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Belair

Belair

Existe uma diferença básica entre o documentário que “conta uma história” e aquele que captura uma atmosfera. O efeito prático deste filme foi me fazer correr até a Livraria Cultura para comprar o DVD de Sem Essa Aranha, do Rogério Sganzerla, cujas cenas encerram este belíssimo filme. Belair resgata os anos de vida da produtora criada por Sganzerla e Júlio Bressane, que deu origem a algumas das maiores pérolas do cinema marginal brasileiro. Noa Bressane e Bruno Safadi encontram o tom certo para apresentar essa história, recuperando o “clima” da época sem se render à nostalgia ou a reverências. O filme é extremamente bem editado, usa com parcimônia a imagens dos filmes produzidos pela dupla e é inteligentíssimo na hora de usar as entrevistas, sempre evitando cair na formalidade.

Belair EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Belair, Noa Bressane e Bruno Safadi, 2009]

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A Criada

A Criada

A indefinição no tom e no alvo é o maior problema de A Criada, filme de Sebastian Silva, que chega ao circuito comercial brasileiro com quatro anos de atraso. O roteiro é escrito na base da comédia de absurdos, acompanhando o comportamento esquisito, quase psicótico, da protagonista, mas a intenção do diretor está bem longe da brincadeira surreal. O chileno parece se incumbir da proposta de transformar o longa numa espécie de reflexão sobre a condição das secretárias do lar, da relação entre empregadas e patrões, como em Doméstica, do brasileiro Gabriel Mascaro, mas não consegue fazer drama e humor dialogarem muito bem.

A atriz Catalina Saavedra, premiada em Sundance, é o maior trunfo do filme. Ela consegue emprestar contornos cada vez mais detalhados até humanizar a personagem, mesmo quando o roteiro cria armadilhas para transformar a protagonista em vilã, condená-la à loucura ou simplesmente entregá-la à caricatura. Sua interpretação é arriscada, opera no limite da sensibilidade, o que dá um fôlego maior ao filme. Raquel trabalha há vinte anos na casa de seus patrões, onde é tratada como um membro da família. Sem nunca ter tido direito a um vida realmente sua, ela extrapola os limites da relação com os patrões, repelindo interferências externas (outras empregadas) e criando papéis fictícios para os donos da casa, o que supre seus desejos e anseios.

A ideia parece melhor escrita do que é executada. Algumas cenas de comédia funcionam muito bem, sobretudo as que envolvem a peruana rival de Raquel ou a funcionária da mãe da patroa, mas quando o filme tenta falar sério parece não ter muita propriedade para isso e parte para a agressão. Os nus excessivos querem forçar a mudança de ares, mas na maioria das vezes o filme parece apenas brigar consigo mesmo e nunca realiza sua intenção maior de analisar o cotidiano de uma empregada doméstica.

A Criada EstrelinhaEstrelinha½
[La Nana, Sebastian Silva, 2009]

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Cinzas e Sangue

Cinzas e Sangue

O primeiro filme de Fanny Ardant como cineasta mostra que a musa de François Truffaut ainda tem muito o que aprender. Ousada, ela foi: resolveu levar para o cinema a história de duas famílias vizinhas que se odeiam na Romênia, material original de Ismail Kadaré, Eschyle ou le Grand Perdant. Não é à tôa que Cinzas e Sangue lembra, aqui e ali, Abril Despedaçado, de Walter Salles, outra obra baseada no escritor, outro filme em que o diretor não acerta o tom e não dá relevo aos personagens a ponto de seu comportamento violento parecer, como todos querem, herança de família. O filme acompanha a volta de uma viúva romena e seus filhos, que viveram dez anos na França, a seu país de origem por causa de um convite de casamento. A chegada do grupo acirra antigas rivalidades e estabelecem um clima de terror na fazenda em que a história se passa. A proposta é interessante, mas não se cumpre. Ardant cria alguns momentos inteligentes visualmente, mas eles duram uma cena – às vezes, uma imagem. No resto, o filme parece querer justificar sua fragilidade com o excesso: tudo é pesado, escuro e sem concessões. E a protagonista Ronit Elkabetz passa o filme inteiro rosnando, maquiada como a princesa das trevas.

Cinzas e Sangue Estrelinha
[Cendres et Sang, Fanny Ardant, 2009]

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Elvis & Madona

Se existe um grande mérito no cinema oferecido por Marcelo Laffitte em seu longa de estreia é, além de alçar um travesti e uma lésbica aos postos de protagonistas, tratar os dois personagens como pessoas comuns. Coisa rara no cinema brasileiro. O diretor de Elvis e Madona parece querer criar um cinema conciliatório, de inclusão, em que personagens geralmente marginais são tratados de forma simples, numa comédia de situações convencional, com humor quase que politicamente correto.

A tentativa parece ter alguma semelhança com a de Aluísio Abranches no comercial de sabonetes Do Começo ao Fim. A diferença é que, enquanto Laffitte busca o cotidiano de personagens reais, Abranches investe numa trama inverossímil e tenta convencer o espectador a comprá-la. Mas nem essa procura autêntica pela naturalidade consegue dar substância ao longa de Laffitte.

O filme nunca passa de uma comedinha simpática e, por causa disso, alguns dos principais conflitos ficam superficiais. O texto falha justamente quando precisa de viradas dramáticas. Igor Cotrim se esforça no retrato do personagem, mas nunca passa do correto. Simone Spoladore absuqa da caricatura. Embora haja cenas que funcionam bem, como a da She-Ra, o conjunto é muito frágil e a traminha de suspense que surge para chacoalhar sua meia hora final não consegue muita coisa.

Elvis & Madona EstrelinhaEstrelinha
[Elvis & Madona, Marcelo Laffitte, 2009]

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A Serbian Film – Terror Sem Limites

Confesso que não havia lido nada sobre A Serbian Film até a polêmica sobre a proibição de sua exibição num festival de cinema no Rio de Janeiro. Minto. Já havia visto um post dedicado a ele num site para downloads e, em seguida, descobri que ele estava programado para estrear em circuito. Fiquei interessado por se tratar de um filme de terror europeu. Mas não li uma linha sobre sua sinopse e ele foi parar lá no fundo da memória.

O advento da censura me fez querer saber sobre o que se tratava o filme. Descobri qual era a polêmica e resolvi assisti-lo já que sua exibição no Brasil me parecia duvidosa. E, para minha surpresa, a versão que vi do longa de Srdjan Spasojevic, que talvez apresente cortes, me pareceu menos repugnante do que seus censores gostariam. Não havia um espetáculo de sangue e poucas coisas além de uns sopapos numa atriz eram “explícitos”.

As cenas que mais geraram discussão, uma de incesto e uma de violência sexual contra um bebê, eram gratuitas, mas em sua intenção e não em seu conteúdo visual. Elas insinuam os eventos, fazem nossos estômagos se retorcerem pelo que imaginamos e não pelo que mostram. Na verdade, o tão polêmico filme sérvio é bem comportado, medroso, muito mais soft visualmente do que O Albergue ou Jogos Mortais.

Não que isso signifique que A Serbian Film seja um bom filme. Está bem longe disso. Se não fosse pelo episódio da censura, provavelmente eu nem perderia tempo escrevendo sobre ele, um daqueles longas de tortura que estavam na moda até uns dois anos atrás que têm uma única intenção: faturar em cima do choque. Mas, ao contrário dos outros, mostra muito pouco, quase nada. Reforço: pelo menos na versão que eu vi, que pode apresentar cortes. E é aí que surge o que talvez dê para chamar de seu único mérito: ele desperta um desconforto que existe dentro do espectador. Ele não vê nada, mas imagina a “aberração”.

É curioso como um filme ruim, banal, vulgar, funciona como catalisador de julgamentos. A decisão de proibir um filme que “peca” pela intenção é bizarra. Os cariocas – e os brasileiros – deveriam ser capazes de decidir o que querem ver ou não. Todos os filmes que “mostram” tabus devem ser proibidos? Suicídios, assassinatos e estupros nunca devem aparecer em filmes porque são comportamentos “errados”? Não defendo A Serbian Film. Por sinal, se me perguntassem, meu conselho seria: não merece ser visto. Mas eu defendo o direito de cada cidadão decidir se quer vê-lo ou não. O único vitorioso num episódio como esse acontecido no Rio é o autoritarismo que o Brasil queria ter deixado para trás.

A Serbian Film – Terror sem Limites Estrelinha
[Srpski Film, Srdjan Spasojevic, 2010]

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A Falta que nos Move

A proposta de A Falta que nos Move é bem suspeita: cinco atores são convidados a fazer um filme numa casa onde ficarão isolados e receberam orientações de roteiro por mensagens de celular. Em sua primeira meia hora, o resultado fica acima do esperado justamente porque a espontaneidade faz surgir uma ironia simples, com piadas de-reunião-de-amigos levando a plateia às gargalhadas. Caso se mantivesse assim, sem grandes pretensões, o filme seria um encontro simpático, ainda que algo vazio. Mas a diretora Christine Jatahy decidiu dar mais peso ao material, supostamente querendo dar estofo ao isolamento numa espécie de momento big-brother-de-embate-entre-machos. Aí o negócio pesa e a espontaneidade dá lugar a um tom agressivo, que, real como quer o projeto ou não, soa pedante.

A Falta que nos Move EstrelinhaEstrelinha
[A Falta que nos Move, Christiane Jutahy, 2009]

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Oceanos

Documentários sobre a vida subaquática parecem todos iguais, mas sempre trazem algumas imagens novas que nos impressionam ou por sua beleza ou por suas particularidades. Este aqui obedece essas regras, reduzindo durante a maior parte de sua projeção a presença do narrador, o que deixa sua montagem mais inteligente. O que diferencia Oceanos, no entanto, é como seus diretores resolvem se utilizar do encantamento natural das imagens para montar um panfleto ecológico, o que de maneira alguma é demérito, mas que me fez pensar sobre a utilização de efeitos digitais em documentários.

Em muitos momentos (e eu não estou falando sobre as cenas de massacre), a beleza das imagens ganha uma ajuda considerável do CGI, muito além de melhorar a qualidade do material, colocando em cheque o que estamos vendo. Se um documentário sobre o fundo do mar deveria encantar pelo que existe no fundo do mar por que criar cenas fake apenas para ampliar o impacto dessas imagens, mesmo que os efeitos sejam bons?

Oceanos EstrelinhaEstrelinha
Oceans, Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, 2009

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Vincere

Filippo Timi, Giovanna Mezzogiorno

O novo filme do veterano Marco Bellocchio é maiúsculo em todos os sentidos. O cineasta elegeu uma história de bastidor que revela uma faceta secreta de Benito Mussollini e mostra como ele conseguiu entrar para a política. Bellocchio aposta no superlativo para falar da juventude do ditador italiano: conduz Vincere como uma ópera furiosa, com um uso excelente da trilha sonora e um talento inegável para reger os atores em cena. O filme assume o vigor do personagem como modelo narrativo. Na primeira meia-hora, os textos e as imagens de arquivo invadem a tela criando numa poesia brutal que quebra o classicismo do tom do longa. O impacto é fortíssimo.

A interpretação de Filippo Timi é impressionante, mas o filme muda de protagonista depois desta seqüência inicial. Com sua história estabelecida, Mussollini particamente sai de cena e Bellochio diminui o ritmo para criar planos belíssimos – e depois retomar sua marcha. Há uma cena em especial em que Ida, interpretada pela grande Giovanna Mezzogiorno, escala as grades do lugar onde está trancafiada. Giovanna assume as rédeas do filme depois que o ditador vira coadjuvante. A atriz, do belo e pouco conhecido O Último Beijo, tem uma das grandes performances do ano. Dor e força convivem numa interpretação que testa os limites do amor e da sanidade.

Vincere EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Vincere, Marco Bellochio, 2009]

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O Guerreiro Silencioso

O Guerreiro Silencioso

Valhalla Rising engana fácil. Tem clima de grande épico, mas é um filme fantasmagórico. A trama parecia girar em torno de um guerreiro viking, se transforma numa Cruzada e, numa metamorfose insinuada lentamente, vira numa jornada sem rumo. O diretor Nicolas Winding Refn criou um projeto arriscado: um épico praticamente sem batalhas, quase mudo, com personagens vagando sem direção. O resultado deve frustar a maioria que pode se interessar pelo filme pela ação que não existe ou pela mitologia nórdica que mal é citada, mas me pareceu instigante.

O filme, anti-climático, é a mais radical desromantização das Cruzadas que eu vi no cinema. Nada que lembre de longe aquela tentativa rasa de criar um filme político-religioso sobre o assunto, como fez Ridley Scott. Aqui, o diretor trabalha muito mais numa arena existencialista e leva seus personagens com ele. A violência existe. Na maior parte das cenas em que há violência, ela é brutal – e muito bem filmada. Mas são poucos esses momentos. O filme, no geral, é um exercício de contemplação. Quase não há ação.

Uma sequência, na virada da primeira hora do filme, é o melhor exemplo para como todos os personagens estão completamente perdidos num lugar sem nome. Chega a ser angustiante. Mas talvez o mais impressionante seja a construção visual de Valhalla Rising. A fotografia, mesmo cheia de filtros, coisa que eu costumo não gostar, é uma obra-prima na criação de quadros. Há pelo menos uns quinze momentos de beleza sublime em que a tela parece pintada. Mas todos eles servem ao roteiro; são fundamentais para a criar a ambientação do filme. Um filme sobre a busca incessante por um sentido.

O Guerreiro Silencioso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Valhalla Rising, Nicolas Winding Refn, 2009]

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A Centopeia Humana

A Centopeia Humana

Tá vendo a primeira imagem que ilustra este texto? Pois é, ela descreve o principal tema de A Centopeia Humana, o experimento macabro de um cientista maluco que tinha como sonho unir três pessoas numa só criatura, costurando suas bocas com o que você já deve imaginar. Confesso que nunca havia lido uma linha sobre a existência deste filme até que, cinco dias atrás, um amigo me falou sobre ele. Resolvi procurar o longa do holandês do Tom Six na internet porque imaginei que vê-lo seria uma experiência minimamente curiosa.

No entanto, me deparei com um longa que não se resolve, o que me convence que o cineasta resolveu fazer o filme para faturar em cima do grotesco sem sujar as mãos. Para um projeto com uma proposta tão bizarra, esperava-se que o tom dessa proposta fosse incorporado ao filme, mas não. O longa é, guardando as devidas proporções, quase asséptico visualmente. As grosserias não surgem em imagens fortes, mas em palavras. Pode-se dizer que A Centopeia Humana é quase que um filme de ideias. Ideias toscas, grotescas, mas executadas numa espécie de escatologia oral.

Tom Six parece mesmo ter se acovardado diante da “radicalidade” de seu projeto, inserindo cenas de um humor rasteiro em meio à narrativa de filme de tortura, talvez para amenizar o tom. Deu até saudade de filmes que eu detesto, como Jogos Mortais. O resultado é que seu longa é apenas ridículo e gratuito, já que não chega realmente a chamar a atenção. Enoja, sim, mas só um pouquinho. É uma bobagem feita para ser vendida pelo efeito de choque e a prova de que nós chegamos ao fundo do poço: não se faz mais nem filme ruim como antigamente.

A Centopeia Humana Estrelinha
[The Human Centipede (First Sequence), Tom Six, 2009]

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