Cisne Negro

Natalie Portman

O fato deste filme ser sobre balé, uma arte conhecida pela rigidez, e de ter sido rodado com câmera na mão já merece aplausos. Mas esta é apenas uma das ousadias do novo trabalho de Darren Aronofsky, um diretor de extremos. Depois de fazer seu longa mais tradicional, O Lutador, onde sua experiência se limitava apenas à figura bizarra de seu protagonista, o cineasta resolveu se arriscar mais uma vez.

As bailarinas de Aronofsky trocaram o conto de fadas pelo de horror. Moram num ambiente de pressão extrema que transforma suas naturezas delicadas em carapaças de guerra. Como um comandante sádico, o diretor leva sua protagonista para a batalha, sempre tratando de investigar fronteiras e reforçar dicotomias. A leveza se confunde com a vilania, a fragilidade bate de frente com a determinação, o perfeccionismo esbarra na sanidade. Natalie Portman leva essa proposta aos limites de seu talento. Está em sua melhor forma.

O cineasta não está disposto a negociar: aposta num narrativa difícil, que assume a alucinação e materializa o invisível. Ele frustra as expectativas de quem só procura uma história porque está bastante interessado em dar corpo a seus excessos seja a que custo for. E esses excessos curiosamente parecem ter a medida certa. São espontaneamente funcionais. Mas só para quem estiver disposto. Se esse é um grande filme ou mais um experimento com prazo de validade, eu ainda não sei. Cabe a revisão. Mas somente o fato de triturar um universo idealizado já faz de Cisne Negro um filme raro.

Cisne Negro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Black Swan, Darren Aronofsky, 2010]

16 Comments

Filed under Resenha

16 Responses to Cisne Negro

  1. Gabriela Almeida

    Cisne Negro me decepcionou. Aliás, acho que nunca mais assisto nada do Aronofsky porque já dei chances demais. A sequência final pra mim valeu pelo filme inteiro principalmente pela beleza estética, mas o drama é totalmente freudiano (e isso achei um pastiche). Perdi a paciência, não me comoveu nem um pouco. Natalie Portman está sensacional no filme mesmo.

  2. Mari Nishihata

    Vou ver hoje! Adorei seu texto.

  3. Me impressionou bastante, entre os indicados ao Oscar Cisne Negro só perde para O Vencedor.

  4. Concordo plenamente. Só pelo “fato de triturar um universo idealizado”, Cisne Negro já merece destaque. E eu arrisco dizer que é um grande pequeno filme, daqueles que crescem junto com o espectador ao longo dos anos.

    Um forte abraço.

  5. Bom texto, Chico. Tenho uma opinião bem diferente, apesar de concordar com algumas coisas. Mas é sempre legal encontrar textos assim com bons argumentos e que não diminuem a obra que outros gostam.

    Pena que nem todo mundo escreve dessa forma (o texto sobre o Tio Boonmee do Rubens Ewald Filho, é uma afronta por exemplo).

    Estou te seguindo no twitter a um tempo (e gosto bastante dos seus comentários), se quiser me seguir @pedroprimo.
    Abraços.

  6. Wendell Charles

    Amiga Gabriela, ate entendo algum cinefilo deistir de Tony Scott, Michael Bay ou Rolland Emmerich, más desistir do Darren Aronofsky? o cara é genial.

  7. Layo

    Achei o menos pior dos filmes dele. Mas não emociona enquanto poesia. Ao contrário, é esquemático demais pra essa estética chegar perto de uma poética. Vale pelo esforço da montagem e da atriz que realmente conseguem chamar a atenção a todo momento. Tem algumas cenas bonitas, mas todas com um sentimento muito confuso que, se por um lado podem espelhar a insanidade do mundo retratado, por outro não levam nosso pensamento muito além das auto-explicações propostas imediatamente.

  8. Os comentários são publicados/recusados de acordo com a pertinência/coerência ou quando/se destoarem demasiadamente da opinião do opinião do blogueiro? eu tinha que ter sabido disto antes de tomar a ousadia de (aqui) tentar postar a minha opinião.

  9. falou bonito chico =)
    cisne negro foi um filme que foi me cativando aos poucos, quando chegou no climax parecia que eu sentia toda agonia da personagem….

    agora uma coisa que tava discutindo na univ. hoje era os motivos das alucinações da Nina, amiga minha tava botando a mãe dela como uma invejosa que tinha ciumes da filha então queria engordar ela com o bolo, maxucava a unha dela, se vestia sempre de preto contrastando com as cores sempre alvas que a protagonista usava e coisas desse tipo…. Acho que ao contrário, ela recusou o bolo por sofrer de transtorno alimentar, e tudo bem que a mãe a tratava feito uma criança de 12 anos e a mantinha sobre pressão, mas acho que a mãe fazia isso pq queria que ela fosse tudo que ela não foi….
    enfim =P
    fiz alguns comentários sobre ele aqui ^^: http://rebecaneiva.blogspot.com/2011/02/black-sawn-cisne-negro.html

  10. Rosana

    Gente!
    Nunca acho “drama freudiano” pastiche…
    Por sinal, é o que mais admiro em alguns diretores, roteiristas. A capacidade que tem de introduzir elementos , situações, personagens na perspectiva psicanalítica sem serem psicanalistas. Admirável!
    Já dizia Freud sobre a grande “habilidade” que tinham os poetas de escrever histórias como ele mesmo gostaria , mas que não tinha o talento para tanto.
    Um psicanalista seria então um “poeta” frustrado,confere? E alguns diretores de cinema? Psicanalistas ” frustrados”?
    Então… um diretor que enfoca a sexualidade feminina,os conflitos edípicos encobertos pela repressão. Uma atriz que consegue transmitir a dor de ser quem é…enfim…um filmaço!!!!!
    Abraços!
    Rosana

  11. Anônimo

    Eduardo:

    1) os comentários são pré-aprovados pelo único motivo de que muitos spams chegam neste endereço todos os dias e eu não quero que meus leitores precisem ler spams;
    2) infelizmente trabalhei bastante nos últimos dias e não consegui aprovar todos os comentários rapidamente;
    3) os demais comentários são todos aprovados, independentemente de manifestarem opiniões contrárias à minha ou não ou de falarem bobagem ou não;
    4) só deleto comentários que têm palavrões ou ofensas;
    5) como neste seu comentário, você é apenas desagradável, mas não usa termos de baixo calão e ofensas, ele está publicado e você pode lê-lo normalmente.

  12. Matheus Lombardi

    Chico, adorei a forma como vc analisou o filme. Enquanto São Paulo estava embaixo d’água, aproveitei para ver este filme. É o primeio que vejo desse diretor e achei incrível. De verdade, não espera tanto do filme. Não sou um cinéfilo como a maioria aqui, mas gostaria de deixar minha opinião. O teu blog é muito bom!

  13. Anônimo

    Valeu, Matheus!

  14. Cristina

    Ótimo texto, Chico, como sempre. Não gostei deste filme, achei-o pretensioso, feio e chato. E a Natalie P., embora fabulosa, não engana como bailarina, é pesada (mesmo esquelética) e tem os braços duros. Deviam ter escolhido uma bailarina, pena… Como canastrão irresponsável o Cassel está ótimo. Onde já se viu um diretor de balé clássico mandar a pessoa criar??? Tudo é tão ensaiado… Êta filminho pretensioso, este.

  15. adorei este filme, assim como adorei requiém para um sonho.

  16. jamila Pontes

    Cisne Negro é um filme que me cativa, não pela temática mais visível: história da mãe, surtos psicognósticos, uso de dragas, mas sim pelo o dualismo, uso da câmera e principalmente, o processo de criação da dançaria – do limiar entre a vida e a obra de arte, tanto dela quando de seu diretor: o que acontece entre o mundo real e onírico, emfim as metáforas, símile, até porque o define ser uma metáfora nesta obra?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>