Category Archives: Resenha

500 Dias com Ela

500 Dias com Ela

“And if the the ton truck/ kills the both of us/ to die by your side/ is such a heavenly way to die”. Pois é, a cena em que a Zooey Deschanel canta Smiths no elevador concorre fortemente a uma vaga nas minhas melhores do ano. 500 Dias com Ela pode ter altos e baixos, mas é difícil achar um concorrente para o prêmio de filme pop de 2009 (Apenas o Fim tentou, mas peca pelo excesso). Marc Webb, em sua estreia na direção, mirou no público indie, que gosta desde Morrissey até Nick Hornby, a quem o filme deve muito, e acertou em cheio.

Um dos maiores trunfos do filme é o casal de protagonistas: Zooey Deschanel está apaixonante como a garota espírito-libre e Joseph Gordon-Levitt aparece na melhor interpretação de sua carreira, doce e nerd. Eles fazem as engrenagens funcionarem muito bem, valorizam as referências e ressaltam a trilha sonora, my guilty pleasure. Mas o mais interessante do filme talvez seja que ele trata tanto com leveza quanto com profundidade o desenrolar de uma história de amor. Essa história funciona quase sempre, embora se perceba mecanismos e engrenagens aqui e ali, mas o conjunto é adorável quase todo o tempo. 500 Dias com Ela é um filme para moderninhos e, embora esteja cheio de armadilhas para capturar indies, geralmente os cooptados ficam bem felizes de cair nelas.

500 Dias com Ela EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[(500) Days of Summer, Marc Webb, 2009]

Compartilhe!

1 Comment

Filed under Resenha

8 Mile – Rua das Ilusões

8 Mile

Jimmy Smith Jr. é um bom rapaz. Suburbano, proletário, trabalha como metalúrgico pra pagar as contas enquanto espera a oportunidade de mostrar seu talento como rapper. Só quer vencer na vida. A mãe, que vive num trailer com sua irmãzinha criança, é uma desajustada viciada em sexo com homens mais jovens. Os amigos vivem num ostracismo de intenções completo e difícil de sair. Mas Jimmy Smith Jr., ou Rabbit, não cansa de sonhar. Mas sonhador tem que ser rebelde. Enquanto coloca a irmãzinha pra dormir, briga com o homem que bate em sua mãe ou não esquece de desligar a TV antes de sair de casa, Rabbit sai atirando tinta em carros de polícia, incendeia casas abandonadas e trepa com a namorada num canto escuro do lugar onde trabalha. Mas nada dá certo. A oportunidade nunca chega. E várias pequenas decepções ocupam sua vida.

A vida de Jimmy Smith Jr. lembra muito a de um rapaz chamado Daniel LaRusso, o Daniel Sam. Ele também sofria com a incompreensão e apanhava horrores em busca de uma redenção. Só que Daniel apanhava no tatame e Jimmy leva porrada na rua e se vinga nos palcos. Ele protagoniza estranhos duelos contra oponentes igualmente rappers e diferentemente negros. Nos duelos, ganha quem xinga mais o outro, usando o maior número de palavrões possível. Jimmy é bom nisso.

A estréia de Eminem no cinema é surpreendente. O rapper consegue muito com sua interpretação: cerca de duas expressões faciais. Numa, ele aparece com um panaca assustado com olhos esbugalhados. Na outra, ele aparece assustado com um panaca e tem os olhos esbugalhados. Kim Basinger arrasa… com o bom senso. Difícil acreditar que o responsável pelos clichês seja o mesmo Curtis Hanson de Los Angeles – Cidade Proibida e Garotos Incríveis. Ah, mas foi ele que fez A Mão que Balança o Berço

8 Mile – Rua das Ilusões EstrelinhaEstrelinha
[8 Mile , Curtis Hanson, 2002]

Leave a Comment

Filed under Resenha

A Academia das Musas

A Academia das Musas

Há filmes que são muito mais do que filmes, que abrem espaço para reflexões sobre a vida, que filosofam sobre a existência, que vêm para abalar nossas certezas. A Academia das Musas é mais ou menos isso. Transita por vários níveis de cinema. Os créditos, a câmera e as cenas iniciais vendem um documentário sobre um professor de filologia que debate com seus alunos em sala de aula o amor, a arte e a inspiração. Para Raffaele Pinto, o amor é uma criação dos poetas e as musas são essenciais para que os artistas produzam seus conteúdos intelectuais, o que gera uma discussão em especial com suas alunas, que vêem nesta condição da mulher como objeto do desejo uma postura machista que reproduz séculos de cultura patriarcal. Como debate intelectual, o filme pode ser delicioso para quem se interessar pela verborragia interminável dos discursos entre professor e estudantes, entre os alunos, e entre o mestre e sua esposa, em casa. As discussões acontecem de maneira tão orgânica quanto Guerín dispõe sua câmera, quase um outro personagem no filme, que fica íntima dos interlocutores acompanhando cada tópico dentro da classe ou através dos vidros da casa, do carro e da cafeteria para onde os debates migram naturalmente. E, deste mesmo modo natural, quando amplia o espaço da palavra, quando leva teorias e conceitos para fora da sala de saula, o diretor transforma seu próprio filme, que incorpora suas discussões à própria vida e, de maneira quase invisível, transforma aquelas pessoas em personagens e aquele documentário vira uma ficção, que vai explorar as mesmas ideias debatidas nas aulas, levando-as a cabo, registrando na prática o que se debateu no verbo: toda mulher tem o desejo e a obrigação de ser uma musa? O amor existe ou é invenção da arte? A perguntas como essas, Guerín adiciona pelo menos mais dumas: o que é vida e o que é simulacro? Onde termina o registro e começa a criação?

A Academia das Musas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[La Accademia de las Musas, José Luís Guerín, 2015]

1 Comment

Filed under Resenha

A Alegria

A Alegria

Os garotos que protagonizam A Alegria parecem ser alter egos dos diretores do filme, cineastas jovens que, numa definição apressada, se rebelaram em relação ao status quo do cinema brasileiro, cada vez mais industrial, cada vez menos autoral. No longa, os personagens, inquietos em sua fúria juvenil, resolvem se revoltar e atacar inimigos invisíveis, inimigos que nem eles mesmos sabem definir. E aí, mais uma vez, os personagens parecem refletir as intenções de seus criadores.

A ousadia sempre é bem-vinda, mas a realização nem sempre dá conta do projeto. Se existem algumas boas ideias no filme, elas estão escondidas – pra não dizer soterradas – nos escombros de um objetivo maior: particularizar a obra de tal maneira que ela seja uma espécie de símbolo de resistência. Mas, ao mesmo tempo em que o roteiro e a direção atacam o conformismo narrativo do cinema brasileiro atual, eles se acomodam sob a égide da experiência.

Muitas vezes, experiência pela experiência. E experiência reciclada. O que é “original” no filme parece nascer de um conjunto orgulhoso de referências que diminui o espaço para os diretores realmente criarem. Espaços, tempos, silêncios, mantras, ruídos parecem emular cinemas de transformação mais historicamente pertinentes, como de Rogério Sganzerla, ou mesmo experiências cinematográficas mais bem resolvidas, como a do tailandês Apichatpong Weerasethakul, citado pelo menos três vezes ao longo do filme.

A direção de atores morreu no Cinema Novo, o que é perigoso e cansativo. E que provoca um distanciamento que não é mais novidade. A Alegria entra em crise porque é um filme de ação com tempos mortos. E isso termina provocando não apenas estranhamento e reflexão, que talvez fossem objetivos, mas um paradoxo no próprio projeto que parece ter ficado na intenção. E ela era bem boa. Há coisas que são lindas quando ditas, outras que ficam muito bem no papel.

A Alegria EstrelinhaEstrelinha
[A Alegria, Felipe Bragança e Marina Meliande, 2010]

1 Comment

Filed under Resenha

A Arte da Conquista

Freddie Highmore, Emma Roberts

Freddie Highmore cresceu, mas continua com a mesma expressão de bom menino dos filmes que o fizeram famoso. Ele foi um dos mais requisitados atores mirins da década passada. Contracenou com Johnny Depp em Em Busca da Terra do Nunca e A Fantástica Fábrica de Chocolate, deu voz ao protagonista de Arthur e os Minimoys e ainda estrelou O Som do Coração. De menino-prodígio, resolveu encarnar o jovem indie, numa tentativa de emplacar na idade adulta. Não que tenha dado muito certo.

Numa primeira impressão, A Arte da Conquista, direção do estreante Gavin Wiesen, é um resumão do que o cinema independente norte-americano tem feito nos últimos 100 anos. Losers solitários, incompreendidos, metidos em situações embaraçosas, ao som de melodias tristes. Difícil comprar Highmore como um protagonista adulto. Se quando era garoto ele convencia com seu perfil de adulto-mirim, agora crescido ele mais parece um moleque mentindo a idade para entrar na sessão de cinema.

E haja paciência para a melancolia de araque que o filme nos oferece. É como se o personagem principal fosse um suicida que tenta se matar de tanto ouvir Leonard Cohen ou cheirar flores raras guardadas em livros mofados. Se já era complicado acreditar na caricatura que o roteiro faz do pós-adolescente, mais difícil ainda é se convencer de sua “grande” descoberta interior. Não falta maturidade apenas ao protagonista. O texto parece não saber como manter sua débil proposta inicial. Os trejeitos independentes e personagens esquisitos saem de cena para dar lugar a uma novelinha de superação que nem ao menos conversa com a bobagem que se viu até ali.

Parece que acabaram as vagas no cinema independente. Pelo menos as boas.

A Arte da Conquista Estrelinha
[The Art of Getting By, Gavin Wiesen, 2001]

Leave a Comment

Filed under Resenha

A Árvore da Vida

Brad Pitt, Jessica Chastain

Um dos maiores desafios desta vida é escrever sobre um filme de Terrence Malick. Os riscos são imensos: 1) pode-se cair na bobagem de querer explicar o trabalho do diretor, o que soa arrogante e deve ser mentiroso mesmo porque ele usa tantos simbolismos que as interpretações podem ser genuinamente múltiplas; 2) pode-se ainda encher linguiça e escrever um texto sobre nada, usando frases feitas, expressões genéricas e cair no ridículo; 3) pode-se soar elitista ou reacionário ao dizer que o filme é feito para poucos e sugerir que as pessoas que não o “entenderem” podem ficar tranqüilas, elas não estarão sozinhas.

Então, vou tentar seguir um caminho do meio para tentar explicar o porquê de eu ter gostado tanto de um filme de que eu me considero incapaz de se absorver por completo, principalmente tendo-o visto uma só vez. Porque A Árvore da Vida é, mais do que qualquer outro filme de Malick, sobre o impalpável. Se nos trabalhos mais recentes do diretor, sempre havia um contexto histórico que situava o espectador, como a guerra ou a tomada da América, agora o cenário não ajuda a traduzir a trama.

Tudo é mais subjetivo do que nunca. A certa altura de seu mergulho na história íntima de seu protagonista, o diretor parece perguntar: do que é feito um ser humano? Onde começa uma pessoa? O que nos transforma em quem nós somos? Malick não se impõe limites para examinar estas questões, mas sabe que não existem respostas exatas para cada uma delas. Ele vai onde poucos ousariam e de onde muitos menos ainda conseguiriam voltar com dignidade. As discussões que ele levanta levam o espectador ao princípio da construção do próprio homem e da Humanidade, assim mesmo, com H maiúsculo.

É preciso estar bastante disposto para usufruir de seu projeto porque o caminho escolhido para isso é repleto de simbolismo e de filosofia. A referência inicial para as questões levantadas foi a religião, mas Malick parece tocar em conceitos ainda maiores do que Deus, como “pai”, “mãe”, “irmão”, nos sentidos mais simbólicos e abrangentes dos termos. A fé surge depois disso.

O incômodo que consome o personagem parece buscar o que está nesses imensos hiatos entre cada uma destas definições. Por isso mesmo, essa jornada do protagonista pode parecer etérea, vazia, simbólica demais para muita gente. A medida da probabilidade do público se decepcionar com A Árvore da Vida é diretamente proporcional ao número de pessoas que vai ao cinema para ver a um filme de Brad Pitt ou Sean Penn.

Pitt, por sinal, está muito bem como o pai bruto e emocional, mas a maior atriz do filme é Jessica Chastain, cuja presença fantasmagórica ganha contornos líricos.

O intangível tem seu ápice na seqüência em que o diretor decreta a abolição da narrativa convencional e segue por uma sucessão de imagens cuja única referência possível é Kubrick em 2001. A seqüência final desperta muitas interpretações, mas a intenção não me parece ser se posicionar, muito menos tecer um tratado ou revelar uma visão. No fim de seu filme, Malick talvez tente encontrar um desfecho para o desenho que ele propõe. O desenho de como se forma um ser humano.

A Árvore da Vida EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Tree of Life, Terrence Malick, 2011]

9 Comments

Filed under Resenha

A Aventura de Kon-Tiki

Expedição Kon-Tiki

Se As Aventuras de Pi não tivesse sido lançado do mesmo ano, daria para desconfiar de A Aventura Kon-Tiki. É impressionante como os dois filmes têm ideias parecidas para materializar as aventuras em alto-mar de seus protagonistas. Baleias gigantes, medusas incadescentes e até plâncton luminoso fazem parte do acervo de achados visuais que os filmes oferecem. Se no longa de Ang Lee, esses achados ajudam a construir o universo fantástico imaginado pelo diretor, no filme norueguês ele deveria ser a cereja no bolo de um projeto convencional que parece ter o Oscar como objetivo.

O filme de Joachim Rønning e Espen Sandberg é um daqueles longas em que absolutamente tudo está no lugar e, por isso mesmo, nada chama muito a atenção. Trata-se da reconstituição fiel da história real da viagem do explorador Thor Heyerdal, que em 1947 descobriu indícios de que a Polinésia teria sido povoada pelos incas e não pelos asiáticos como se acreditava. Para provar, ele se dispôs a enfrentar uma jornada mar adentro numa jangada feita com a tecnologia do povo Inca. A história virou livro e um documentário, dirigido pelo próprio Heyerdal, que ganhou o Oscar em 1950.

A Aventura de Kon-Tiki foi o filme mais caro já feito na Noruega. Isso explica os efeitos especiais excelentes, mas aproxima o filme de um movimento crescente de superproduções internacionais bancadas por seus países de origem, como o espanhol O Impossível e o futuro novo longa do coreano Bong-Joon ho, Snowpiercer, mas o longa norueguês ganha pelo fato de ser falado em sua língua-mãe. Ele aponta para uma perspectiva bizarra, a de que, na tentativa de criar um cinema internacional, filmes como este parecem pasteurizados.

Desde a fotografia instagramizada até a direção de arte impecável, Kon-Tiki parece um filme sem pecados, limpinho, que assume essa “limpeza” como sinônimo de qualidade. Os diretores, que já trabalharam em Hollywood, adotaram um modelo de melodrama americano sem identidade, que não ofende ninguém, mas também não oferece nada além da embalagem e de algumas lições de moral. E se a cereja do bolo deveriam ser os efeitos especiais, as semelhanças visuais com As Aventuras de Pi eclipsaram o grande trunfo do filme. Um trabalho competente para quem não exige muito.

A Aventura de Kon-Tiki EstrelinhaEstrelinha½
[Kon-Tiki, Joachim Rønning & Espen Sandberg, 2012]

Filmes do Chico também no Facebook, Twitter e Instagram (@filmesdochico).

Leave a Comment

Filed under Resenha

À Beira-Mar

À Beira-Mar

Existe uma coisa genuína em À Beira-Mar, mas, com o perdão do trocadilho, isso morre na praia. Cheia de referências a dramas europeus dos anos 70, situando sua história às margens do Mediterrâneo, Angelina Jolie quer fazer um filme introspectivo, de forte caráter psicológico, mas é incapaz de se aprofundar nos traumas de sua protagonista, mesmo reservando este papel para ela mesma. Jolie passa o filme inteiro tentando dar textura a essa personagem perturbada, mas nunca consegue sair do superficial. Suas tentativas de fazer uma montagem psicanalítica são simplórias. No máximo, premonitórias em relação às cenas seguintes. Um dos pecados da diretora é fazer da causa para a depressão de Vanessa um grande mistério, em vez de tentar analisá-la, decifrá-la e compreendê-la ao longo do filme.

Depois de alguns minutos de sessão, o filme entra num estado quase catatônico em que personagens, trama e espectador adormecem para o mundo. O voyeurismo, que poderia gerar discussões interessantes e salvar o projeto explorando a tensão ou invandindo a esfera da sensualidade, se transforma em comédia. É interessante como o filme se aproxima do ridículo, sem pudores, como se Jolie quisesse validar a descida ao inferno de sua protagonista. É ainda mais curioso com um casal tão famoso e aparentemente tão bem resolvido se permite tanta exposição, mas tudo isso parece bastante calculado. Ou seria à tôa que justamente quando dirige um filme em que atua ao lado do marido, Brad Pitt, coisa inédita em sua filmografia como cineasta, ela muda sua assinatura para Angelina Jolie Pitt. Ainda assim, ela parece entrar nessa seara da intimidade sem estar muito à vontade, então, tudo soa mais ingênuo do que corajoso.

À Beira-Mar EstrelinhaEstrelinha
[By the Sea, Angelina Jolie Pitt, 2015]

1 Comment

Filed under Resenha

A Bela Junie

Lea Seydoux, Louis Garrel, Gregoire Leprince-ringuet

Há uma grande diferença entre ver e olhar. Ver geralmente parece demandar mais inteligência e conteúdo porque mira no resultado. É associado à descoberta, à percepção, tem um começo, um meio e um fim. O ver se resolve, é satisfação garantida. Já o olhar não. O olhar termina meio depreciado, esquecido, incompreendido porque o importante em olhar não é exatamente o objeto, mas o meio do caminho. O olhar está muito mais próximo do movimento, do deslocamento. É a maneira, o modo, enquanto ver é a ação. O que difere Christophe Honoré de seus comparsas no cinema francês é justamente o olhar.

Fazia tempo que não surgia um cineasta com uma visão tão particular do mundo. E o que é tão particular na maneira como Honoré olha para o mundo é que ele rejeita o pessimismo que geralmente vem vinculado ao círculo intelectual. Seus filmes reproduzem o imenso carinho que Honoré parece ter pelas pessoas e pelo mecanismo que as coloca juntas ou separadas. Seus personagens podem ser românticos ou despudorados, estarem no meio de melodramas ou comédias, mas nunca são fáceis ou rasos – e o modo como são conduzidos ao longo das tramas do diretor revela respeito e reverência pelo humano.

Os filmes do diretor têm formatos diferentes, mas parecem todos ajudar a construir o mesmo universo. De certa forma são todos o mesmo filme, depurando a paixão pelo cotidiano e pelas relações humanas que Honoré exala. Os irmãos de Em Paris são opostos complementares na mesma medida em que o trio (ou o dueto final) de Canções de Amor, embora um filme equilibre o melodrama romântico com o humor ácido e o outro seja um musical sem a mínima vergonha de sua amoralidade. Ambos os filmes mostram a leveza e a naturalidade com que Honoré lida com temas sérios.

A Bela Junie, seu novo filme, parece menos ambicioso do que os anteriores, mas é apenas um reflexo da coerência com seu universo principal, o de um grupo de jovens estudantes. Honoré desenha neles os futuros personagens de seus longas adultos. Seus dilemas e paixões surgem mais ingênuos e instintivos, mas não menos insinuantes. Para deixar claro que não saiu de seu terreno, o diretor espalha seus colaboradores pelo filme. Junto com a novata Léa Seydoux está Grégoire Leprince-Ringuet, e em participações menores aparecem Clotilde Hesme, Alice Butaud e até Chiara Mastroianni, em uma cena única, sem uma fala sequer. Parece estar ali apenas para demarcar o território de Honoré.

O personagem de Louis Garrel, que é digamos um coadjuvante principal, é mais uma vez a síntese de como o diretor percebe o mundo. Ele é um professor sedutor, um homem que ama as mulheres, sejam colegas ou alunas. Isso não garante um dilema para o personagem ou para Honoré. A questão não é sequer levantada. O cineasta – e seu alter ego – entendem que as pessoas se movimentam a partir de suas paixões. A mesma lógica vale para todos os personagens. Essa lógica da paixão mantém um romance secreto, provoca uma violenta cena de ciúme, faz alguém partir, faz alguém se despedir. Não cabem questionamentos morais, não há espaço para pudor. Numa época em que pretensos novos Godards surgem aos cachos a cada ano, perceber que Truffaut tem pelo menos um herdeiro de verdade é muito, muito agradável.

A Bela Junie EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Belle Personne, Christophe Honoré, 2008]

18 Comments

Filed under Resenha

A Bela que Dorme

A Bela que Dorme

Marco Bellocchio deveria ser um maestro. A música é tão importante em seus filmes que cenas simples se transformam em atos de uma sinfonia apenas pela maneira como o diretor utiliza a trilha sonora. A Bela que Dorme, como no gigantesco Vincere, tem sequências em que as composições assinadas por Carlo Crivelli parecem saltar na tela como um rolo compressor, esmagando todo o resto, como se o cineasta evocasse um estado de espírito elevado, muito acima da discussão sobre eutanásia que permeia o longa.

A Bela que Dorme tem como ponto de partida o caso real de Eluana Englaro, uma italiana que viveu 17 anos em estado vegetativo, até que sua família resolveu desligar os aparelhos que a mantinham viva. A decisão abriu um imenso debate sobre o tema no país. Debate que Bellocchio reacende no filme, uma pensata com múltiplas variáveis sobre o direito de interromper ou não a vida de alguém numa situação irreversível.

Apesar de ser o ponto de partida para a realização do filme, a figura de Eluana é apenas um fantasma onipresente na vida dos personagens, todos fictícios, criados pelo diretor. Sua história é contada no texto dos atores e pelas imagens de arquivo, o que reforça seu caráter simbólico e sua presença opressiva para os verdadeiros protagonistas do filme. Bellocchio prefere utilizar Eluana como maneira de dar movimento a diferentes tramas e pontos de vista diversos sobre o assunto. E nunca se interessa em dar uma palavra final.

O mosaico construído pelo diretor encontrou alguns bons defensores. O senador em crise de consciência vivido por Toni Servillo (Il Divo) é, de longe, o melhor e mais bem resolvido personagem do filme, seguido pelo médico interpretado pelo filho do diretor, Pier Giorgio Bellocchio. Ambos conseguem retratar a fragilidade e a solidão de pessoas que convivem com o problema de perto, mas de forma indireta. Homens que, em desespero silencioso, buscam redenção para a corrupção ética, em níveis variados, que faz parte de suas histórias.

Enquanto isso, Isabelle Huppert não entendeu o tom épico que Bellocchio imprime ao debate e se conforma em reprisar as caras e bocas de seus últimos vinte personagens. Este tom, proporcionado em grande parte pelo uso orquestrado da trilha sonora, eleva a discussão sobre a eutanásia a um nível tão superior que permite que Bellocchio se abstenha sobre a polêmica. O filme não termina como um relato ou uma provocação, mas como um ensaio sobre as diferentes formas de se entender o que é certo e o que não é.

A Bela que Dorme EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Bella Addormentata, Marco Bellocchio, 2012]

Leave a Comment

Filed under Resenha