Monthly Archives: abril 2016

Truman

Truman

Assim como Já Sinto Saudades, de Catherine Hardwicke, que chegou aos cinemas no fim do ano passado, Truman, do catalão Cesc Gay, tenta olhar para seu protagonista doente sem comiseração. Um dos trunfos do filme é apontar o foco para o momento de descoberta da gravidade do problema em vez de mostrar o processo gradativo de sofrimento da personagem. Truman também é uma aposta segura, um “filme de Ricardo Darín”, quase um subgênero cinematográfico (pelo menos, no Brasil) que passeia pelo agridoce com muito humor e algumas delicadezas para agradar um público mais velho que geralmente associa esse tipo de filme a uma obra de arte. Embora mantenha a sobriedade e o equilíbrio durante um bom tempo, Gay comete alguns deslizes melosos aqui e ali, como na cena em que o protagonista chama os amigos para fazer uma “grande revelação”. O resultado fica fragilizado, mas ainda é honesto. A química entre Darín e Javier Cámara, de Fale com Ela, funciona muito bem. Dolores Fonzi, que tem o único papel feminino de destaque no filme, bem boa, também o polêmica Paulina.

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[Truman, Cesc Gay, 2015]

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Sinfonia da Necrópole

Sinfonia da Metrópole

O horror sempre foi material de trabalho para Juliana Rojas. Os elementos fantásticos e sobrenaturais estão presentes em praticamente todos seus curtas e em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa, codirigido pelo parceiro de sempre, Marco Dutra. O que ninguém imaginava é que em seu primeiro trabalho solo, Juliana fosse usar o terror apenas como ambientação para fazer um musical. Sinfonia da Necrópole é um filme único no cinema brasileiro recente, uma mistura de gêneros que, no olhar particular da diretora, encontrou um formato diferente e bem resolvido. Há um clara evolução na direção de atores, na montagem e no próprio fluxo do roteiro em relação ao longa anterior (assim como no primeiro trabalho solo de Dutra, Quando Eu Era Vivo). As músicas de ambos os filmes, por sinal, foram compostas pelos dois parceiros: melodias bonitas, autorais, de estruturas complexas, com letras cheias de ironia. Elas ajudam Juliana a contar a história do aprendiz de coveiro que é convocado para para fazer o recadastramento de túmulos abandonados no cemitério. À medida em que analisa e ironiza o crescimento urbano e homenageia, inclusive no título, Berlim, Sinfonia da Metrópole, Juliana Rojas encontra uma maneira completamente original de fazer cinema no Brasil.

Sinfonia da Necrópole EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas, 2014]

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Zoom

Zoom

Cinema adolescente com roteiro adolescente, piadas adolescentes e uma sensação adolescente de que tudo aquilo é extremamente original. Pedro Morelli tinha feito um trabalho consideravelmente melhor em Entre Nós, que nem era um grande filme, mas pelo menos era mais coeso e bem menos pretensioso. Talvez o pulo para uma produção internacional tenha redimensionado as coisas – pro lado errado. Trabalhar com um elenco estrangeiro e majoritariamente em inglês pode ter influenciado em encontrar uma trama mais truqueira, que reprisa aquela velha máxima das histórias paralelas que têm relação entre si – relação esta que aqui encontrou o pior gancho possível. Mariana Ximenes ficou robótica atuando em inglês e a virada de sua personagem é a mais tosca do filme. Allison Pill, sempre simpática, tenta encontrar algum caminho mais interessante embora sua personagem seja boba demais. O maior acerto é deixar a narrativa de Gael García Bernal toda em animação, mas isso não é suficiente para fortalecer o conjunto.

Zoom Estrelinha
[Zoom, Pedro Morelli, 2015]

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É o Amor

É o Amor

Os protagonistas de É o Amor parecem embriagados. Encharcados de sentimentos tortos e conflituosos, nunca completamente explicados porque não existe muita regra para sentimentos. O contador, sua mulher, seu amante, o amante deste seu amante, todas as personagens do filme parecem completamente apaixonados, mas sem saber exatamente o que fazer com isto. Paul Vecchiali comanda o longa como maestro de uma melodia curta, encantadora e meio maluca, que brinca com a métrica e com a perspectivas das cenas. O diretor, um provocador por natureza, escolhe como uma das personagens principais um ator que teria ganho o César depois de fazer um filme sobre pegação gay, numa claríssima alfinetada ao recente Um Estranho no Lago. Talvez o cineasta não enxergue afeto no drama árido de Alain Guiraudie, talvez prefira encher seus protagonistas de sentimentos conflituosos que deixam seus passos menos prováveis, mais interessantes. Vecchiali volta a dirigir o casal de protagonistas de seu filme anterior, Noites Brancas no Píer, Astrid Adverbe e Pascal Cervo. Mas duas atrizes coadjuvantes roubam as únicas cenas em que aparecem: a mãe de Odile, vivida pela excelente Simone Tassimot, cuja participação musical é encantadora, e a agente de Jean, papel de Mireille Roussel, num momento de comédia que enche o filme de esperança.

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[C'est L'amour, Paul Vecchiali, 2015]

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Autorretrato de uma Filha Obediente

Autorretrato de uma Filha Obediente

Dos filmes romenos exibidos em festivais no ano passado, Autorretrato de uma Filha Obediente pode não ser o melhor, mas é certamente o mais surpreendente (embora um western do leste europeu esteja na disputa). Surpreendente por ser dirigido por uma mulher, que entra num mundo bem fechado de Cornelius, Radus e Catalins, e oferece uma visão de mundo mais original e mais radical do que todos eles, e também por apresentar proposta diferente do que se espera do cinema romeno, onde geralmente se parte de um fato (um crime, uma proposta, um mistério) para se fazer uma observação do comportamento daquela sociedade. Ana Lungu concentra as coisas em sua protagonista, uma estudante que nunca vemos realmente estudar, que não trabalha, que sobrevive com a ajuda dos pais, mas se sente livre. Complexa e interessantíssima, sua história não segue um roteiro propriamente dito, mas uma sobreposição de cenas que não têm grande relação entre si, mas que aos poucos dizem para o espectador muito sobre quem é aquela mulher. Sua relação com o pai, um acumulador compulsivo de objetos culturais, renderia uma tese de doutorado, mas no filme rende os diálogos mais deliciosos, amorais e inteligentes diante da verborragia sarcástica do velho.

Autorretrato de uma Filha Obediente EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Autoportretul unei Fete Cuminti, Ana Lungu, 2015]

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A Bruxa

A Bruxa

A Bruxa talvez assuste menos do que deveria, mas o horror que o diretor Robert Eggers procura é outro. Embora o fantástico, o místico, o sobrenatural assombrem as personagens do filme de maneira muito concreta, o terror maior do longa de Eggers é o provocado pelo homem. A história se passa em 1630, na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, um lugar tomado à força de seus verdadeiros moradores, que tiveram suas terras e seus deuses roubados em troca da truculência de uma cultura e de uma religião que elegem demônios diante do menor motivo. O horror de A Bruxa é o horror de apontar culpados, de ignorar laços familiares, de ignorar o amor em prol de uma fé cega. A família de William é expulsa de uma cidade por questões religiosas, muda-se para um campo ao lado de uma floresta e, num piscar de olhos, o caçula da família, o bebê Sam, desaparece enquanto brincava com a irmã mais velha, Thomasin. Diante de uma situação sem explicação, o luto da família é trocado, literalmente, por uma caça às bruxas, onde sussurros e brincadeiras podem ser mal interpretados. A formação de Eggers é como diretor de arte, então, existe uma preocupação clínica com a reconstituição de época, o desenho de produção, os figurinos e a plástica do filme como um todo, que é impecável, embora resulte num excesso de solenidade e numa frigidez que só é quebrada pelas interpretações. Anya Taylor-Joy e, sobretudo, Harvey Scrimshaw são excelentes. A expressão Katie Dickie, revelada em Game of Thrones, e a voz de trovão de Ralph Ineson ajudam a manter a atmosfera de incertezas. Se o filme não dá os sustos que poderia, aterroriza pela maneira que mostra o ser humano.

A Bruxa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Witch, Robert Eggers, 2015]

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