O Céu sobre os Ombros

Sérgio Borges

Um grupo de cineastas mineiros parece ter encontrado uma saída para o marasmo em que se encontrava o recente cinema independente brasileiro. E essa saída passa por um refinamento da fórmula do encontro entre ficção e documentário, com atores amadores, personagens reais e histórias que têm muito desses atores e desses personagens. O melhor filme dessa safra é o ainda inédito Girimunho, mas logo atrás vem o longa de estreia de Sérgio Borges, vencedor do Festival de Brasília em 2010.

O Céu sobre os Ombros trabalha com uma proposta simples: elege três personagens, pessoas reais, e acompanha suas trajetórias. Temos um poeta marginal, um atendente de telemarketing e uma transsexual que se divide entre a vida acadêmica e a prostituição. Mas Borges foge ao esquema de documentário tradicional, em que os depoimentos servem como fios condutores para a história. Ele convida os personagens para a condição de atores, incumbindo-os da função de interpretar a si mesmos.

Uma tarefa delicada, mas que funciona melhor do que encomenda porque os três protagonistas “trabalham” com uma espontaneidade que faz falta a muitos profissionais e porque suas histórias de vida são, naturalmente, atrativas, com destaque para a da transsexual Everlyn, cujo trabalho noturno é registrado como parte de uma reportagem investigativa, mas sem alarde, sem a mordaça do flagrante, seguindo o narturalismo que a que o filme se propõe.

À medida que os limites entre interpretação e vida real ficam nebulosos, o material fica cada vez mais rico, ora parecendo um documento, ora uma ficção sobre a vida na periferia. Sérgio Borges desnuda os personagens, um a um, sem pudores, mas também sem excessos. A coragem do trio se equivale ao frescor das ideias do cineasta, que comanda com precisão uma fotografia nada óbvia, que reflete o olhar diferente sobre o trio, e uma montagem que dá sentido ao emaranhado de histórias. Histórias que passam de perto pelos abismos pessoais dos protagonistas, sem buscar redenções, mas sem condená-los por nada.

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[O Céu sobre os Ombros, Sérgio Borges, 2010]

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