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Mostra SP 2014: post dez

Livre

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[Wild, Jean-Marc Vallée, 2014]

Depois de um trabalho tão simples e bem resolvido como Clube de Compras Dallas, o novo filme de Jean-Marc Vallée, Livre, que ainda tem a assinatura de Nick Hornby no roteiro, parece um pouco decepcionante. Seguindo a linha das viagens transformadoras, o longa traz a história real de Cheryl Strayed, uma mulher que sai para uma trilha de milhares de quilômetros em busca da cura para as feridas de uma vida de sofrimento. Um dos grandes problemas do filme é exatamente que Vallée, Hornby nem Reese Whitherspoon conseguem dar a dimensão das tragédidas na vida da protagonista. A sensação é que ela sofre por ter tido uma história comum a muita gente ou mais fácil do que tantas outras por aí. Seu desespero nunca consegue ser propriamente justificado e a solução encontrada para remontar sua vida, um excesso de flashbacks e de “fantasminhas” incomoda. Mesmo os medianos Na Natureza Selvagem, que pelo menos tem uma filosofia, e 127 Horas, com um protagonista infinitamente mais inspirado, exploram melhor a relação de encontro com a natureza. A viagem de Cheryl parece mais um passeio e Reese, que ficou mais bonita depois de madura, não impressiona em nenhuma cena (e ainda assim está cotada para o Oscar).

Ciências Naturais

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[Ciencias Naturales, Matías Lucchesi, 2014]

Este primeiro longa-metragem do argentino Matías Lucchesi revela algumas fragilidades, mas insinua um autor delicado na busca da verdade de suas personagens. A protagonista do filme é Lila, interpretada por uma promissora Paula Galinelli Hertzog, uma adolescente bicho-do-mato que estuda num internato no meio da Patagônia e está determinada a encontrar pai biológico que nunca conheceu. Para justificar o título do longa, o diretor deu à personagem principal uma única aliada, a professora de ciências. Os cenários naturais ajudam e Lucchesi os filma sem afetação, o que, combinada com a trilha, garante uma ambientação melancólica, simples e honesta. Em pouco mais de 70 minutos, as duas enfrentam uma pequena jornada com todos os tropeços e ingenuidades que o tema e a inexperiência do cineasta de primeira viagem permitem, mas cujo desfecho, silencioso e bonito, amarra de maneira sofisticada uma história simples.

Camaradas

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[Camarades, Marin Karmitz, 2014]

Camaradas é um panfleto comunista dirigido Marin Karmitz, homenageado pela Mostra por sua carreira espetacular como faz-tudo do cinema. O filme conta a história de um jovem idealista que não consegue se decidir sobre seu futuro e começa a e envolver com o ativismo político. Enquanto diretor, Karmitz aqui parece ingênuo, mas firme em suas convicções esquerdistas. O mais surpreendente do filme é como ele assume a condição de propaganda ideológica e encontra um formato até interessante para conduzi-la, utilizando canções, verdadeiros hinos socialistas, para costurar a narrativa.

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127 Horas

127 Horas

Passei a maior parte da sessão de 127 Horas pensando em outro filme, Enterrado Vivo. Os dois partem de premissas parecidas: de uma hora para outra, seus protagonistas se vêem presos, isolados, reféns de situações de angústia física e mental. As semelhanças param por aqui. Enquanto o filme de Rodrigo Cortés tem um roteiro completamente ficcional, a trama do último longa de Danny Boyle é baseada numa história real. E as diferenças não estão apenas na sinopse, mas nas opções, ou mesmo no estilo de cinema que seus diretores escolheram.

Enterrado Vivo, diante de sua invenção, poderia facilmente recorrer a elementos extra-cenário para dar mobilidade a sua trama complicada de se filmar: um homem acorda dentro de um caixão. Mas o roteiro é radical: nunca, em hipótese alguma, abandona sua espremida locação, e, dessa forma, convence na composição da claustrofobia imposta ao protagonista que nunca existiu. 127 Horas, por sua vez, parece nunca acreditar suficientemente na força de sua história verdadeira e usa todos os subterfúgios possíveis para ilustrar a situação extrema pela qual passa seu personagem real.

Dicotomia pura.

A lógica da montagem é a da TV aberta: ilustrar ao máximo cada situação. E Danny Boyle, vocês sabem, ilustra que é uma beleza. Um exemplo simples: se James Franco está com sede aparece um clipe com velocidade acelerada e overdose de filtros com imagens de água, refrigerantes, cervejas e banhos em geral. Resultado: o filme ganha agilidade e não reforça o drama do personagem. Faltam momentos de vazio, largando o som ambiente e o ator à própria sorte. Faltou alimentar essa angústia.

As alucinações materializadas e os flashbacks familiares, aos quilos, parecem alienações que só fazem o foco sair do que realmente interessa. E, convenhamos, a história já é forte o bastante para atrair o espectador. Pior ainda é quando os escapismos são gratuitos, como a câmera subjetiva até o carro (em fast, claro) ou primeira saída da fenda. Essa última é um golpe dos mais baixos, revoltante, uma sequência completamente desnecessária que, inclusive, deixa dúvidas sobre a cena anterior.

Eu deveria dizer que a culpa de 127 Horas não ser uma catástrofe completa é de James Franco, que, nos intervalos comerciais, consegue dar corpo ao desespero de seu personagem numa interpretação cheia de belos momentos, como na cena do talk show (a única em que as artimanhas do diretor realmente funcionam). Mas Boyle resolve bem algumas cenas angustiantes, como a sequência em que Aaron põe fim a seu drama. São cenas que fazem o filme valer. Mesmo assim, Enterrado Vivo ainda é bem melhor. Ficção supera realidade? Nesse caso, sim.

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[127 Hours, Danny Boyle, 2010]

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