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Café com Leite

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[Café com Leite, Daniel Ribeiro, 2007]

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À Prova de Morte

À Prova de Morte

Não existe uma razão minimamente aceitável para que um filme de um diretor como Quentin Tarantino tenha permanecido inédito no circuito comercial brasileiro por quase três anos. À Prova de Morte foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2007 e, desde então, viu sua data de estreia ser adiada várias vezes até que, finalmente, teve que trocar de distribuidora para chegar aos cinemas. Uma estupiez que privou o público brasileiro de um filmaço.

O longa faz parte de um projeto em conjunto com o parceiro de velha data do cineasta, Robert Rodriguez, o filme duplo Grindhouse (a metade de Rodriguez, Planeta Terror, já foi até lançada em DVD). E, a princípio, este é o filme menos pretensioso de Tarantino, uma homenagem aos filmes de velocidade dos anos 70 que se ocupa muito pouco – ou quase nada – com aquele desfile de referências à cultura pop típico da filmografia do diretor. A verborragia continua, mas, nos primeiros 40 minutos de filme, assume a forma de um imenso girl talk.

Sexo, claro, é o assunto principal. E os diálogos, baratos, são deliciosos, inspirados explicitamente nos filmes descrebrados que Tarantino homenageia aqui. Mas essa homenagem não está apenas no texto ou na trilha sonora, mas em todo o resto. A fotografia da primeira metade do filme, assinada pelo próprio cineasta, abusa de ranhuras e borrões para envelhecer o longa. E a montagem de Sally Menke, companheira fiel do diretor, sem brincadeiras com a estrutura, marca tradicional do cinema de Tarantino, usa uma série de truques para reforçar essa proposta, como cortes bruscos e repetições. Às vezes é quase um trabalho de DJ.

 

O filme é claramente dividido em dois. Algum desavisado pode ignorar o guilty pleasure concebido por Tarantino e chamar a primeira metade do longa de misógino, mas isso se anula totalmente na segunda parte, especialmente no final. O único elo entre a primeira e a segunda metades é o personagem de Kurt Russell, o Dublê Mike, de longe a melhor interpretação que o ator já entregou ao público, tradição de Tarantino, que já havia feito o mesmo com Pam Grier, Darryl Hannah e John Travolta.

Em sua segunda metade, o filme muda bastante. O papo feminino, versão do diretor, permanece, mas as interferências visuais praticamente desaparecem, dando espaço para um trabalho de câmera é mais elaborado, embora as imagens continuem à moda antiga. Toda essa concepção retrô vem acompanhada por cenas de ação espetaculares, como a do choque entre os carros, que ganha vários pontos de vista. Todos com detalhes diferentes e imagens igualmente impressionantes.

Talvez a aparência descompromissada esconda o filme mais puro de Tarantino. À Prova de Morte, em sua amoralidade e seu imediatismo, parece ser feito apenas para se divetir. E, na boa, tem coisa melhor?

À Prova de Morte EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Death Proof, Quentin Tarantino, 2007]

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Desejo e Perigo

Tony Leung Chi-Wai, Tang Wei

Ang Lee nunca foi um cineasta necessariamente ousado, mas, a partir de O Segredo de Brokeback Mountain (2005), seu cinema parece ter sido tomado pelo academicismo. Essa tendência era um suporte essencial para aquele filme, já que o formato de melodrama clássico dava uma nova dimensão, universal, para uma história de amor entre dois homens. Em Desejo e Perigo, que apesar do Leão de Ouro no Festival de Veneza, demorou dois anos para chegar ao circuito comercial brasileiro, essa opção pelo acadêmico é reprisada, mas, apesar do filme ser um belo drama de espionagem, o formato funciona menos e o longa muitas vezes fica arrastado, apesar de nunca desinteressante.

Lee dirige o filme como se estivesse na Hollywood dos anos 40 ou 50, mas acerta mais a mão nas cenas de mais ação, que são poucas, sobretudo, no ápice, quando o protagonista sai da joalheria, excelente. Até lá a trama de espionagem tem altos e baixos, mas não consegue manter uma unidade de timing. O veterano Tony Leung Chi-Wai, no entanto, é um acerto: um dos atores que mais conseguem manter o equilíbrio em suas performances nos últimos 15 anos. Sua parceira de cena, a novata Tang Wei, surpreende com maturidade e sutileza num papel complexo, repleto de nuances e pequenos detalhes.

Apesar de se escorar em sua estética, Desejo e Perigo não tem os deslumbre que se podia esperavar. É um filme bonito plasticamente, mas não passa muito disso. Seu conjunto visual é que funciona, mas nem a direção de arte nem a fotografia são espetaculares, inclusive nas cenas de sexo, que causaram certo escândalo por serem supostamente explícitas, o que eu duvido muito, embora sejam bonitas. A busca pela beleza parece prejudicar o ritmo do filme, onde o que é mais perene é a música, assinada por Alexandre Desplat que comete, mais uma vez, uma linda melodia.

Desejo e Perigo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Se, Jie, Ang Lee, 2007]

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007 – Quantum of Solace

007 - Quantum of Solace

O que Cassino Royale conseguiu construir para a série de James Bond é destruído em pedacinhos por este Quantum of Solace. O segundo longa estrelado por Daniel Craig na pele de 007 é uma mutação equivocada do filme anterior, deixando de lado a concepção mais inteligente e refinada da criação de Ian Fleming por um modelo truculento de fazer filmes que anda altamente em voga.

Se o outro longa era aberto por uma cena de ação de primeira linha, neste aqui quase todos os momentos de força bruta parecem querer reprisar as seqüências de perseguição em larga escala de Batman – O Cavaleiro das Trevas, pecando justamente no mesmo ponto: tudo parece inflado, maximizado, exagerado – e chato. A estréia de Craig no papel já indicava a mudança no tom do personagem, mas aqui esse movimento perdeu o caráter passional e se deformou numa novelinha que me parece inédita na carreira do herói.

Sem o contraponto amoroso do longa anterior, Bond é apenas um homem atrás de vingança como tanto outros. Sem espaço para o romance e com um lugar diminuto para o humor que sempre deu equilíbrio à série, Quantum of Solace se tranformou num daqueles filmes de macho pra macho que encontrou num diretor ruim (Marc Forster fez filmes horrorosos como Em Busca da Terra do Nunca e O Caçador de Pipas) o pior defensor que poderia ter.

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[Quantum of Solace, Marc Foster, 2008]

 

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O Nevoeiro, revisão


Thomas Jane, Laurie Holden, Marcia Gay Harden

Quando uma névoa estranha cerca uma cidade, o horror encontra o momento exato de se fazer aparecer. Há mais de 25 anos, John Carpenter lançou essa premissa num longa correto chamado A Bruma Assassina. Hoje, Frank Darabont revisa e amplifica o tema, ancorado num texto de Stephen King. Num ano em que filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez, Sangue Negro e Não Estou Lá chegaram aos cinemas, é meio difícil de acreditar que um longa de terror possa estar entre os melhores do ano. Mas O Nevoeiro é um filme perfeito (ou algo bem perto disso).

O texto, escrito por King, que anda em baixa no cinema há uns bons dez anos, trabalha num nível além da lógica do susto, que move o gênero e que nem sempre funciona. E, na revisão, o filme de Frank Daranbont, em sua quarta adaptação de uma obra de King, fica ainda melhor. O Nevoeiro não é exatamente uma obra de terror. Há monstros, há perigos, há medo, mas não é o horror que dá o tom central do filme. Para o escritor, o mais assustador que o homem pode encontrar pela frente é o espelho. É nele que vemos monstros de verdade.

Quando sua névoa misteriosa deixa preso um grupo de pessoas dentro de um supermercado, estamos diante da civilização em reverso. Stephen King nos amedronta mesmo é com uma volta à barbárie. Cada uma das pessoas trancadas naquele espaço tem que aprender a se portar diante da perda de parâmetros: é aí que surgem a política, a organização social e a religião – e, então, aparecem os papéis. E Darabont, que sempre me pareceu um cineasta apenas correto, filma essa confusão exemplarmente, com movimentos de câmera inteligentes, aproveitando ao máximo o cenário limitado.

Em tempos de fúria, o oráculo interpretado por Marcia Gay Harden, talvez no momento mais alto de sua carreira, ganha um destaque inevitável. Mas Thomas Jane, um ator limitado, dá uma credibilidade inesperada a seu herói comum. Em torno deles, uma casta de coadjuvantes eficientes: Jeffrey DeMunn, Andre Braugher, Laurie Holden, Toby Jones e Frances Sternhagen. Daranbont sabe explorar os personagens com calma, dando espaço para os atores dimensionarem seus papéis e nos entregarem belas interpretações.

O Nevoeiro se projeta o tempo inteiro. Funciona num outro plano. É um dos melhores filmes baseados num texto de King, que talvez só perca para as incursões de Stanley Kubrick e Brian De Palma no universo do autor. Um dos poucos filmes que sabem usar o material original como plataforma para um salto maior. A cena final coroa este projeto com coragem e uma desenvoltura impressionante, que deixa Um Sonho de Liberdade no chão. King aposta no desespero como conseqüência do nosso medo do desconhecido, que transforma o homem numa aberração. Onde apontar inimigos a sua volta parece a única coisa que resta quando o que importa é sobreviver.

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[The Mist, Frank Daranbont, 2007]

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Canções de Amor

 Louis Garrel, Clotilde Hesme, Gregoire Leprince-Ringuet, Chiara Mastrianni, Ludivine Sagnier A cada dia que passa, eu me convenço um pouco mais de que a melhor maneira de se encarar o mundo é tentar flutuar sobre as coisas, mesmo aquelas com as quais você não concorda, mesmo aquelas que você não entende, mesmo aquelas de que você não gosta muito. É mais ou menos isso que Christophe Honoré faz em Canções de Amor, delicioso manifesto musical em forma de ode ao espírito livre e à quebra das convenções. A diferença deste filme em relação a tantas outras obras é que ele, por mais que tenha uma postura extremamente política implícita, recusa veementemente se transformar em panfleto, seja do amor livre, do ménage a trois, da homossexualidade. As coisas acontecem naturalmente, não porque têm que acontecer, mas porque podem acontecer.

Honoré evoca o Truffaut de Beijos Proibidos e Domicílio Conjugal e o faz encontrar os musicais de Jacques Demy, sempre costurando a trama a partir das canções excelentes de Alex Beaupin. Louis Garrel, seu colaborador mais fiel, encarna mais uma vez o ser humano livre, como fez a obra-prima Em Paris, do mesmo Honoré. Aqui ele ganhou a companhia de Ludivine Sagnier, uma das pérolas que o cinema francês revelou nos últimos dez anos, e a ótima Clotilde Hesme, com quem Garrel já tinha divido a tela e os lençóis em Amantes Constantes. Na ponta final do quadrado, Gregoire Leprince-Ringuet, que impressiona ao criar a ingenuidade de um primeiro amor. Ele, ao lado de Garrel, estrela o melhor momento musical do filme, “As-tu déjà aimé?”. Os outros destaques na trilha/tela são “Au Parc”, cantada por Chiara Mastroianni, e “Je n’aime que toi”, com Garrel, Sagnier e Hesme nos entregando às ruas de Paris.

Esta foi a segunda vez que eu vi Canções de Amor. A primeira foi durante a Mostra de Cinema de São Paulo, em novembro, num programa duplo com Em Paris. Eu já tinha me apaixonado pelo filme, por sua leveza e por sua maneira de se lançar ao mundo, e já tinha amado cada uma das belíssimas canções que compõem a trilha sonora, devidamente baixadas e ouvidas à exaustão ao longo deste dez meses. Na semana passada, quando vi o trailer do filme, senti um aperto e imediatamente decidi revê-lo ao lado da minha amiga Fabiana, uma das pessoas mais queridas da minha vida. Sabia que nem todo mundo gosta de musicais e que provavelmente ela também torceria o nariz, mas sabia que, se ela fosse comigo, ela entenderia tudo o que é o filme, mesmo que não gostasse muito dele. No sábado, a Fabi foi comigo ao Cine Bombril. Viu o filme ao meu lado e adorou. E me fez imensamente feliz porque uma das melhores coisas da vida é dividir as coisas que você ama com as pessoas certas.

Canções de Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Le Chansons d'Amour, Christophe Honoré, 2007]

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Nome Próprio

Nome Próprio

O surgimento dos blogues reinventou o poder sobre o texto. Sem editores, censores ou chefes, qualquer um podia escrever o que quisesse. Panfletos, críticas, xingamentos. Tudo, inclusive ficção. A tecnologia tinha golpeado não a literatura, mas o sistema editorial em cheio. As portas restritas para esse meio já nem eram mais tão importantes porque quem quisesse poderia simplesmente abrir um blogue. Era a revolução, a quebra de paradigmas. No entanto, o início da era dos blogues era também restrito e os pioneiros ganharam status diferenciado. Sobretudo quem escrevia ficção. De espaço alternativo, a internet virou plataforma para que novos escritores pudessem divulgar seu material e chamar atenção.

Foi assim com Clarah Averbuck, um dos nomes mais famosos da etapa inicial da blogosfera brasileira. Seus blogues chamaram atenção e seus textos migraram do virtual para o velho e bom papel. Dois de seus livros, escritos a partir de anunciadas experiências pessoais, pariram o roteiro de Nome Próprio, filme de Murilo Salles. Uma verdadeira jornada entre suportes, eu diria. Mas o filme, apesar de um esforço visível de se mostrar antenado, nasceu datado. E o culpado disso é justamente o material original, o texto, que envelheceu, revelando suas fragilidades. No plural.

Primeiro, Nome Próprio é um amontoado de frases feitas, tentando misturar vestígios de uma cultura underground, de Fante a Bukowski, com uma visão limitada de mundo, aquela coisa pós-adolescente de achar que palavrões, metalinguagem (“ficção não acontece contigo o tempo todo? então me reescreve?”) e mais um pouco de álcool e drogas fazem de algo, algo importante. A sensação é de que as frases são pensadas vinte vezes para que tenham um valor extra (“aqui escrevo, escrevo porque preciso”), para que signifiquem (“a dor são poros por onde transpira a escrita”), com maneirismos moderninhos que ficaram datados (“todo mundo já deve ter copiado, redirecionado”). E, sob o pretexto de não ter pudores, qualquer citação a sexo é banalizada. E isso já vem com a defesa acoplada de que quem não gostou deve ser careta.

O melhor do filme é Leandra Leal. Pensando bem, a única coisa boa do filme é Leandra Leal. Mas nem a interpretação da moça, bastante esforçada em dar credibilidade a sua frágil personagem, salva o longa de Murilo Salles, que confessou não ter muita intimidade com a internet e peca por um certo didatismo em relação à web. A idéia das sobreposições de texto funcionam até a segunda página, depois ficam com cara de coisa velha. Como a rebeldia pré-fabricada do texto (“O problema é eu fico achando que caos é ordem”). Mas, numa certa altura, a própria protagonista avisa (e lava as mãos): “não gostou? não lê”. Mas para saber que não se gosta, tem que dar uma espiadinha, não é?

Nome Próprio Estrelinha
[Nome Próprio, Murilo Salles, 2007]

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O Escafandro e a Borboleta

O Escafandro e a Borboleta

O Escafandro e a Borboleta é um desafio o espectador. Durante seus primeiros trinta (talvez mais) minutos, não vemos o rosto do protagonista. Num clássico filme de doença, passado quase que inteiramente dentro de um hospital, Janusz Kaminski reiventa o que se chama de fotografia, assumindo não apenas o ponto de vista de quem conta a história, como transformando sua visão turva e limitada num carrossel de experimentos visuais e sensoriais em que os atores encaram a câmera o tempo todo. Um trabalho impressionante que precisa ser visto para dar conta de sua totalidade.

Em seu terceiro longa, Julian Schnabel radicaliza seu compromisso com o marginal, que ficava mais em seus objetos nos filmes anteriores que dirigiu, Basquiat e Antes do Anoitecer, e leva suas experiências plásticas para a forma como filma. É seu trabalho mais apurado, embora a radicalidade do primeiro ato seja abafada depois de uma reviravolta, espertamente justificada no roteiro, tornando o filme mais convencional e talvez mais palatável para um espectador que busca apenas uma bela história. Afinal, o filme é sobre um editor de uma revista que sofre um derrame, perde os movimentos, mas consegue escrever um livro.

Mesmo assumindo esse lado mais clássico, Schnabel adota alguns métodos que deixam O Escafandro e a Borboleta diferenciado dos outros exemplares de seu ‘gênero’. Primeiro, Ronald Harwood, que escreveu aquela ode à tristeza que é O Pianista, não apenas adaptou o livro de Jean-Dominique Bauby, como tentou capturar seu antes e seu imediatamente depois, rendendo um monólogo aparentemente interior que ganha a cumplicidade do espectador, o único capaz de ouvir o personagem principal, o que cria uma intimidade silenciosa.

O segundo grande trunfo é como, apesar de bastante delicado e inevitavelmente entristecido, o filme tem um enorme senso de humor, com Mathieu Amalric fazendo piadas sucessivas sobre a condição de seu personagem e todos que o cercam. Um grande trabalho de interpretação, por sinal, já que o ator só tem diálogos em flashback, mas se desdobra para dar conta da complexidade do protagonista. O restante do elenco, cujas performances são quase que sempre uma conversa com a câmera, também é desafiado, com Emmanuelle Seigner e, principalmente, Marie-Josée Croze sendo as melhores em cena.

Entre o filme de doença e o experimento cinematográfico, Julian Schnabel conseguiu um meio termo bastante equilibrado. Um filme inteligente, que tenta trazer um algo novo e que, ao mesmo tempo, é uma homenagem singela que talvez mereça uma estrelinha a mais.

O Escafandro e a Borboleta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Le Scaphandre et la Papillon, Julian Schnabel, 2007]

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Na Naureza Selvagem

Na Naureza Selvagem

A trajetória de Sean Penn é uma das mais interessantes de Hollywood. De bad boy que espancava a esposa (no caso, a Madonna) e ator de filmes teen (estava brilhante em Picardias Estudantis, de Amy Heckerling), se transformou num ator maiúsculo, respeitado, engajado e premiado. Na galeria de interpretações que nos ofereceu, destaque para O Pagamento Final, Loucos de Amor, 21 Gramas e Uma Lição de Amor.

Sua passagem para a cadeira de diretor não demorou tanto e, hoje, já estamos diante de seu quarto longa-metragem nesta função. O processo de seu amadurecimento como cineasta é flagrante. Ele começou bem com Unidos pelo Sangue, tropeçou no chatinho Acerto Final, se recuperou com o ótimo e nunca óbvio A Promessa e atingiu seu clímax com o belíssimo episódio de 11 de Setembro, estrelado por Ernest Bornigne.

Então, fica a dúvida: por que ele resolveu fazer um filme tão didático como Na Natureza Selvagem? Dá até para perdoar esta concessão hippie de celebrar a revolta contra o status quo através da história do garoto de classe média que resolve largar a vida urbana capitalista nunca, argh, jornada de autoconhecimento até o Alasca – pois é, dizia ele que, no Alasca, seria feliz. Tudo bem, isso passa, mas porque então aquela narração constrangedora da irmã? Por que fazer um uso tatibitate da trilha sonora de Eddie Vedder? As melodias são lindas, mas as letras são de uma pobreza assustadora, mastigadinhas demais, tentando ratificar o comportamento do protagonista.

O abuso da câmera lenta causa enjôo, principalmente nas cenas em que nosso herói percorre um rio de caiaque até chegar ao México (a Sol de América deve ter se contorcido de raiva). O que salva o filme de um destino mais trágico, com direito ao reencontro com a família mais forçado dos últimos tempos (por sinal, bem oficialesco este filme, né?), são vitórias pontuais na escolha do elenco: Catherine Keener, sensível e discreta, e Hal Holbrook, bastante correto, são os melhores. Emile Hirsch é um ator esforçado, mas ainda não tem o mojo. Um dos maiores acertos é o estabelecimento da relação entre os irmãos. É fácil acreditar no amor e na parceria entre os dois. O chato é ter que suportar aquele texto em tom supostamente literário, parecendo texto de blogue de pseudo-poeta.

Na Natureza Selvagem EstrelinhaEstrelinha
[Into the Wild, Sean Penn, 2007]

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A volta dos mortos-vivos

O cinema vive de ciclos. A cada temporada, gêneros, estilos, temáticas e formatos são revisitados e, se os precursores dão certo, os revivals se reproduzem mais rápido do que um Gremlin. Em 2003, Danny Boyle ressucitou sua carreira – e de quebra um gênero – com Extermínio, onde um vírus se espalha transformando a maior parte da população da Inglaterra em seres mortos-vivos que se alimentam de gente para continuar mortos-vivos. O filme tinha um punhado de razões para dar certo: um roteiro bem escrito, com especial talento para o suspense, um cenário desolado como nos clássicos B sobre holocaustos futuros, um diretor com habilidade para comandar câmera e montagem, e um jovem protagonista talentoso, que se especializou em personagens perturbados. Foi o renascimento do filme de zumbis.

O gênero surgiu no fim dos anos 60 pelas mãos de George A. Romero, que até o lançamento de Extermínio, ao longo de três décadas, havia dirigido três filmes que mostram, um a um, a ascenção dos mortos-vivos sobre o planeta. A cada filme, Romero elaborava seu exército de zumbis, moldando-os numa poderosa crítica política à sociedade do século vinte, à mesma medida em que instituía toda uma mitologia do horror. A revitalização do gênero gerou dezenas de filhotes nos anos seguintes, sendo o melhor justamente um remake de um dos clássicos de Romero: Madrugada dos Mortos, dirigido pelo então estreante Zack Snyder em 2004. Bastante fiel ao material original, que já estava pronto, Snyder pôde se dedicar ao acabamento, criando um filme de zumbi de primeira, forte, delicioso e bem feito.

Com pelo menos dois novos clássicos bem recebidos no mercado, foi a vez do próprio Romero voltar a seu habitat, abandonado havia vinte anos. Terra dos Mortos não apenas cumpre um papel nostálgico de resgate histórico como se transforma no maior filme político de 2005, um libelo contra o totalitarismo, o imperalismo e a sociedade de consumo, visto como um ataque frontal ao governo Bush. Mas, mais do que um exercício de política, o filme levanta questões ainda maiores, ao reinventar a mitologia dos zumbis, cuja barbárie ecoa os princípios da formação das sociedades, com os mortos-vivos começando a demonstrar consciência e, pela primeira vez, se organizando num grupo. A força metafórica do filme é devastadora. Romero fez com que suas crias ganhassem um motivo e buscassem um improvável futuro.

Depois de Terra dos Mortos, difícil fazer algo à altura explorando esse terreno, mas dois espanhóis, donos da terra que faz o melhor cinema de horror da atualidade há cerca de uma década, resolveram beber da mesma fonte. Jaume Balagueró, diretor do bom A Sétima Vítima, e seu colega Paco Plaza, colaram dezenas de citações e entregaram [REC]. A dupla imaginou um filme que unisse: a) a paixão de nossa sociedade atual pelo registro; b) a paranóia química; c) os filmes de zumbis. Muita coisa para ser amarrada, mas o resultado é impressionantemente feliz. Uma equipe de TV – repórter e cinegrafista, retratados com bastante fidelidade, coisa rara – acompanham bombeiros numa chamada até um prédio onde uma mulher parece ter sido atacada, que em seguida é isolado pelas autoridades com todos dentro. A partir daí, a colcha de referências vai se avolumando.

Com várias seqüências assustadoras, tanto pelo domínio da imagem quanto do suspense, o filme cumpre sua função, mas padece por parecer muito com muita coisa feita nos últimos tempos. Ou seja, parece um plágio múltiplo. O formato é da câmera na mão, o que ecoa A Bruxa de Blair, inspiração que fica mais explícita na seqüência final, quase uma citação do filme mais revolucionário dos anos 90. A paranóia militarista tem muito de Extermínio e a lógica dos zumbis remete diretamente aos filmes de Romero mais antigos, sem preocupação com ecos políticos. Ainda que não comprometa o resultado, essas comparações reduzem bastante o impacto e o filme sofre por isso.

Mas a frustação que [REC] pode despertar não é maior do que a decepção causada pelo novo filme de Romero, sua quinta incursão pelo universo dos zumbis. Diário dos Mortos é um retrocesso inexplicável tanto na mitologia quanto no quosciente político do gênero. Não há mais os zumbis conscientes ou a sociedade barbarizada. Estamos de volta a um status anterior, onde a única atualização é na insipiente reflexão que o diretor tenta fazer sobre nosso caso de amor com o registro e a informação. Um punhado de estudantes de cinema gravam um filme de múmia enquanto a mídia começa a divulgar casos de mortos que ressucitam e atacam os vivos.

O grupo começa a encontrar o exército de zumbis à medida em que um deles resolve tomar para si o papel de registrar tudo o que acontece com sua câmera. Os mortos-vivos são redimensionados a papéis de figurantes. O que incomoda não é ignorar a cronologia porque isso não era necessário, mas voltar a um status primário com discussões muito mais rasas. Desta vez, só interessa a Romero essa obsessão pela informação, ou, mais do que ela, pela divulgação. Seria um viés interessante a explorar caso o texto convencesse, mas as frases feitas, o engavetamento de clichês, as atuações medíocres e quase nenhuma verossimilhança no comportamento dos personagens limitam esse a um filme de terrorzinho adolescente. Cloverfield, com muito menos, fez uma reflexão bem mais eficaz sobre o poder da imagem. Talvez não haja mais muito a acrescentar ao universo dos mortos-vivos. Talvez o poderio crítico que dessa subespécie de cinema já tenha atingido seu ápice. Talvez, e eu lamento muito em dizer isto, Romero já tenha dado toda a contribuição que poderia ao gênero.

Diário dos Mortos Uma estrela
[Diary of the Dead, George A. Romero, 2008]
[REC] Uma estrelaUma estrela
[[REC], Jaume Balangueró & Paco Plaza, 2007]

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