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Top 10: os piores filmes de 2014

Se 2014 trouxe para nosso circuito um farto número de bons filmes, o outro lado da Força também não deu descanso. Obras pretensiosas ou realizadas sem recurso, atores mal escalados e dramalhões que deixaram escapar suas melhores possibilidades. Muita coisa poderia ter sido melhor no mundo do cinema neste ano e nomes como Johnny Depp, Ryan Reynolds e Juliette Binoche estão entre os culpados por isso.

Veja também minha lista com os 20 melhores filmes de 2014
Os favoritos dos leitores do Filmes do Chico em 2014
E os filmes mais superestimados de 2014

O Espetacular Homem-Aranha - A Ameaça de Electro

10 O Espetacular Homem-Aranha – A Ameaça de Electro
[The Amazing Spider-Man 2, Mark Webb, 2014]

Esse segundo capítulo do reboot do aracnídeo nos cinemas é tão sem graça que a Sony está considerando mudar tudo de novo ou fazer parceria com a Marvel. O vilão Electro não emplacou e o segundo vilão, Rhino, muito menos. Emma Stone foi o único grande acerto desta nova franquia.

Um Conto do Destino

9 Um Conto do Destino
[Winter's Tale, Akiva Goldsman, 2014]

Resgatar filmes românticos em aventuras fantásticas não é problema nenhum, mas a estreia do roteirista Akiva Goldsman como cineasta não funcionou muito bem. Colin Farrell não convence, Jessica Brown Findlay não diz a que veio e a a adaptação da novela de Mark Helprin não encontra um equilíbrio entre suas travessuras lúdicas e alguma substância.

Mil Vezes Boa Noite

8 Mil Vezes Boa Noite
[Tusen Ganger God Natt, Erik Poppe, 2013]

Se o norueguês Erik Poppe quis fazer um dramalhão, acertou em cheio. Juliette Binoche vive uma fotógrafa ativista que tem escolher entre o trabalho e a família, o que gera uma DR que dura o filme inteiro. Os dramas são os mesmos de sempre e o fato do filme ser falado em inglês indica que a ideia era não apenas fazer carreira internacional como – quem sabe? – mirar no Oscar.

Vermelho Brasil

7 Vermelho Brasil
[Rouge Brésil, Sylvain Archambault, 2012]

Os atores estão a serviço da exploração do exótico, do paraíso tropical, e para isso não se poupa, mas a direção de arte, caprichada, não sustenta o filme. A trama “mexicana” acompanha dois irmãos que se infiltram numa missão ao Brasil em busca do pai desaparecido. A solução, talvez pela truncagem da versão para cinema, talvez pela inabilidade do roteiro, fica até engraçada.

Jogo de Xadrez

6 Jogo de Xadrez
[Jogo de Xadrez, Luis Antonio Pereira, 2014]

Tudo o que deu certo em O Lobo Atrás da Porta, deu errado aqui: a tentativa de fazer cinema de gênero, de costurar uma trama de suspense, de manter os elementos do thriller, esbarra numa certa incompetência mesmo. A maquiagem exagerada de Priscilla Fantin confunde o espectador, que se prepara para um filme de terror. Não que não seja.

Transcendence

5 Transcendence – A Revolução
[Transcendence, Wally Pfister, 2014]

A estreia de Wally Pfister, fotógrafo dos filmes de Christopher Nolan, como cineasta deu errado. Além de ser difícil comprar a trama desta ficção-científica (mais uma com cientista louco), Johnny Depp está particularmente ruim no longa. Alguns efeitos especiais funcionam, mas agüentar um filme tão chato até o final é um belo sacrifício.

Frankenstein - Entre Anjos e Demônios

4 Frankenstein – Entre Anjos e Demônios
[I, Frankenstein, Stuart Beattie, 2014]

Stuart Beattie desgraçou o personagem dos quadrinhos com uma adaptação pobre e porca de Eu, Frankenstein. Se Aaron Eckhart, apesar de mal escalado, se esforça para encontrar uma linha para o protagonista, tudo ao seu redor é tão mambembe que fica impossível comprar a história, os atores, os cenários e, principalmente, os efeitos visuais.

A Menina que Roubava Livros

3 A Menina que Roubava Livros
[The Book Thief, Brian Percival, 2013]

Tem uma cena de morte neste filme que deixa a “despedida” de Marion Cotillard no terceiro Batman no chinelo. E essa cena reflete o que o longa de Brian Percival, saídos dos diálogos outrora ricos de Downtown Abbey, tem de pior: tudo existe em função do dramalhão. Faria um lindo programa triplo com O Caçador de Pipas e O Menino do Pijama Listrado.

Miss Violence

2 Miss Violence
[Miss Violence, Alexandros Avranas, 2013]

Um dos piores “gêneros” do cinema é esse que supostamente quer revelar os limites da maldade humana. Alexandros Avranas adiciona a carga da recente cinematografia grega à mistura, criando um espetáculo de tortura psicológica com revelações cada vez mais terríveis em sequência. Tudo meio gratuito, pelo prazer de chocar, pela necessidade de chamar atenção.

À Procura

1 À Procura
[The Captive, Atom Egoyan, 2014]

Um policial rocambolesco com um roteiro que persegue um tom poético, mas que só encontra o risível em várias situações, desde a relação estabelecida entre sequestrador e sequestrada até a maneira “macabra” que Egoyan impõe para denunciar um maquiavélico esquema de pedofilia. O grandalhão Kevin Durand tem uma personagem patética, tentando emular psicopatas débeis. É possivelmente o pior casting do ano. A trilha sonora ofensiva insiste em divulgar um suspense cansado e a discussão central parece ficar sempre num plano flutuante, sem nunca ter muito compromisso com algo mais palpável.

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Top 10 atores que ganharam o Oscar

No fim das contas, tirei da lista Daniel Day-Lewis, por Meu Pé Esquerdo, e Gregory Peck, por O Sol é para Todos, mas a relação com meus dez atores favoritos entre os vencedores do Oscar de protagonista só tem interpretação que eu adoro. Esta é uma das categorias em que mais a Academia acertou.

10 Gary Cooper, por Matar ou Morrer
[High Noon, Fred Zinnemann, 1952]

9 William Holden, Inferno Nº 17
[Stalag Nº 17, Billy Wilder, 1953]

8 Fredrich March, O Médico e o Monstro
[Dr. Jekyll & Mr. Hyde, Rouben Mamoulian, 1931]

7 James Stewart, Núpcias de Escândalo
[The Philadelphia Story, George Cukor, 1940]

6 Marlon Brando, O Poderoso Chefão
[The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972]

5 Jack Nicholson, Um Estranho no Ninho
[One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman, 1975]

4 Robert De Niro, Touro Indomável
[Raging Bull, Martin Scorsese, 1980]

3 Anthony Hopkins, O Silêncio dos Inocentes
[The Silence of the Lambs, Jonathan Demme, 1991]

2 Daniel Day-Lewis, Sangue Negro
[There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson, 2007]

1 Marlon Brando, Sindicato de Ladrões
[On the Waterfront, Elia Kazan, 1954]

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Top 10 atrizes que ganharam o Oscar

O desafio foi fuçar o baú da Academia e apontar quais das mais de 80 atrizes que ganharam o Oscar de protagonista são as minhas favoritas. Separei dez, sacrificando algumas performances que adoro. Junto das minhas escolhidas, os vídeos do momento em que elas receberam o prêmio. Deixem nos comentários as favoritas de vocês.

10 Diane Keaton, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
[Annie Hall, Woody Allen, 1977]

9 Jane Fonda, Klute – O Passado Condena
[Klute, Alan J. Pakula, 1971]

8 Holly Hunter, O Piano
[The Piano, Jane Campion, 1993]

À Meia-Luz

7 Ingrid Bergman, À Meia-Luz
[Gaslight, George Cukor, 1944]

6 Jessica Lange, Blue Sky
[Blue Sky, Tony Richardson, 1994]

5 Kathy Bates, Louca Obsessão
[Misery, Rob Reiner, 1990]

4 Louise Fletcher, Um Estranho no Ninho
[One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman, 1975]

3 Frances McDormand, Fargo
[Fargo, Joel Coen, 1996]

Uma Rua Chamada Pecado

2 Vivien Leigh, Uma Rua Chamada Pecado
[A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951]

1 Meryl Streep, A Escolha de Sofia
[Sophie's Choice, Alan J. Pakula, 1982]

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100 cineastas elegem seus 10 filmes favoritos de todos os tempos

A cada dez anos, a revista inglesa Sight & Sound renova sua enquete sobre os melhores filmes de todos os tempos, iniciada em 1962. São produzidas duas listas: uma é resultado da votação de críticos; a outra sai das relações de centenas de cineastas. A última enquete foi publicada no ano passado e contou com os votos de 358 diretores das mais variadas origens, idades e históricos. Pesquei do site da revista as listas pessoais de 100 deles (traduzi todos os títulos para as versões brasileiras), de grandes nomes do cinema norte-americano, como Woody Allen e Quentin Tarantino, a autores asiáticos como Tsai Ming-Liang e Hirokazu Kore-eda. Alguns brasileiros que foram consultados também estão aqui, como Walter Salles e Tata Amaral.

Nas listas, algumas curiosidades: Francis Ford Coppola escolheu dois filmes de Martin Scorsese entre seus dez favoritos, mas o colega não lembrou de nenhum filme dele. Bruce LaBruce, famoso por seus filmes com cenas de sexo explícito, citou filmes de Pasolini e Godard. Terry Jones, do Monty Python, elegeu Toy Story 3 e o diretor de Superbad, Greg Mottola, defendeu 2001. Matthew Vaughn, de X-Men: Primeira Classe, foi de Rocky III, enquanto Michael Mann abraçou Avatar e Biutiful. O argentino Lisandro Alonso votou no tailandês Apichatpong Weerasethakul que votou no húngaro Béla Tarr. Veja as listas dos diretores no original, em inglês, aqui.

Os dez filmes favoritos dos cineastas foram estes:

1 Era uma Vez em Tóquio
[Tokyo Story, Yasujiro Ozu, 1953]

2 2001 – Uma Odisseia no Espaço
[2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968]

2 Cidadão Kane 
[Citizen Kane, OrsonWelles, 1941]

4 8 ½
[8 ½, Federico Fellini, 1963]

5 Taxi Driver
[Taxi Driver, Martin Scorsese, 1976]

6 Apocalypse Now 
[Francis Ford Coppola, 1979]

7 O Poderoso Chefão
[Francis Ford Coppola, 1972]

7 Um Corpo que Cai 
[Vertigo, AlfredHitchcock, 1958]

9 O Espelho
[Zerkalo, Andrey Tarkovsky, 1974]

10 Ladrões de Bicicletas
[Ladri di Biciclette, Vittorio De Sica, 1948]

Abaixo as listas individuais de 100 cineastas:

Armadilha do Destino

Abel Ferrara
de Maria

Armadilha do Destino [Roman Polanski, 1966]
Os Demônios [Ken Russell, 1971]
Gaviões e Passarinhos [Pier Paolo Pasolini, 1966]
Prisão [Ingmar Bergman, 1949]
Lolita [Stanley Kubrick, 1962]
Os Esquecidos [Luis Buñuel, 1950]
Ran [Akira Kurosawa, 1985]
A Marca da Maldade [Orson Welles, 1958]
Uma Mulher sob Influência [John Cassavetes, 1974]
Zero de Conduta [Jean Vigo, 1933]

Agnieszka Holland
de Filhos da Guerra

Barry Lyndon [Stanley Kubrick, 1975]
Diamonds of the Night [Jan Nemec, 1964]
Fanny & Alexander [Ingmar Bergman, 1982]
Caché [Michael Haneke, 2005]
Marketa Lazarová[Frantisek Vlácil, 1967]
O Espelho [Andrei Tarkovsky, 1974]
Odd Man Out [Carol Reed, 1947]
A Rainha Margot [Patrice Chereau, 1994]
Sangue Negro [Paul Thomas Anderson, 2007]
Trono Manchado de Sangue [Akira Kurosawa, 1957]

Aki Kaurismäki
de O Homem Sem Passado

A Idade do Ouro [Luis Buñuel, 1930]
O Atalante [Jean Vigo, 1934]
Ladrões de Bicicletas [Vittorio de Sica, 1948]
Boudu Salvo das Águas [Jean Renoir, 1932]
Em Busca do Ouro [Charles Chaplin, 1925]
Meu Tio [Jacques Tati, 1958]
Nanook, o Esquimó [Robert J. Flaherty, 1922]
Aurora [F.W. Murnau, 1927]
Era uma Vez em Tóquio [Yasujiro Ozu, 1953]
Z [Costa-Gavras, 1969]

Alejandro Agresti
de Valentín

Se Meu Apartmento Falasse [Billy Wilder, 1960]
O Segredo das Joias [John Huston, 1950]
Os Melhores Anos de Nossas Vidas [William Wyler, 1946]
Cidadão Kane [Orson Welles, 1941]
O Pecado de Cluny Brown [Ernst Lubitsch, 1946]
Hannah e Suas Irmãs [Woody Allen, 1986]
Ainda Há Fogo Sobre as Cinzas [Jack Lemmon, 1971]
Trágico Amanhecer [Marcel Carné, 1939]
Rio Vermelho [Howard Hawks, 1947]
Almas em Chamas [Henry King, 1949]

Amos Gitai
de Kadosh

O Dinheiro [Robert Bresson, 1983]
Alemanha Ano Zero [Roberto Rossellini, 1948]
O Desprezo [Jean-Luc Godard, 1963]
Os Desajustados [John Huston, 1961]
A Sala de Música [Satyajit Ray, 1958]
O Fundo do Coração [Francis Ford Coppola, 1982]
Depois do Vendaval [John Ford, 1952]
Saló ou os 120 Dias de Sodoma [Pier Paolo Pasolini, 1975]
Paixões que Alucinam [Samuel Fuller, 1963]
O Garoto Selvagem [François Truffaut, 1969]

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Top 10: Pedro Almodóvar

Sessenta e quatro anos de idade, trinta e nove anos de carreira. Pedro Almodóvar, que me perdoe Luis Buñuel, é o diretor espanhol mais conhecido da história do cinema. Sabe, como ninguém, costurar o melodrama e humor ácido. É a voz do cinema latino. Revelou Antonio Banderas, Carmen Maura, Marisa Paredes, consolidou Javier Bardem e Penélope Cruz. Em seus anos de estrada, cometeu alguns tropeços, com Má Educação, mas entregou um punhado de pérolas e algumas obras-primas. Hoje, dia do aniversário do cineasta, o Filmes do Chico elenca seus dez melhores filmes.

Labirinto de Paixões

10 Labirinto de Paixões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Laberinto de Pasiones, 1982]

Segundo filme do diretor, Labirinto de Paixões não tem pudores. Sem o peso de ser um grande mestre do cinema, Almodóvar se permitia completamente. Conta uma história absolutamente nonsense com um sarcasmo delicioso. Um filme livre de qualquer amarra com um elenco comandado pela maravilhosa Cecilia Roth, como uma ninfomaníaca que contracena com os personagens mais absurdos. O filme é da época em que o diretor não tinha vergonha de nada, nem de ser escatológico.

Matador

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[Matador, 1986]

Matador é um filme à parte na obra de Almodóvar. Talvez seja o longa mais masculino do diretor; talvez seja seu trabalho mais obscuro. O cineasta subverte o filme de serial killer com um protagonista que é um ex-aprendiz de toureiro e assume os crimes de seu mentor como se a transferência de personalidade curasse seu fracasso profissional. Almodóvar associa as mortes dos touros, as conquistas do assassinos e os assassinatos em si de forma ousada, tendo a religião como um fio condutor que nem sempre esteja em primeiro plano.

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos

8 Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, 1988]

A revisão revelou algumas fragilidades – talvez se o melodrama fosse tão rasgado quanto a comédia o filme funcionasse ainda melhor -, mas o primeiro grande sucesso internacional de Almodóvar continua sendo uma experiência deliciosa. Carmen Maura lidera um elenco feminino impecável, com destaque para Julieta Serrano, completamente despirocada como a esposa traída, e Rossy De Palma, que acentua o pacote “exótico” do filme. As piadas estão no lugar certo e o kitsch de sempre ganha um toque estilizado. Impossível não embarcar naquele táxi de oncinha.

Ata-me!

7 Ata-me EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Atame!, 1990]

Ata-me! talvez seja a maior história de amor da carreira de Pedro Almodóvar. E uma história de amor segundo este cineasta precisa de um casal de protagonistas como uma atriz pornô e um sequestrador obcecado. O amor romântico de Almodóvar tem por base instintos selvagens, desejos exacerbados, histrionismo, violência, lascívia e sexo, muito sexo. Victoria Abril e Antonio Banderas parecem tomados, possuídos e cheios de tesão. Um filme de amor físico que só Almodóvar poderia fazer.

Maus Hábitos

6 Maus Hábitos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Entre Tinieblas, 1984]

A maior blasfêmia de Pedro Almodóvar e um de seus filmes mais deliciosos. Nunca o diretor foi tão amoral e tão sem pudores e limites. Embora tenha tido que dar o papel de protagonista para a fraca Cristina S. Pascual em troca do dinheiro para fazer o longa, Maus Hábitos, mesmo sem a maturação dos filmes mais recentes, transbordava uma anarquia legítima. Estamos num convento em que as freiras, cada uma a seu modo, vivem suas perversões. Almodóvar escracha com a Igreja Católica na base do deboche. Mais libertário, impossível.

A Pele que Habito

5 A Pele que Habito EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Piel que Habito, 2011]

O filme começa remetendo ao cinema de horror europeu dos anos 60. A boa notícia mesmo é que Almodóvar perdeu o medo do ridículo e prova isso logo nos primeiros minutos do filme, com o personagem do Tigre, que recupera o escracho que o diretor tinha perdido há tempos. A maneira como o roteiro constrói o personagem central é um trabalho de um refinamento impressionante, embora, numa visão mais rasa, por sua própria natureza, possa parecer exatamente o contrário. Há tempos que o cinema não acompanhava as transformações de um personagem tão intima e despudoradamente.

A Lei do Desejo

4 A Lei do Desejo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Ley del Deseo, 1987]

A Lei do Desejo coroa a primeira fase do cinema de Almodóvar. É, entre seus filmes mais antigos, o mais complexo e conceitual, e aquele que abertamente assume a temática homossexual. O cineasta invade este universo em dois personagens, dois irmãos, ambos gays. Eusebio Poncela é o diretor de filmes e peças engajado com o movimento, que se envolve com um homem mais jovem, e Carmen Maura, numa escolha ousada, é a travesti vítima de abuso do pai. Cenas de sexo ousadas, humor afiado e uma história de crime seguem lado a lado, como se o cineasta assumisse os riscos das escolhas de seus personagens.

Fale com Ela

3 Fale com Ela EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha 
[Hable con Ella, 2002]

Fale com Ela é provavelmente o filme mais bem dirigido de Pedro Almodóvar. Uma obra que refina as conquistas de seus dois longas anteriores, mas que mantém preservado o lado provocador do cineasta. É um filme sobre amor, mas é um filme doentio sobre amor, da mesma maneira que Ata-me! também é um filme doentio sobre amor. O personagem de Javier Cámara, excelente, é extremamente incômodo por guardar em si dois lados tão radicalmente opostos. É apaixonante e repulsivo. Nunca Almodóvar tinha feito um protagonista tão paradoxal, razão pela qual talvez seus outros grandes filmes pareçam maiores.

Tudo Sobre Minha Mãe

2 Tudo Sobre Minha Mãe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Todo Sobre Mi Madre, 1999]

O filme mais universal do cineasta sobre o sentimento mais universal de todos, a maternidade. E também sobre tantas outras coisas. Tudo Sobre Minha Mãe, como coração de mãe, abraça tudo: referências cinematográficas, teatrais, travestismo e a dor do luto. Cecilia Roth, em estado de graça, parte numa jornada em busca do pai de seu filho morto. Comanda um elenco feminino em que cada grande atriz (Paredes, Cruz, San Juan, Sardá) empresta uma perspectiva para a homenagem do cineasta às mulheres, seu maior objeto de estudo, sua paixão desde as mais priscas eras, a casa e a mãe de seu cinema.

Carne Trêmula

1 Carne Trêmula EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Carne Tremula, 1997]

Das fase mais celebrada de Pedro Almodóvar, Carne Trêmula é o filme menos lembrado. Talvez por ter elementos de outros gêneros além do melodrama, por parecer menos puro ou menos “concentrado”, mas a adaptação que o espanhol faz do livro de Ruth Rendell parece ser um resumo de toda sua obra. Ali estão os exageros e a liberdade de seu cinema inicial e ali a estilização e o amadurecimento de suas obras mais elogiadas, que têm um carinho especial com os personagens. Aqui, Angela Molina é uma homenagem às mulheres de Almodóvar. Aqui, Javier Bardem é o macho que nunca encontrou espaço em seus filmes. Há uma pequena cena, belíssima, em que Francesa Neri passa por Bardem e, impactada, com a imagem daquele homem se vira em câmera lenta para observá-lo. Um momento mínimo, quase imperceptível, mas que anuncia uma cineasta diferente, que mesmo diante de uma protagonista irresponsável, acredita em algo maior.

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Top 10: os melhores filmes de casas mal assombradas de todos os tempos

Os filmes de terror têm uma realeza: os longas estrelados por casas mal assombradas assustam a humanidade desde que o cinema é cinema, mexem com instintos, torturam os mais fracos, empolgam os mais fortes, lidam com o maior dos medos, o medo do desconhecido. Na esteira de Invocação do Mal, belo filme de casa mal assombrada que estreia nesta sexta-feira, o Filmes o Chico lista os dez melhores filmes de casas mal assombradas que o cinema já produziu. Há clássicos antigos e filmes mais recentes. O único critério foi ser realmente assustador.

A Cidade do Horror

10 A Cidade do Horror ou Terror em Amityville EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Amityville Horror, Stuart Rosenberg, 1979]

A história de A Cidade do Horror é clássica: uma família se muda para uma casa onde aconteceu uma tragédia misteriosa. O filme mostra esse evento logo no início para em seguida narrar a chegada dos novos moradores, que conheciam o fato, mas preferiram economizar e começam a passar por poucas e boas. Embora hoje assuste menos do que fez épocas atrás, há dois pontos que permanecem excelentes até hoje: a interpretação de James Brolin, cujo personagem entra num processo parecido com o de Jack Torrance em O Iluminado, e a macabra trilha sonora de Lalo Schifrin, que concorreu ao Oscar. O longa, que rendeu dez continuações ou remakes, se baseia num caso real, um dos inúmeros investigados pelo casal Ed e Lorraine Warren, os mesmos cuja experiência está relatada em Invocação do Mal.

A Sétima Vítima

9 A Sétima Vítima EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Darkness, Jaume Balagueró, 2002]

Este filme, lançado diretamente em home video no Brasil, quase passou despercebido, mas é um dos melhores filme de terror do início da década passada. O diretor Jaume Balagueró, mais conhecido por seu trabalho em [REC], garante um clima envelhecido que funciona muitíssimo bem. Não fosse uma seqüência didática que tem a missão de explicara as coisas, merecia mais elogios por sua capacidade de criar o que todo filme do gênero deveria, bons sustos, utilizando muitas vezes apenas a sugestão. E, nas outras, invadindo a praia do ocultismo, algo naturalmente assustador, e que já rendeu belos filmes de terror. Balagueró ainda cria um interessantíssimo jogo de luz e escuridão que aumenta as potencialidades do longa.

Sobrenatural

Sobrenatural EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Insidious, James Wan, 2011]

Dirigido pelo mesmo James Wan de Invocação do Mal, este longa recuperou o clima aterrorizante dos filmes de espíritos. Sobrenatural é uma espécie de homenagem aos longas de terror dos anos 70 e 80 que passeavam por casas assombradas e colocavam os personagens frente ao desconhecido. E o filme faz isso da maneira mais simples e eficiente possível. Os criadores usam os elementos mais clássicos do gênero (vozes macabras, aparições na janela e vultos pela casa) sem chances para que o espectador pare para respirar. E não se trata de velocidade, mas intensidade. O diretor se arrisca muitas vezes nesse processo, mas, exceto pela cena em que o protagonista chega ao covil do inimigo, tudo se encaixa direitinho. O resultado é um assombro. De verdade.

A Casa da Noite Eterna

7 A Casa da Noite Eterna EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Legend of Hell House, John Hough, 1973]

Certamente um dos melhores filmes de casa mal assombrada já feitos. Richard Matheson, mestre do fantástico, adaptou sua própria novela e John Hough soube criar cenas realmente assustadoras a partir dela, sobretudo na primeira metade do filme, como o ataque ao físico na sala de jantar e todas as cenas envolvendo a personagem de Pamela Franklin, uma jovem médium amalucada, no quarto. Por sinal, a própria escolha de Pamela deixa clara a intenção dos produtores: ela é a menina da mansão assombrada de Os Inocentes, que também aparece nesta lista. Pamela e Roddy McDowall, um dos atores mais legais dos anos 70, são os destaques do elenco. O filme perde o ritmo no final com muita explicação, mas até lá faz o que todo bom filme de terror deveria fazer: recicla nosso medo do desconhecido e assusta para valer.

Desafio ao Além

6 Desafio ao Além EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Haunting, Robert Wise, 1963]

A refilmagem, A Casa Amaldiçoada, não chega aos pés do longa original, dirigido pelo mesmo Robert Wise que dois anos antes fez Amor, Sublime Amor, e dois anos depois, dirigiu A Noviça Rebelde. O preto-e-branco ajuda a dar realismo à história do homem que faz experiências com fantasmas e encontra numa mansão com um histórico de mortes um lugar perfeito para suas pesquisas. Os personagens são muito bem desenhados, mas o destaque é a médium Eleanor, interpretada por uma ótima Julie Harris, que dá aos experimentos um tom realista que é assustador. O trabalho de som do filme transforma as insinuações numa possibilidade real e a direção de arte cria um ambiente onde parece que tudo pode acontecer. Este filme, junto com Os Inocentes, rodado dois anos antes, ajudou a definir a estética e as “regras” dos filmes de casas mal assombradas.

os Outros

5 Os Outros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Others, Alejandro Amenábar, 2001]

O espanhol Alejandro Amenábar foi para Hollywood para entregar a Nicole Kidman sua última grande interpretação. Os Outros parece uma reinvenção de Os Inocentes – terceira citação deste filme por aqui -, mas não por sua história, nem por seu desfecho. Amenábar confina Kidman e seus dois filhos numa mansão, como Jack Clayton fez com Deborah Kerr e as duas crianças de que toma conta, repetindo o ambiente refinado que deixa a história mais crível. Aqui, os meninos sofrem de doença rara, não podendo ficar expostos à luz, o que faz com que o diretor trabalhe com uma iluminação parca, algumas vezes à luz de velas, o que dá ao filme uma atmosfera sufocante. Fionnula Flanagan está excelente e a reviravolta final – de sua personagem e do filme como um todo – é conduzida da forma mais elegante possível.

Intermediário do Diabo

4 Intermediário do Diabo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Changeling, Peter Medak, 1980]

O título original é quase o mesmo do filme dirigido por Clint Eastwood em 2008, mas o longa feito quase três décadas antes pelo húngaro Peter Medak no Canadá não tem qualquer relação com ele. Intermediário do Diabo ou simplesmente A Troca é um clássico filme sobre uma casa mal assombrada. Um dos melhores que eu já vi na vida. George C. Scott é um compositor que perde a família num acidente, que se tornou uma das cenas de abertura mais fortes da época, e vai morar numa mansão abandonada. Pra variar, descobre que não está sozinho. Medak comanda essa história como um maestro, coordenando as cenas de aparição do fantasma com uma habilidade rara. Mesmo quando é explícito, o filme tem um extremo bom gosto visual. A trilha sonora e a sonoplastia também são classudas, mas o que deixa este filme diferenciado é como Medak desenvolve o mistério sobre a identidade do fantasma com um thriller impecável.

Os Inocentes

3 Os Inocentes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Innocents, Jack Clayton, 1961]

Depois de ser citado três vezes, o filme de Jack Clayton precisava aparecer nesta lista. Deborah Kerr faz uma governanta contratada para tomar conta dos sobrinhos de um milionário numa mansão vitoriana. Ao poucos, ela percebe presenças estranhas no casarão isolado e descobre histórias ligadas ao passado do lugar e de seus moradores. Os Inocentes não é um filme de certezas, o que o deixa ainda mais instigante: até que ponto o que parece – e às vezes aparece – realmente está acontecendo? Kerr está impressionante com a protagonista, intensa, desconfiada, quase excessiva em sua procura por tentar entender de onde vêm aquelas vozes. Henry James, autor do livro em que se baseia o longa, trata de dar ao texto uma sofisticação que não existia nesse tipo de histórias levadas ao cinema até então. As roupas de época e a cenografia luxuosa encorpam a carga histórica que Clayton imputa ao material. O diretor faz um sensacional jogo de luzes, estourando a fotografia em diversas cenas, indo na contramão do que se faz hoje para criar terror e acertando em cheio.

O Iluminado

2 O Iluminado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Shining, Stanley Kubrick, 1980]

Primeiro, há o impacto daquela imensidão, seja nas cenas abertas, seja nas internas. Nada escapa à câmera de John Alcott, que promove um romance entre as cores da fotografia e os cenários majestosos. Cada quadro é extremamente calculado, com todos os elementos de cena arranjados em função de um equilíbrio não puramente estético, mas conceitual – em favor do clima de prisão superdimensionada. A importância do espaço, algo comum a toda a filmografia kubrickiana, é mais forte aqui já que, neste filme, o hotel é quase uma personagem. Os três protagonistas vagam pelo cenário estabelecendo pequenas jornadas solitárias até se perderem dentro dele, ao som de uma música perturbadora. É quando Kubrick catapulta o texto de Stephen King, que, por sinal, não gostou nada do resultado. Neste filme, Jack Nicholson estabelece um padrão de interpretação que influenciou praticamente tudo que veio depois. Shelley Duvall faz algo parecido. Materializa o desespero, mas é o pequeno Danny Lloyd, o responsável por algumas das expressões de pavor mais assustadoras da história do cinema.

Poltergeist

1 Poltergeist – O Fenômeno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Poltergeist, Tobe Hooper, 1982]

A imagem de Carol Anne conversando com a televisão aterrorizam a infância de qualquer  um. O fato de estarmos diante de um filme “de família”, de um desafio familiar (e um filme exemplar na ambientação desse cenário), cria uma aproximação natural com o drama dos protagonistas. É, muito provavelmente, um dos dez melhores filmes de terror que o cinema já pariu. Assustador do começo ao fim, sua maior qualidade é a elegância da direção, que dá credibilidade à história sobrenatural. Sem querer desmerecer o trabalho de Tobe Hooper, praticamente tudo no filme nos leva a crer que o verdadeiro criador ali foi mesmo Steven Spielberg, roteirista e produtor. Sua mão está lá, desde o tratamento familiar à ambientação, à escalação de um elenco perfeito, ao apuro técnico, à câmera e a cor do filme, parentes próximos do que vemos em Tubarão, por exemplo. A fotografia é excelente, com uma atenção especial para alguns enquadramentos dentro dos planos. E a montagem é essencial para espalhar o horror pelo filme.

Entre os filmes que “quase chegaram lá”, estão O Orfanato o japonês A Casa, a animação A Casa Monstro, o surpreendente Ecos do Além, com Kevin Bacon, o recente Atividade Paranormal, que tem altos e baixos, mas deu novas perspectivas ao gênero; o gore A Morte do Demônio, que só não entrou porque é quase tão cômico quando de terror; e Não Tenha Medo do Escuro. produção retrô de Guillermo del Toro.

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Top 10: os filmes do Marcelo Rezende

Quem vê a figura de Marcelo Rezende na televisão não imagina o outro lado do jornalista. O apresentador do Cidade Alerta, um dos rostos mais conhecidos do telejornalismo brasileiro, também é um leitor voraz, um profundo admirador de vinhos e, sempre que a rotina apertada permite, um cinéfilo de carteirinha. Rezende já assistiu Lincoln, de Steven Spielberg, duas vezes, e vez por outra volta aos filmes de James Bond estrelados pelo Sean Connery. “Vi Skyfall, mas não é a mesma coisa”, explica.

O interesse pelo cinema é antigo, mas já foi compulsão. “Quando abriu uma locadora perto de casa, vi 654 filmes em dois anos. Alugava todo dia”, confessa, e diz que sempre tenta dar uma escapada para assistir alguma coisa em cartaz. O Filmes do Chico perguntou para Marcelo Rezende se ele aceitaria eleger seus dez filmes favoritos. Como não poderia ser diferente, o homem respondeu: “corta pra mim”. A lista está em ordem cronológica.

Cidadão Kane

Cidadão Kane
[Citizen Kane, OrsonWelles, 1941]

Casablanca

Casablanca
[Casablanca, Michael Curtiz, 1942]

Morangos Silvestres

Morangos Silvestres
[Smultronstället, Ingmar Bergman, 1957]

A Faca na Água

A Faca na Água
[Nóz w Wodzie, Roman Polanski, 1962]

2001

2001 – Uma Odisseia no Espaço
[2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968]

Perdidos na Noite

Perdidos na Noite
[Midnight Cowboy, John Schlesinger, 1969]

O Poderoso Chefão

O Poderoso Chefão
[The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972]

Roma de Fellini

Roma de Fellini
[Fellini-Roma, Federico Fellini, 1972]

Chinatown

Chinatown
[Chinatown, Roman Polanski, 1974]

Caçadores da Arca Perdida

Caçadores da Arca Perdida
[Raiders of the Lost Ark, Steven Spielberg, 1981]

Roman Polanski foi o único cineasta que ganhou dois filmes na lista. Sobre A Faca na Água, estreia do diretor, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro, ele disse que considera a cena em que o personagem brinca com a faca entre os dedos uma das mais angustiante que ele já viu. Marcelo Rezende também  adora uma história de bastidor sobre Roma: “uma jornalista foi entrevistar o Fellini e tentou explicar que entendeu o significado dele ter colocado uma atriz gorda perto de uma porta. Ele falou: – não, minha filha, a atriz tinha faltado e eu precisava preencher a tela”. E como o cinema pode ser tão simples quanto a vida, resolvi fazer mais uma pergunta pro ilustre entrevistado:

- Algum filme pro Percival?
- Um que ele entenda? Mazzaropi!

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Top 10: Roman Polanski

Roman Polanski chega aos 80 anos de idade com uma obra tão rica e complexa quanto sua vida pessoal. Nascido na França, em 1933, viu a família voltar para a Polônia de origem quando ainda tinha três anos, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. No meio do conflito, conseguiu fugir do Gueto de Cracóvia, para onde eram mandadas as famílias judias, enquanto sua mãe morria numa câmara de gás em Auschwitz. Com o fim da guerra, voltou para a Polônia, estudou cinema e, em 1962, depois de realizar alguns curtas-metragens, dirigiu A Faca na Água, seu primeiro longa, que representou o país na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro, e lançou os temas e os métodos de seu cinema.

Nos anos seguintes, dirigiu clássicos do cinema como Repulsa ao Sexo e O Bebê de Rosemary, trabalhou com atrizes como Catherine Deneuve, Isabelle Adjani e Mia Farrow, e escreveu seu nome na história. Mas também se viu envolvido numa série de polêmicas. Em 1969, sua então mulher, Sharon Tate, grávida de oito meses, foi brutalmente assassinada pelos discípulos do psicopata Charles Mason, junto com quatro amigos do casal. Polanski se mudou para a Europa, de onde só voltou para dirigir um filme hollywoodiano, um de seus mais famosos, Chinatown, com Jack Nicholson e Faye Dunaway.

O longa concorreu a dez Oscars, mas o prêmio só viria quase 30 anos depois, por O Pianista, seu filme mais convencional, que retrata a trajetória de um judeu durante a Segunda Guerra. A premiação foi surpreendente porque o cineasta, desde 1978, estava proibido de pisar em solo americano por ter supostamente estuprado uma menor de idade. Apesar de ter assumido que teve relações com a adolescente, de 13 anos à epoca, Polanski garantiu que o sexo foi consensual. Como fugiu do país antes da acusação, Polanski não havia sido preso pelo crime, mas em 2009, durante um festival de cinema na Suíça, o cineasta foi detido e passou cerca de um ano em prisão domiciliar.

Dono de um Oscar, uma Palma de Ouro em Cannes e um Urso de Ouro em Berlim, Polanksi continua a produzir. Nos últimos quatro anos, dirigiu três longas: O Escritor Fantasma, Deus da Carnificina e o ainda inédito no Brasil, Venus in Fur, estrelado por sua mulher desde 1989, a atriz Emmanuelle Seigner. O próximo projeto do diretor é D, thriller em que visitará o famoso Caso Dreyfus, escândalo político francês em que um oficial de artilharia foi condenado à prisão perpétua por acusações de alta traição, que depois se provaram falsas. Para homenagear os 80 anos de um dos cineastas mais controversos da história, o Filmes do Chico organizou um Top 10, com os melhores filmes de Roman Polanski. Deixe sua lista nos comentários ou vote aqui na enquete.

Tess

10 Tess – Uma Lição de Vida  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Tess, 1979]

Ao lado de O Pianista, este é o filme mais formal de Roman Polanski. O diretor realizou o longa porque ganhou da mulher, Sharon Tate, uma cópia do livro de Thomas Hardy, que disse que aquilo daria um grande filme. O mais curioso é observar como o cineasta tenta colocar seus temas – principalmente o desejo sexual e a sensação de clausura – dentro de um projeto de estrutura tão clássica. A fotografia de Ghislain Cloquet e Geoffrey Unsworth transforma cada imagem numa pintura, onde a beleza de Nastassja Kinski ganha uma moldura assombrosamente linda. Embora pareça bastante diferente do resto de sua obra, Tess guarda uma semelhança com boa parte dos filmes do diretor: a personagem é condenada pelo cenário opressor que está em sua volta. Aqui, este cenário não é físico, mas uma espécie de materialização da época e do contexto social em que ela vive.

A Dança dos Vampiros

9 A Dança dos Vampiros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Fearless Vampire Killers or: Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck, 1967]

Este filme tem a melhor performance de Roman Polanski como ator numa de suas obras. Esta comédia despudorada radicaliza o que o diretor já havia feito em Armadilha do Destino. A ideia aqui é subverter o gênero do terror na base do pastiche, reunindo e reciclando diversos clichês sobre vampiros. Se Sharon Tate impõe sexualidade a todas as cenas em que aparece, Polanski e Jack MacGowran estão deliciosamente ridículos e protagonizam gags que combinam bem a natureza cômica do filme com o macabro do ambiente, como na cena em que o personagem de Polanksi dispara para tentar fugir de um vampiro para encontrá-lo no minuto seguinte. O cineasta ri daquele universo na mesma medida em que respeita suas regras e sua mitologia, com algumas liberdades, como mostra a cena final.

Armadilha do Destino

8 Armadilha do Destino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Cul-de-Sac, 1966]

Tudo é tão insólito nesta primeira incursão de Roman Polanski pelo terreno da comédia que não dá para cobrar lógica de fatos e dos personagens. O diretor parece imbuído do espírito livre que tomava o cinema europeu na época e não explica muita coisa, deixando ainda mais nonsense o encontro entre dois gângsters em fuga e um casal que mora num palácio à beira-mar. Theresa, personagem de Françoise Dorléac – irmã de Catherine Deneuve, que morreu um ano depois do filme – é quem mais incorpora o esse estado de inquietude que Polanski impõe à trama, à montagem e à trilha sonora. Embora tudo pareça estar a um passo de desmoronar, Polanski filma tudo com tanto rigor e inteligência que o castelo se transforma num microverso caótico onde os personagens não se prendem a regras, mas estão estranhamente confinados uns aos outros.

O Escritor Fantasma

7 O Escritor Fantasma EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Ghost Writer, 2010]

É o filme que recupera Polanski para suas temáticas e métodos depois de projetos mais clássicos como O Pianista e Oliver Twist. Ewan McGregor interpreta um ghostwriter encarregado de escrever a biografia do ex-primeiro-ministro britânico vivido por um excelente Pierce Brosnan. O protagonista é lançado num ambiente silencioso de conspirações e se percebe, como tantos outros personagens do diretor, refém de uma situação da qual não consegue escapar. A trilha do ótimo Alexandre Desplat cria um estado de perigo iminente, reforçado pelas cores escuras do filme. Numa das cenas mais incríveis deste começo de década, papéis voam pelo ar, traduzindo o pessimismo de Polanski para com o mundo, mas enchendo os olhos de quem ama e sentia falta de seu cinema.

A Faca na Água

6 A Faca na Água  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Nóz w Wodzie, 1962]

O primeiro longa-metragem de Polanski é uma poderosa história sobre o quanto a chegada de um estranho pode dizer sobre o que existe entre um homem e uma mulher e sobre o comportamento humano. O encontro de Andrzek e Krystyna com o jovem sem nome que pede carona – que é quase atropelado por eles na estrada – se transforma num campo fértil para uma batalha de classes e um conflito de gerações. O texto – tão impiedoso quanto as imagens claustrofóbicas de Polanski (e olhe que estamos num barco) – é uma versão mais complexa do diretor para uma disputa primal de machos por uma fêmea e um tenso embate verbal por território (seja um barco, seja uma história de vida). No fim das contas, estamos diante de um duelo pela sobrevivência, onde o mais velho teme a finitude e o mais outro persegue a vida alheia.

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Top 10: os filmes do Wado

Wado

Oswaldo Schlickmann nasceu em Florianópolis, mas cresceu em Maceió, onde mora até hoje e de onde colocou seu nome no cenário musical independente. O que pouca gente sabe é que Wado, que dividiu opiniões ao falar sobre a atual música brasileira numa entrevista recente ao Scream & Yell, é cinéfilo de carteirinha e tem uma atração especial por diretores desafiadores, como o dinamarquês Lars Von Trier. Num bate-papo rápido, o músico listou seus dez filmes favoritos e ainda falou sobre cada um deles.

10 Os Sapatos de Aristeu
[Os Sapatos de Aristeu, René Guerra, 2008]

Adoro esse curta do Renné Guerra. A temática que vem se entranhado na obra do diretor, o PB simples e belo. Grande representante da nova safra de Alagoas. Mais que isso: ele já vem se firmando pelo mundo.

9 O Pântano
[La Ciénaga, Lucrecia Martel, 2001]

É um grande exemplo de como o cinema argentino anda melhor que o nosso. A abordagem, o universo particular, a poesia dos takes.

8 Terra Estrangeira
[Terra Estrangeira, Walter Salles & Daniela Thomas, 1995]

Foi o filme que despertou meu interesse pelo cinema nacional. Bons atores – Fernanda Torres principalmente – e a música de Gal Costa (que, dizem, Fernandinha não parava de cantar no set) deixaram este filme ótimo.

7 Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos
[Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, Pedro Almodóvar, 1988]

Que coisa divertida, que domínio! Essa primeira fase é massa, bruta. Gosto dos desdobramentos e do cineasta maduro tanto quanto.

6 Deixa Ela Entrar
[Låt den Rätte Komma In, Tomas Alfredson, 2008]

O melhor filme de vampiros de todos os tempos para o meu humilde gosto.

5 Dogville
[Dogville, Lars Von Trier, 2003]

Lembro do prazer de ver esse filme no cinema. Poder acompanhar um diretor que considero gênio – ainda mais contemporâneo nosso -, assistir os lançamentos sem grande delay é uma benção. Considero Lars Von Trier o maior artista vivo, mesmo com todos os Toms e Dorivais da música inclusos.

4 A Comilança
[La Grande Bouffe, Marco Ferreri, 1973]

É um dos filmes mais divertidos que já assisti. A pegada italiana. O tragicômico tema de comer até morrer. Atores soberbos, gosto destes universos de seres humanos de arestas, gente fora do padrão.

3 Nelson Cavaquinho
[Nelson Cavaquinho, Leon Hirzman, 1969]

O documentário sobre Nelson Cavaquinho, restaurado pela Petrobras, e dirigido por Leon Hirszman, é uma das coisas que mais assisto na internet. Um Brasil sem cinto de segurança, de álcool pras crianças, bastante politicamente incorreto.

2 Minha Vida de Cachorro
[Mitt Liv som Hund, Lasse Hallström, 1985]

Esse filme me toca muito de forma inconsciente. A história do menino Ingmar contada pelo sueco Lasse Hallstrom é sublime. É como gosto de abordar a arte hoje em dia, gosto de coisas menos racionais.

1 As Cinco Obstruções
[De Fem Benspænd, Lars Von Trier & Jørgen Leth, 2003]

Esse é meu filme predileto. Lars Von Trier propõe um exercício em cima de um curta de 1967, The Perfect Human, de um de seus diretores prediletos, Jørgen Leth. É lindo o processo de cinco possíveis reconstruções de uma obra. Muito elucidativo para que trabalha com criação, uma abordagem linda sobre método. Os dois assinam esse primor.

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Top 10: melhores filmes dos Trapalhões

“Eu sou nordestino. E a coisa que o nordestino mais faz é trocar o certo pelo duvidoso”. A frase que Severino do Quixadá, papel de Renato Aragão, fala para a Fada Bruxa interpretada por Bruna Lombardi em O Cangaceiro Trapalhão, lançado há exatos 30 anos, é um exemplo de como os filmes do maior grupo do humor nacional traziam, em maior ou menor grau, uma observação sobre a situação econômica do homem brasileiro. E, coincidentemente, é justamente no Nordeste onde os melhores filmes de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias se passam. Entre cangaceiros e saltimbancos, vagabundos e garimpeiros, os Trapalhões ajudaram a formar gerações de brasileiros, lotar cinemas e fazer milhões de crianças pararem em frente à televisão. Listo aqui meus filmes favoritos desta trupe que se confunde não só com a minha, mas com a infância de um país.

Os Trapalhões na Guerra dos Planetas

10 Os Trapalhões na Guerra dos Planetas EstrelinhaEstrelinha½
[Adriano Stuart, 1978]

Um dos filmes mais cara-de-pau da história do cinema brasileiro, Os Trapalhões na Guerra dos Planetas é uma cópia descarada de Guerra nas Estrelas, que suga o visual de personagens como Darth Vader, Luke Skywalker e Chewbacca para uma história sobre um príncipe – vivido pelo carioca Pedro Aguinaga, eleito à época o homem mais bonito do Brasil – que vem buscar ajuda na Terra para enfrentar inimigos em seu planeta natal. Foi um dos cinco filmes do quarteto dirigido por Adriano Stuart. Os efeitos visuais e a direção de arte são mais do que precários, o que deu ao filme uma aura cult -trash que atravessou fronteiras como o Brazilian Star Wars. Talvez por precariedade o filme tem várias cenas sem diálogos. Cenas longas que ora são de luta, ora de dança, ora cenas quaisquer, onde a trilha sonora eletrônica a la Giorgio Moroder faz às vezes de narradora da história, criando alguns momentos hipnóticos que tornam o filme bem mais interessante do que ele realmente é. Seguindo a proposta, a apresentadora Christina Rocha faz uma participação, entrando muda e saindo calada.

O Trapalhão no Planalto dos Macacos

9 O Trapalhão no Planalto dos Macacos EstrelinhaEstrelinha½
[J. B. Tanko, 1976]

Por um lado, mais elaborado do que Guerra do Planetas, por outro, menos ambicioso. No meio disso tudo, mais uma cópia sem vergonha de um grande sucesso do cinema americano (aliás, de dois porque a sequência inicial é uma brincadeira – deliciosa, diga-se – em cima do Tubarão de Steven Spielberg) . Mas aqui pelo menos há uma tentativa de contextualizar a trama na realidade brasileira. Os personagens de Renato Aragão e Dedé Santana são confundidos com ladrões e, junto com o guarda  que os persegue, vivido por Mussum, em sua estreia num filme do grupo, entram num balão que vai terminar num mundo dominado por macacos. Os figurinos e maquiagem de qualidade discutível dão ao filme um tom artesanal que funciona muito para que os Trapalhões desfilem suas gags e que emprestou certa fama internacional de filme trash ao longa e o transformou em cult.

O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão

8 O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[J. B. Tanko, 1977]

A maior bilheteria dos Trapalhões ainda não tinha a presença do mineiro Zacarias, mas já dizia muito de como o grupo operava em conjunto. A trama parte de pequenos golpes aplicados pelos três protagonistas, que simulavam lutas para ganhar dinheiro com apostas. Num só pacote, os Trapalhões refletiam o “jeitinho brasileiro” enquanto falavam sobre a situação econômica que forçaria a população a arrumar uma maneira de sobreviver, o que viria a ser uma das linhas fundamentais do humor do grupo. O que vem a seguir é mais uma das adaptações que o grupo fazia de histórias e personagens lendários, mais simples, mas com alguns momentos deliciosos, como todas as cenas em que o trio encontra a bruxa interpretada por Vera Setta que atormentou os sonhos de uma geração.

O Cinderelo Trapalhão

7 O Cinderelo Trapalhão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[O Cinderelo Trapalhão, Adriano Stuart, 1979]

A cena final é um clássico da Sessão da Tarde: cada trapalhão recebe uma porção de terras por ter salvo a fazenda do mocinho do filme, mas Cinderelo, papel de Renato, fica com a menor delas. Quando ele resolve cavar no pequeno cercado para enterrar a sujeira de seu bode Gumercindo, descobre petróleo. Todos comemoram e o filme termina com a imagem congelada dos Trapalhões, pulando de alegria. É o fim de uma história em que os Trapalhões cutucam a sociedade feudal brasileira, que oprime a classe trabalhadora através da força. Há uma série de cenas engraçadíssimas, principalmente quando Renato Aragão se passa por um príncipe árabe e Dedé finge ser um mexicano. Dino Santana, irmão de Dedé, protagoniza junto com ele uma cena acrobática de luta sensacional.

Os Trapalhões na Serra Pelada

6 Os Trapalhões na Serra Pelada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[J. B. Tanko, 1982]

Primeiro filme dos Trapalhões que eu vi no cinema e, possivelmente, meu primeiro filme no cinema, é um longa irregular, que começa muito bem, explorando um tema essencial ao Brasil da época, o garimpo, mostrando que o quarteto estava interessado em acompanhar a história. O filme equilibra uma das melhores trilhas sonoras dos filmes do grupo com um retrato interessante da vida no formigueiro humano, mas o roteiro varia para uma aventura mais ordinária, que apesar de manter o universo do poder no garimpo, prioriza cenas de luta longas e, em muitas vezes, protagonizadas pelo Exército, o que dá um tom oficialesco ao filme e deixa o terço final bem inferior ao restante. A música se sobressai ao conjunto: “Procurei Teresa”, cantada por Didi e Dedé, e “Perdi Minha Nega num Forró″, na maravilhosa interpretação de Zacarias (as duas em sequência com participação de Sivuca e de um coral feminino) são geniais.

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