No

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O chileno Pablo Larraín resolveu correr riscos com No, terceiro longa da trilogia composta também por Post Mortem e Tony Manero. O filme, que retrata os bastidores do plebiscito em que o povo do Chile teve o direito de legitimar ou não o governo do ditador Augusto Pinochet, assumiu uma linguagem visual ousada para uma época em que as imagens em alta definição, mais do que objetivo, são regra na produção audiovisual.

A história do longa, estrelado por Gael García Bernal, se passa em 1988, quando por causa de uma pressão internacional o governo militar chileno se viu obrigado a ter o reconhecimento da população do país. Para tanto, determinou a realização do referendo e dividiu espaço na TV com os partidos de oposição. Mas se a situação política é o cenário para o filme, o foco está nos bastidores da criação das campanhas televisivas em que cada lado tenta ganhar o voto dos eleitores.

Com um farto arquivo em peças publicitárias da época, Larraín resolveu emprestar ao filme o mesmo acabamento visual do material histórico, filmando com câmeras de TV como as que eram utilizadas no fim dos anos 80. O resultado pode parecer incômodo para o espectador, que não dificilmente poderá confundir a falta de qualidade das imagens com uma possível falta de qualidade da própria cópia do filme que assiste.

Mas o preço pago pela falta foco e definição e pelo excesso de granulação em muitas cenas, se mostra pequeno perto da absoluta simbiose entre a dramatização dos eventos e as imagens de arquivo. Esse equilíbrio se reflete no filme como um todo, já que Larraín evita o ranço comum a filmes políticos-históricos, centrando fogo na construção das campanhas publicitárias, que se revelam tão sangrentas quanto os conflitos armados.

É uma das interpretações mais inspiradas de Gael García, que faz o papel de um dos chefes da campanha pelo “não” e evita tanto o clichê de compor um personagem idealista como os maneirismos comuns aos retratos que o cinema costuma fazer dos publicitários. O contraponto entre seu personagem e Alfredo Castro, seu chefe numa agência de propaganda e seu rival na campanha política, é uma das idiossincrasias mais interessantes do filme.

Castro já tinha trabalhado com Larraín nos dois filmes anteriores da trilogia dedicada à ditadura de Pinochet. Neste capítulo final, aplaudido em Cannes e candidato oficial do Chile ao Oscar de filme estrangeiro, o cineasta realiza seu trabalho mais apurado e ambicioso, de uma fluidez impressionante para um filme do gênero, do qual nem a imperfeição plástica intencional pode tirar a beleza.

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[No, Pablo Larraín, 2012]

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