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Heli

Heli

O cinema mexicano cada vez mais tenta se afastar dos melodramas que fizeram sua época de ouro e dos conhecidos excessos de sua teledramaturgia. A solução seguida pela maioria dos diretores da nova geração é apostar na aridez e no explícito para criar um cinema, se não original, pelo menos uníssono. Heli, de Amat Escalante, que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes, investe exatamente numa narrativa áspera para apresentar seus protagonistas, todos condenados à uma vida de miséria.

Escalante não quer que tenhamos pena de seus personagens. Parece mais genuíno para ele, assim como para seus colegas cineastas, que a própria natureza do México interiorano, arcaico, quase primitivo, comova os espectadores. Os atores são dirigidos para que economizem em suas interpretações, assim como o próprio diretor economiza em sua dramaturgia. O personagem-título e sua família entram numa sucessão de pequenas tragédias, filmadas com a crueza do deserto que os cerca, que ajudam a ilustrar como Escalante enxerga seu país.

Se renega os excessos dramáticos em favor de um cinema mais “direto”, Escalante comete outros excessos. As cenas de tortura são filmadas com brutalidade, muita brutalidade. A intenção pode ser chocar, denunciar a violência da situação específica e da situação social, mas o impacto desses excessos causam, como sempre, a impressão de que o cineasta quis fazer de seu filme, um filme importante, sincero, sem firulas, que vai direto ao ponto. Esse artifício denuncista incomoda, embora o filme pareça ter mais a dizer do que obras como Depois de Lucia, Ano Bissexto ou Batalha no Ceú. Todos mexicanos; todos com cenas chocantes.

Este último, por sinal, é assinado por Carlos Reygadas, que produz o filme de Escalante. O que Heli tem de diferente em relação a esses títulos é a importância que dá aos personagens principais, todos desenhados com certa profundidade. É curioso como o diretor empresta ao protagonista uma integridade quase inocente que não tem para onde crescer diante do cenário em que ele se encontra e que o torna maior do que o próprio filme. Heli é um rapaz que tenta viver sua vida da maneira que ele acha correta, mesmo que o México e o filme que leva seu nome pareçam torcer contra ele.

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[Heli, Amat Escalante, 2013]

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