Cesc Gay, tenta olhar para seu protagonista doente sem comiseração. Um dos trunfos do filme é apontar o foco para o momento de descoberta da gravidade do problema em vez de mostrar o processo gradativo de sofrimento da personagem. Truman também é um “filme de Ricardo Darín”, quase um subgênero cinematográfico que passeia pelo agridoce com muito humor e algumas delicadezas para agradar um público mais velho que geralmente associa esse tipo de filme a uma obra de arte. Embora mantenha a sobriedade e o equilíbrio durante um bom tempo, Gay comete alguns deslizes melosos aqui e ali, como na cena em que o protagonista chama os amigos para fazer uma “grande revelação”. O resultado fica fragilizado, mas ainda é honesto. A química entre Darín e Javier Cámara funciona muito bem.

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 7

11 Minutos

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[11 Minutes, Jerzy Skolimowski, 2015]

O polonês Jerzy Skolimowski sempre ofereceu um diferencial entre os cineastas que vinham de seu país: enquanto Polanski, Kieslowski, Zulawaski e Wajda se dividiam entre o mercado internacional, as sensibilidades poéticas e os dramas de guerra, Skolimowski presenteava o espectador com um cinema bastante pessoal, que passeava pelos gêneros e temas, mas com uma assinatura sempre impiedosa. Em 11 Minutos, o diretor parece apostar apenas e unicamente na violência da sequência final, então todo o filme funciona em torno de transformar a última cena numa catarse grandiloquente, em tom de apocalipse, em que as personagens, cujas histórias vêm sendo desenhadas em paralelo ao longo do filme, finalmente estão juntas no mesmo lugar. Por conta disso, o filme assume um fatalismo e uma fome por coincidências trágicas que remete imediatamente a Crash, de Paul Haggis, e Babel, de Alejandro Gonzalez Iñarritu, dois dos piores filmes da década passada. Embora haja muita ousadia visual nos últimos minutos, nada justifica tantos maniqueísmos e maneirismos.

Bombay Velvet

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[Bombay Velvet, Anurag Kashyap, 2015]

A produção de cinema indiana é a maior do mundo, mas é praticamente desconhecida fora de seu país. As regras (beijo e sexo são banidos e passíveis de punição) e os códigos (as músicas são parte da narrativa mesmo quando o filme não é essencialmente um musical) ajudam a limitar o alcance dos filmes. Bombay Velvet parece ser a tentativa de fazer um blockbuster indiano mais palatável para o resto do mundo. A superprodução conta a história da ascensão de um mafioso como uma luxuosa reconstituição de época, uma fotografia cheia de filtros vermelhos e amarelos e um tom grandioso inspirado pelos grandes filmes americanos de gângsters. Não é à tôa que Martin Scorsese deu sua benção ao projeto de Anurag Kashyap e ainda emprestou sua montadora Thelma Schoonmaker para editar o filme. O grande problema é que a preocupação com as dimensões não ajudam a dar mais corpo ou alguma assinatura a Bombay Velvet, que não passa de cinema étnico para exportação.

Em Jackson Heights

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[In Jackson Heights, Frederick Wiseman, 2015]

Aos 85 anos de idade, o documentarista Frederick Wiseman sabe bem que a simples presença de uma câmera num ambiente qualquer altera o movimento natural do lugar. Em praticamente todos os filmes que fez nos últimos quase 50 anos, o cineasta tenta ficar o mais invisível que pode para, além de registrar, traduzir o local que elegeu como seu objeto. Esta regra é reprisada mais uma vez em seu último longa, Em Jackson Heights, documentário em que acompanha os moradores do bairro que dá nome ao filme (no Queen, em Nova York) em suas mobilizações sociais. Wiseman sempre teve uma preocupação política grande com o que filma e aqui retrata as lutas dos pequenos comerciantes que tentam se organizar contra a especulação imobiliária, a comunidade gay que quer recuperar as conquistas históricas do bairro, pólo de luta contra o preconceito, e as famílias de imigrantes, sempre às voltas com o subemprego e a ameaça de extradição. Muitas e muitas cenas do filme são registros de reuniões, encontros e discursos. No intervalo desses momentos, o diretor passeia pelas ruas, mostra o aniversário de um ex-prefeito da cidade e invade a cozinha de um restaurante popular. Liga a câmera e deixa a vida acontecer, sem interferir em nada. A consciência e o poscionamento sobre o que está sendo mostrado é de total responsabilidade de quem assiste ao filme.

Iris - Uma Vida de Estilo

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[Iris, Albert Maysles, 2014]

Como Wiseman, Albert Maysles (geralmente em parceria com o já falecido irmão David), é um dos maiores documentaristas vivos. Foi ele quem fez os clássicos absolutos Caixeiro Viajante e Grey Gardens. Maysles tem 90 anos e ainda está na ativa. E em Iris, lançado no ano passado, o veterano cineasta presta uma homenagem merecida a uma das mulheres mais importantes para o mundo da moda nos últimos 50 anos, Iris Apfel, um vulcão hoje com 94 anos, referência em decoração de interiores, acessórios e no mundo fashion em si, embora seja praticamente desconhecida fora dele. O filme registra o cotidiano de Iris, que, à época das filmagens, se dividia entre a vida com o marido e companheiro de décadas, Carl, e uma rotina impressionante de compromissos profissionais. A personagem fala por si: verborrágica, irônica, sarcástica, sempre muito maquiada e usando roupas coloridas e dezenas de colares e pulseiras, Iris é o próprio evento e Maysles captura essa essência num delicioso documentário de 74 minutos, rodado pouco antes da morte de Carl. Embora a estrutura seja bem mais clássica do que a do filme sobre as Bouvier Beale, Iris nada fica devendo às moradoras de Grey Gardens.

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 6

Boi Neon

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[Boi Neon, Gabriel Mascaro, 2015]

Num bate-papo pós-sessão, Gabriel Mascaro disse que um dos fundamentos do filme era criar expectativas para depois quebrá-las. Embora talvez esse não deve ser um objetivo, mas uma consequência, está nessa frustração de expectativas um dos maiores trunfos de Boi Neon, segunda ficção propriamente dita de Gabriel Mascaro. Propriamente dita porque seus documentários sempre circularam pela intersecção entre os dois gêneros, o que trouxe para seus roteiros ficconais uma naturalidade rara de se encontrar. A primeira grande negação de Mascaro é com o Nordestes idealizado. O filme nunca coloca seca, miséria ou a vida “pitoresca” do nordestino no centro da trama. Pelo contrário, isso praticamente não existe no filme, que se move em torno da personagem principal, um vaqueiro que sonha em ser costureiro, sem dar muita bola para as explicações ou os desdobramentos dessa situação. Iremar nunca tem a orientação sexual questionada. Por sinal, sua masculinidade é reforçada em vários momentos, seja na cena de sexo, seja na aliviada matinal, seja no banho coletivo. Mascaro examina o corpo de seu protagonista da mesma maneira que ele utiliza os corpos dos manequins que coleta para vestir suas criações. Juliano Cazarré está impecável: bruto e delicado ao mesmo tempo, com um sotaque pernambucano irrepreensível. Virou mesmo um grande ator. Ao seu lado, Maeve Jinkings interpreta uma caminhoneira sem trejeitos, discreta. O elo mais fraco do elenco é Vinícius Oliveira, que embora se esforce como o silencioso Junior raramente acerta no acento e fica apático durante a maior parte do filme. A quimíca entre o trio de atores profissionais com os dos vaqueiros que compõem o time principal de personagens é essencial para que Boi Neon funcione como um recorte de uma região que raramente consegue ser representada com tanto desprendimento.

Califórnia

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[Califórnia, Marina Person, 2015]

A estreia de Marina Person como diretora de ficção é uma simpática história de coming of age em que todos os elementos parecem estar no lugar, mas onde falta uma certa ambição. O objetivo central de Califórnia parece ser contar uma história do início dos anos 80, época em que a diretora era adolescente, coletando músicas e referências pop em geral para reproduzir comportamentos, condições e passar rapidinho pela situação política do país na época. Esse contexto musical se sobrepõe a tudo no filme porque é quando Marina está sendo mais nostálgica e pessoal. Pelo menos umas 15 canções escolhidas a dedo pela cineasta movimentam as cenas mais importantes do filme, como “The Caterpillar”, do The Cure, ou “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division (e tem Smiths, Cocteau Twins e Echo and the Bunnymen), e é nesses momentos em que Califórnia é mais sincero e o espectador se aproxima mais da história da jovem que sonha com a viagem para os EUA para encontrar seu tio preferido enquanto se envolve com dois garotos da escola. No mais, o filme não acrescenta muito a temas como “primeira vez” ou AIDS. O que realmente conta para Marina Person é a nostalgia de um tempo em que as músicas faziam mais sentido e as coisas pareciam bem mais simples.

Francofonia

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[Francofonia, Aleksandr Sokurov, 2015]

Aleksandr Sokurov aumentou o intervalo entre seus filmes de ficção. Se antes lançava novos trabalhos a cada um ou dois anos, nos últimos tempos passou a esperar pelo menos quatro para lançar Fausto e agora Francofonia. No filme, produzido e estrelado pelo Museu do Louvre, o cineasta russo exercita tanto sua faceta documental, que sempre foi bastante forte em sua filmografia, e a ficção propriamente dita, mas num formato bem mais convencional do que estamos acostumados a receber. Nada dos ensaios poéticos sobre arte, vida e história que permeavam Arca Russa, nem os retratos de época barrocos que ele fez em Moloch e Taurus. Desta vez, ele utiliza uma dramatização bem tradicional para falar sobre a aliança entre o diretor do museu, Jacques Jaujard, e o general nazista Conde Wolff-Metternich, que ajudou a preservar o Louvre durante a invasão alemã em Paris na Segunda Guerra. Por outro lado, a parte documental é bem quadrada, utilizando imagens de arquivo da maneira mais clássica possível para contar a história e não avança muito em dar uma dimensão mais poética ao assunto. Faltou arte a um filme que esta falando essencialmente de um reduto de arte.

Maravilhoso Boccaccio

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[Maraviglioso Boccaccio, Paolo & Vittorio Taviani, 2015]

Embora tenha uma ideia central que remete a um dos maiores clássicos da dupla, Kaos, inspirado em contos de Pirandello, Maravilhoso Boccaccio lembra mais os filmes de época que os próprios irmãos Taviani dirigiram nos anos 90, uma safra menos celebrada do que os feitos dos diretores na década anterior. Como no roteiro original de Aconteceu na Primavera ou na adaptação de As Afinidades Eletivas, de Goethe, as relações entre as personagens eram mais simples e a própria construção das histórias mais clássicas. Se os textos das fábulas, livremente inspiradas no Decameron de Giovanni Boccaccio, livro adaptado com mais assinatura por Pier Paolo Pasolini, são parábolas morais bem contadinhas que atendem às expectativas do espectador e remontam a uma certa zona de conforto para os diretores, falta ao filme a pungência de Pai Patrão ou A Noite de São Lourenço, dois de seus filmes mais celebrados, ou o risco de César Deve Morrer, seu trabalho anterior, cheio de fôlego e frescor, talvez sua obra mais particular.

As Memórias de Marnie

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[Omoide no Mânî, Hiromasa Yonebayashi, 2014]

Hiromasa Yonebayashi é o animador-chefe de todos os últimos trabalhos de Hayao Miyazaki. É ele que ajuda a dar unidade à obra do mestre dos Estúdios Ghibli, mas quando passa a cadeira de diretor os resultados ficam menos empolgantes. Depois de O Mundo dos Pequeninos, Yonebayashi assinou esse As Memórias de Marnie, adaptação da novela de Joan G. Robinson, sobre uma menina que vai para a casa dos tios, no interior, para cuidar da saúde e encontra uma criança misteriosa com quem faz amizade. Embora a história tenha contornos mágicos como todos os filmes de Miyazaki, falta ao pupilo a capacidade de brincar com a fantasia e dar aos elementos fantásticos um papel de protagonismo. Marnie é todo bem resolvido em termos de estrutura de roteiro, mas ao contrário do que o mestre fez em O Castelo Animado, quando também adaptou uma novela de uma autora ocidental, Yonebayashi não consegue transportar a história para o Japão com muito desprendimento e o filme não se livra de um certo sotaque anglo-saxão. Está cheio de belezas e qualidades, mas parece muito com uma espécie de romance feminino dos anos 70.

Mon Roi

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[Mon Roi, Maïwenn, 2015]

Políssia, embora tivesse algumas simplificações e soluções fáceis de roteiro, era um filme-painel ágil e bem interessante sobre a divisão da polícia francesa de proteção a crianças, com um elenco grande e bem dirigido pela atriz-que-virou-cineasta, Maïwenn. Mas o trabalho seguinte da francesa, seu quarto longa como diretora, tem resultados bem mais contraditórios. Se de um lado, busca retratar com o máximo de realidade possível os bastidores de um casamento conturbado, o filme não raramente invade os limites do histriônico e assume algumas posturas próximas bem questionáveis, namorando perigosamente com a misoginia. O filme se passa em duas linhas temporais paralelas: no presente, Tony acaba de sofrer uma acidente na montanha e vai para uma clínica onde vai se recuperar de uma perna lesionada. No passado, ela reencontra Georgio, um flerte da juventude, e os dois rapidamente engatam um namoro e um casamento. Como manda o clichê, o príncipe encantado esconde defeitos que só a convivência poderia revelar e, dia a dia, Tony descobre novos problemas em seu relacionamento. O grande senão de Maïwenn é como ela administra essa mudança nas personagens. Aos poucos, a diretora transforma Tony numa mulher histérica e Georgio, num canalha natural. Os estereótipos só não viram monstros maiores porque tanto Emmanuelle Bercot quanto Vincent Cassel são ótimos atores e estão muito bem em suas personagens quando o roteiro não os condena demais. E se Maïwenn é bastante tolerante com o marido, a diretora parece condenar a personagem da esposa, como se Georgio tivesse o comportamento de qualquer homem e se Tony não tivesse tido a força necessária para perceber e enfrentar isso.

Sangue Francês

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[Un Français, Diastème, 2015]

Somente após sete anos, o diretor Diastème voltou a assinar um longa-metragem, seu segundo. Mas a espera valeu a pena. Embora Sangue Francês tente dar conta de muita coisa em pouco tempo, este é realmente um trabalho forte em seu impacto e delicado em como registra a transformação de uma personagem sem recorrer a cenas catárticas e “rituais” de mudança. Marco é um jovem que integra um grupo neonazista que comete agressões físicas, psicológicas e humilhações a árabes e estrangeiros em geral pelas ruas de Paris. O cineasta é bem enfático nas cenas, de uma brutalidade chocante, mas consegue encontrar o tom exato para mostrar que a violência extrema do protagonista e de seus amigos é sua forma torta de expressão. Mesmo se aproximando tanto dessas personagens, Diastème nunca facilita as coisas para elas. Nos primeiros dez minutos de filme, o espectador já odeia Marco e seu grupo. É por isso que a construção da mudança do protagonista é tão bem feita. Ele começa a questionar aos poucos, e silenciosamente, seu comportamento e as coisas em que acredita. Diastème assumiu um risco grande com a maneira como conduz as coisas porque o filme que começa em ebulição realmente perde o punch à medida em que Marco se transforma. Mas o efeito é válido porque o filme muda junto com o protagonista. Há um certo clima de lição de moral no ar, mas que o diretor dilui na falta de catarses. A pretensão do filme talvez seja querer personificar em Marco a mudança de postura da França, o que fica meio evidente em várias cenas ao longo do filme. Mas, dessa maneira, “o francês” do título original e o “sangue francês” do nome internacional passam a fazer bastante sentido.

Stop

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[Seu-top, Kim ki-duk, 2015]

Kim ki-duk, o coreano que todo mundo adora odiar – e que geralmente faz por merecer – ataca novamente. Desta vez, o diretor de Time, Pietà e Moebius se muda para o Japão e utiliza a tragédia na usina nuclear de Fukushima para lançar um manifesto contra o desperdício de energia em todo o planeta, com direito a créditos com números sobre o assunto no final. Tudo bem, caso a realização não fosse tão tosca. O primeiro problema, como de praxe, é o roteiro: ki-duk cria personagens bidimensionais, completamente desinteressantes, é simplório demais em tentar explicar suas motivações e parece incapaz de criar diálogos minimamente decentes. A escolha dos protagonistas também não ajuda: Tae-woong Eom e Ryeowon Jungum formam casal apático, impossível de se defender. É uma tortura acompanhar sua via crucis pelo inferno do cruel mundo de hoje, como quer Kim ki-duk, cheio de conspirações governamentais e um fatalismo dominante. Seu grito de alerta ambiental parece tão tosco quanto o resto de seu cinema, à exceção de Casa Vazia, e tão desonesto quanto alguém que acabou de descobrir contra o quê é o protesto, mas já chegou com um cartaz.

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 5

600 Milhas

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[600 Millas, Gabriel Ripstein, 2015]

Uma bela surpresa esse 600 Milhas. O indicado oficial do México para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro – não sabemos até quando porque 70% do longa é falado em inglês – leva a assinatura de Gabriel Ripstein, filho do cineasta Arturo Ripstein. O grande mérito deste filme de estreia é trabalhar com uma sucessão de quebra de expectativas que vai até a polêmica cena final. O filme tem produção de Michel Franco, do grotesco Depois de Lucia, ameaça namorar com esse novo cinema tru mexicano, mas aponta para outras possibilidades. O diretor já apronta para o espectador na sequência de abertura, em que introduz um protagonista falso, que vai perdendo espaço ao longo do filme. Também parece oferecer um tema, que vai se desdobrando em outro e em outro e em outro, até que não sobre mais muita coisa do que foi proposto no começo. Por fim, cria uma relação forte entre os dois verdadeiros protagonistas apenas para mostrar com as linhas são tênues quando a sobrevivência e a preservação da espécie está em jogo. A cena final é uma das melhores coisas dos últimos tempos.

Beira-Mar

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[Beira-Mar, Filipe Matzembacher & Marcio Reolon, 2015]

Da mesma maneira que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, é um filme que promete mais do que cumpre por fazer apostas muito seguras. Desde o começo, por menos que explique quem são aqueles dois jovens, os diretores parecem apostar que o espectador quer que eles fiquem juntos. A viagem da dupla até uma praia do Rio Grande do Sul para resolver um assunto ligado à herança de um deles é embalada por uma trilha melancólica, paisagens tristes, festas cheias de momentos de silêncio e muitos olhares. Essa embalagem tem uma construção delicada e até funciona, mas culmina no grande lugar comum do encontro entre dois amigos bêbados. O resultado é um filme bonito, que certamente vai criar uma empatia com o público jovem, mas que poderia ser bem mais ousado em vez de apenas seguir o plano inicial à risca.

Bela e Perdida

Bela e Perdida Estrelinha
[Bella e Perduta, Pietro Marcello, 2015]

Esse filme italiano, premiado no Festival de Locarno, é um caos completo. Primeiro, se apresenta como uma fábula cheio de elementos mitológicos e personagens fantásticos, mas logo depois vira uma ficção realista, entrecortada por uma série de imagens documentais para, por fim, tentar casar as duas linhas narrativas. Mas Pietro Marcello, que vem de uma carreira na direção de documentários, não consegue equilibrar as coisas e o resultado é uma bagunça sem tamanho. O mais irritante é tentar fazer um filme lindo a cada cena, apostando numa suposta poesia de ter como protagonista uma personagem clássica da comedia dell’arte italiana, o Pulcinella, uma espécie de palhaço de caráter dúbio que, segundo diz no próprio filme, é imortal. Para dar corpo a esse tom poético, o diretor elabora planos bonitos, estragados pela fotografia cheia de filtros excessivos e pela trilha, sempre um compasso a mais. No fim, Bela e Perdida nem funciona como obra de arte nem como obra social, ambição dupla do diretor.

Escritório

Escritório EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hua lI shang ban zou, Johnnie To, 2015]

Fazia cinco anos que Sylvia Chang, veteraníssima atriz de Taiwan, não fazia um filme sequer. Em 2015, além de estrelar o novo longa de Jia Zhang-ke, ela não apenas atua, mas também escreveu o roteiro de Escritório, versão para o cinema de um espetáculo musical estrelado por ela sete anos atrás. O mais surpreendente dessa história é que este filme é assinado por outro veterano do cinema chinês, Johnnie To, conhecido pelas histórias policiais e cheias de ação. To utiliza sua experiência num cinema físico para criar cenas intensamente orquestradas, ensaiadas e construídas em favor da plástica e do movimento para seu filme, que foi concebido para cinemas 3D. Essa agilidade que o diretor impõe ao longa faz um par bastante interessante com o texto de Chang, uma observação bem pé-no-chão sobre o mercado financeiro e a crise de 2008. Emoldurar essa visão política da situação num musical clássico, com músicas a cada dez, quinze minutos, é uma tarefa para poucos. Talvez não seja um dos melhores filmes recentes de Johnnie To, mas certamente é um dos mais ousados em sua cinematografia.

Montanha da Liberdade

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[Ja-yu-eui eon-deok, Hong Sang-soo, 2014]

Hong Sang-soo está em programa duplo no Festival do Rio e, em ambos os casos, emula Woody Allen. Mas aqui a influência do baixinho americano é muito mais escancarada: tanto no humor sem jeito quanto nas locações e na movimentação dos protagonista. Há uma brincadeira metalinguística bem interessante que acontece quando uma personagem deixa cair várias páginas no chão e a estrutura das cenas fica completamente fora de ordem. Interessante a escolha de um ator japonês, o ótimo Ryô Kase, para o papel principal. Ele e So-ri Moon, com quem Sang-soo já havia trabalhado em alguns filmes, formam uma dupla em constante ebulição, que nunca perde o fôlego. As ideias do filme não são necessariamente novas, mas têm uma vitalidade interminável que a curtíssima duração, 67 minutos, só ajuda. Embora Right Now, Wrong Then pareça um filme mais forte, este aqui que tem muitos elementos em comum com ele, é uma experiência mais prazerosa.

Pecados Antigos, Longas Sombras

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[La Isla Mínima, Alberto Rodríguez, 2014]

A Espanha vem se especializando em realizar filmes policiais bem acabados, decupados, apurados, mas limpinhos demais. Pecados Antigos, Longas Sombras, vencedor de vários Goyas, é mais um exemplar deste cinema aparentemente refinado, mas fortemente genérico, sem assinatura. Alberto Rodríguez administra uma trama bem construída sobre a chegada de dois policiais de Madrid numa região isolada do país para investigar o desaparecimento de duas adolescentes. Mas não sabe evitar muito bem os clichês: os dois policiais têm comportamentos completamente opostos, tipo good cop, bad cop; todos os moradores da cidade têm segredos a esconder e existe uma rede do mal que une todos. Raúl Arévalo, o policial bonzinho, é um dos comissários de bordo de Amantes Passageiros, de Pedro Almodóvar.

Tribunal

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[Court, Chaitanya Tamhane, 2014]

Bollywood garante muitos momentos de diversão, mas de vez em quando é bom ver que a Índia ainda sabe fazer um cinema mais sério, com uma forte observação social. Em seu primeiro longa-metragem, Chaitanya Tamhane parte da morte de um servidor público e da consequente acusação contra um ativista político por ele supostamente ter influenciado o homem a cometer suicídio para elaborar um painel sobre o funcionamento da sociedade indiana. Da maneira como as pessoas se comportam em suas vidas privadas, que vão sendo examinadas à medida que o julgamento vai acontecendo, à própria mecânica do sistema judiciário do país, para o qual a imagem da cobra que morde o próprio rabo seria uma bela metáfora. Irônico, mas sem nunca perder a seriedade, Tamhane realiza uma obra humana acima de tudo.

Zoom

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[Zoom, Pedro Morelli, 2015]

Cinema adolescente com roteiro adolescente, piadas adolescentes e uma sensação adolescente de que tudo aquilo é extremamente original. Pedro Morelli tinha feito um trabalho consideravelmente melhor em Entre Nós, que nem era um grande filme, mas pelo menos era mais coeso e bem menos pretensioso. Talvez o pulo para uma produção internacional tenha redimensionado as coisas – pro lado errado. Trabalhar com um elenco internacional e majoritariamente em inglês pode ter influenciado em encontrar uma trama mais truqueira, que reprisa aquela velha máxima das histórias paralelas que têm relação entre si – relação esta que aqui encontrou o pior gancho possível. Mariana Ximenes ficou robótica atuando em inglês e a virada de sua personagem é a mais tosca do filme. Allison Pill, sempre simpática, tenta encontrar algum caminho mais interessante embora sua personagem seja boba demais. O maior acerto é deixar a narrativa de Gael García Bernal toda em animação, mas isso não é suficiente para fortalecer o conjunto.

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O Último Cine Drive-in

O Último Cine Drive-in

Todas as apostas de O Último Cine Drive-in, longa de estreia de Iberê Carvalho, parecem bem intencionadas, mas acontecem em terreno bem seguro. É mais um filme sobre cinema, mais especificamente sobre quem defende a memória física do cinema numa época em que os antigos espaços parecem não mais achar lugar num mundo de especulação imobiliária e avanços tecnológicos. É também uma história de despedida, tanto para o lugar como para uma das personagens. São duas fórmulas de trabalhar com a nostalgia, que encontram num roteiro simples uma forma de validar sua autenticidade.

A história é uma ficção, mas se passa num lugar real, que existe em Brasília – e é, para o bem e para o mal, totalmente contaminada por ele, que talvez realmente seja o último cinema drive-in do país e foi tema de uma bela reportagem aqui. A influência do cenário vai além dos elementos presentes no argumento, mas se estende pela estética do filme. É bem natural que a fotografia tente explorar os ângulos daquele pequeno pedaço da cidade projetada por Oscar Niemeyer, mas o próprio fato das locações serem bastante resumidas prejudica a pertinência desta opção.

A trilha sonora, composta em parceria pelo corroteirista do filme, emula os westerns de Ennio Morricone, o que tanto serve para novamente remeter à aridez do lugar quanto como referência a Cinema Paradiso, longa parece se inspirar este projeto e que teve a música assinada pelo maestro italiano. As composições servem de moldura para a personagem errática de Breno Nina, que vive entre garantir companhia para a mãe doente e retomar a relação tumultuada com o pai. O que transforma o filme apenas num filme simpático é o roteiro que nunca sabe bem como se livrar dos lugares comuns nem parece bem amarrado o suficiente para carregar os dramas das personagens.

Sob todos os prismas, o filme “dá conta”, mas nunca acontece realmente. E o excesso de referências incomoda: de Curtindo a Vida Adoidado até As Invasões Bárbaras. Numa cena, o cinema projeta Central do Brasil, que tem Othon Bastos e Rita Assemany no elenco. A presença do ator num dos papeis centrais da trama reforça o tom de memorial do projeto que mira na singeleza para criar um elo emocional com o espectador, mas é Rita Assemany, num participação pequena – mas fundamental – a melhor coisa do filme: que atriz incrível, capaz de jogar o trivial para um outro nível. Pena que o texto bem intencionado não exija mais dela.

O Último Cine Drive-in EstrelinhaEstrelinha
[O Último Cine Drive-in, Iberê Carvalho, 2014]

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