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Paraíso

Paraíso

A carreira de Andrei Konchalovskiy é bem curiosa. O diretor trafega com naturalidade entre o cinema de autor e o cinema comercial, com passagens por um cinema algo autoral, algo comercial, que mira em prêmios internacionais, caso deste Paraíso, que ganhou o Leão de Prata de melhor diretor no Festival de Veneza. Dois anos depois do interessantíssimo As Noites Brancas do Carteiro, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, mas infelizmente inédito em circuito, Konchalovsky entra num terreno seguro para atrair comoção internacional, o das histórias da Segunda Guerra Mundial. O roteiro original, escrito pelo próprio cineasta com Elena Kiseleva (com quem também fez dupla no filme anterior), mistura uma certa ousadia questionável com muita burocracia e didatismo. O filme acompanha três histórias que se cruzam durante a guerra e coloca os personagens lembrando de suas vidas numa espécie de mesa de interrogatório que chama a atenção depois que entendemos em que contexto aquilo acontece. A fórmula tenta quebrar a burocracia da narrativa principal, que replica dezenas de filmes feitos sobre o tema, mas parece uma alternativa didática para reforçar tudo o que está acontecendo, pra não deixar dúvidas da “mensagem” que se quer passar.

Paraíso ★½
[Ray, Andrei Konchalovsky, 2016]

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Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood

Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood

Sentimentos contraditórios em relação ao novo Os Saltimbancos Trapalhões, reimaginação do longa original de 1981, um dos favoritos e mais icônicos do quarteto. Ao mesmo tempo em que as memórias invadem a cabeça a cada cena, em cada reinterpretação da trilha sonora que mais ouvi na vida, faz falta um roteiro que explore melhor a herança que filme deixou. Os Trapalhões mereciam um texto mais bem construído, uma homenagem realmente reverente a tudo o que eles criaram. O filme de João Daniel Tikhomiroff é bem bonito plasticamente (embora pareça um bastidor eterno), mas o roteiro parece uma sucessão de improvisos que retornam ao conceito original da maneira mais óbvia possível.

Uma das coisas mais interessantes é o uso dos figurantes como um coral grego, que se agrupa a cada música, mas essa citação explícita do circo causa um problema: mesmo num filme que preza pela beleza plástica, os personagens, não raramente, estão de costas para a câmera. Mas há trunfos. Outro, muito bom, é a sequência inicial, em “Hollywood”, numa brincadeira/homenagem/tiração de sarro com os comentários de Rubens Ewald Filho nas cerimônias de entrega do Oscar. A ideia de fazer uma reinterpretação do filme original parece um tanto acomodada, ainda mais diante da importância do longa original. Os papeis de Karina, Satã e Tigrana são entregues para outros atores, que se esforçam, mas não acrescentam muita coisa ao que já tinha sido criado. Letícia Colin é uma graça, mas Lucinha Lins era a própria encarnação da delicadeza no primeiro filme.

As críticas a esses filmes que partem das premissas originais de outros filmes, geralmente de sucesso, podem parecer preciosismos nostálgicos, principalmente neste caso dos Trapalhões. Porque, afinal, roteiros bem acabados e interpretações incríveis nunca foram exatamente o forte dos filmes do quarteto, embora haja longas notáveis do grupo de humoristas. Mas, se o princípio do filme é justamente esse, explorar a nostalgia, o espectador, sobretudo aquele que assistiu a esses filmes na infância, no cinema, que tem uma ligação sentimental com esses longas têm todo o direito de querer mais. Ainda assim, é sempre muito bom remexer nos arquivos do coração.

Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood ★★½
[Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood, João Daniel Tikhomiroff, 2017]

P.S.: Qual o melhor filme dos Trapalhões? Veja meu Top 10.

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Manchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar

A mesma dor que machuca o peito de Lee todos os dias, todas as horas, é a razão pela qual ele ainda continua respirando. Faz muito tempo desde que aconteceu a maior tragédia da vida deste típico americano médio, homem simples, que cresceu por seus próprios méritos e talentos. Mas, por mais que todos em volta dele tenham reconstruído suas histórias esquecendo o passado, mirando nos próximos passos, Lee escolheu – aliás, se dedicou – ao luto. A estratégia não era apenas uma maneira de se despedir ou homenagear quem ele perdeu. E nem era somente um refúgio para esquecer e se curar. Lee precisava de mais. A dor se tornou não apenas a força motora na vida deste homem, mas prisão eterna para suas culpas, razão para sua existência.

O luto já foi retratado muitas vezes pelo cinema americano, mas poucas com a profundidade e a complexidade do texto de Kenneth Lonergan. O novaiorquino é essencialmente um dramaturgo, embora suas peças sempre tenham sido escritas para a tela grande. Em seu terceiro filme como diretor-roteirista, Lonergan visita uma cidade portuária de pouco mais e cinco mil habitantes, Manchester-by-the-Sea, em Massachussetts. É para lá, a cidade que tentou esquecer, que Lee tem que voltar porque precisa cuidar de seu sobrinho, que acabou de perder o pai. Joe morreu há pouco tempo e deixou a cargo de Lee a responsabilidade de tomar contra de Patrick. Num ato final generoso, o irmão que sai de cena oferece uma outra chance para o irmão que se auto-condenou.

Com uma delicadeza que nunca o impede de ser fiel ao devastador sentimento do protagonista, Lonergan desenha o caminho para a redenção, o reecontro entre duas pessoas que sempre se amaram e que, a partir de agora, só têm um a outro, e debate a escolha. O cineasta abre espaço, estende a mão, dá permissão para a mudança, mas, interessado em investigar os limites de uma dor, parece deixar a cargo do personagem principal a possibilidade de um recomeço. Lonergan entende que só Lee consegue medir o imenso vazio que sente, só cabe a ele abrir mão do luto que estranhamente o conforta e faz com que sua existência tenha algum sentido. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”, o personagem parece gritar, em silêncio.

Além de Lee, Lonergan só aceita dividir a responsabilidade sobre o que está por vir com Casey Affleck. De intérprete mediano de voz irritante, Casey cresceu como ator. E aqui ficou imenso. Poucos defenderiam Lee com a paciência, a sutileza e a intensidade com que ele faz, um equilíbrio praticamente impossível, mas que parece fazer muito sentido para um homem que nasceu numa cidade um pouco maior, a menos de duas horas daquele cenário. É só por causa do encontro entre Affleck e Lonergan que começamos a entender a pertinência da dor. É a partir deste mesmo encontro que Manchester à Beira-Mar se estabelece como um dos grandes melodramas do cinema americano, uma obra implacável com quem está de qualquer lado da tela.

Machester à Beira-Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan, 2016]

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La La Land – Cantando Estações

La La Land

De todas as artes, o cinema talvez tenha sido a que mais rápido olhou para trás, em vez de continuar procurando novos caminhos. Olhou, gostou e aprendeu que pode reinventar histórias, fórmulas e conceitos eternamente, viver de sua própria coleção de pastiches, assimilar, copiar, traduzir, reinterpretar. Na maioria das vezes, o motivo deste eterno retorno é meramente comercial. Em outras tantas, serve para alimentar a nostalgia, sentimento nobre cada vez mais crescente numa sociedade que parece sempre buscar no passado saídas, soluções ou um simples descanso de tempos tão difíceis. La La Land, o musical de Damien Chazelle, parece ser o melhor exemplo deste cinema-homenagem.

No ano em que Hollywood responde às críticas com filmes mais politizados, mais igualdade de gênero e mais espaço e emprego para um cinema étnico e atores de todas as etnias, Chazelle, o garoto-prodígio que colecionou prêmios com Whiplash, entrega uma fábula escapista que abusa da palheta de cores, que referencia o “sonho americano” e, mais ainda, que declara amor ao cinema de Hollywood. Basicamente, um filme reverencia o passado, que canta o passado. Em termos práticos, os números musicais de La La Land soariam ingênuos, alienados ou até excessivamente conformados para um momento em que o cinema precisaria encher o peito para discursar contra a onda conservadora que promete se instalar de vez nos Estados Unidos a partir de agora.

Mas ter a nostalgia como matéria-prima não significa abraçar a ingenuidade ou fazer um cinema conservador. La La Land parte de uma série de referências muito maior do que as mais óbvias e sabe coletá-las, reinterpretá-las e nunca meramente copiá-las. A homenagem de Chazelle não apenas remonta os musicais clássicos de Vincente Minnelli ou Stanley Donen, embora Cantando na Chuva apareça em várias citações. Existe muito da leveza e da delicadeza de Jacques Demy, seja na luz, nas cores vivas, nos arranjos simples e nas coreografias simpáticas demarcando a narrativa.

Pouco importa se Ryan Gosling não convence tanto assim como jazzista ou se Emma Stone parece crua demais para acreditarmos nela como grande estrela. Cabe tudo na fábula, dos sonhos românticos às pequenas alfinetadas no sistema e falta de identidade daquela massa de concorrentes a um posto abaixo dos holofotes. Holofotes muitíssimo bem posicionados, é bom observar. A sequência do observatório, que começa com uma citação explícita a Juventude Transviada termina com mais uma homenagem a Cantando na Chuva ou, se for para citar um filme menos “pé no chão”, que namora com a liberdade criativa de um Núpcias Reais.

Se escalar Ryan Gosling e Emma Stone, em sua terceira parceria, parece uma aposta pouco arriscada para uma comédia romântica, Chazelle ousa ao colocar seus heróis não-cantores para cantar, explorando suas vozes até o limite, bem pequeno no caso dele, um pouco maior no caso dela. O mais interessante é que a experiência não apenas funciona satisfatoriamente, mas vai além porque humaniza os personagens e valoriza as belas melodias de Justin Hurwitz, que poderiam morrer em gritos de ex-competidores do American Idol. Ao proteger seu impecável conjunto de canções, La La Land tanto preserva esse charme nostálgico dos musicais de outros tempos quanto chega bem pertinho do espectador.

O primeiro mandamento de Chazelle é sempre jogar limpo com quem está do outro lado da tela. E mesmo quando o clichê ameaça se instalar no único momento de virada da narrativa, Chazelle parece se recusar a seguir a fórmula de sempre e, em cinco minutos, resolve as arestas e abre caminho para um desfecho surpreendente. Uma sequência circular que, mesmo frustrando as regras mais rígidas dos filmes românticos, é de um amor imenso pelos personagens e pelo cinema.

La La Land – Cantando Estações EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[La La Land, Damien Chazelle, 2016]

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Snowden: Herói ou Traidor

Snowden

Snowden perde um pouco de seu poder aterrorizante se você assistiu, alguns dias antes, o documentário Zero Days, sobre como os EUA invadiram e desestabilizaram vários sistemas operacionais no Irã e podem e fazem o mesmo com você. Mas a história do homem que revelou o Big Brother da vida real patrocinado pela “América” ainda tem seu lado fascinante. A grande questão é que, na intenção de colocar Edward Snowden como herói solitário, posto com o qual certamente deve se identificar, Oliver Stone realiza uma biografia burocrática do “inimigo íntimo” número um da terra que elegeu Donald Trump.

Ainda que use uma montagem não-linear para dar mais dinâmica ao filme, Stone sempre esbarra em tentativas didáticas de mostrar os embates éticos do personagem. Joseph Gordon Levitt está correto como protagonista, a não ser pela incômoda ideia de emular o sotaque de Snowden, o que deixa cenas dramáticas quase engraçadas. Na ânsia de fazer um retrato fiel, Stone parece não estar muito disposto a experiências visuais, o que faz bastante diferença diante da história de um mestre dos computadores. A fotografia, geralmente acomodada, ajuda a passar esta impressão de frieza ao filme.

Há poucos momentos inspirados. O melhor deles é quando Snowden é confrontado por seu chefe numa sala de reuniões. Os dois falam por um telão, mas Stone gigantifica o personagem de Rhys Ifans, como se o embate homem contra sistema acontecesse diante de nossos olhos. A meia hora final funciona porque a tensão finalmente é adicionada ao filme e a reprodução das cenas do documentário Citizenfour ganham agilidade. O resto é clichê de um Oliver Stone sempre fadado a se repetir.

Snowden: Herói ou Traidor EstrelinhaEstrelinha½
[Snowden, Oliver Stone, 2016]

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Através da Sombra

Através da Sombra

Através da Sombra parecia um projeto perfeito para Walter Lima Jr. Um filme que poderia facilmente morar no intervalo entre o clássico de Menino de Engenho e o devaneio de A Lira do Delírio. Mas o cineasta de tantos êxitos parece não conseguir dar amarras a esta adaptação da mesma novela de Henry James que inspirou Os Inocentes, de Jack Clayton. Se o filme de 1961 nunca se entregava completamente ao espectador, criando um efeito complexo de suspensão da realidade, a versão tropical de A Outra Volta do Parafuso, transposta pelo próprio Lima Jr com diálogos de Adriana Falcão para o Brasil dos anos 1930, parece domesticada, explicadinha e incapaz de instaurar o clima de terror que o texto pede. O roteiro tenta acrescentar tanto um subtexto político quanto elementos de tensão sexual à história, mas eles ficam dispersos e nunca se desenvolvem propriamente.

É perceptível o esforço de Virginia Cavendish, que também produziu o filme, para colocar a protagonista num limbo entre o terror e a alucinação, mas sua histeria nunca realmente convence. A dupla de crianças com quem contracena não ajuda: podem ser bons atores de novela, mas não conseguem chegar a uma segunda camada, menos superficial, como pede a história. Curiosamente, apesar da equipe experiente, nem a fotografia nem a direção de arte funcionam plenamente em Através da Sombra. A câmera é bastante preguiçosa: nunca procura um ângulo sequer mais inventivo, raramente tenta acompanhar o delírio da personagem principal. Os figurinos são um dos pontos mais incômodos porque os atores parecem, praticamente em todas as cenas, vestirem fantasias, o que reforça a sensação de estarem apenas caminhando num cenário.

As cenas no trem, por exemplo, parecem querer projetar um certo distanciamento da realidade, mas soam somente artificiais – e com atores muito mal dirigidos. Falta rigor e uma mão mais forte em praticamente quase todos os aspectos do filme, o que deixa a história frouxa e o que sobra, sem rédea. É realmente uma pena porque o talento de Walter Lima Jr poderia ajudar a dar elegância e corpo ao cinema de gênero brasileiro que parece ganhar cada vez mais novos adeptos entre os cineastas recentes. O mestre ficou devendo desta vez.

Através da Sombra ★★
[Walter Lima Jr, 2015]

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Meu Rei

Meu Rei

Políssia, embora tivesse algumas simplificações e soluções fáceis de roteiro, era um filme-painel ágil e bem interessante sobre a divisão da polícia francesa de proteção a crianças, com um elenco grande e bem dirigido pela atriz-que-virou-cineasta, Maïwenn. Mas o trabalho seguinte da francesa, seu quarto longa como diretora, tem resultados bem mais contraditórios. Se de um lado, busca retratar com o máximo de realidade possível os bastidores de um casamento conturbado, o filme não raramente invade os limites do histriônico e assume algumas posturas próximas bem questionáveis, namorando perigosamente com a misoginia. O filme se passa em duas linhas temporais paralelas: no presente, Tony acaba de sofrer uma acidente na montanha e vai para uma clínica onde vai se recuperar de uma perna lesionada. No passado, ela reencontra Georgio, um flerte da juventude, e os dois rapidamente engatam um namoro e um casamento. Como manda o clichê, o príncipe encantado esconde defeitos que só a convivência poderia revelar e, dia a dia, Tony descobre novos problemas em seu relacionamento. O grande senão de Maïwenn é como ela administra essa mudança nas personagens. Aos poucos, a diretora transforma Tony numa mulher histérica e Georgio, num canalha natural. Os estereótipos só não viram monstros maiores porque tanto Emmanuelle Bercot, que também é cineasta, quanto Vincent Cassel são ótimos atores e estão muito bem em suas personagens quando o roteiro não os condena demais. E se Maïwenn, que foi casada com o cineasta Luc Besson quando tinha 15 anos de idade, é bastante tolerante com o personagem do marido, a diretora parece condenar a personagem da esposa, como se Georgio tivesse o comportamento de qualquer homem e se Tony não tivesse tido a força necessária para perceber e enfrentar isso.

Mon Roi EstrelinhaEstrelinha½
[Mon Roi, Maïwenn, 2015]

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Mate-me, Por Favor

Mate-me, Por Favor

Não existe um só adulto no mundo de Mate-me, Por Favor. Todos os personagens em cena são (e são interpretados por) adolescentes, sendo a única exceção o irmão mais velho de uma adolescente. Em seu primeiro longa-metragem, Anita Rocha da Silveira realiza um impressionante mergulho nesse universo teen, realmente capturando a essência do jovem brasileiro, urbano, dos dias de hoje, objeto de estudo de diversos cineastas, mas pouquíssimos conseguem traduzi-los sem maniqueísmo. Os diálogos, os movimentos, os interesses, a confusão. Tudo parece muito genuíno no cinema de Anita, que mostra um excepcional talento para administrar espaços. Mate-me, Por Favor tem uma das fotografias mais instigantes do cinema brasileiro neste ano, cheio de fotografias instigantes. Consegue transformar o Rio de Janeiro, ou melhor, a Barra da Tijuca num ambiente de desolação, que funciona muito bem para estabelecer o suspense sensorial que parece ser um objetivo para a diretora, embora o crescimento urbano, que também parece estar no alvo, não fique tão bem inserido à trama assim. No entanto, Anita é uma ótima diretora de atores. Ou de atrizes. As quatro meninas são excelentes. O que incomoda um tanto é a transformação da protagonista. Os motivos estão ali, a percepção e a sedução da morte está ali, mas os simbolismos um tanto exagerados não funcionam com tão bem assim. A questão religiosa também é um problema porque o filme opera num naturalismo que se choca com o pastiche com que a diretora retrata a discussão espiritual. Enfim, é preciso elaborar, mas a pura existência de uma mulher ensaiando um filme de terror, com tantos créditos, merece ser celebrada.

Mate-me, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira, 2015]

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Aquarius

Aquarius

Numa cena rápida de Aquarius, Clara, a personagem de Sonia Braga, depois de visitar o túmulo do marido no cemitério, observa dois coveiros retirando os restos mortais de uma cova para desocupá-la. A imagem, que apenas exemplifica uma lógica comum aos empreendimentos funerários, dura cerca de um minuto, talvez menos, mas resume boa parte do drama da própria Clara e da essência do filme de Kleber Mendonça Filho: o que está em discussão é a troca do velho pelo novo. Ou ainda, do velho pelo novo para reforçar o velho. O olhar de estranhamento da protagonista para aquela cena tem justificativa. Clara se enxergou ali. Logo ela, que sempre foi uma mulher avançada, jornalista, uma mãe que deixou os filhos com o marido durante dois anos para morar fora do país. Logo ela, que se define como “uma mistura de velhinha com criança”. No contexto de Aquarius, essa mulher moderna, que sempre soube driblar muito bem a herança secular de um Nordeste ainda preso a vícios familiares, virou uma peça de museu.

Ela é a última moradora do prédio que batiza o filme, na praia de Boa Viagem, em Recife, a “louca” que empaca os projetos da construtora que quer demolir o edifício e que impede o progresso. Como mostram os primeiros 20 minutos de filme, o edifício Aquarius é o lugar onde Clara vive há mais de 30 anos, onde seus filhos cresceram, onde ela guarda seus discos e sua história. A memória, mais uma vez, é parte intrínseca da narrativa de um filme do cineasta pernambucano, mas depois do olhar mais cruel para o passado de O Som ao Redor, desta vez, Kleber se volta para trás com nostalgia. As paredes cheias de discos aparecem em várias cenas do filme, que é costurado por músicas que parecem fazer parte da própria história do diretor. Elas emolduram essa peça de resistência de Kleber ao sistema, ao cinema fácil, à ideia de que o progresso passa pela destruição do passado. O grande trunfo do cineasta foi saber como transformar essa manifestação política numa história cheia de humanidade. Se O Som ao Redor era mais “agressivo” enquanto discurso e em suas opções de linguagem, Aquarius trabalha com humanidades.

A presença de Sonia Braga, que há quinze anos não fazia um filme brasileiro, enche de luz o filme. Literalmente. A atriz parece apaixonada pela personagem e a defende de todas as formas possíveis. Cada cena ganha um brilho diferente por causa de sua interpretação discreta, mas sempre muito forte. A resistência de sua personagem é a mesma resistência do Ocupe Estelita, movimento que condena a venda ilegal de uma área do porto do Recife para imobiliárias. Mas Clara não é uma mulher de panfletos. Sua maior ação política é manter a integridade de sua alma, que resistiu a um câncer e a tanta história. Aquarius tem começo, meio e fim mais claros do que o longa anterior de Kleber. A narrativa é muito mais tradicional e a opção por usar um elenco totalmente profissional, ao contrário de O Som ao Redor, que tinha muitos atores amadores, provavelmente vai deixar o espectador pouco afeito a experimentações mais confortável. A memória que rege a linha narrativa também ajuda a envolver o espectador. É um filme relativamente fácil de acompanhar, sem mensagens cifradas, onde o grande talento foi trazer suas discussões para o primeiro plano, de maneira direta, que convida quem assiste ao filme à ocupação.

Aquarius 2

Portanto, boa parte da polêmica em torno de Aquarius não se justifica. A discussão em torno do longa parece ter se resumido ao protesto contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff que a equipe do filme fez antes de sua sessão de gala no Festival de Cannes, onde o longa brasileiro participou da seleção principal, coisa que não acontecia havia oito anos. E, afinal, conseguir ser incluído num festival de renome significa ser um bom filme? Afinal, o que faz um bom filme? Sua capacidade de comunicação com o espectador, a qualidade técnica de sua produção ou os desafios que ele propõe para quem o assiste, sejam temáticas, de formato ou de linguagem? A resposta é que não existe resposta. Ou “todas as alternativas acima”. E outras tantas.

Para muitos detratores, a análise da obra começou a passar necessariamente pela postura política “do projeto” fora da tela, como se o trabalho de Kleber já não fosse suficientemente político dentro dela, uma predisposição que o diretor já demonstrava em grande parte de seus curtas e, principalmente, em seu longa anterior. O Som ao Redor lança ou afirma algumas de suas temáticas favoritas: a desordem na ocupação das grandes cidades, a especulação imobiliária, o resquício do coronelismo secular nordestino nos dias de hoje. Em Aquarius, ele apenas vai mais longe. O cinema de Kleber é um cinema político por natureza. Chamar atenção para a atitude política das ações dele e de sua equipe, como se desta vez ele tivesse ultrapassado os limites, é até ingênuo, porque ele sempre fez isso. Se a questão é fazer um filme de cunho político em vez de se centrar na “arte de contar uma história” e estes blábláblás, é preciso dar uma estudada e assistir mais filmes, sobretudo daqueles diretores que construíram carreiras de um cinema iminentemente político, como Costa-Gavras, Marco Bellocchio, Ken Loach, Spike Lee e Jafar Panahi. E tantos outros.

Arte e política são intrínsecas. Pode parecer novidade, mas todo filme tem uma postura política, desde os documentários mais engajados e literais, como O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer, que tem um alvo bem claro (o governo indonésio), até as comédias aparentemente mais simples, como Sócios no Amor, de Ernst Lubitsch, que em plenos anos de 1930 dá girl power para as mulheres, fala de relacionamentos a três, impõe a revolução nos mínimos detalhes. A obra de arte é um dos maiores e melhores palcos para qualquer manifestação política há mais ou menos 120 anos. Um pouco mais, talvez. Aquarius é extremamente político e crítico a um status quo pernambucano, nordestino, brasileiro e a um estado de espírito contaminado por velhas verdades e muitas dependências. Todos os envolvidos estão extremamente cientes desta postura, mas em nenhum momento a necessidade de discurso se sobrepõe à expressão artística. O filme levanta o cartaz para quem quiser ver porque tem direito de fazer isto. E Kleber Mendonça Filho soube levantar esse cartaz como poucos. Política e arte andam juntas no mundo e no cinema. E, em Aquarius, elas vivem um longo e intenso triângulo amoroso com Sonia Braga.

Aquarius EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Aquarius, Kleber Mendonça Filho, 2016]

* texto escrito originalmente para o UOL

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Francofonia: Louvre Sob Ocupação

Francofonia

Aleksandr Sokurov aumentou o intervalo entre seus filmes de ficção. Se antes lançava novos trabalhos a cada um ou dois anos, nos últimos tempos passou a esperar pelo menos quatro para lançar o ótimo Fausto e agora Francofonia. No filme, produzido e estrelado pelo Museu do Louvre, o cineasta russo exercita tanto sua faceta documental, que sempre foi bastante forte em sua filmografia, e a ficção propriamente dita, mas num formato bem mais convencional do que estamos acostumados a receber. Nada dos ensaios poéticos sobre arte, vida e história que permeavam Arca Russa, nem os retratos de época barrocos que ele fez em Moloch e Taurus. Arca Russa, por sinal e pela lógica, deveria ser o filme-irmão deste novo projeto, mas Francofonia se afasta da obra-prima de Sokurov em absolutamente todos os prismas. Se o filme de 2002 dava vida à história a partir do local que a preserva, o museu Hermitage, agora outro museu, o mais famoso do mundo, o Louvre, não é apenas ponto de partida, mas quase um local de clausura para a história que tenta contar. O Hermitage era um “protagonista” muito mais generoso, que abria espaço para que seus coadjuvantes dividissem consigo mesmo as atenções no filme. O Louvre está mais para um ator com ego elástico, que tenta fazer do longa um veículo para si mesmo. Desta vez, Sokurov utiliza uma dramatização bem tradicional para falar sobre a aliança entre o diretor do museu, Jacques Jaujard, e o general nazista Conde Wolff-Metternich, que ajudou a preservar o Louvre durante a invasão alemã em Paris na Segunda Guerra. Por outro lado, a parte documental é bem quadrada, utilizando imagens de arquivo da maneira mais clássica possível para contar a história e não avança muito em dar uma dimensão mais poética ao assunto. Faltou arte a um filme que esta falando essencialmente de um dos redutos mais clássicos de arte.

Francofonia: Louvre Sob Ocupação EstrelinhaEstrelinha
[Francofonia, Aleksandr Sokurov, 2015]

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