Monthly Archives: fevereiro 2017

A Jovem Rainha

A Jovem Rainha

O finlandês Mika Kaurismaki morou no Brasil durante muito tempo, conhece bem a língua portuguesa e reclamou da tradução para um de seus últimos filmes, A Jovem Rainha, em que biografa a polêmica e extravagante Kristina, da Suécia, quando o longa foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo. No original, o filme se chama The Girl King, algo como O Rei Menina, que comporta bem melhor o espírito de sua protagonista revolucionária, já vivida por Greta Garbo no clássico Rainha Christina. Mesmo com a reclamação, o longa foi lançado em circuito com o mesmo título do festival. A tradução não ajuda, mas a história complexa da personagem é interessante por si só. Ela foi nomeada monarca aos seis anos, passou outros dois tendo que dar boa noite ao pai embalsamado por uma mãe louca, foi criada como um menino, se apaixonou por livros, filósofos, pensadores e por uma mulher. E ainda desafiou o luteranismo, religião oficial de seu país. Diante da história de uma mulher de tantas paixões febris, Kaurismaki parece também ter incorporado uma possível herança de sua passagem pelo Brasil, a dramaturgia televisiva que assistimos no filme. A Jovem Rainha é um novelão histórico, artificial, fake, que potencializa as conspirações de corredor, os relacionamentos proibidos e as reviravoltas com closes fechados, interpretações afetadas, flashbacks explicativos e outra seleção de truques para dar volume ao suspense. Malin Buska encarna a protagonista com muita propriedade, embarcando na ideia de Kaurismaki de transformar Kristina exatamente numa personagem. Nas cenas em que faz discursos para a corte, Buska declama suas falas quase que como um padre faz sua ladainha dominical. Combina perfeitamente com o que o filme pretende para sua rainha. O resultado pode parecer estranho ou de má qualidade, mas joga o filme, a trama e a personagem num plano de ficção eterno, como se ela morasse para sempre numa encenação ou num livro de história.

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[The Girl King, Mika Kaurismaki, 2015]

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Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo

Quando a maior qualidade de um filme é “não ofender ninguém”, as chances de uma obra como esta ser um produto descartável são grandes. Mas, por alguma curiosa razão, Estrelas Além do Tempo guarda méritos em sua história cheia de shiny ‘brave’ people. No meio de uma produção massiva de filmes de temática negra sérios que saíram em busca de um público mais abrangente, como Moonlight, O Nascimento de uma Nação, Loving e Um Limite Entre Nós, o filme de Theodore Melfi parece o mais raso, mas é um dos, senão “o” mais eficiente.

O maior trunfo do roteiro de Estrelas Além do Tempo é justamente mirar numa plateia mais ampla. Não é à tôa que o filme é o mais bem sucedido nas bilheterias entre os indicados ao Oscar. Melfi fez um longa disposto a conversar com qualquer tipo de público. Pode até ser arrumadinho demais, coordenando talvez excessivamente as conquistas de suas protagonistas, mas tem dois grandes feitos, além, claro de celebrar estas personagens.

O primeiro é adotar um tom solar, sem trocadilhos com a Nasa ou a conquista do espaço, coisa difícil em se tratando de um filme onde a questão “cor de pele x preconceito” está no centro das discussões. Segundo, quase nunca construir suas narrativas no modelo maniqueísta de vitimizar suas protagonistas, armadilha em que geralmente muitos filmes de temática semelhante caem. As personagens não reagem. Elas agem. Pode parecer pouco, mas num padrão de filme como este, é uma baita conquista.

Adotando estas táticas, o filme talvez perca um pouco de sua profundidade, mas ganha em seu alcance. Estrelas Além do Tempo convida o espectador a torcer Katharine, Mary e Dorothy sem manipulá-lo emocionalmente. Ficar do lado das personagens se torna algo natural para quem assiste ao filme, cujo roteiro é construído em cima de suas conquistas e não de seus percalços. A identificação é imediata e o tom leve, às vezes engraçadinho, atrai um público para o qual uma história de superação narrada com simpatia conta muito.

E com Janelle Monaë, Octavia Spencer e Taraji P. Henson à frente do trio, o bloco destas estrelas passa fácil por qualquer lugar.

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[Hidden Figures, Theodore Melfi, 2016]

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Cinquenta Tons Mais Escuros

Cinquenta Tons Mais Escuros

O olhar cansado geralmente nos guia para uma visão simplista das coisas. O mais correto talvez fosse fazer como os protagonistas de Cinquenta Tons Mais Escuros: despir-se não apenas de suas roupas íntimas no meio de um restaurante, mas principalmente de suas certezas. Assim, sabe-se lá, pode surgir um “grande” filme sobre o amor. Se não no sentido de grande cinema, de bom exemplo de uma narrativa audiovisual – o que o longa certamente não é com sua absoluta falta de nuances, profundidade e de enxergar seus personagens sobre outras perspectivas – pelo menos, aparece uma obra que, embora se disfarce de filme erótico, é nada mais do que uma história tradicional sobre encontrar sua cara metade.

Por ser colocado em primeiro plano, o sexo chama tanto a atenção na trilogia imaginada por E.L. James que deixa camuflada a real fórmula da escritora. Enquanto se perde tempo numa discussão interminável e até meio óbvia sobre a ousadia ou a falta de libido das cenas de sexo, interpretação diretamente ligada a repertório e expectativa de quem está disposto a esse debate, a autora estabelece sua escrita como herdeira direta dos romances de bancas de revista dedicados ao público feminino. Cria uma suposta versão “século XXI” destes livros, cheia de citações a sadomasoquismo, para a clássica história da mocinha – pobre – que luta pelo amor verdadeiro de seu príncipe encantado – rico -, disposto a abrir mão o que lhe é mais importante para ter esse amor.

Casada, mãe de dois filhos adolescentes, James, uma ex-executiva de TV que somente escreveu seu primeiro romance às vésperas de completar 50 anos, é de uma inteligência impressionante. De um lado, declara que os livros materializam todos os seus desejos mais escondidos, dando uma textura real para as experiências sexuais da protagonista e deixando as pessoas fascinadas ou indignadas com chicotinhos e bolas de metal e bundinhas que aparecem “naturalmente” aqui e ali. Do outro, reprisa uma receita infalível, que conversa não apenas com o público feminino, embora ele seja o alvo principal, que é estimular o fetiche por uma alma gêmea, e não um fetiche necessariamente sexual.

A versão para o cinema do segundo capítulo da história de Anastasia Steele leva para a tela grande a mesma fórmula, os mesmos clichês, mas ganha um reforço ainda maior na hora de distrair o espectador de seus reais objetivos. O que era cafona somente na imaginação do leitor ganha forma em cenas, cenários e diálogos, em máscaras venezianas, excesso de trilha e vilões bem definidos, que regeneram o protagonista masculino para convertê-lo no ideal amoroso que o público espera. As interpretações frágeis e a falta de carisma dos atores principais não ajudam muito, mas o diretor James Foley acerta em mostrar os corpos da dupla de maneira generosa, tirando o foco de suas performances, e o fato de Dakota Johnson parecer uma “pessoa comum” ajuda muito no intuito da autora. Enquanto o espectador se distrair administrando suas fantasias ou investigando os defeitos da obra, a força da fórmula mais tradicional narrativa de nosso imaginário popular se reafirma em mais uma história sobre não estar sozinho no mundo.

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[Fifty Shades Darker, James Foley, 2017]

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Jackie

Jackie

A música de Mica Levi, indicada ao Oscar neste ano, funciona perfeitamente para estabelecer a atmosfera de filmes estranhos como Sob a Pele. Se, isoladamente, o trabalho da compositora oferece um conjunto de experiências sensoriais para quem ouve, se transformando numa obra particular e cheia de complexidades estruturais e tonais, quando serve como trilha sonora para um filme a música da londrina esbarra nas intenções do projeto.

Em Jackie, Pablo Larraín acerta no recorte, mas, como de praxe, erra no tom. Ao mirar num curto e importante período da história da primeira-dama, evitando o problema da maioria das biografias no cinema: querer dar conta de toda uma história de vida. Assumir um certo retrato controverso da personagem também é um ponto a favor, já que até pelo status de ícone feminino, de moda, de comportamento, Jacqueline Kennedy sempre é vista através de um excesso de filtros positivos e quase nunca é devidamente problematizada.

O grande senão é meio comum a todos os filmes de Larraín, o tom, excessivamente solene, não necessariamente em relação a Jackie, mas à importância do filme, tom construído justamente em cima na trilha tensa de Mica Levi. Nesse momento, de autora original, indeoendente, ousada, Levi assume a condição de subordinada do diretor, ou ainda, de cúmplice num crime hediondo cada vez mais comum no cinema: querer que o filme seja maior do que realmente é. O trabalho continua muito bom, mas é usado de forma equivocada.

No entanto, a maneira como o diretor constrói a história e a maneira como o roteiro aposta num foco específico até justificariam o clima tenso que o chileno, estreando em Hollywood, costura. Ao lado de No, talvez seja um dos trabalhos mais diretos, pontuais e objetivos de Larraín. Mas a economia dramática e a obsessão documental não impediram Natalie Portman de recorrer a uma interpretação reverente, imitando sotaque, pontuações e pronúncias, de forma até irritante em alguns momentos, mas, mesmo assim, a atriz encontra o espaço para criar uma personagem um pouco mais complexa do que a história registrou.

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[Jackie, Pablo Larraín, 2016]

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