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Sex and the City 2: o figurino

Carrie Bradshaw Sarah Jessica Parker
 

Sex and the City 2
 

Sex and the City 2
por Cris Massuyama

Incorporar os exageros das passarelas internacionais ao dia-a-dia é bem complicado – a não ser, claro, que você seja Carrie Bradshaw.

A personagem de Sarah Jessica Parker não decepciona os fashionistas em Sex and the City 2 : em clima de desfile, ela muda de figurino a cada cena, sempre com roupas glamurosas.

Logo no começo, uma avalanche de brilhos e cristais se espalham pelos letreiros que invadem a tela. Mas eis que Carrie surge minimalista, em um dos melhores trajes do longa: um vestido branco Halston Heritage, de corte simples e caimento perfeito para a magérrima Sarah Jessica. A aparição triunfal divide a cena com os hilários flashbacks dos anos 80 – com direito a Carrie no estilo Madonna e Samantha (Kim Cattrall) a la Debbie Harry.

Depois, a personagem principal e as outras três heroínas vão a uma festa de casamento na badalada Manhattan. O look mais interressante é novamente o de Carrie: alfaiataria com cabelos soltos e selvagens.

Ela é a musa fashion imbatível, mas o guarda-roupa da advogada Miranda (Cynthia Nixon) também se mostra eficiente: estampas elegantes, cores fortes e combinações perfeitas para tirar a caretice das roupas de trabalho.

Os looks urbanos dão espaço para vestidos coloridos e esvoaçantes quando o filme viaja para Abu Dhabi. O quarteto desfila muita cor e exagero pelas areias do Oriente Médio.

O longo Emilio Pucci que Carrie usa no cartaz principal do filme perde o glamour ao ser combinado com um terninho “boyfriend” marrom, no melhor estilo “roubei do guarda roupa do Mr. Big (nas filmagens de Law & Order)”.

Mas o figurino mais estranho talvez seja a combinação “high-low” de camisetinha Dior com saia de debutante roxa usada pra ir a… uma feira de rua. Usar grife estampada no peito é cafona! E, se não fosse Carrie Bradshaw, todo mundo ia falar que era uma “peça legítima” da 25 de março.

Mesmo assim, não se pode esquecer que é exatamente por causa dessas ousadias que a personagem se tornou um ícone: Carrie desfila pelas ruas de Nova York com os trajes mais criativos sem perder a confiança e a personalidade.

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A Dama da Água, Revisão

Bryce Dallas Howard, Paul Giamatti

É tão difícil defender o que você ama incondicionalmente. Você percebe todos os problemas que os outros apontam, mas as qualidades, elas te parecem tão superiores que você os minimiza ou os ignora. Seu eleito é imperfeito, mas é seu. Você o escolheu assim que colocou os olhos nele e é natural que queira defendê-lo, afirmá-lo e celebrá-lo. O cinema é meu refúgio e quando eu separo um filme para ser meu, eu posso soar até arrogante ao expressar minhas razões para amá-lo, coisa que eu sempre faço por escrito porque sou um péssimo orador.

Com A Dama na Água foi exatamente assim. Assisti ao filme numa pré-estréia para uma platéia de convidados que gostam de pré-estréias, mas nem sempre gostam de cinema. Fui sozinho e parece que saí do cinema apaixonado igualmente sozinho. Estava encantado com a defesa da fábula, com a celebração do conto de fadas. O primeiro grande motivo para não se gostar deste filme é que qualquer coisa que pareça pertencer ao universo infantil soa quase sempre menos interessante do que elementos do que pode se chamar de um mundo de adultos.

A lei da natureza é assim. A infância é saudada com uma nostalgia do que deve permanecer no passado. Trazê-la para a experiência mais imediata do homem adulto é comumente assimilada como uma tolice. E o que M. Night Shyamalan faz em A Dama na Água é assumir o conto, aumentar um ponto e visitar o lúdico sem o menor pudor ou vergonha. Foi a paixão que o diretor libera pelo universo infantil em cada explicação desleixada, em cada reviravolta atrapalhada que me despertou um interesse inédito por uma de suas obras.

Ao contrário do que fez em A Vila (2004), quando a desconstrução surge como negação da história e como possível golpe de marketing disfarçado de questionamento político, em seu último filme o indiano decanta essa história, desmembra seu conjunto de enredos e personagens, para afirmá-la. A partir de uma história contada para seus filhos, Shyamalan se mostra um defensor do mágico e não do truque, como vinha se desenhando até então. E para que essa história dê certo, ele cobra apenas uma coisa do espectador: acreditar. Um preço muito caro.

Ninguém precisa estar disposto a acreditar. O esforço pode ser deveras musculoso para alguém, digamos, mais sério. É preciso se doar muito para gostar deste filme lento em que, numa revisão, fica muito claro o interesse de seu diretor pelo processo. O processo de montar e contar uma história. É nesse processo que Shyamalan comete seu primeiro grande pecado, vingar-se dos críticos que tinham torcido o nariz para Corpo Fechado e que resolveram interpretá-lo em A Vila. Pecado que fica flagrante na fala de Jeffrey Wright sobre o assunto. Um constrangimento desnecessário já que tudo que a personagem em questão promove poderia estar lá de maneira diferente.

Sua outra grande falta foi querer ser ator e, cada vez mais, ter um papel maior em seus filmes. Shyamalan é um intérprete medíocre e precisa enxergar isso antes que prejudique seus próprios filmes. Um personagem como Vick merecia um grande ator. Como Cleveland mereceu um maravilhoso Paul Giamatti, em sua interpretação mais delicada. É de seu confronto com a fábula que sai grande parte da força deste filme. Não acho que Cleveland não questiona a história mágica que se escreve em sua frente porque precisava se apoiar em algo, mas porque estava disposto a acreditar.

Exatamente como eu, que quase fui às lágrimas em vários momentos da projeção e que quase repito o vexame ao reassistir ao filme em casa. Bem, não para chamar de vexame sentir-se tocado por um filme e querer defendê-lo, afirmá-lo e celebrá-lo. Ninguém precisa concordar, inclusive, porque a questão não é ter entendido um filme. É ter se apaixonado de novo mesmo tendo enxergado todos os problemas que os outros apontaram e os minimizando ou ignorando em prol das qualidades que se vê nele. A Dama na Água é um filme que eu escolhi. É imperfeito, mas é meu.

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