Monthly Archives: setembro 2016

Oscar 2017: os estrangeiros

A Academia anunciou a lista final de filmes que disputam uma vaga na corrida pelo Oscar de língua estrangeira e o recorde de número de inscritos foi batido mais uma vez. Oitenta e nove países selecionaram seus candidatos oficiais, mas apenas 85 aparecem na lista da Academia (quatro a mais do que no ano passado). Os motivos para os cortes ainda não foram revelados (nem sabemos se serão), mas geralmente eles passam pela real nacionalidade de um filme e pela quantidade de diálogos que ele tem na língua do país que o indicou. Saíram da disputa:

Afeganistão: Parting, Navid Mahmoudi
Armênia: Earthquake, Sarik Andreasyan
Camarões: Yahan Ameena Bikti Hai, Kumar Raj
Tunísia: As I Open My Eyes, Leyla Bouzid

A tendência natural dos países é privilegiar filmes que estrearam em grandes festivais, como a Itália, que elegeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, Fogo no Mar; a Venezuela, cuja escolha foi o vencedor de Veneza no ano passado, De Longe Te Observo; e ainda Alemanha, França, Espanha, Romênia e Canadá, que elegeram seus filmes em Cannes, só para citar alguns exemplos. Diretores reconhecidos estão na disputa deste ano: Paul Verhoeven, Danis Tanovic, Hany Abu-Assad, Andrzej Wajda, morto recentemente, e Andrei Konchalovsky, todos ou já premiados ou já indicados na categoria. O Brasil decidiu seguir uma estratégia diferente. Em vez do prestigiado Aquarius, celebrado em Cannes e que agora chega aos cinemas franceses elogiadíssimo pela Cahiers du Cinema, preferiu o obscuro Pequeno Segredo, de David Schurmann, sob o pretexto de ser “a cara do Oscar”.

Vejam os 85 filmes confirmados:

África do Sul: Call Me Thief, Daryne Joshua
Albânia: Chromium, Bujar Alimani
Alemanha: Toni Erdmann EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Maren Ade
Arábia Saudita: Barakah Meets Barakah, Mahmoud Sabbagh
Argélia: The Well, Lotfi Bouchouchi
Argentina: O Cidadão Ilustre, Mariano Cohn e Gastón Duprat
Austrália: Tanna EstrelinhaEstrelinha½, Martin Butler & Bentley Dean
Áustria: Stefan Zweig: Farewell to Europe, Maria Schrader
Bangladesh: The Unnamed, Tauquir Ahmed
Bélgica: The Ardennes, Robin Pront
Bolívia: Sealed Cargo, Julia Vargas-Weise
Bósnia Herzegovina: Morte em Sarajevo EstrelinhaEstrelinha, Danis Tanovic
Brasil: Pequeno Segredo Estrelinha½, David Schurmann
Bulgária: Losers, Ivaylo Hristov
Camboja: Before the Fall, Ian White
Canadá: É Apenas o Fim do Mundo, Xavier Dolan
Cazaquistão: Amanat, Satybaldy Narymbetov
Chile: Neruda, Pablo Larrain
China: Xuan Zang, Huo Jianqi
Colômbia: Alias Maria, José Luis Rugeles Gracia
Coreia do Sul: The Age of Shadows, Kim Jee-Woon
Costa Rica: Entonces Nosotros, Hernán Jiménez
Croácia: On the Other Side, de Zrinko Ogresta
Cuba: El Acompañante, Pavel Giroud
Dinamarca: Land of Mine, Martin Zandvliet
Egito: Clash, Mohamed Diab
Eslováquia: Eva Nová, Marko Škop
Eslovênia: Houston, We Have a Problem!, Žiga Virc
Equador: Sin Muertos no Hay Carnaval, Sebastián Cordero
Espanha: Julieta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Pedro Almodóvar
Estônia: Mother, Kadri Kõusaare
Filipinas: Ma’ Rosa EstrelinhaEstrelinha½, Brillante Mendoza
Finlândia: O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Juho Kuosmanen
França: Elle EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Paul Verhoeven
Geórgia: House of Others, Russudan Glurjidze
Grécia: Chevalier, Athina Rachel Tsangari
Holanda: Tonio, Paula van der Oest
Hong Kong: Port of Call, Philip Yung
Hungria: Kills on Wheels, Atilla Till
Iêmen: I Am Nojoom, Age 10 and Divorced, Khadija Al-Salami
Índia: Visaranai, Vetrimaaran
Indonésia: Letters from Prague, Angga Dwimas Sasongko
Irã: O Apartamento EstrelinhaEstrelinha, Asghar Farhadi
Iraque: El Clásico, Halkawt Mustafa
Islândia: Pardais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Rúnar Rúnarsson
Israel: Sand Storm, Elite Zexer
Itália: Fogo no Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Gianfranco Rosi
Japão: Nagasaki: Memories of my Son, Yôji Yamada
Jordânia: 3000 Nights, Mai Masri
Kosovo: Home Sweet Home, Faton Bajraktari
Letônia: Dawn, Laila Pakalniņa
Líbano: Very Big Shot, Mir-Jean Bou Chaaya
Lituânia: Seneca’s Day, Kristijonas Vildziunas
Luxemburgo: Voices from Chernobyl, Pol Cruchten
Macedônia: The Liberation of Skopje, Rade Šerbedžija, Danilo Šerbedžija
Malásia: Beautiful Pain, Tunku Mona Riza
Marrocos: A Mile in My Shoes, Said Khallaf
México: Deserto, Jonás Cuarón
Montenegro: The Black Pin, Ivan Marinovic
Nepal: The Black Hen, Min Bahadur Bham
Noruega: The King’s Choice, Erik Poppe
Nova Zelândia: A Flickering Truth, Pietra Brettkelly
Palestina: O Ídolo, Hany Abu-Assad
Panamá: Salsipuedes, Ricardo Aguilar Navarro & Manuel Rodríguez
Paquistão: Mah e Mir, Anjum Shahzad
Peru: Videophilia (and Other Viral Syndromes), Juan Daniel Fernández
Polônia: Afterimage, Andrzej Wajda
Portugal: Cartas da Guerra, Ivo M. Ferreira
Quirguistão: A Father’s Will, Bakyt Mukul, Dastan Japar Uulu
Reino Unido: Sob as Sombras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Babak Anvari
República Dominicana: Flor de Azucar, Fernando Baez
República Tcheca: Lost in Munich, Petr Zelenka
Romênia: Sieranevada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Cristi Puiu
Rússia: Paradise, Andrei Konchalovsky
Sérvia: O Diário de um Maquinista EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Miloš Radović
Singapura: Apprentice, Boo Junfeng
Suécia: A Man Called Ove, Hannes Holm
Suíça: My Life as a Courgette, Claude Barras
Tailândia: Karma, Kanittha Kwanyu
Taiwan: Hang in There, Kids!, Laha Mebow
Turquia: Cold of Kalandar, Mustafa Kara
Ucrânia: Ukrainian Sheriffs, Roman Bondarchuk
Uruguai: Breadcrumbs, Manane Rodriguez
Venezuela: De Longe Te Observo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Lorenzo Vigas
Vietnã: Yellow Flowers on the Green Grass, Victor Wu

Compartilhe!

6 Comments

Filed under Listas, Oscar, Prêmios

Meu Rei

Meu Rei

Políssia, embora tivesse algumas simplificações e soluções fáceis de roteiro, era um filme-painel ágil e bem interessante sobre a divisão da polícia francesa de proteção a crianças, com um elenco grande e bem dirigido pela atriz-que-virou-cineasta, Maïwenn. Mas o trabalho seguinte da francesa, seu quarto longa como diretora, tem resultados bem mais contraditórios. Se de um lado, busca retratar com o máximo de realidade possível os bastidores de um casamento conturbado, o filme não raramente invade os limites do histriônico e assume algumas posturas próximas bem questionáveis, namorando perigosamente com a misoginia. O filme se passa em duas linhas temporais paralelas: no presente, Tony acaba de sofrer uma acidente na montanha e vai para uma clínica onde vai se recuperar de uma perna lesionada. No passado, ela reencontra Georgio, um flerte da juventude, e os dois rapidamente engatam um namoro e um casamento. Como manda o clichê, o príncipe encantado esconde defeitos que só a convivência poderia revelar e, dia a dia, Tony descobre novos problemas em seu relacionamento. O grande senão de Maïwenn é como ela administra essa mudança nas personagens. Aos poucos, a diretora transforma Tony numa mulher histérica e Georgio, num canalha natural. Os estereótipos só não viram monstros maiores porque tanto Emmanuelle Bercot, que também é cineasta, quanto Vincent Cassel são ótimos atores e estão muito bem em suas personagens quando o roteiro não os condena demais. E se Maïwenn, que foi casada com o cineasta Luc Besson quando tinha 15 anos de idade, é bastante tolerante com o personagem do marido, a diretora parece condenar a personagem da esposa, como se Georgio tivesse o comportamento de qualquer homem e se Tony não tivesse tido a força necessária para perceber e enfrentar isso.

Mon Roi EstrelinhaEstrelinha½
[Mon Roi, Maïwenn, 2015]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Mate-me, Por Favor

Mate-me, Por Favor

Não existe um só adulto no mundo de Mate-me, Por Favor. Todos os personagens em cena são (e são interpretados por) adolescentes, sendo a única exceção o irmão mais velho de uma adolescente. Em seu primeiro longa-metragem, Anita Rocha da Silveira realiza um impressionante mergulho nesse universo teen, realmente capturando a essência do jovem brasileiro, urbano, dos dias de hoje, objeto de estudo de diversos cineastas, mas pouquíssimos conseguem traduzi-los sem maniqueísmo. Os diálogos, os movimentos, os interesses, a confusão. Tudo parece muito genuíno no cinema de Anita, que mostra um excepcional talento para administrar espaços. Mate-me, Por Favor tem uma das fotografias mais instigantes do cinema brasileiro neste ano, cheio de fotografias instigantes. Consegue transformar o Rio de Janeiro, ou melhor, a Barra da Tijuca num ambiente de desolação, que funciona muito bem para estabelecer o suspense sensorial que parece ser um objetivo para a diretora, embora o crescimento urbano, que também parece estar no alvo, não fique tão bem inserido à trama assim. No entanto, Anita é uma ótima diretora de atores. Ou de atrizes. As quatro meninas são excelentes. O que incomoda um tanto é a transformação da protagonista. Os motivos estão ali, a percepção e a sedução da morte está ali, mas os simbolismos um tanto exagerados não funcionam com tão bem assim. A questão religiosa também é um problema porque o filme opera num naturalismo que se choca com o pastiche com que a diretora retrata a discussão espiritual. Enfim, é preciso elaborar, mas a pura existência de uma mulher ensaiando um filme de terror, com tantos créditos, merece ser celebrada.

Mate-me, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira, 2015]

1 Comment

Filed under Resenha

Aquarius

Aquarius

Numa cena rápida de Aquarius, Clara, a personagem de Sonia Braga, depois de visitar o túmulo do marido no cemitério, observa dois coveiros retirando os restos mortais de uma cova para desocupá-la. A imagem, que apenas exemplifica uma lógica comum aos empreendimentos funerários, dura cerca de um minuto, talvez menos, mas resume boa parte do drama da própria Clara e da essência do filme de Kleber Mendonça Filho: o que está em discussão é a troca do velho pelo novo. Ou ainda, do velho pelo novo para reforçar o velho. O olhar de estranhamento da protagonista para aquela cena tem justificativa. Clara se enxergou ali. Logo ela, que sempre foi uma mulher avançada, jornalista, uma mãe que deixou os filhos com o marido durante dois anos para morar fora do país. Logo ela, que se define como “uma mistura de velhinha com criança”. No contexto de Aquarius, essa mulher moderna, que sempre soube driblar muito bem a herança secular de um Nordeste ainda preso a vícios familiares, virou uma peça de museu.

Ela é a última moradora do prédio que batiza o filme, na praia de Boa Viagem, em Recife, a “louca” que empaca os projetos da construtora que quer demolir o edifício e que impede o progresso. Como mostram os primeiros 20 minutos de filme, o edifício Aquarius é o lugar onde Clara vive há mais de 30 anos, onde seus filhos cresceram, onde ela guarda seus discos e sua história. A memória, mais uma vez, é parte intrínseca da narrativa de um filme do cineasta pernambucano, mas depois do olhar mais cruel para o passado de O Som ao Redor, desta vez, Kleber se volta para trás com nostalgia. As paredes cheias de discos aparecem em várias cenas do filme, que é costurado por músicas que parecem fazer parte da própria história do diretor. Elas emolduram essa peça de resistência de Kleber ao sistema, ao cinema fácil, à ideia de que o progresso passa pela destruição do passado. O grande trunfo do cineasta foi saber como transformar essa manifestação política numa história cheia de humanidade. Se O Som ao Redor era mais “agressivo” enquanto discurso e em suas opções de linguagem, Aquarius trabalha com humanidades.

A presença de Sonia Braga, que há quinze anos não fazia um filme brasileiro, enche de luz o filme. Literalmente. A atriz parece apaixonada pela personagem e a defende de todas as formas possíveis. Cada cena ganha um brilho diferente por causa de sua interpretação discreta, mas sempre muito forte. A resistência de sua personagem é a mesma resistência do Ocupe Estelita, movimento que condena a venda ilegal de uma área do porto do Recife para imobiliárias. Mas Clara não é uma mulher de panfletos. Sua maior ação política é manter a integridade de sua alma, que resistiu a um câncer e a tanta história. Aquarius tem começo, meio e fim mais claros do que o longa anterior de Kleber. A narrativa é muito mais tradicional e a opção por usar um elenco totalmente profissional, ao contrário de O Som ao Redor, que tinha muitos atores amadores, provavelmente vai deixar o espectador pouco afeito a experimentações mais confortável. A memória que rege a linha narrativa também ajuda a envolver o espectador. É um filme relativamente fácil de acompanhar, sem mensagens cifradas, onde o grande talento foi trazer suas discussões para o primeiro plano, de maneira direta, que convida quem assiste ao filme à ocupação.

Aquarius 2

Portanto, boa parte da polêmica em torno de Aquarius não se justifica. A discussão em torno do longa parece ter se resumido ao protesto contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff que a equipe do filme fez antes de sua sessão de gala no Festival de Cannes, onde o longa brasileiro participou da seleção principal, coisa que não acontecia havia oito anos. E, afinal, conseguir ser incluído num festival de renome significa ser um bom filme? Afinal, o que faz um bom filme? Sua capacidade de comunicação com o espectador, a qualidade técnica de sua produção ou os desafios que ele propõe para quem o assiste, sejam temáticas, de formato ou de linguagem? A resposta é que não existe resposta. Ou “todas as alternativas acima”. E outras tantas.

Para muitos detratores, a análise da obra começou a passar necessariamente pela postura política “do projeto” fora da tela, como se o trabalho de Kleber já não fosse suficientemente político dentro dela, uma predisposição que o diretor já demonstrava em grande parte de seus curtas e, principalmente, em seu longa anterior. O Som ao Redor lança ou afirma algumas de suas temáticas favoritas: a desordem na ocupação das grandes cidades, a especulação imobiliária, o resquício do coronelismo secular nordestino nos dias de hoje. Em Aquarius, ele apenas vai mais longe. O cinema de Kleber é um cinema político por natureza. Chamar atenção para a atitude política das ações dele e de sua equipe, como se desta vez ele tivesse ultrapassado os limites, é até ingênuo, porque ele sempre fez isso. Se a questão é fazer um filme de cunho político em vez de se centrar na “arte de contar uma história” e estes blábláblás, é preciso dar uma estudada e assistir mais filmes, sobretudo daqueles diretores que construíram carreiras de um cinema iminentemente político, como Costa-Gavras, Marco Bellocchio, Ken Loach, Spike Lee e Jafar Panahi. E tantos outros.

Arte e política são intrínsecas. Pode parecer novidade, mas todo filme tem uma postura política, desde os documentários mais engajados e literais, como O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer, que tem um alvo bem claro (o governo indonésio), até as comédias aparentemente mais simples, como Sócios no Amor, de Ernst Lubitsch, que em plenos anos de 1930 dá girl power para as mulheres, fala de relacionamentos a três, impõe a revolução nos mínimos detalhes. A obra de arte é um dos maiores e melhores palcos para qualquer manifestação política há mais ou menos 120 anos. Um pouco mais, talvez. Aquarius é extremamente político e crítico a um status quo pernambucano, nordestino, brasileiro e a um estado de espírito contaminado por velhas verdades e muitas dependências. Todos os envolvidos estão extremamente cientes desta postura, mas em nenhum momento a necessidade de discurso se sobrepõe à expressão artística. O filme levanta o cartaz para quem quiser ver porque tem direito de fazer isto. E Kleber Mendonça Filho soube levantar esse cartaz como poucos. Política e arte andam juntas no mundo e no cinema. E, em Aquarius, elas vivem um longo e intenso triângulo amoroso com Sonia Braga.

Aquarius EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Aquarius, Kleber Mendonça Filho, 2016]

* texto escrito originalmente para o UOL

2 Comments

Filed under Resenha