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Oscar 2016: Globo de Ouro finge ser importante, mas prefere estrelas no palco

O filme que “deveria ser visto num templo” saiu como vencedor da festa do Globo de Ouro deste ano. O Regresso, de Alejandro Gonzalez Iñarritu, que fez a declaração entre aspas da frase anterior, ganhou os prêmios de melhor filme e ator dramáticos (Leonardo DiCaprio), além de levar também na categoria de melhor diretor. Com essa escolha, o Globo de Ouro segue na contramão dos outros prêmios dos críticos, que preferiram Spotlight, Mad Max: Estrada da Fúria ou Carol, os três indicados aqui; os três completamente esnobados aqui. E se afasta mais da condição que sempre alimentou, a de prévia do Oscar.

É bom lembrar que o Globo de Ouro existe desde 1951 e que essas mais de seis décadas de história geram demandas. Então, em vez de refletir a temporada, os votantes do prêmio podem querem mais é corrigir injustiças e Iñarritu tinha perdido o prêmio no ano passado por Birdman (para Richard Linklater, de Boyhood). Além disso, seu filme, que concorrida na categoria de comédia ou musical, onde era favorito, cedeu lugar para O Grande Hotel Budapeste. Então, numa temporada de prêmios em que os frontrunners mudam a cada semana, num ano particularmente confuso, eles podem ter usado o fator “conjunto da obra” para escolher seu favorito. Mas essa não parece ser a única razão.

Vejamos: Leonardo DiCaprio, Brie Larson, Matt Damon, Jennifer Lawrence, Kate Winslet. O Globo de Ouro deste ano foi particularmente alto, loiro e bonito. Kate Winslet não é alta? Duvido que você já a tenha encontrado sem salto. Bem, não que os prêmios tenham sido esdrúxulos. DiCaprio e Larson eram os favoritos em suas categorias e Damon e Lawrence dividiam o protagonismo com outros concorrentes, mas estavam muito bem cotados. Mas o que parece contar bastante para o Globo de Ouro é ter estrelas no seu palco para vender seu programa de TV. A primeira prova disso é a manutenção das categorias de filme, ator e atriz divididas entre drama e comédia ou musical, o que cria aberrações como considerar Perdido em Marte uma comédia. Desta forma, eles dobram o número de indicados e enchem a festa de estrelas.

DiCaprio venceu Bryan Cranston, que agora se firma como ator de cinema, e Michael Fassbender, que perdeu gás porque Steve Jobs foi mal de bilheteria, embora o Globo de Ouro tenha preferido premiar o roteiro do filme de Danny Boyle, criticado por aí, em vez dos favoritos Spotlight e A Grande Aposta, que saíram de mãos abanando, e elegeram Kate Winslet, que ganha seu terceiro prêmio de cinema (fora mais um de TV) na festa da imprensa estrangeira. Desbancou as favoritas Jennifer Jason Leigh, Jane Fonda e Alicia Vikander. Só Helen Mirren estava tão desacreditada quanto ela. Por outro lado, Jennifer Lawrence derrubou a amiga Amy Schumer, uma verdadeira comediante, e as veteranas Maggie Smith e Lily Tomlin, que conseguiu ser esnobada duplamente nesta noite já que concorria como atriz de TV.

Matt Damon saiu na frente dos dois atores de A Grande Aposta (Christian Bale e Steve Carrell) e se firma como mais forte candidato à última vaga no Oscar de melhor ator (já que as de DiCaprio, Fassbender, Cranston e Eddie Redmayne parecem asseguradas). Curiosamente, era a maior estrela na disputa e estava no filme mais popular. Brie Larson atendia a outra demanda do Globo de Ouro: apostar em novatas. Bateu Saoirse Ronan, Cate Blanchett, Rooney Mara e novamente Vikander, que também foi duplamente esquecida. Em melhor canção, seguindo a tendência de premiar os mais famosos, nada de Brian Wilson ou Whiz Kalifa, a aposta foi Sam Smith com o tema meia-boca do novo 007. Se a gente lembrar que o U2 ganhou há dois anos por uma música anódina – e que Madonna e Cher também levaram as suas por canções que o Oscar esnobou – faz sentido.

Pelo menos tiveram a decência de premiar Ennio Morricone, que já tinha dois Globos (ao contrário do Oscar, que o indicou sem prêmio cinco vezes), pela trilha de Os Oito Odiados. Nas categorias à parte, ganharam os favoritos O Filho de Saul (filme estrangeiro) e Divertida Mente (animação). O que estes resultados fazem para a corrida ao Oscar? Muito pouco. DiCaprio reforçou seu favoritismo, mas com a ascensão de Matt Damon, pode ver seu prêmio, dado como certo por muita gente, ameaçado. Larson segue à frente das outras candidatas e tem a seu favor o retrospecto de 6 das 10 últimas vencedoras do Oscar de atriz terem repetido o Globo de Ouro de atriz dramática (outras três vieram de atriz em comédia e uma, ora vejam só, de atriz coadjuvante).

Kate Winslet ficou mais visível, mas a boa vontade com Steve Jobs pode não ser tanta assim. O SAG e o Bafta devem dar uma visão mais clara das coisas. Tomara que pelo menos para empurrar a candidatura de Sylvester Stallone sirva o Globo de Ouro. A vitória de Rocky Balboa como coadjuvante foi aplaudida de pé e Creed merece essa indicação. Como não foi lembrado pelo SAG e pelo Bafta, as coisas ficam mais difíceis, mas nosso lutador favorito já deu tanto a volta por cima que não dá pra descartar o homem. Já O Regresso ganha mais uns pontos, mas, nesta disputa bagunçada de melhor filme, o vencedor do ano anterior deve ser a última coisa em que a Academia vai apostar. Além do mais, ganhou o Globo de Ouro, mas não entrou no Top 10 do American Film Institute.

Carol foi o filme mais indicado Globo de Ouro (saiu sem nada), ao Bafta, mas não é um dos dez melhores do ano do Sindicato dos Produtores. Spotlight fez sucesso com os críticos, mas perdeu a indicação ao prêmio dos editores e não teve diretor indicado ao Bafta. Nos Globos, perdeu tudo. Mad Max: Estrada da Fúria está em todas as listas de melhores do ano, mas não conseguiu aparecer nas duas principais categorias do Bafta. Perdido em Marte ganhou o Globo de Ouro de comédia, mas nem foi indicado ao prêmio dos ingleses, compatriotas de Ridley Scott. O Quarto de Jack perdeu indicação ao PGA. Resta quem? A Grande Aposta? Ou a Academia vai arrumar alguma desculpa para escolher um grande vencedor. Se for, ainda é segredo. E o Globo de Ouro não ajudou a gente a descobrir.

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Oscar 2016: o dia em que os ingles trollaram os favoritos

A essa altura da temporada de prêmios, depois de ver seus principais concorrentes caírem, um a um, Spotlight, de Tom McCarthy, parecia o franco favorito ao Oscar de melhor filme. Carol, de Todd Haynes, andava desacreditado na bolsa de apostas e tinha perdido uma vaga no Top 10 do Sindicato dos Produtores, e Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, embora tenha sido indicado por todo mundo e levado vários prêmios de direção, não parecia uma possibilidade concreta de premiação na festa da Academia por fugir completamente do estereótipo que costuma ser celebrado pela indústria. Talvez um azarão em direção, quem sabe?

Mas eis que chega o Bafta, o Oscar dos britânicos, cada vez menos interessado em premiar ingleses e mirando muito mais em se firmar como uma prévia da festa de Hollywood. E o Bafta veio para abalar. Spotlight está lá, indicado para melhor filme, mas McCarthy perdeu a vaga entre os diretores. Um baque numa corrida que muda de protagonismo a cada dia às vésperas da lista do Oscar sair. Mad Max, que parecia ser a segunda certeza desta lista, não entrou nem em filme, nem em direção. O desejado prêmio pro George Miller ficou mais distante e, se ele não entrar no Top 5 do Sindicato dos Diretores, que sai no dia 12, até a indicação fica ameaçada.

Mas e aí, quem se deu bem? Justamente Carol, que parecia cachorro morto, lidera as indicações ao Bafta, com 9 menções, inclusive filme e direção, dividindo essa liderança com Ponte de Espiões, de Steven Spielberg, que foi um coadjuvante de luxo até então, mas que tema cara do Oscar. Ou não? Com os três principais players da temporada entre altos e baixos, seria o filme de Spielberg uma “saída pela direita” para a Academia? Ou Perdido em Marte, de Ridley Scott, um blockbuster elogiadíssimo na América, seria uma opção? Bem, o Bafta não ajudou muito. Scott, inglês, entrou na categoria de direção, mas não conseguiu emplacar a indicação para melhor filme. Que puxa, hein?

Melhor sorte do que ele tiveram Adam McKay e Alejandro Gonzalez Iñarritu, que viram seus A Grande Aposta e O Regresso, respectivamente, indicados a filme e direção. A trajetória do primeiro é curiosa: o filme surgiu meio do nada, foi bastante elogiado e tem emplacado presença em quase todas as listas de melhores do ano. O senão é que, na condição de comédia, mesmo que comédia inteligente, o filme pode ser visto mais como um indicado do que como um possível vencedor. Por outro lado, o filme de Iñarritu, que ganhou os Oscars de filme e direção no ano passado por Birdman, começou a temporada como uma das grandes apostas, estreou dividindo a crítica e perdeu a vaga no Top 10 do American Film Institute, coisa que nenhum vencedor do Oscar faz, hein?

O Bafta, que nos últimos anos tem ajudado a definir quem está na frente na corrida pelo Oscar, desta vez bagunçou tudo. E não foi só na categoria principal. Entre as atrizes, os britânicos ratificaram as três certezas (Brie Larson, Cate Blanchett e Saoirse Ronan), defenderam Alicia Vikander em A Garota Dinamarquesa, mas preferiram esnobar Charlotte Rampling, que precisava desesperadamente ser lembrada aqui, depois de ter perdido a vaga no SAG e no Globo de Ouro, e trazer Maggie Smith, de A Senhora da Van, que não tinha recebido uma só menção significativa, para o centro da disputa. Na categoria das coadjuvantes, Julie Walters viu sua candidatura por Brooklyn reacender e novamente Vikander, desta vez por Ex Machina, ganhou mais um ponto que pode significar uma dupla indicação no Oscar. Rooney Mara, Kate Winslet e Jennifer Jason Leigh podem não ser exatamente favoritas, mas são certamente os nomes mais onipresentes.

Matt Damon foi a escolha dos britânicos para fechar a lista de atores, se juntando aos onipresentes DiCaprio, Fassbender, Cranston e Redmayne. Já a relação dos coadjuvantes ainda está confusa. Christian Bale ganhou mais força para estar ao lado de Mark Rylance e Idris Elba, os mais citados até então, mas o Globo de Ouro o indicou como protagonista de comédia. Benicio Del Toro e Mark Ruffalo, que sempre pareceram fortes, mas apareceram em poucas listas ganharam um apoio fundamental. Pior para Michael Shannon, de 99 Homes, que surgiu nas listas do SAG, do Globo de Ouro e do Critics Choice; Paul Dano, de Love & Mercy, presente nas duas últimas; e Sylvester Stallone, de Creed, que só foi lembrado pelos jornalistas estrangeiros em Hollywood.

Diante de tantas incertezas, falta o Sindicato dos Diretores se pronunciar. Quando a lista de indicados a melhor filme da Academia era composta apenas por cinco títulos, a relação do DGA era a prévia mais exata para chegar aos finalistas para o Oscar na categoria principal. Os acertos eram de pelo menos 4 em 5, quando não chegava a 100%. Curiosamente, ficavam menores comparados justamente à categoria de direção. Mas, num ano tão tumultuado, no dia 12, os cineastas vão ajudar a dizer quem realmente está na frente na disputa pelo Oscar. Pena que não vamos ter muito tempo para pensar direitinho no impacto dessa lista em relação à da Academia, que vai ser revelada dois dias depois.


indicados ao Bafta 2016

filme
A Grande Aposta
Ponte de Espiões
O Regresso
Carol
Spotlight: Segredos Revelados

direção
Adam McKay, A Grande Aposta
Steven Spielberg, Ponte de Espiões
Todd Haynes, Carol
Ridley Scott, Perdido em Marte
Alejandro G. Inarritu, O Regresso

atriz
Brie Larson, O Quarto de Jack
Saoirse Ronan, Brooklyn
Cate Blanchett, Carol
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Maggie Smith, A Senhora da Van

ator
Leonardo DiCaprio, O Regresso
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa
Michael Fassbender, Steve Jobs
Matt Damon, Perdido em Marte
Bryan Cranston, Trumbo: Lista Negra

atriz coadjuvante
Kate Winslet, Steve Jobs
Alicia Vikander, Ex Machina: Instinto Artificial
Rooney Mara, Carol
Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
Julie Walters, Brooklyn

ator coadjuvante
Benicio Del Toro, Sicario: Terra de Ninguém
Christian Bale, A Grande Aposta
Idris Elba, Beasts of No Nation
Mark Ruffalo, Spotlight: Segredos Revelados
Mark Rylance, Ponte de Espiões

roteiro original
Matthew Charman, Ethan Coen, Joel Coen, Ponte de Espiões
Alex Garland, Ex Machina: Instinto Artificial
Quentin Tarantino, Os Oito Odiados
Josh Cooley, Pete Docter, Meg LeFauve, Divertida Mente
Tom McCarthy, Josh Singer, Spotlight: Segredos Revelados

roteiro adaptado
Adam McKay, Charles Randolph, A Grande Aposta
Nick Hornby, Brooklyn
Phyllis Nagy, Carol
Emma Donoghue, O Quarto de Jack
Aaron Sorkin, Steve Jobs

fotografia
Janusz Kaminski, Ponte de Espiões
Ed Lachman, Carol
John Seale, Mad Max: Estrada da Fúria
Emmanuel Lubezki, O Regresso
Roger Deakins, Sicario: Terra de Ninguém

montagem
A Grande Aposta
Ponte de Espiões
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso

desenho de produção
Ponte de Espiões
Carol
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Star Wars: O Despertar da Força

figurinos
Brooklyn
Carol
Cinderela
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria

maquiagem
Brooklyn
Carol
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso

trilha sonora
Thomas Newman, Ponte de Espiões
Ennio Morricone, Os Oito Odiados
Ryuichi Sakamoto, Carsten Nicolai, O Regresso
Jóhann Jóhannsson, Sicario: Terra de Ninguém
John Williams, Star Wars: O Despertar da Força

som
Ponte de Espiões
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso
Star Wars: O Despertar da Força

efeitos visuais
Homem-Formiga
Ex Machina: Instinto Artificial
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Star Wars: O Despertar da Força

documentário
Amy
Cartel Land
Malala
A Verdade Sobre Marlon Brando
Sherpa

animação
Divertida Mente
Minions
Shaun: O Carneiro

filme britânico
45 Anos
Amy
Brooklyn
A Garota Dinamarquesa
Ex Machina: Instinto Artificial
The Lobster

estreia britânica
Alex Garland (diretor), Ex Machina: Instinto Artificial
Debbie Tucker Green (diretor/roteirista), Second Coming
Naji Abu Nowar (diretor/roteirista); Rupert Lloyd (produtor), Theeb
Sean McAllister (diretor/produtor), Elhum Shakerifar (produtor), A Syrian Love Story
Stephen Fingleton (diretor/roteirista), The Survivalist

curta de animação britânico
Edmond
Manoman
Prologue

curta britânico
Elephant
Mining Poems Or Odes
Operator
Over
Samuel-613

filme estrangeiro
A Assassina (Taiwan)
Força Maior (Suécia)
Theeb (Jordânia)
Timbuktu (Mauritânia)
Relatos Selvagens (Argentina)

estrela em ascensão
Bel Powley
Brie Larson
John Boyega
Taron Egerton
Dakota Johnson

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