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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 11

Um Caminho para Dois

Um Caminho para Dois EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Two for the Road, Stanley Donen, 1967]

Um Caminho para Dois, de certa forma, resume os anos 60, trazendo para o seio de Hollywood uma visão libertária do amor, das relações e do casamento. A máscara é de comédia maluquinha, mas o filme abre um debate profundo sobre assuntos muito sérios. Audrey Hepburn já era a namoradinha da América havia quase 15 anos e Albert Finney acabara de se tornar um astro com As Aventuras de Tom Jones. Os dois estão impressionantes ao dar voz a cada cena escrita pelo roteirista Frederic Raphael, um texto tão irônico quanto delicado sobre as transformações do amor ao longo de um relacionamento. Cabe ao mestre Stanley Donen dar movimento a esse encontro de propostas, o que ele faz com o mesmo ritmo delicioso de seus mais alucinados musicais. As cenas de estrada, que atravessam, fora de ordem, a cronologia de viagens do casal, invadem umas as outras, fornecendo uma inesperada melodia extra à narrativa. Audrey Hepburn desfila um figurino de algum megaestilista cada vez que aparece na tela, mas o que poderia emprestar ao filme um tom mercantilista, que ele não ignora mesmo,  se transforma em mais uma das brincadeira de Donen. Dono de vários clássicos, aqui ele realizou um de seus projetos mais especiais, que talvez fosse o filme definitivo sobre o amor, se o amor fosse tão definitivo assim.

Manila nas Garras da Luz

Manila nas Garras da Luz EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Maynila: Sa mga kuko ng liwanag, Lino Brocka, 1975]

Os olhos de Julio dizem muito sobre ele. Seu olhar triste, mas cheio de esperança tem um compromisso certo, dia após dia. O rapaz passa horas encarando fixamente aquela janela na Rua da Misericordia. Julio chegou na capital há alguns meses. Saiu sem avisar da vila de pescadores onde nasceu. Tudo por causa de Ligaya Paraiso. O namoro com a moça mais linda da região era proibido. A mãe dela não gostava muito da ideia de Ligaya se envolver com alguém tão pobre quanto ela. Por isso, ficou até feliz quando uma senhora chegou à vila para recrutar jovens para trabalhar em Manila. Seria uma chance de ganhar dinheiro, ajudar a família e se arrumar na vida. Ligaya ainda olhou pra trás quando entrou naquela jangada. Para depois sumir para sempre. Julio decidiu ir atrás de seu grande amor. Existem dois protagonistas em Manila nas Garras da Luz, esse monumento do cinema mundial dirigido há 40 anos por Lino Brocka: um é Julio, o homem; o outro é Manila, a cidade. Desde o primeiro momento, Brocka deixa claro que este é um daqueles contos do homem contra a cidade, do amor contra o mundo. Nos 125 minutos seguintes, Julio e Manila vão duelar até um sufocar o outro. Nessas pouco mais de duas horas, Brocka faz um inventário das tragédias da cidade: com Julio, discute o subemprego, a violência, a habitação irregular, o mercado do sexo masculino, o mercado do sexo feminino, entre dezenas de outras questões. O impressionante é que a abordagem do cineasta nunca cai num discurso meramente panfletário porque Brocka amarra todas suas discussões à jornada de Julio em busca de Ligaya. E a aridez da vida na capital das Filipinas ganha um inesperado contorno melancólico, que torna qualquer debate demasiadamente humano. Tanto quanto a bela interpretação de Bembol Roco, à epoca Rafael Roco Jr., um estreante tão virgem em frente às câmeras quanto sua personagem em frente a Manila.

O Show Deve Continuar

O Show Deve Continuar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[All That Jazz, Bob Fosse, 1979]

Alan Heim ganhou um Oscar pela montagem de O Show Deve Continuar. E mais do que a música, mais do que os figurinos, mais até do que incrível performance de Roy Scheider, é justamente a montagem a alma do filme-testamento de Bob Fosse. Os cortes incrivelmente rápidos, que escondem cenas que duram alguns segundos, traduzem a urgência de um protagonista que atravessa o filme flertando e negociando com a morte. Joe Gideon, personagem de Scheider, é uma espécie de alter ego de Fosse, que teria tido a ideia de fazer o filme depois de um ataque cardíaco, e vários dos coadjuvantes do longa são inspirados em personagens reais da Broadway. Em certo momento, Angelique, a morte vivida por uma lindíssima Jessica Lange, pergunta para Gideon: “você acredita no amor?”. E ele responde: “eu acredito em dizer ‘eu te amo’. A ironia presente em todos os trabalhos de Fosse aqui atinge o nível do sarcasmo que contamina todo o projeto e é a maneira com que o diretor traduz os bastidores do teatro musical americano. Este talvez seja o maior feito de All That Jazz: ao mesmo tempo em que é um filme sobre a intimidade de um homem e um retrato crítico de um universo, Fosse fez um musical que dá sentido à palavra espetacular.

Meu Único Amor

Meu Único Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[My Best Girl, Sam Taylor, 1927]

A cena que introduz a personagem de Mary Pickford em Meu Único Amor já leva o filme para um nível acima das comédias românticas da época. É quando Maggie, que trabalha como estoquista numa loja, surge com as panelas que precisam ser repostas para a venda. Ela caminha lentamente tentando carregas tanta coisa. Uma panela vai ao chão. Maggie consegue abaixar uma mão e pegá-la de volta. Dá um passo. Duas panelas caem no chão. Com o pé, ela as cata os objetos mais uma vez. Dá mais um passo. Três panelas caem no chão. O diferencial desta cena clássica de filmes mudos é que, durante seus muitos segundos, a câmera está fixa nos pés de Pickford, só se move para atrás, acompanhando os movimentos das personagem. O diretor de fotografia, Charles Rosher, é o mesmo de Aurora, o filme mais impressionante do mundo. Ao longo de Meu Único Amor, ele aprontaria mais uma ou duas vezes, como no passeio na Maggie e Joe na carroceria do caminhão ou no encontro dos namorados dentro de uma das caixas do estoque. Se as imagens tiram o filme do lugar comum, o roteiro, uma história de príncipe encantado como tantas outras, encontra no diretor, Sam Taylor, um defensor de sua ingenuidade. Ele cria gags com repetições, edições e dirige lindamente o ótimo elenco. O filme, exibido numa noite deliciosa na área externa do Auditório do Ibirapuera, foi o último filme silencioso da atriz e ainda tem um caráter premonitório porque Pickford se casou, tempos depois, com seu par romântico.

O Bandido Giuliano

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[Salvatore Giuliano, Francesco Rosi, 1962]

O mais interessante de O Bandido Giuliano é a perspectiva que Francesco Rosi escolhe para desenvolver sua narrativa. No filme, ele não é uma personagem propriamente dita,  mas uma espécie de fantasma, uma sombra que acompanha os coadjuvantes de sua história de fora-da-lei que matou um policial para os italianos e herói que distribui comida para os sicilianos. O ponto de partida do filme já é um tanto revolucionário: na primeira cena, Salvatores Giuliano já está morto e, bem próximo de um cinejornal, o longa segue toda a repercussão do assassinato, a caça a seus companheiros e o julgamento onde são apontados os responsáveis pela emboscada que tirou sua vida. O diretor utiliza uma herança neorrealista para adotar um tom extremamente documental, reforçado pela fotografia em preto-e-branco e pela câmera, muitas vezes na mão, misturando cenas reais gravadas nas ruas à encenação naturalista do pós-morte de Giuliano. O efeito é a martirização do anti-herói, que ganha um status de mito da luta pela separação da Itália.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 10

Aliança do Crime

Aliança do Crime EstrelinhaEstrelinha
[Black Mass, Scott Cooper, 2015]

Aliança do Crime é tão artificial quanto a maquiagem incômoda que Johnny Depp carrega durante todo o filme. Falta a Scott Cooper a grandiosidade que um Coppola consegue emprestar a sua obra ou a intimidade com que Scorsese investiga os laços entre os mafiosos. Depois de mais de duas horas de filme, a impressão que fica é que Cooper nunca consegue entrar realmente naquele universo nem criar uma cena marcante mesmo disposto a contar uma história tão rica e cheia de nuances quanto a de James “Whitey” Bulger. A fotografia, levemente azulada, parece emular um terceiro cineasta, Michael Mann, um ideólogo da imagem, mas neste filme não há justamente uma imagem sequer que permaneça na memória por muito tempo. A interpretação elogiada de Depp parece bem ordinária se comparada a um repertório de atores que já fizeram grandes criminosos e o restante do elenco segue essa mesma lógica. O ator mimetiza trejeitos de dezenas de outras grandes personagens e o roteiro não ajuda a levantar a bola para que ele possa utilizar seu tiques psicóticos que funcionaram tão bem em Sweeney Todd. Joel Edgerton, geralmente um ator bom, está em overacting desde a primeira cena em que aparece. A distribuição de papéis complementares para atores bastante conhecidos, como Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Dakota Johnson e Juno Temple parece ser uma estratégia para atrair mais atenção e publicidade, mas nenhum deles ganha profundidade e, muito menos, relevância na trama. Peter Sarsgaard, que tem um dos papéis mais interessantes, aparece pouco e não tem uma chance real de mostrar que veio. Não há cenas de ação que fujam do básico e a trilha ostensiva e excessiva de Tom Holkenborg tenta preencher todas as lacunas que o filme deixa, mas não consegue. Os créditos finais, em vez de curiosidade, geram mais alívio.

A Bruxa

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[The Witch, Robert Eggers, 2015]

A Bruxa talvez assuste menos do que deveria, mas o horror que o diretor Robert Eggers procura é outro. Embora o fantástico, o místico, o sobrenatural assombrem as personagens do filme de maneira muito concreta, o terror maior do longa de Eggers é o provocado pelo homem. A história se passa em 1630, na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, um lugar tomado à força de seus verdadeiros moradores, que tiveram suas terras e seus deuses roubados em troca da truculência de uma cultura e de uma religião que elegem demônios diante do menor motivo. O horror de A Bruxa é o horror de apontar culpados, de ignorar laços familiares, de ignorar o amor em prol de uma fé cega. A família de William é expulsa de uma cidade por questões religiosas, muda-se para um campo ao lado de uma floresta e, num piscar de olhos, o caçula da família, o bebê Sam, desaparece enquanto brincava com a irmã mais velha, Thomasin. Diante de uma situação sem explicação, o luto da família é trocado, literalmente, por uma caça às bruxas, onde sussurros e brincadeiras podem ser mal interpretados. A formação de Eggers é como diretor de arte, então, existe uma preocupação clínica com a reconstituição de época, o desenho de produção, os figurinos e a plástica do filme como um todo, que é impecável, embora resulte num excesso de solenidade e numa frigidez que só é quebrada pelas interpretações. Anya Taylor-Joy e, sobretudo, Harvey Scrimshaw são excelentes. A expressão Katie Dickie, revelada em Game of Thrones, e a voz de trovão de Ralph Ineson ajudam a manter a atmosfera de incertezas. Se o filme não dá os sustos que poderia, aterroriza pela maneira que mostra o ser humano.

Bridgend

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[Bridgend, Jeppe Rønde, 2015]

Mesmo que não seja exatamente um grande filme, Bridgend foi uma das grandes surpresas desta edição da Mostra de Cinema de São Paulo. O diretor, um dinamarquês, atravessou o Canal da Mancha e cruzou a Inglaterra para pesquisar o mistério dos jovens suicidas na cidade que batiza o filme, no País de Gales. Jeppe Rønde mostra muito talento em construir uma atmosfera quase sensorial de opressão psicológica para o filme, buscando compreender qual é a herança maldita que assombra aqueles adolescentes. A fotografia tem elementos fantasmagóricos, jogando muito com a luz ou a falta dela e criando quadros de excepcional beleza que também têm a função mostrar que aqueles meninos praticamente vivem numa dimensão à parte da realidade que os cerca, quase se como criassem uma nova velha civilização. A utilização da trilha sonora, cheia de interferências e esquisitices, para estabelecer o suspense empresta ao longa um componente místico, que Rønde usa para aproximar o comportamento do grupo de adolescentes aos rituais de uma seita, o que deixa os efeitos dessas escolhas ainda mais interessantes.

Três Lembranças da Minha Juventude

Três Lembranças das Minha Juventude EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Trois Souvenirs de ma Jeunesse, Arnaud Desplechin, 2015]

Arnaud Desplechin arranja as memórias de seu protagonista como melhor lhe convém, transformando a estrutura irregular de Três Lembranças da Minha Juventude numa experiência íntima e muito genuína, bem próxima à maneira com a qual organizamos os tópicos de nossa história. Isso dá um conforto grande em relação ao filme, um inventários de impressões e efeitos com momentos de algum lirismo truffautiano. Mathieu Amalric, em sua sexta, salvo engano, colaboração com o diretor, interpreta um homem que tenta voltar à França, é barrado na imigração e olha para três momentos de seu passado, que ganham tamanho de acordo com a importância que o cineasta dá a cada uma, mesmo que elas não sejam fundamentais para explicar a situação inicial do filme. Há um punhado de lugares comuns que Desplechin martela e que não deixam o filme ser tão brilhante quanto Reis e Rainha ou Um Conto de Natal, mas essas cenas ajudam a dar essa textura falível, tão humana, ao longa. Os jovens atores são todos bons, especialmente o protagonista, Quentin Dolmaire, e “seu grande amor”, Lou Roy-Lecollinet, ambos estreantes no cinema, mas a cena mais memorável de Três Lembranças da Minha Juventude não tem seu protagonista ou seus coadjuvantes principais. É quando a irmã do jovem Paul, uma espécie de Dakota Fanning francesa, num momento que nada acrescenta à história, mas que tudo significa para a memória da personagem, chega para o pai e pergunta: “pai, por que eu sou feia?”. E ele responde: “você não é feia, mas seus irmãos ocupam espaço demais”. Esta variação de foco absolutamente desnecessária lembra os grande momentos do cinema de Desplechin, em que ele tira o óbvio do foco e aposta na periferia. Mesmo sem esse lampejos de genialidade, o novo filme do cineasta ainda bem à frente da atual produção francesa que chega ao nosso circuito “de arte”.

O Verão de Sangaile

O Verão de Sangaile EstrelinhaEstrelinha
[Sangailé, Alanté Kavaïté, 2015]

Uma das preocupações principais deste segundo longa da lituana Alanté Kavaïté é que cada imagem tenha embutida uma grande carga poética. Ela explora ao máximo os belos cenários do condado de Vilnius, sua terra natal, e faz várias composições com a de imagens jogando com a luz natural. Isso funciona até certo ponto, mas peca pelo excesso, que não esconde os maneirismos do filme, uma espécie de história de amor de verão entre duas adolescentes: a Sangailè do título, uma jovem retraída, com uma relação de amor e ódio com a mãe, uma ex-bailarina, e Auste, uma promessa de estilista/fotógrafa/decoradora que transborda simpatia e criatividade. Auste surge na história de Sangailè como a intrusa que quer se aproximar, quebrando o mundinho reservado em que vive a protagonista. Mas, de corpo estranho, ela rapidamente se torna a personagem mais interessante do filme, muito mais sólida do que a dona do papel principal, versão pálida de tantas outras com o mesmo perfil. O encontro entre as duas serve para dar novo fôlego para a protagonista dentro e fora da roteiro, mas, por mais que seja cuidadosa com a composição visual do filme, Alanté Kavaïté nunca consegue tornar verdadeiramente interessante ou original a história que está contando.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 9

Os Campos Voltarão

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[Torneranno i Prati, Ermanno Olmi, 2014]

Um soldado canta do alto de uma trincheira. Sua voz poderosa, que cruza os campos num raro momento de paz no front, ganha elogios de seus inimigos, que pedem mais uma. É assim, com este absurdo de guerra, que Ermanno Olmi inicia seu novo filme, que fala sobre o absurdo da guerra. Entre longas e curtas, este é o 84º título da carreira de um cineasta de 84 anos: são apenas 80 minutos que valem muito mais do que os últimos dez anos de filmes sobre conflitos mundiais. A guerra de Os Campos Voltarão é a primeira das grandes, mas que o diretor apresenta de dentro para fora. Praticamente todas as cenas do filme acontecem dentro do bunker em que a tropa italiana tenta resistir ao inimigo. A guerra em si se resume a explosões perto de onde estão os soldados e “fogos de artifício” no céu. Os diálogos são sobre a guerra, mas são mais ainda sobre a vida, o medo, a incerteza. O humano vem antes da política para Olmi, que desbota as cores do longa até bem perto do preto-e-branco e envolve seu filme numa trilha sonora improvável composta pelo jazzista Paolo Fresu. A paleta pálida e a música estranha ajudam a encenação algo teatral a transportar aquela história para uma espécie de dimensão diferente, reforçando o lado bizarro do conflito com uma poesia triste e dura, estranha e de beleza esquisita. A batalha dos soldados de Olmi acontece mais dentro deles do que do lado de fora. É uma batalha contra um inimigo invisível, um fantasmas onipresente e sem forma definida, o horror da guerra.

O Rei da Comédia

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[The King of Comedy, Martin Scorsese, 1982]

O Rei da Comédia é uma fábula do absurdo. E, por mais absurdo que seja, permanece completamente atual em seu retrato do culto à celebridade. Há mais de trinta anos, Martin Scorsese se reuniu mais uma vez com seu favorito Robert De Niro para investigar o desejo pela exposição na figura de Rupert Pupkin, um homem cujo sonho é se tornar um comediante de stand up da televisão. Para falar de humor, resgatou uma das maiores lendas do cinema, Jerry Lewis, que havia tempos não fazia nada realmente relevante. Jerry aqui interpreta a inspiração, o objetivo e o alvo de Pupkin, Jery Langford, apresentador de um talk show de sucesso na TV. O encontro inusitado das duas personagens mexe profundamente com Pupkin, cuja mitomania faz com que ele transite entre a fantasia da conquista e a realidade para onde sua mãe o chama no meio de cada uma de suas viagens. Para ele, Langford é mais do que uma passagem para a fama e o reconhecimento, é a chance de ver seu sonho realizado. O roteiro de Paul D. Zimmerman, um dos três que ele escreveu na vida, atravessa os limites entre a comédia proposta desde a primeira cena e o estudo sério da personagem com muito jogo de cintura, sem perder a fábula, sem abrir mão da melancolia. De Niro tem uma coleção de interpretações maravilhosas, mas seu Rupert Pupkin oferece uma vitalidade até então nova para seu repertório. Ele defende a farsa de Pupkin com muita verdade, cheio de nuances, encontrando pertinência para cada transtorno do protagonista. A seriedade de Jerry Lewis também impressiona e o contraste com a personagem deliciosamente alucinada de Sandra Bernhard cria algumas cenas excelentes perto do final. O Rei da Comédia nunca foi reconhecido como a obra-prima da sutileza que é.

Sob Nuvens Elétricas

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[Pod Elektricheskimi Oblakami, Aleksey German Jr., 2015]

Um prédio moderno, de curvas ousadas, mas abandonado no esqueleto é a imagem mais recorrente de Sob Nuvens Elétricas. Estamos na Rússia, apenas dois anos à frente, em 2017, centenário da revolução que levou Lênin ao poder. E sob os ecos desta história tão massacrante, que eliminou o humano em prol do conjunto, experenciamos a visão de futuro de Aleksey German Jr. Um futuro tão fracassado quanto a experiência socialista. Em sua pálida distopia, o que seduz não são as personagens, que parecem tão perdidas na paisagem como o protagonista do primeiro dos sete capítulos do filme, um imigrante quirguiz que vaga por ruínas, pelo gelo e pelas ruas da cidade com um rádio quebrado. A sedução também não vem da história, que German libera a conta-gotas, em diálogos codificados, nos intervalos das imagens de cores esmaecidas, de quadros que materializam a solidão, a desesperança, o incompreensível. É na plástica que German traduz seu pessimismo discreto com o que a Rússia construiu para si, é na estética congelante que mora seu grito de horror em relação ao futuro de seu país, é num prédio lindíssimo, imponente e pela metade que encontra a imagem perfeita para cristalizar a catástrofe de uma promessa.

O Evento

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[Sobytie, Sergei Loznitsa, 2015]

De seus vinte títulos como diretor, dezessete filmes do bielorrusso Sergei Loznitsa são documentários. O Evento, seu longa mais recente, é uma costura de imagens em found footage coletadas de diversos cineastas independentes sobre os eventos em Leningrado, em 1991, que levaram à dissolução da União Soviética. As imagens da multidão na praça central da cidade são não apenas a opção formal, mas a linha narrativa do filme. Elas são sobrepostas por entrevistas, depoimentos, pronunciamentos de rádio e TV e discursos, estes os únicos que não aparecem em off, para dar corpo e volume para seu retrato do movimento contra-URSS, como consequência de um desejo coletivo da população, que pergunta porque a televisão só exibe o Balé Bolshoi e que quer saber se Mikhail Gorbachev está realmente morto, como dizem os boatos. O preto-e-branco onipresente em todo o filme oficializa o tom de documento histórico, além de dar peso e textura ao discurso, que Loznitsa deixa a cargo do espectador, mas que parece muito claro quando o cineasta nos afirma que aquele movimento nasce e cresce nas ruas.

A Volta

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[Elämältä Kaiken Sain, Mika Kaurismaki, 2015]

Depois da bela surpresa de A Jovem Rainha, Mika Kaurismaki enterra a boa impressão em A Volta, comédia dramática com ecos de filme de suspense, envolta numa onda de clichês e reviravoltas rocambolescas que nunca diz exatamente a que veio. Baseado no livro de Petri Karra, o filme tenta encontrar um equilíbrio entre o lugar comum da frieza do comportamento nórdico e um certo calor latino provavelmente herdado da passagem do cineasta pelo Brasil, onde morou por anos. Ele tenta capturar o drama familiar da mulher que resolve se mudar para a casa do pai no interior junto com o namorado e a filha dele, mas nunca desenvolve as distância entre as personagens de maneira realmente eficiente, e aposta num romance em que parece não acreditar, inserindo uma subtrama policial que parece cair do céu para dar algum movimento ao material. Todas as personagens têm algum grau de estereotipia, principalmente a adolescente gótica e o velho rabugento. As belas imagens à beira de um lago não salvam esse novelão da nulidade.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 8

Sabor da Vida

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[An, Naomi Kawase, 2015]

Sob praticamente todos os prismas, Sabor da Vida é um filme mais convencional do que o anterior de Naomi Kawase, O Segredo das Águas, em que a cineasta japonesa retomava um cinema narrativo ficcional que havia abandonado em troca de documentários e filmes mais experimentais. Mas se o último longa da diretora ainda tinha sido construído em terreno árido, este novo projeto parece ter como alvo um público bem maior. Kawase costura aqui três subgêneros que costumam apostar na capacidade de emocionar o espectador: o filme de velhinhos, o filme de comida e o filme de doença. Partindo do livro de Durian Sukegawa, ela conta a história de Tokue, uma senhora de 76 anos que pede emprego numa pequena loja de dorayakis, um popular doce japonês à base de pasta de feijão, comandada por um homem que tenta superar seu passado e frequentada por uma adolescente com problemas com a mãe. A partir daí, Kawase desenha uma trama em que a comida serve como elo para unir as três personagens, que, escondem, cada uma, um segredo e um mal estar em relação ao mundo. Como tem uma tendência ao realismo em seus filmes, a diretora tem uma relação diferente com os momentos mais melodramáticos do texto. Nunca pesa a mão na condução emocional das cenas essencialmente emocionais, o que ao mesmo tempo em que causa um estranhamento, revela uma tentativa de dar sua identidade ao material. Kirin Kiki, que interpreta Tokue e já havia sido vista em filmes Hirokazu Koreeda, entrega uma personagem bastante palpável, que seduz o espectador pela simplicidade de sua interpretação. Como no filme mais recente de Kiyoshi Kurosawa, Sabor da Vida mostra como a relação da cultura japonesa com a morte é muito mais complexa do que no Ocidente. Aqui, mais uma vez, Naomi Kawase, que ainda não voltou a seus momentos mais brilhantes, investiga o poder transformador da morte para quem fica por estas bandas.

Chronic

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[Chronic, Michel Franco, 2015]

Este texto sobre Chronic estava sendo “escrito mentalmente” durante a última sequência do filme de Michel Franco e o tom seria de que, perto do maniqueísmo maldoso de Depois de Lucia, longa anterior do diretor mexicano, este novo filme era até decente, mas parece que o cineasta achou que não tinha sido “visceral” o suficiente e comete um golpe final que não tem outra função senão catalisar catástrofes. O cinema atual está cheio de filmes assim, sem qualquer respeito com suas personagens, que parecem duvidar da capacidade de discernimento do espectador ao apostar em imagens e situações “fortes”, como se houvesse coragem em distribuir desgraças. E Michel Franco parece querer um posto de comando neste movimento. Ele filma com segurança, sabe bem administrar espaços, concebe quadros com bastante rigor, mas essa sua investigação do caos parece gratuita, perversa e oportunista. Franco estreou nos Estados Unidos, com um filme falado em inglês, estrelado por Tim Roth, que interpreta um enfermeiro de pacientes terminais. Sua relação com a morte vai se desenhando aos poucos e revela alguma coerência, embora o diretor acredite que forçar o espectador a ver imagens desagradáveis seja uma forma de revolução. Como um masoquista, Franco força o dedo na ferida e nos convida a ser cúmplices de suas obsessões. Aceita quem quiser.

Body

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[Cialo, Malgorzata Szumowska, 2015]

A morte parece ser um elemento comum e importante para vários filmes da Mostra. Body, da polonesa Malgorzata Szumowska, tem uma das abordagens mais interessantes porque dialoga com o sobrenatural sem nunca realmente transformá-lo num objetivo ou numa escada para chegar ao espectador. Os três protagonistas lidam das maneiras mais diferentes com o luto. De um lado temos o investigador criminal Janusz, que para lidar com a perda da mulher, transforma os corpos mortos que encontra todos os dias em meros objetos de trabalho, enquanto sua filha, Olga, estraga o próprio corpo como uma espécie de rebelião contra o mundo. Do outro lado, a psicoterapeuta Anna, que, oito anos depois, ainda busca na espiritualidade uma maneira de compensar a morte do filho. Szumowska amarra estas três histórias com imagens delicadas que ora sugerem uma abraço no sobrenatural, ora buscam desmentir essa relação. O elenco é todo muito bom, mas o destaque vai para a excelente performance de Maja Ostaszewska, atriz polonesa que iniciou sua carreira no cinema com um pequeno papel de A Lista de Schindler, cuja personagem é admiradora do médium brasileiro Divaldo Franco. É bem curioso como a diretora encerra o abismo que existe entre pai e filha, de uma maneira simples, como se mostrasse que não existe artifício mais eficiente para aproximar duas pessoas do que o bem e velho olho no olho.

O Muro

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[Mur, Dariusz Glazer, 2015]

Quando não está realizando alguma atividade ilegal, Turek ganha a vida destruindo para construir. Sozinho, ele realiza reformas completas em apartamentos de Varsóvia. Mas a lógica do ganha-pão de Turek não serve para a vida pessoal do rapaz, que tem uma relação fria e distante com a mãe. O Muro é a estreia de Dariusz Glazer como diretor de longa-metragens, depois de realizar um curta e escrever um longa para outro cineasta. A pouca experiência não impediu o polonês de dirigir um filme simples e forte sobre um tema bastante visitado pelo cinema, o abismo entre pais e filhos, também abordado por outro filme da Polônia na Mostra, Body. A brutalidade da personagem, bem defendida pelo ator Tomasz Schuchardt, o coloca em conflito diário com a mãe, que não facilita o convívio. Glazer, que também assina o roteiro, passeia por alguns lugares comuns, mas, sem colocar panos quentes, encontra boas soluções para levar a relação para outros caminhos sem deixar de manter as características do protagonista.

Intermezzo

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[Intermezzo, Gustaf Molander, 1936]

A primeira imagem do rosto de Ingrid Bergman sob um feixe de luz em Intermezzo explica porque o poderoso David O. Selznick rescolveu contratá-la logo depois de assistir ao filme de Gustaf Molander. Bergman já era uma atriz moderna em 1936, tinha uma beleza impressionante e uma performance naturalista difícil de se encontrar à época. E olha que todo o elenco do longa é bem competente. Bergman, que tinha apenas 21 anos quando o filme foi lançado, interpreta Anita Hoffman, uma jovem e talentosa pianista que dá aulas para a filha do famoso violinista Holger Brandt, que fica impressionado ao vê-la em ação. Surge uma admiração mútua e, consequência disso, o amor. Molander já tinha mais de 15 anos de experiência como diretor e brilha na primeira metade de Intermezzo, combinando a apresentação da história e das personagens com momentos musicais esplendidamente montados e fotografados. As cenas são longas, dando tempo para a música assumir o protagonismo. O filme cai para o convencional à medida que os protagonistas se envolvem. O roteiro naturalmente passa a dar mais atenção ao drama de adultério e, em segundo plano, a música some do filme, cujo final moralista não incomodou David O. Selznick, que refilmou o longa em Hollywood para que ele fosse a estreia da atriz em língua inglesa. Bergman ainda fez mais quatro filmes na Suécia antes de atravessar o Atlântico, três dirigidos por Molander. Nenhum deles fez metade do sucesso de Intermezzo.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 7

A Jovem Rainha

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[The Girl King, Mika Kaurismaki, 2015]

O finlandês Mika Kaurismaki morou no Brasil durante muito tempo, conhece bem a língua portuguesa e reclamou da tradução da Mostra para um de seus novos filmes, A Jovem Rainha, em que biografa a polêmica e extravagante Kristina, da Suécia. No original, o longa se chama The Girl King, algo como O Rei Menina, que comporta bem melhor o espírito de sua protagonista revolucionária, já vivida por Greta Garbo no clássico Rainha Christina. Ela foi nomeada monarca aos seis anos, passou outros dois tendo que dar boa noite ao pai embalsamado por uma mãe louca, foi criada como um menino, se apaixonou por livros, filósofos, pensadores e por uma mulher. E ainda desafiou o luteranismo, religião oficial de seu país. Diante da história de uma mulher de tantas paixões febris, Kaurismaki parece também ter incorporado uma possível herança de sua passagem pelo Brasil, a dramaturgia televisiva que assistimos no filme. A Jovem Rainha é um novelão histórico, artificial, fake, que potencializa as conspirações de corredor, os relacionamentos proibidos e as reviravoltas com closes fechados, interpretações afetadas, flashbacks explicativos e outra seleção de truques para dar volume ao suspense. Malin Buska encarna a protagonista com muita propriedade, embarcando na ideia de Kaurismaki de transformar Kristina exatamente numa personagem. Nas cenas em que faz discursos para a corte, Buska declama suas falas quase que como um padre faz sua ladainha dominical. Combina perfeitamente com o que o filme pretende para sua rainha.

Mistress America

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[Mistress America, Noah Baumbach, 2015]

Brooke Cardinas é uma típica personagem de Woody Allen só que às avessas. Simpática, verborrágica, cheia de planos, completamente indecisa. Brooke nunca fez faculdade, não tem o estofo de sua quase irmã, Tracy, cuja mãe vai se casar com o pai de Brooke e saiu da cidade pequena onde nasceu para morar em Nova York, onde por sinal, Brooke mora. Tracy faz faculdade e quer entrar num grupo de literatura, fechado, cheio de códigos secretos. Precisa de uma boa história, verdadeiramente original, para isso. E descobre quando conhece Brooke. Em seu segundo roteiro feito a quatro mãos, Noah Baumbach e Greta Gerwig, um casal na vida real, reproduz um pouco do espírito libertário e naive de Frances Ha, primeira parceria dos dois, mas sem o mesmo acabamento que aquele longa entrega. Se Frances também era uma personagem errática, mas que se mantinha fiel a sua essência ao longo de todo o filme, até porque o filme é ela, Brooke é apenas uma coadjuvante em Mistress America e Tracy, a verdadeira protagonista está sempre a sua sombra, mesmo que pareça o contrário. Essa relação desigual entre as duas ocupa um espaço grande demais na resolução do filme, que abre mão de muitas possibilidades em relação ao desenvolvimento das personagens, mas ainda consegue se sustentar como comédia indie inteligente, embalada por uma trilha deliciosamente triste e alegre, alegre e triste.

Rashomon

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[Rashomon, Akira Kurosawa, 1950]

Rashomon foi feito há 65 anos e ainda impressiona pela complexidade com que Akira Kurosawa via o mundo. Nesse estudo sobre o intervalo entre a verdade e a mentira, o cineasta parece afirma que é ali exatamente que acontece a vida. O roteiro, que confundiu os atores que procuravam Kurosawa para entender o que ele queria com aquilo, alterna as versões de uma história sobre um mesmo fato. Uma história contada e debatida aos pés do portal Rashomon, em pleno Japão medieval, enquanto três homens aguardam o fim de um temporal. Ali, Kurosawa introduz uma montagem com base em flashbacks que se revezam oferecendo novos pontos de vista para o assassinato de um samurai. Ganhou o Festival de Veneza e abriu os olhos do mundo para um cinema japonês que se transformava. Da simples discussão sobre uma morte, Kurosawa abre um debate mais amplo, mais intenso, sobre alguns dos temas mais universais e complexos disponíveis no mercado: o poder do desejo, a honestidade e a própria natureza do ser humano.

Cordeiro

Cordeiro EstrelinhaEstrelinha½
[Lamb, Yared Zeleke, 2015]

Em toda parte do mundo, existe um movimento de países que não tem uma cultura cinematográfica forte para tentar fazer filmes que possam encontrar espaço num circuito internacional, mesmo que seja um circuito de festivais. Cordeiro é a terceira indicação da Etiópia para o Oscar de filme estrangeiro e foi o primeiro filme do país a ser exibido no Festival de Cannes. Como cinema, o longa de Yared Zeleke, formado pela Universidade de Nova York, é todo corretinho: um elenco amador bem dirigido, fotografia cuidadosa e um roteiro eficiente, principalmente em se tratando de provocar identificação com o espectador. Mas o diretor aposta numa uma história convencional, a de um garoto deixado pelo pai com parentes para que ele não tenha o mesmo destino da mãe morta pela seca, que pelo apelo universal tem chances de dialogar com o espectador mundo afora. Zeleke ainda adiciona uma personagem adicional para a fórmula, a ovelha Chuni, o “melhor amigo” do pequeno Ephraïm, por quem ele vai lutar diante de todas as dificuldades. Um esforço louvável que resulta num filme bonitinho, redondinho, mas que sempre é mais do mesmo.

Beira-Mar

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[Beira-Mar, Filipe Matzembacher & Marcio Reolon, 2015]

Da mesma maneira que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, é um filme que promete mais do que cumpre por fazer apostas muito seguras. Desde o começo, por menos que explique quem são aqueles dois jovens, os diretores parecem apostar que o espectador quer que eles fiquem juntos. A viagem da dupla até uma praia do Rio Grande do Sul para resolver um assunto ligado à herança de um deles é embalada por uma trilha melancólica, paisagens tristes, festas cheias de momentos de silêncio e muitos olhares. Essa embalagem tem uma construção delicada e até funciona, mas culmina no grande lugar comum do encontro entre dois amigos bêbados. O resultado é um filme bonito, que certamente vai criar uma empatia com o público jovem, mas que poderia ser bem mais ousado em vez de apenas seguir o plano inicial à risca.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 6

Campo Grande

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[Campo Grande, Sandra Kogut, 2015]

Há oito anos, numa Mostra de Cinema como esta aqui, a cineasta Sandra Kogut estreava na ficção com uma arriscada e acertada adaptação de Guimarães Rosa. Miguilim, um dos contos de Campo Geral, se transformou em Mutum, uma obra delicadíssima sobre a brutalidade do sertão para com quem ainda não tem idade para entender o mundo. À época, a diretora já revelava um enorme talento para dirigir uma criança. A interpretação do pequeno Thiago da Silva Mariz no filme é encantadora, dona de nuances impressionantes para quem ainda nem tinha chegado à adolescência. Demorou quase uma década para Sandra voltar à direção. E mais uma vez ela invade o universo infantil e revela não um, mas dois atores mirins. A primeira que aparece em cena é a belezinha Rayane do Amaral, que Kogut nos faz acreditar que vai ser a protagonista do filme, mas que depois de alguns minutos entrega o posto para Ygor Manoel, que faz seu irmão no filme. Como o Thiago de Mutum, Ygor também interpreta um Ygor. Ele e a irmã, meninos pobres, foram deixados pela mãe na porta de um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro. É lá onde mora Regina, personagem de Carla Ribas, uma mulher que começa a empacotar os móveis para deixar o lugar onde viveu durante muitos anos. Onde seu casamento começou e terminou e onde nasceu sua filha, que decidiu morar com o pai. O encontro dos meninos com Regina, um encontro filmado por Sandra Kogut com delicadeza, mas de maneira bastante realista é o que move Campo Grande. Se Thiago foi forçado a crescer diantes das agruras do Sertão no filme anterior da diretora, desta vez é Ygor que tem que encarar o mundo no meio da desesperança de uma cidade grande. A procura pela mãe, cheia de imprevisibilidades, é filmada com um olhar documental, graças ao trabalho de um dos maiores diretores de fotografia do país no momento, Ivo Lopes, que registra as ruas do Rio sem maneirismos. Um dos pontos fortes de Campo Grande é como Kogut conduz sua narrativa, sem se preocupar em amarrar cada momento desta procura pela mãe, sem fechar arestas ou desatar nós, sem a necessidade de didatizar a identificação entre a mulher e o menino, sem se render à tentação de deixar as duas crianças, treinadas pela preparadora de elenco Fátima Toledo, juntas o tempo todo. Carla Ribas talvez seja a grande atriz do ano, comovente em todas suas cenas. O filme é cheio de elipses e de pequenas histórias que não se completam, mas que não fazem falta ao propósito da diretora: registrar um Rio em obras (dos Jogos Olímpicos), uma mulher em reconstrução e dois meninos que querem apenas recomeçar suas vidas. A sequência final de Campo Grande aborta qualquer compromisso com um desfecho convencional. O filme se despede triste, mas feliz.

Desde Allá

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[Desde Allá, Lorenzo Vigas, 2015]

O desfecho de Desde Allá pode ter antecipado pelo espectador se ele começar a elencar possibilidades lá pelo meio do filme. Mas isso não diminui a força e a coerência do primeiro longa de Lorenzo Vigas, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em meio a vaias preconceituosas. O filme tem a produção do assumidamente fatalista cineasta mexicano Michel Franco, que também produziu a estreia de Gabriel Ripstein como diretor, 600 Milhas, e como o representante mexicano no Oscar de filme estrangeiro, Desde Allá não se deixa contaminar pelo pessimismo de seu financiador. O conto de Vigas sobre o homem que caça jovens pelas ruas de Caracas para serviços sexuais é pesado, triste e sombrio, mas parece amarrar todas essas características numa trama honesta consigo mesma do começo ao fim do filme. O chileno Alfredo Castro, dos filmes de Pablo Larraín, interpreta Armando, um homem de 50 anos que guarda mágoas nunca explicadas do pai que não vê há muito tempo e que volta a morar na cidade. Numa de suas tentativas de encontros sexuais, topa com Elder, um rapaz violento do subúrbio, uma cria das ruas e de uma família desestruturada. A violência passa a ser a base da relação entre os dois. Ela é a única forma de expressão que o jovem conhece e é ela que Armando busca. Vigas constrói esse duelo entre as personagens sempre como um embate duro, mas que abre espaço para que cada um demonstre suas fragilidades. O desfecho de Desde Allá pode até ser previsível, mas nunca deixa de fazer muito sentido.

Pardais

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[Sparrows, Rúnar Rúnarsson, 2015]

Existe uma cena, aliás, uma sequência de duas cenas, perto do final de Pardais que transforma o segundo filme do islandês Rúnar Rúnarsson. Até então, o vencedor da Concha de Ouro, prêmio máximo no Festival de San Sebastian, parecia mais um drama de coming of age (perda da inocência, numa tradução aproximada) sobre um adolescente filho de pais separados que precisa voltar a morar com o pai numa cidadezinha ao norte do país depois que a mãe decide se mudar com o marido. Rúnarsson tem uma mão boa para dirigir atores, mas os temas que encontra não são muito diferentes dos dramas que já vimos em dezenas de filmes: o vácuo entre filho e pai alcoólatra, o sentimento de não pertencimento, as rixas com os jovens da mesma idade, a descoberta do amor e do sexo, o primeiro emprego (com uma participação sem muito sentido do croata Rade Serbedzija). Uma Islândia de paisagens espetaculares ajuda a manobrar os lugares comuns em mais uma história de um garoto que começa a sentir a chegada da vida adulta. Porém, é na sequência próxima ao final, que poderia facilmente cair num maniqueísmo hollywoodiano bem em voga nos últimos tempos, mas que é belamente concebida e dirigida por Rúnarsson, que o diretor encontra uma maneira simples e fortíssima de falar sobre o amadurecimento de Ari. O menino não vira adulto depois da primeira vez que faz sexo ou quando perde um parente de quem gosta bastante (outra cena bonita), mas quando toma uma decisão difícil apenas para fazer o bem a outra pessoa. É quando Ari “vira homem” e quando sentimos orgulho dele.

Vulcão

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[Volcano, Rúnar Rúnarsson, 2011]

Sob o pretexto de fazer um Foco Nórdico, a 39ª edição da Mostra reprisa também o primeiro longa-metragem de Rúnarsson, que já havia sido exibido anos atrás. Se Pardais encontra suas delicadezas numa história cheia de clichês, Vulcão peca pelo excesso e pelo tom assumidamente pessimista. O filme que representou a Islândia na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro em 2010 é mais um daqueles exemplares do cinema nórdico que mostram como os vikings gostam de celebrar sua tristeza e desesperança. O protagonista é um velho rabujento que, no ocaso da vida, começa a passar por uma série de provações sem abrir mão de suas particularidades e excentricidades. Sofre bastante, muito mesmo. E o diretor parece celebrar esse sofrimento. A trama parece ter “inspirado” a história de Amor, de Michael Haneke, realizado um ano depois e muito mais celebrado, A realização é convicente e o casal de protagonistas, Theodór Júlíusson e Margrét Helga Jóhannsdóttir, bastante talentoso, mas o filme não consegue oferecer nada além do que este subgênero, “o filme de idosos”, não tenha nos mostrado ao longo dos últimos cento e tantos anos de cinema.

Paulina

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[La Patota, Santiago Mitre, 2015]

Paulina ganhou o prêmio da Semana da Crítica em Cannes muito por causa das polêmicas que alimenta em relação à violência sofrida por sua protagonista. Santiago Mitre, roteirista de três filmes de Pablo Trapero, sabe bem como levar os dilemas ao extremo, alimentando cada situação com uma postura discutível de sua protagonista, que ganhou uma ótima intérprete em Dolores Fonzi. Um dos pontos delicados do longa é quando percebemos o quanto Mitre é afeito a truques: ele abre o filme com uma discussão ideológica entre pai juiz e filha, que quer largar uma carreira promissora para fazer trabalhos sociais numa região pobre, afastada dos grandes centros. Esse dilema parece que vai estar na espinha dorsal da trama, mas Mitre transfere as discussões para uma questão mais impactante, a da violência sexual. Aborda todos os aspectos e tenta frustrar as expectativas do espectador com comportamentos e reações de Paulina. Um jogo um tanto maniqueísta, mas ainda assim interessante.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 5

Um Dia Quente de Verão

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[Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, Edward Yang, 1991]

Assistir a obra-prima de Edward Yang no cinema é uma das experiências máximas que um apaixonado por filme pode ter na vida. O diretor, que morreu prematuramente aos 50 anos, transformou a história real de um crime num mosaico maravilhoso da sociedade taiwanesa dos anos 60, uma sociedade formada por imigrantes da China continental que ainda procuravam seu lugar e sua identidade entre os nativos de uma ilha que ainda se dividia entre a democracia e o regime comunista. Como num daqueles quadros que ocupam paredes inteiras, Um Dia Quente de Verão emoldura não apenas a história de seu protagonista os movimentos de cada um a sua volta, numa rotina de observação que acompanha os passos do estudante Xiao Si’r e sua paixão pela colega de escola, Ming, que acontece em paralelo à violência das gangues os jovens taiwaneses buscavam, mesmo que sem muita consciência disso, segurança e liberdade de expressão, e ao envolvimento do pai em questões políticas. Os planos geralmente muito abertos tentam emoldurar tudo o que pode para traduzir um estado de tensão que cresce muito mais por causa da investigação silenciosa de Yang sobre a vida de Xiao Si’r e a situação do país do que necessariamente por causa de cenas nervosas, embora a sequência do massacre, realizada à meia-luz, seja assombrosa. Em meio a um punhado de personagens profundos, se destacam Gato, o menino cantor apaixonado por Elvis, que emociona em seus agudos de Are You Lonesome Tonight?, que empresta um verso para batizar o filme, e a própria Ming, um protótipo feminista que segue sua própria lógica e se move de acordo com o que quer e o que precisa.

Mate-me, Por Favor

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[Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira, 2015]

Não existe um adulto no mundo de Mate-me, Por Favor. Todos os atores em cena são adolescentes ou, quando muito, o irmão mais velho de uma adolescente. Em seu primeiro longa-metragem, Anita Rocha da Silveira realiza um impressionante mergulho nesse universo teen, realmente capturando a essência do jovem brasileiro, urbano, dos dias de hoje, objeto de estudo de diversos cineastas, mas pouquíssimos conseguem traduzi-los sem maniqueísmo. Os diálogos, os movimentos, os interesses, a confusão. Tudo parece muito genuíno no cinema de Anita, que mostra um excepcional talento para administrar espaços. Mate-me, Por Favor tem uma das fotografias mais instigantes do cinema brasileiro neste ano, cheio de fotografias instigantes. Consegue transformar o Rio de Janeiro, ou melhor, a Barra da Tijuca num ambiente de desolação, que funciona muito bem para estabelecer o suspense sensorial que parece ser um objetivo para a diretora, embora o crescimento urbano, que também parece estar no alvo, não fique tão bem inserido à trama assim. No entanto, Anita é uma ótima diretora de atores. Ou de atrizes. As quatro meninas são excelentes. O que incomoda um tanto é a transformação da protagonista. Os motivos estão ali, a percepção e a sedução da morte está ali, mas os simbolismos um tanto exagerados não funcionam com tão bem assim. A questão religiosa também é um problema porque o filme opera num naturalismo que se choca com o pastiche com que a diretora retrata a questão espiritual. Enfim, é preciso elaborar, mas a pura existência de uma mulher ensaiando um filme de terror, com tantos créditos, merece ser celebrada.

Autorretrato de uma Filha Obediente

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[Autoportretul unei Fete Cuminti, Ana Lungu, 2015]

Dos filmes romenos deste ano, Autorretrato de uma Filha Obediente pode não ser o melhor, mas é certamente o mais surpreendente (embora um western do leste europeu esteja na disputa). Surpreendente porque é dirigido por uma mulher, que entra num mundo bem fechado de Cornelius, Radus e Catalins, e oferece uma visão de mundo mais original e mais radical do que todos eles, e também por apresentar proposta diferente do que se espera do cinema romeno, onde geralmente se parte de um fato (um crime, uma proposta, um mistério) para se fazer uma observação do comportamento daquela sociedade. Ana Lungu concentra as coisas em sua protagonista, uma estudante que nunca vemos realmente estudar, que não trabalha, que sobrevive com a ajuda dos pais, mas se sente livre. Complexa e interessantíssima, sua história não segue um roteiro propriamente dito, mas uma sobreposição de cenas que não têm grande relação entre si, mas que aos poucos dizem para o espectador muito sobre quem é aquela mulher. Sua relação com o pai, um acumulador compulsivo de objetos culturais, renderia uma tese de doutorado, mas no filme rende os diálogos mais deliciosos, amorais e inteligentes diante da verborragia sarcástica do velho.

A Montanha Mágica

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[La Montagne Magique, Anca Damian, 2015]

Apesar de incrível esforço para realizar um filme que alterna diversas técnicas de animação, A Montanha Mágica funcionaria bem melhor se fosse uma curta ou talvez um média-metragem. Pinturas, gravuras, colagens, sobreposições, rabiscos e outra infinidade de técnicas ajudam a compor a saga de uma vida do alpinista Adam Jacek Winker. A cineasta romena Anca Damian se apropria dessas diversas possibilidades para dar ritmo e agilidade a seu filme e a combinação de estilos funciona como motor durante um bom tempo. Durante seus 90 minutos, o filme mostra que o polonês, radicado em Paris, foi ativista político por toda a Europa, mas se desencantou com seu país depois que viu a aprovação popular do Partido Solidariedade. Terminou encontrando refúgio no Afeganistão, onde se transformou num combatente de campo no conflito do país com a União Soviética, assumindo o lado afegão. A trajetória do protagonista é impressionante, mas à medida que ele vira um guerrilheiro radical, o filme, que passou por três estúdios para ser concluído, vai ficando cada vez mais cansativo e menos interessante e a criatividade no uso das técnicas de animação vira perfumaria. A cena final recupera a atenção, mas não a empolgação inicial com o projeto.

Armadilha

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[Taklub, Brillante Mendoza, 2015]

Os letreiros iniciais revelam que o novo filme de Brillante Mendoza foi patrocinado por um ministério, por um órgão ligado à presidência e até por um senador filipino. A desconfiança logo se confirma quando Armadilha começa a revelar a vida de risco de quem mora nas regiões litorâneas do país, que são frequentemente alvo de tufões e furacões. Somos apresentados a uma série de personagens que tiveram as vidas afetadas por tragédias relacionadas a essas catástrofes naturais: uma mulher da qual só vemos um dos filhos; três irmãos que perderam os pais; um homem que carrega literalmente uma cruz. Embora Mendoza tenha algum talento na composição de algumas cenas (outras são puras peças publicitárias), o sentimento que o filme desperta é de que todo o projeto é um filme de propaganda que serve como alerta para que as pessoas evitem áreas de risco, mesmo que em alguns momentos, Mendoza queira demonstrar independência, criticando a burocracia governamental. Faz um bom tempo desde que o filipino não faz um filme minimamente interessante. A boa forma não voltou com Armadilha.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 4

Boi Neon

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[Boi Neon, Gabriel Mascaro, 2015]

Num bate-papo pós-sessão, Gabriel Mascaro disse que um dos fundamentos do filme era criar expectativas para depois quebrá-las. Embora talvez esse não deve ser um objetivo, mas uma consequência, está nessa frustração de expectativas um dos maiores trunfos de Boi Neon, segunda ficção propriamente dita de Gabriel Mascaro. Propriamente dita porque seus documentários sempre circularam pela intersecção entre os dois gêneros, o que trouxe para seus roteiros ficconais uma naturalidade rara de se encontrar. A primeira grande negação de Mascaro é com o Nordestes idealizado. O filme nunca coloca seca, miséria ou a vida “pitoresca” do nordestino no centro da trama. Pelo contrário, isso praticamente não existe no filme, que se move em torno da personagem principal, um vaqueiro que sonha em ser costureiro, sem dar muita bola para as explicações ou os desdobramentos dessa situação. Iremar nunca tem a orientação sexual questionada. Por sinal, sua masculinidade é reforçada em vários momentos, seja na cena de sexo, seja na aliviada matinal, seja no banho coletivo. Mascaro examina o corpo de seu protagonista da mesma maneira que ele utiliza os corpos dos manequins que coleta para vestir suas criações. Juliano Cazarré está impecável: bruto e delicado ao mesmo tempo, com um sotaque pernambucano irrepreensível. Virou mesmo um grande ator. Ao seu lado, Maeve Jinkings interpreta uma caminhoneira sem trejeitos, discreta. O elo mais fraco do elenco é Vinícius Oliveira, que embora se esforce como o silencioso Junior raramente acerta no acento e fica apático durante a maior parte do filme. A quimíca entre o trio de atores profissionais com os dos vaqueiros que compõem o time principal de personagens é essencial para que Boi Neon funcione como um recorte de uma região que raramente consegue ser representada com tanto desprendimento.

Juventude Transviada

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[Rebel Without a Cause, Nicholas Ray, 1955]

O título original de Juventude Transviada, “Rebelde Sem Causa”, é injusto com seu protagonista. Jim Stark é um adolescente que não consegue dar conta de suas angústias tal como toda uma geração de jovens de meados dos anos 50, quando o pensamento americano começava a ensaiar uma grande transformação. Stark tinha não apenas uma, mas muitas causas para sua revolta: está no centro de uma família desestruturada; é o exemplo de uma juventude que busca respostas; é um garoto romântico demais para caber num mundo cada vez mais violento. Nicholas Ray captura esse incômodo tanto nas despropositadas lutas de faca e nos rachas perigosos quanto na agressividade com que Stark despeja contra sua família. Em James Dean, que aqui virou símbolo sexual, modelo de comportamento, espírito de um tipo de jovem americano, Ray encontrou a tradução mais fiel para este mundo em crise. O trabalho de restauração feito pela The Film Foundation ajudou a recuperar as cores e a intensidade do filme de Ray que ainda guarda uma outra performance espetacular. Como o tímido e furioso Plato, Sal Mineo entrega uma das interpretações mais comoventes do cinema, a de um adolescente “abandonado” pelos pais que encontra em Jim Stark, esperança, segurança e proteção. Dono de um desespero e de uma tristeza genuínos, é a personagem de Mineo que literalmente dá cabo ao filme, materializando toda aquela fúria contida.

Olmo e a Gaivota

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[Olmo e a Gaivota, Petra Costa & Lea Glob, 2015]

A câmera sempre está muito perto de Olivia e Serge. Eles são um casal de atores que trabalham juntos numa nova montagem do Théâtre du Soleil para A Gaivota, de Tchekhov. O filme registra os dois nos bastidores da peça e em casa, tanto quando descobrem que ela está grávida quanto quando contam a novidade para o resto do grupo, que decide afastar Olivia de uma turnê depois que ela sofre um sangramento. A câmera está lá também quando o casal discute porque Serge continua no projeto. E aí, então, entra uma voz que pede para que eles repitam a cena. Há alguns anos, Eduardo Coutinho investigou os limites da representação em Jogo de Cena, uma obra-prima sobre interpretação, encenação, verdade, mentira. Agora, Petra Costa invade o mesmo universo em Olmo e a Gaivota, um filme que navega entre o documentário e a ficção e entre o teatro e o cinema num fluxo invejável e com bastante humor. A virada do filme, o jogo de cena que revela a presença de alguém que pode estar interferindo no que o espectador viu até então, muda o pacto entre o que está na tela e quem está assistindo. Onde termina a realidade e começa a encenação? O fato de termos dois atores em cena e na berlinda confunde mais as coisas e deixa o enigma mais interessante. Petra Costa transita com muita naturalidade nos intervalos entre as possibilidades do filme, que deixa as decisões sabiamente para o espectador.

Ixcanul

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[Ixcanul, Jayro Bustamante, 2015]

Existe um certo conformismo dos países que não têm grande tradição cinematográfica com sua própria condição de exceção, como se o filme fosse uma anomalia que se justificasse unicamente por seu exotismo e suas particularidades étnicas. Jayro Bustamante gasta bastante tempo de seu filme situando o espectador, explicando a cultura que está mostrando para finalmente oferecer uma proposta além da pura antropologia, mas o diretor se diferencia pela maneira pouco usual com que constrói sua história, usando a câmera de forma inteligente e pensando em cada quadro. Ixcanul demora um pouco para acontecer e parece destinado a circular acerca das curiosidades dos remanescentes maias – é a língua falada no filme -, mas o longa consegue levar a história da menina que vai casar com um desconhecido aos pés do vulcão Ixcanul para um debate sociológico sobre a situação da Guatemala, a miséria e as condições de vida das populações indígenas e o tráfico humano. Tudo isso sempre com o foco nas personagens. Ponto para um país com uma história cinematográfica praticamente nula que encontrou a relevância olhando para dentro de si.

Para o Outro Lado

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[Kishibe no Tabi, Kiyoshi Kurosawa, 2015]

A relação da cultura japonesa com a morte é um universo à parte de possibilidades que dificilmente pode ser traduzido com fidelidade para quem tem um pensamento ocidental. Kiyoshi Kurosawa, que tem uma longa experiência com o fantástico, desta vez se aventura por um melodrama sobrenatural em que os mortos caminham entre nós. Mizuki é uma professora de piano tímida que recebe a visita do marido, desaparecido há três anos e que confessa estar morto. Juntos, os dois embarcam numa viagem em que irão visitar pessoas que passaram pela vida dele até que cheguem ao local onde os dois devem se despedir. Embora se passe todo no presente, Para o Outro Lado guarda semelhança com a animação As Memórias de Marnie, dos Estúdios Ghibli. Ambos passeiam pela relação entre vivos e mortos com delicadeza e naturalidade. Kurosawa adota um tom bem mais clássico do que seu habitual para explorar as histórias de fantasmas, perdas e arrependimentos que encontra pelo caminho. O contato da protagonista com as pessoas que abrigaram Yusuke ajuda a encontrar respostas para sua própria dor, sentimento que o diretor entrega aos poucos, explorando um cotidiano incrivelmente comum nas viagens do casal. Embora esse “romance espírita”, mal classificando, pareça bastante genuíno, faltou ao diretor uma assinatura mais forte, como em seu maior drama contemporâneo, o exemplar Sonata de Tóquio.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 3

A Terra e a Sombra

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[La Tierra y la Sombra, César Augusto Acevedo, 2015]

Existem pelo menos dois cinemas muito tentadores na América Latina: o cinema do exotismo, que explora a curiosidade do cotidiano de comunidades específicas, ainda isoladas ou simplesmente desconhecidas de boa parte do mundo, e o cinema social, que denuncia situações de exploração, subememprego e miséria. Esses subgêneros são tão atraentes que muitos cineastas desenham seus filmes unicamente de acordo com as regras e os padrões de um desses tipos de cinema, condenando-os a um lugar comum e confortável, sem se preocupar muito em desenvolver as personagens. Em A Terra e a Sombra, o colmbiano César Augusto Acevedo faz exatamente o contrário. A situação de exploração dos trabalhores nas plantações de cana de açúcar oferecem a base e o entorno para que um pequeno melodrama familiar se desenvolva. O filme começa com a volta de Alfonso para a casa que deixou há muitos anos, onde ficaram a mulher e o filho dele, que hoje é casado e pai de de um menino. A distância entre os integrantes daquela família vai diminuindo à medida que suas histórias vão se explicando. O roteiro sempre traz o aspecto social amarrado aos movimentos das personagens, mas nunca como protagonista da história. O humano interessa muito mais à câmera de Acevedo, um diretor estreante, do que as implicações políticas daquela situação e essa opção é mais política do que qualquer outra. A composição visual do filme é belíssima. Cada plano tem um sentido e um significado, cada movimento tem um propósito. Tudo parece estar examinar as relações entre homem e terra e entre pai e filho. O tom é solene em alguns momentos, como na queima do canavial ou na despedida do menino, o que tira um pouco do realismo duro do projeto, mas não compromete o conjunto. Os atores, treinados pela brasileira Fátima Toledo, entregam performances bem vivas, sobretudo as mulheres do elenco. Apostar nas personagens em detrimento à denúncia social foi o caminho mais digno para encontrar a humanidade naquele canavial colombiano.

Sindicato de Ladrões

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[On the Waterfront, Elia Kazan, 1954]

Sindicato de Ladrões é uma experiência completamente diferente do que se fazia no cinema até então. O filme é a primeira grande celebração do naturalismo no cinemão norte-americano, com todos os atores interpretando “gente do povo” como “gente do povo”. Marlon Brando comete uma das maiores interpretações da História, a maior de sua carreira. Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger e Eva Marie Saint seguem de perto. Mas o filme que vira uma denúncia sobre a ação criminosos dos sindicatos nos portos da América vai muito além do papel social. Kazan usa o filme como maneira de dar sua palavra sobre a delação, que move a trama central e pela qual ele foi crucificado por dedurar companheiros comunistas durante o macarthismo. O poder simbólico da sequência que encerra o filme é brutal. Pode conquistar ou repelir o espectador. Mas até ela chegar, Kazan filma com tanta maestria, cria cenas tão imponentes, como o discurso do padre no cais, ou tão simples como o beijo que leva o casal ao chão, com tanta delicadeza que transforma este filme num dos maiores já feitos pelo cinema norte-americano.

É o Amor

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[C'est L'amour, Paul Vecchiali, 2015]

Os protagonistas de É o Amor parecem embriagados. Encharcados de sentimentos tortos e conflituosos, nunca completamente explicados porque não existe muita regra para sentimentos. O contador, sua mulher, seu amante, o amante deste seu amante, todas as personagens do filme parecem completamente apaixonados, mas sem saber exatamente o que fazer com isto. Paul Vecchiali comanda o longa como maestro de uma melodia curta, encantadora e meio maluca, que brinca com a métrica e com a perspectivas das cenas. O diretor, um provocador por natureza, escolhe como uma das personagens principais um ator que teria ganho o César depois de fazer um filme sobre pegação gay, numa claríssima alfinetada ao recente Um Estranho no Lago. Talvez o cineasta não enxergue afeto no drama árido de Alain Guiraudie, talvez prefira encher seus protagonistas de sentimentos conflituosos que deixam seus passos menos prováveis, mais interessantes. Duas atrizes coadjuvantes roubam as únicas cenas em que aparecem: a mãe de Odile, cuja participação musical é encantadora, e a agente de Jean, num momento de comédia que enche o filme de esperança.

O Quarto Proibido

O Quarto Proibido EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Forbidden Room, Guy Maddin, 2015]

Guy Maddin nunca foi um cineasta despretensioso, mas este O Quarto Proibido é seu projeto mais ousado. Aliás, ousado é um adjetivo inadequado para uma experiência visual e sonora tão espetacular como esta. Maddin parece se estruturar em cima do conceito de pastiche: nada está ou aparece sozinho no filme. Para cada história que se sobrepõe a outra, existe muitos experimentos sensoriais. Cada cena é uma obra de arte isoladamente, onde o diretor muda a iluminação, usa filtros, sobreposições, modifica texturas, além da direção de arte, que já é impressionante e de tudo isso vir acompanhado por um trabalho estudadíssimo de som, trilha e efeitos visuais elaborados. O senão para o projeto é que, na tentativa de, talvez, deixar sua experiência mais palatável, Maddin adota um tom burlesco para a história e as interpretações (perdidos no elenco enorme estão Mathieu Amalric, Geraldine Chaplin), o que adiciona informações demais para o filme e deixa a sessão bem exaustiva.

Coração de Cachorro

Coração de Cachorro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Heart of a Dog, Laurie Anderson, 2015]

Laurie Anderson surpreende com um documentário-soneto sobre o mundo, a vida, a morte e uma cadelinha chamada Lollabelle. Uma costura difícil, mas que a compositora de O Superman, conduz com bastante graça, anotando observações sobre tudo o que está a sua volta. O documentário em primeira pessoa tem ecos do trabalho de Jonas Mekas, talvez sem o mesmo tom pitoresco, mas divaga igualmente para os assuntos mais abstratos e mais distantes do que vinha imediatamente antes. Animações, colagens, texturas mostram uma preocupação em fazer um trabalho sofisticado que poderia fazer sentido apenas para Laurie, mas que terminam criando uma fartura de pontos de identificação com o espectador. Embora abra o coração para falar de sua intimidade muitas vezes, incluindo sua relação distante com a mãe, a diretora nunca macula a imagem de seu companheiro, Lou Reed, que morreu há dois anos e que dividiu a vida com Laurie até os últimos dias.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 2

Dheepan

Dheepan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Dheepan, Jacques Audiard, 2015]

O mais interessante em Dheepan é a proposta de formar uma família com pessoas que não se conhecem. Homem, mulher e filha que nunca haviam se visto, mas que são forçados a fingir que são parentes para escapar de um Sri Lanka em guerra. O filme de Jacques Audiard realmente começa na França, para onde os três são levados depois da fuga e onde precisam manter a farsa para que suas identidades novas lhes ofereçam uma chance de reconstruir as vidas. Enquanto aponta a câmera para as dificuldades de adaptação do trio no novo país e um com o outro, o diretor cria um painel bem vivo de como a luta pela sobrevivência pode transformar as pessoas, mas quando amplia seu foco para fazer um “cinema social”, as coisas mudam. Dheepan pertence a um “gênero” de filmes que o cinema francês estabeleceu há algumas décadas e que produz aos montes: o filme de imigrantes. A ideia de comover o espectador com os percalços do três protagonistas diante de um país hostil a eles é antiga, mesmo que o tom utilizado seja mais realista do que melodramático. A França onde a família montada foi parar é uma França de gângsters, de pobreza e de violência. Audiard não faz muito esforço para encontrar uma personalidade para o filme, que se confunde com outros tantos, a não ser pela questionável sequência final, inspirada pelos “heróis da vida real” do cinema americano ou não, mas tão esquisita ao corpo do filme que pode até ser lida como um devaneio necessário para sobreviver. Quando mira no micro, Audiard é feliz. Quando passa para o macro, o cinema de gênero vira cinema genérico.

Aconteceu Naquela Noite

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[It Happened One Night, Frank Capra, 1934]

Em toda sua história, o cinema nos presenteou com casais inesquecíveis, mas poucos tiveram a mesma química que a de Clark Gable e Claudette Colbert em Aconteceu Naquela Noite. Frank Capra coloca os atores num duelo de egos que dura a maior parte do filme e permite cenas de incrível sarcasmo, como aquela em que os dois dormem sob o mesmo teto, separados por um lençol, “a Muralha de Jericó″, e outras de profunda doçura, como o momento sobre o feno. Gable não faz um herói romântico clássico, afinal ele é um jornalista e quer a história sobre a filha do milionário que fugiu para encontrar o amante, e a “mocinha rica e mimada” de Colbert desaba depois de algumas cenas, suficientes para que o conflito se estabeleça. Capra ambienta sua história de amor agridoce num país ainda falido depois da Queda da Bolsa, com golpes, trapaças e praticamente todos os coadjuvantes lembrando do caos financeiro em cenas que parecem menores, mas que ajudam a dar um tom mais realista ao filme. Há muitas cenas antológicas, como a que Gable aparece de peito nu, que, reza a lenda, teria levado a indústria de camisas de baixo à falência, ou a mais clássica, em que Colbert mostra a perna para conseguir uma carona. A sequência final é especialíssima porque nos últimos 10 ou 15 minutos do filme, os protagonistas não parecem juntos, mas nós sabemos exatamente o que aconteceu com os dois.

Nômade Celestial

Nômade Celestial EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sutak, Mirlan Abdykalykov, 2015]

Nômade Celestial é um filme sobre heranças e tradições. O diretor Mirlan Abdykalykov, em seu primeiro trabalho, parece perguntar até onde existe a responsabilidade de carregar o peso do passado e dar continuidade ao trabalho dos ancestrais. Shaiyr vive num vale encrustrado entre as montanhas do Quirguistão, um lugar tão isolado quanto incrivelmente bonito. Mora com os pais do marido morto há alguns anos e com a filha pequena. Seu filho mora e estuda na cidade mais próxima e visita a tenda onde vive a mãe, a irmã e os avós. A família nômade cria cavalos e o único vizinho é o “vagabundo”, segundo a sogra de Shaiyr que trabalha com previsão do tempo e que tem uma queda por ela. Sutak, título original de Nômade Celestial, é uma lenda que fala sobre uma mulher que mora com os sogros e é transformada em pássaro depois de ser vista ao lado de outro homem. O filme parece atualizar o mito, entregando a Shaiyr o papel da mulher pé no chão, aos sogros a função de alimentar as tradições e a pequena Umsunai, de 7 anos, a missão de flutuar sobre esses universos tão distantes. Abdykalykov costura com delicadeza e muita segurança na direção esta história tão parecida com tantas outras. Quando ele era uma criança, foi o protagonista de O Filho Adotivo, dirigido pelo pai dele e exibido, na edição de 1998 da Mostra de Cinema de São Paulo.

Lo Que se Lleva el Río

Lo Que se Lleva el Río EstrelinhaEstrelinha
[Dauna. Lo que lleva el Río, Mario Crespo, 2015]

Mario Crespo acerta algumas boas vezes em Lo Que Se Lleva el Río: cria um conto feminista sobre uma mulher que enfrenta as tradições de seu povo e da Igreja Católica para colocar sua sede de conhecimento em prática e dá voz aos warao, a tribo que vive em palafitas no delta do Rio Orinoco, o que garante um cenário exuberante e diferente. O grande problema é que Crespo é bem quadrado na maneira de contar esta história, um melodrama bem fiel aos padrões hollywoodianos de reviravoltas e idas e vindas no tempo. E os lugares comuns não param por aí: as cores esmaecidas indicam um presente mais “real” e o filme guarda uma dose de exotismo, simpática ao mercado internacional, dando vida a fábulas em forma de animações, bonitas, mas meio clichês e mal amarradas à trama. A encenação é funcional na maior parte do filme, mas a falta de experiência do elenco (e uma certa mão pesada do diretor) não ajuda(m) numa das cenas mais cruciais do filme, quando a protagonista, Dauna, briga com o marido. Curioso, mas limitado.

O Cidadão

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[Obywatel, Jerzy Stuhr, 2014]

Jerzy Stuhr é um dos atores mais conhecidos da Polônia. Trabalhou com Kieslowski e Nanni Moretti e também se aventurou como cineasta um punhado de vezes. Em O Cidadão, assume as funções de protagonista, roteirista, produtor, além de dirigir o filme, uma espécie de “tragédia de um homem ridículo” que atravessa algumas décadas de história de seu país. Stuhr tenta dar a sua personagem ares de “Forrest Gump”, substituindo as coincidências pelo azar para colocá-los em momentos importantes da política polonesa, mas não consegue encontrar muito bem o tom para casar sua crônica com uma comédia de humor negro que não acerta muito bem no alvo. Para tentar dar agilidade ao filme, adota uma cronologia do acaso para voltar aos momentos cruciais da vida do protagonista, que coloca em mais situações absurdas do que uma história comum poderia conter. Exagera no tom, acerta na boa intenção. Sua reflexão fica pela metade.

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